Revista mineira de enfermagem

Revista mineira de enfermagem

(Parte 3 de 12)

Entendemos que o cuidado é relacional, dialógico, compartilhado, estando na dependência da competência dos profissionais da emergência e da ajuda de todas as pessoas presentes ou integrantes desse processo, numa noção de compreensão de vida, saúde e modo de viver, orientado pela dignidade, respeito e vontade de construir uma melhor civilidade humana. A solidariedade humana se constrói – em muito – na atenção às necessidades das pessoas presentes em uma emergência de saúde. É nesse espaço e nessas condições que sentimos bem presente a importância das relações solidárias, do amor e do respeito aos seres humanos.

Acreditamos que esse estudo nos reporta à necessidade candente de se repensar a prática profissional nas unidades de emergência, com vistas a uma prática de cuidado humano com seriedade, qualidade e, acima de tudo, mais humanizada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS As unidades de emergência nos remetem às mais diversas situações que implicam risco de vida, bem como ao atendimento mediato e imediato. A perspectiva de retorno às condições de saúde biológica com o mínimo

Práticas de cuidado em uma...

de complicações e seqüelas orienta as práticas de cuidado em saúde da unidade.

Procuramos, nesse estudo, demonstrar que as famílias que procuram atendimento para um parente nas unidades de emergência convivem diariamente com muitas contradições. A resolutividade esperada pelos familiares em função da gravidade do quadro clínico convive cotidianamente com a ausência de envolvimento emocional por parte dos profissionais de saúde. Tal fato gera uma impessoalidade do cuidado e um atendimento, considerado pelas famílias, incipiente em humanização.

Constatamos que os profissionais de saúde, na unidade de emergência, ainda priorizam, ou se dedicam especialmente, ao atendimento centrado no modelo biomédico, centrado no corpo da pessoa, de caráter impessoal, em que a doença instalada deve ser combatida em primazia. Assim, há pouca consideração às necessidades psicossociais de pacientes e familiares, que, no momento da internação e do atendimento, desestabilizamse emocional e fisicamente, e sofrem com o distanciamento afetivo-emocional para com seu parente internado, sob a constante probabilidade de vida e de morte.

Entendemos que o espaço de cuidado em uma unidade de emergência se configura em uma oportunidade do exercício da solidariedade, da construção da civilidade humana e do resgate da cidadania. Em um contexto psicossocial agravado pela complicação do quadro clínico, as famílias devem ser consideradas como unidades de relações intrínsecas ao ser humano doente, devendo ser valorizadas em toda sua integralidade, como também inseridas como co-partícipes no plano terapêutico do paciente.

Finalmente, acreditamos que esse estudo traz uma contribuição ao conhecimento dos profissionais da saúde, servindo como fonte de resgate a uma prática de cuidado mais humano e acolhedor a pacientes e familiares durante a hospitalização e, no nosso caso, nas unidades de emergência.

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Elizabeth Mendes das Graças1
Ligia Vieira Tenório Sales2

RESUMO A proposta deste estudo é compreender os significados atribuídos pelos pacientes ao vivenciarem a internação em Centros de Tratamento Intensivo (CTIs). Como metodologia utilizamos os princípios da Fenomenologia, tendo como referencial a "análise qualitativa do fenômeno situado". Dos discursos coletados foram identificadas e refletidas três categorias temáticas: "o sentido dos agravos do corpo", "o cuidado profissional para quem precisa cuidar-de-ser" e "o mundo-vida no contexto hospitalar". Palavras-chave: Cuidados de Enfermagem; Unidades de Terapia Intensiva; Relações Enfermeiro-Paciente.

ABSTRACT This study examines the meanings given by patients to their experience living through a time in Intensive Care Units (ICUs). We adopted as our methodology the principles of phenomenology, and our reference is "Phenomenon Qualitative Analysis". The discourses collected were identified and divided into three themes: "the meaning of body injuries", "professional care for those who need to be cared for", and "world-life in a hospital context". Key words: Nursing Care; Intensive Care Units; Nurse-Patient Relations.

RESUMEN La propuesta de este estudio es comprender los significados atribuidos por pacientes al vivir la experiencia de hospitalización en una Unidad de Terapia Intensiva (UTI). Como metodología se emplearon los principios de la fenomenología y como marco de referencia el análisis cualitativo del fenómeno situado. Se identificaron tres categorías temáticas: el sentido de los agravios del cuerpo; el cuidado profesional para quien necesita cuidar ser; el mundo-vida en el contexto hospitalario. Palabras clave: atención de enfermería; unidades de terapia intensiva, relación enfermero - paciente

Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Professora da Escola de Enfermagem da UFMG Enfermeira, Mestre em Enfermagem, Professora da Escola de Enfermagem Wenceslau Braz Endereço para correspondência: Ligia Vieira Tenório Sales – Rua Dr. Carlos Goulart, 39 Bairro São Vicente – Itajubá – MG CEP 37502-014

O mundo-vida no...

A ESCOLHA DO TEMA Durante o longo tempo de atuação em Ccentros de

Tratamento Intensivo, temos observado que, apesar da qualificação dos profissionais que ali estão, nossa comunicação com o paciente quase sempre se restringe a explicar-lhe rapidamente os procedimentos a serem executados e pedir-lhe a colaboração para que as nossas condutas possam transcorrer de acordo com o esperado. Percebemos que pouco o ouvimos e que as nossas orientações são, na maioria das vezes, superficiais, não lhe permitindo compreender, cooperar e sentir-se seguro no processo de cuidar.

Para nós, que há muito exercemos atividades profissionais nessas unidades tão especializadas, tudo tende a tornar-se uma rotina e o paciente é visto como mais um entre aqueles a quem prestaremos cuidados. Sabemos, entretanto, que para ele, a vivência de tal situação poderá ser algo novo que o marque por toda a vida. Essa constatação nos inquietava e, cada dia mais, nos víamos envolvidas com a necessidade de compreender- para as apessoas das quase o ajudávamos a cuidar- o real significado da experiência de estar vivendo em um CTI.

Reconhecendo que nunca tínhamos parado para perguntar, ouvir atentamente e refletir sobre o momento existencial por que passavam, pensamos em desenvolver um estudo que respondesse às nossas inquietações a esse respeito. Com ele, esperávamos proporcionar momentos de reflexões e, quem sabe trazer à luz novos significados aos cuidados prestados a esses pacientes, o que seria especialmente importante para nós profissionais de saúde.

Decidimos, então, ouvi-los, direcionando-lhes a seguinte questão: Fale-nos sobre sua experiência ao ser internado(a) no CTI.

O ENCAMINHAMENTO METODOLÓGICO Optamos pela pesquisa qualitativa, seguindo a abordagem fenomenológica, por acreditarmos que ela nos possibilitaria compreender o fenômeno que buscávamos através dos significados atribuídos pelo paciente ao relatar as suas vivências quando em situação de doença e hospitalização no CTI.

Utilizamos os princípios fenomenológicos tendo como referência a análise qualitativa do fenômeno situado. Para chegarmos ao locus do conhecimento, tomando os significados como sinalizadores, seguimos os momentos sugeridos para o caminhar fenomenológico, ou seja: a descrição, a redução e a compreensão. Na trajetória metodológica além da análise ideográfica elaboramos a análise nomotética, mencionadas por Martins e Bicudo.(1)

A nossa "região de inquérito" foram os Centros de

Tratamento Intensivo do Hospital das Clínicas e da Santa Casa de Misericórdia, ambos na cidade de Itajubá (MG), onde buscamos a experiência existencial junto àqueles que neles estiveram internados no período estipulado para coleta dos discursos.

Participaram da pesquisa quatorze pacientes, todos com "quadro clínico" diagnosticado como estável. A partir desse número, os relatos foram se repetindo; então, decidimos parar, uma vez que eles já se mostravam suficientes para compreensão do fenômeno.

REFLEXÃO DOS RESULTADOS As análises dos depoimentos possibilitaram o surgimento de três categorias temáticas que delinearam a estrutura a ser refletida na construção dos dados a seguir.

O SENTIDO DOS AGRAVOS DO CORPO Para existir plenamente é preciso agir; a ação supõe liberdade e não só um impulso vital ou dever. Ao agir, a pessoa vai além do ato de exercitar, se desabrocha e sai de si própria para dar consistência a seu ser e ao seu mundo. A via de personalização da pessoa é o agir. Pela ação que o indivíduo manifesta o seu ser e o cria enriquecendo-o na temporalidade de sua existência.(2)

Uma das falas dos pacientes estudados mostra a não percepção do ser no espaço e no tempo e a sua inércia no instante da internação; um distanciamento da capacidade de agir:

Foi admitido no CTI inconsciente e só lá dentro retomou os sentidos (DISC. 13).

A descrição acima revela o rompimento na tríade homem-espaço-tempo, pela quebra da interação homemconsciência, que deixa, a partir daí, de perceber e vivenciar o mundo, de ser-no-mundo. A respeito do imbricamento corpo-espaço-tempo, não

...se pode dizer que o corpo está no espaço nem tampouco que ele está no tempo: o corpo habita o espaço e o tempo (...). Meu corpo combina-se com o espaço e o tempo e os inclui; a amplitude dessa inclusão é a medida da minha existência.(...), através da consciência eu descubro o contato simultâneo do meu próprio ser com o ser do mundo.(3:156-7)

Diante da facticidade do agravo do corpo é possível afirmar, em se tratando da opção pela hospitalização, que o paciente fica impedido de escolha, conseqüentemente é amparado por outros, que, para preservar a sua existência, decidem por ele, e o internam.

O corpo, nesta situacionalidade, não se dá conta do sujeito que é, em toda a sua inteireza. A percepção de sua experiência no mundo fica ofuscada; com isso o ser em situação de doença não tem condições de reconstituir a sua história. Há uma espécie de parada no fluxo existencial. Nesse momento, quando não pode decidir por si, os outros assumem o seu cuidado até que ele retorne à sua possibilidade para cuidar-de-ser e continue o seu projeto existencial, tarefa realizada pelos profissionais de saúde que o atenderam, logo que foi admitido no CTI.

Ao acordar, percebeu-se perdida no tempo e espaço (...). Foi informada pela enfermeira que se encontrava no CTI, o que a deixou tranqüila e "à vontade"(DISC 1).

O despertar para a responsabilidade de existir pode ser tranqüilo para o paciente, principalmente se no instante em que a sua consciência é recuperada, tem ao lado alguém que toma como dever profissional um modo autêntico de ajudá-lo a se cuidar, comunicando-lhe aquilo que, pelas circunstâncias, não é capaz de compreender por si só. Leitura que se pode fazer no trecho do discurso de número 1 relatado acima.

Embora não explícito, é possível imaginar, neste caso específico, que a enfermeira não se preocupou apenas em informar ao paciente os fatos com ele ocorridos, mas utilizou-se da comunicação como um instrumento de inter-ação que resultou no "encontro", trazendo serenidade e segurança a ponto de deixá-lo "à vontade", num lugar onde tudo e todos lhe eram estranhos.

Ainda em relação ao acolhimento recebido no CTI, ele emerge das falas como algo significativo na experiência dos depoentes, quando demonstraram satisfação ao se referirem à recepção afetiva que tiveram logo após a internação. A unidade é reconhecida, inicialmente, como espaço existencial onde parecem reger nas ações o carinho e atenção na busca de encontrar-com-o-outro e, assim, poder ajudá-lo a cuidar-de-ser, neste momento de apreensão com a vida.

Foi recebida com bastante carinho pelos médicos, enfermeiros e até pelo pessoal da limpeza (DISC. 3).

Interessante a menção feita em um dos discursos às pessoas responsáveis pela limpeza, entre aquelas que ajudam a acolher o paciente no CTI, fazendo com que o ambiente tecnológico do setor transforme-se num mundo de vida-em-comum, de participação. Mesmo não recebendo nenhum treinamento específico para ali trabalharem, essas pessoas não se atêm, pelo que se pode ver nas falas, as suas obrigações de exercer algumas tarefas puramente objetivas, no ambiente das coisas, e se revelam conscientes de uma compreensão mais ampla da coexistência humana. Uma coexistência que, pela solicitude, atenção e amor, pode recriar o nosso mundo e o mundo do outro. E isto é o que esses funcionários parecem fazer, na tentativa de tornarem o mundo-vida do ser em situação de doença mais ameno durante a hospitalização.

Alguns depoimentos evidenciam, também, o reconhecimento dos pacientes pelo atendimento técnico especializado, imediato e preciso dispensado a eles, considerando-o como o causador do alívio para o mal do corpo físico que os acometia no momento da internação.

Após sua chegada ao CTI, socorreram-na prontamente (DISC. 9).

Estava passando muito mal quando chegou. Após receber a medicação, sentiu-se aliviada (DISC. 3 - A.I. c).

As falas reforçam o valor incontestável da precisão e qualidade dos serviços de saúde a serem prestados em situações decisivas que envolvem a preservação da existência humana. Nesse contexto, o conhecimento e a técnica devem ter um destino preciso, uma intenção e um significado, o de servir ao homem.

Viu-se que, além da dor intensa manifestada no corpo físico, a pessoa fica exposta a uma série de procedimentos terapêuticos estressantes que parece aumentar o sofrimento, conforme traduz este relato:

Sentiu dores e sofreu muito com certos procedimentos terapêuticos (DISC. 2).

Os sintomas físicos experienciados pelo paciente refletem-se no corpo existencial, podendo levá-lo à inquietação, à falta de esperança de se curar e até ao "medo" de estar vivendo o pré-núncio da morte. Diante do comprometimento de seu corpo, percebe a proximidade da finitude e manifesta a sua vulnerabilidade em relação a ela:

Ficou preocupada e com medo, porque pensava que estava morrendo (DISC. 12).

A preocupação, o "medo" e a desilusão surgem pelo peso de uma facticidade, alertando o paciente para a sua possibilidade de não-mais-ser. Um temor a algo que não pertence à espécie do disponível, do que se apresenta ou do que é-com, mas alguma coisa que não pode ser desviada como um objeto a ser combatido. Um "medo" que, na leitura heideggeriana, é chamado de angústia. Nela abrese a perspectiva da morte como projeto humano. Na angústia, o ser rompe com a familiaridade cotidiana e se angustia pelo próprio ser-no-mundo, atirado no desterro. O ser para a morte é essencialmente angústia. Então, toda angústia é angústia de morte.(4)

Os comentários nos levam a acreditar que estes pacientes gravemente enfermos, ao se darem conta da proximidade da morte, estrutura fundamental de todos os seres vivos, passaram a viver momentos de autenticidade.

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