Revista mineira de enfermagem

Revista mineira de enfermagem

(Parte 5 de 12)

Aqui é oportuno pensar sobre o impacto desses fatores no paciente de modo a interceder, no que for possível, para que o seu mundo-circundante seja mais acolhedor, apesar da necessidade de manter os aparelhos como coadjuvantes no processo de cuidar.

A falta de privacidade durante a permanência na unidade foi novamente mencionada por uma paciente ao comentar que ficava ansiosa ao presenciar todos os acontecimentos à sua volta. Ouvia as conversas, percebia quando alguém tinha o seu estado de saúde agravado e até mesmo se estava prestes a morrer. A separação dos leitos por cortina não lhe garantia a tranqüilidade de que tanto precisava no período de internação.

A coexistência quase que em comum no CTI possibilita um estreitamento de sentimentos entre os internos. Há momentos, declara um, que mesmo sentindo-se bem, entristecia-se ao presenciar o sofrimento de outros companheiros ao lado.

Mesmo estando bem, entristecia-se ao ver o sofrimento dos outros pacientes (DISC. 1).

Mesmo conscientes de que a presença é essencialmente ser-com, já que o mundo da presença é um mundo compartilhado(4), pensa-se que, nestes casos, pela proporção dos agravos do corpo, os pacientes do CTI deve- riam ser poupados do compromisso de estarem atentos e zelar pela vida de outros.

Entre as queixas das pessoas pesquisadas, o distanciamento dos familiares imposto pelas normas da instituição é referido como uma das dificuldades vivenciadas nos momentos de transtornos existenciais por que passam nesses centros. O depoimento citado a seguir expressa o estado desesperador em que ficou a paciente ao perceber-se sozinha, frente à possibilidade da morte e sem autonomia para fazer valer o seu desejo de manter os familiares ao seu lado. Incapaz de compreender o sentido da restrição, deixa transparecer, no depoimento, a sua indignação de não poder contar com ninguém da família nos momentos em que dela mais precisava.

No CTI permaneceu sozinha no quarto, então começou a gritar um e outro, inclusive seu marido, pois pensava que ele estivesse por perto (...) e ficava imaginando que morreria sozinha. Não sabia como fazer para mudar aquela situação (...). Lamentava a ausência de sua irmã (DISC. 7).

A experiência de ficar aguardando o dia de visita é traduzida por um tempo existencial carregado de significação. Neste sentido, observa-se uma contagem do tempo que ganha as proporções dos sentimentos vividos pelos depoentes, fazendo com que os dias das visitas demorassem a chegar e o período de permanência dos familiares na unidade passasse com rapidez.

No entender de uma das pessoas ouvidas, a enfermeira mostra-se submissa às rotinas, inflexível no atendimento ao paciente e à família. Insinua que as normas do setor sobrepõem os interesses daqueles os quais ela ajuda a cuidar. Não só em relação às visitas isto é verificado, mas nos cuidados de modo geral. Salienta que o bomsenso deveria prevalecer em certas ocasiões, uma vez que são pacientes graves cujas famílias estão sempre na expectativa das notícias e ansiosas para ficarem junto deles.

Quando conseguia cochilar, alguém a acordava para verificar sua pressão que não era a causa de sua internação (...). Sabe que regras existem para serem cumpridas. Mesmo assim, é preciso que as enfermeiras analisem cada caso separadamente (...). A flexibilidade nas normas possibilitará uma maior assistência aos familiares que se sentem ansiosos para estar na presença de seu ente querido (DISC. 6).

É importante reconhecer que as normas em determinadas situações perdem o sentido e não há por que segui-las.

Percebe-se, pelo que foi visto no mundo circundante do CTI, que o paciente nem sempre consegue permanecer à vontade e não exerce, como gostaria, a sua autonomia mesmo em momentos em que a sua opção viria lhe favorecer a recuperação. A rotina criada pelas instituições de saúde, normalmente, faz com que as pessoas hospitalizadas passem a viver de uma forma conflitiva o seu modo estar-no-mundo, visto que ficam privadas de optarem sobre seus cuidados e desejos.

Assim a dificuldade de identificar o sentido das normas, muitas vezes, impede os pacientes de criar novas estruturas significativas para a atual maneira de ser que lhes é imposta no contexto hospitalar.(8)

Apesar de todas as controvérsias geradas em relação aos regimentos e à organização dos serviços no CTI, algumas falas nos permitem apreender que nele o paciente parece redescobrir a esperança da recuperação e a segurança pela qualidade dos serviços oferecidos. Mesmo diante deste aspecto positivo, na reflexão deste capítulo ficou evidente também que muitas mudanças se requerem ao se pensar na liberdade e autonomia do paciente dentro da atual estrutura dessas unidades.

CONSIDERAÇÕES FINAIS Apesar de descobrirmos novos horizontes capazes de responder à pergunta que direcionou a nossa pesquisa, reafirmamos que muito se pode buscar sobre o fenômeno estudado, pois a percepção de cada paciente internado no CTI acompanha o movimento de sua experiência na temporalidade existencial, além de que o modo de focá-la vai depender também do olhar de cada pesquisador que a pretende explorar.

As categorias aqui refletidas, entretanto, possibilitaram-nos compreender parte das dificuldades vivenciadas por estas pessoas desde o momento da admissão até a recuperação e alta.

Na simplicidade e riqueza de suas experiências, descobrimos os sofrimentos, medos, expectativas e outros sentimentos que, pela significação, marcaram as suas trajetórias durante a permanência naquele local.

A partir de então, temos certeza que, na nossa atividade profissional e ao supervisionar os alunos de graduação em enfermagem no ensino clínico junto ao paciente do CTI, manteremos implícita em nossas atitudes e orientações esses significados, com vistas ao aprimoramento dos cuidados a ele oferecidos.

Compreendemos, portanto, que o enfermeiro só poderá ser-com-o-paciente quando seus mundos se interpenetrarem; se buscar caminhos que priorizem o ser resgatando o significado, a individualidade e a unicidade daquele no qual convivemos no exercício de nossa profissão.(9)

1. Martins J, Bicudo MAV. A pesquisa qualitativa em psicologia: fundamentos e recursos básicos. São Paulo: Moraes; 1989. 2. Severino AJ. Pessoa e existência: iniciação ao personalismo de Emmanuel Mounier. São Paulo: Cortez; 1983. 3. Merleau-Ponty, M. A estrutura do comportamento. Belo Horizonte: Interlivros; 1975. 4. Heidegger M. Ser e tempo. 8a ed. Petrópolis: Vozes;1999. 5. Luijpen W. Introdução à fenomenologia existencial. São Paulo: EDUSP; 1973. 6. Crema R. Saúde e plenitude: um caminho para o ser. 2a ed. São Paulo: Summus Editorial; 1995. 7. Michelazzo J. C. Do um como princípio ao dois como unidade: Heidegger e a reconstrução ontológica do real. São Paulo: FAPESP, 1999. 8.Graças EM. A experiência da hospitalização: uma abordagem fenomenológica [tese]. São Paulo: Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo; 1996. 9. Silva AL, Borenstein MS. Ser e viver saudável no mundo: buscando novos caminhos no cuidar pesquisando com o ser-doente. Texto & Contexto Enf., Florianópolis, 1992 jul/dez.; 1 (2): 56-69.

Trabalho no Centro de...

Andreza Dias Araújo1

Jaqueline Oliveira Santos2

Lílian Varanda Pereira3 Rejane Cussi Assunção Lemos4

RESUMO Trata-se de um trabalho do tipo qualitativo, com objetivo de identificar as perspectivas da equipe de enfermagem que atua no Centro de Terapia Intensiva de um hospital universitário, no interior de Minas Gerais, em relação a vivencia e ao trabalho nesse setor; ao relacionamento entre os membros da equipe de enfermagem e dessa equipe com o cliente; e à verificação da possível existência de agentes estressores para essa equipe. Os dados obtidos foram analisados por meio da análise temática. O CTI foi considerado um ambiente desgastante e estressante, onde a humanização é, sem dúvida, o elemento essencial a ser desenvolvido. Palavras -chave: Unidades de Terapia Intensiva; Enfermagem; Hospitais Universitários; Equipe de Enfermagem

SUMMARY This is a qualitative study, identifying the outlook for the nursing team that works in the ICU of a university hospital in the interior of the State of Minas Gerais, Brazil. It examines life and work in this sector, the relationship between members of the nursing team and between the nursing team and patients, as well as to examine the possible existence of agents of stress for this team. The data was analyzed using theme analysis. The ICU was considered a wearing and stressful environment, in which humanization is, without any doubt, an essential element to be developed. Key Words: Intensive Care Unit; Nursing; Hospitals, University; Nursing, Team.

RESUMEN El objetivo del presente trabajo, tipo cualitativo, es identificar las perspectivas del equipo de enfermeros de la UTI de un hospital universitario en el interior del Estado de Minas Gerais con relación a la existencia y al trabajo en esta sección, la relación entre el equipo de enfermeros y el cliente, y comprobar si existen agentes que puedan causar estrés en el equipo. Los datos recopilados fueron analizados por el análisis temático. La UTI fue considerada un ambiente agotador y estresante, y queda evidente que allí es esencial fomentar la humanización. Palabras clave: unidades de terapia intensiva; enfermería; hospitales universitarios; grupo de enfermeros.

Aluna do 8º período do Curso de Graduação em Enfermagem da Faculdade de Medicina do Triangulo Mineiro. Enfermeira. Mestranda / UNICAMP. Professora Auxiliar da Faculdade de Medicina do Triangulo Mineiro. Enfermeira. Doutora / USP-RP. Professora Adjunta da Faculdade de Medicina do Triangulo Mineiro. Enfermeira. Mestre / USP-RP. Professora Assistente da Faculdade de Medicina do Triangulo Mineiro. Endereço para correspondência: Rua Oscarina de Castro, 355 - Conjunto Uberaba I - CEP: 38073 0 – Uberaba - MG - Tel.: (34) 3318-5484 e-mail: rjleng@uol.com.br

INTRODUÇÃO O Centro de Terapia Intensiva (CTI) surgiu no Brasil na década de 70, com finalidade de concentrar recursos materiais e humanos em um ambiente preparado para receber clientes graves, porém, passíveis de recuperação, que necessitam de observação e cuidados constantes.(1)

O CTI é o local ideal para assistir clientes graves; porém parece oferecer um ambiente extremamente estressante para quem o vivencia.(2,3,4,5,6)

A equipe de enfermagem em especial sofre diretamente as agressões provenientes do ambiente hostil desse setor, uma vez que diariamente, por um espaço longo de tempo, trabalha em um ambiente fechado, tendo que conviver com clientes graves e situações de urgência e emergência constantemente.(3,5) O aparato tecnológico dominante no CTI, muitas vezes faz com que a equipe de enfermagem, se esqueça de visualizar o ser humano que está à sua frente. Assim, torna-se difícil implementar a essência do aspecto humano relacionado ao cuidado de enfermagem.

Diante desse contexto, precisamos conhecer as reais dificuldades enfrentadas pela equipe de enfermagem que atua no CTI; quais são os fatores que realmente levam ao estresse nesse ambiente; quais são os principais obstáculos que a equipe enfrenta diariamente; e como é o relacionamento dessa equipe que vivencia situações constantes de estresse. Compreender esses aspectos nos possibilita fazer um diagnóstico da equipe e, conseqüentemente elaborar melhor o cuidado oferecido.

Buscando aprimorar o conhecimento em relação ao

CTI, a finalidade do estudo foi compreender o significado desse setor, na perspectiva da equipe de enfermagem, vislumbrando identificar os obstáculos, os agentes estressores e os enfrentamentos vividos pela equipe.

Somente assim será possível conhecer a realidade do

CTI e viabilizar o processo de humanização do ambiente e do trabalho no setor, o que certamente implicará estímulo à equipe e poderá refletir na melhora da qualidade do cuidado.

METODOLOGIA PROCESSO DE INVESTIGAÇÃO O presente estudo constitui uma investigação descritiva, de caráter qualitativo. Para análise dos dados foi utilizadoo método de Análise de Conteúdo.(7) A metodologia qualitativa trabalha com o universo de significados, motivos, crenças, valores e atitudes, fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.(8) Essa metodologia possibilita uma profunda compreensão de fenômenos sociais, apoiando-se na relevância dos aspectos subjetivos da ação social.

SITUAÇÃO SOCIAL A situação social escolhida para o desenvolvimento deste estudo focalizou a equipe de enfermagem do CTI Adulto do Hospital Escola da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro (HE/FMTM), em Uberaba-MG, instituição essa de grande porte, de caráter público, que presta atendimento em diversas especialidades.

CRITÉRIOS DE SELEÇÃO DA AMOSTRA A amostra foi constituída por todos os integrantes da equipe de enfermagem do CTI Adulto (CTIA) do HE/ FMTM, atuantes nos três períodos de trabalho, totalizando 48 funcionários. Os participantes foram entrevistados independentemente do gênero, e os critérios de seleção da amostra foram: ter idade mínima de 18 anos, trabalhar no setor por, no mínimo, um ano e concordar em participar do estudo, o que foi feito por meio da assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

COLETA DE DADOS Para a coleta dos dados, optamos pela técnica de entrevista semi-estruturada e observação participante. Os dados foram coletados pelo próprio pesquisador. Para registro das informações foi utilizado um gravador, com aquiescência do entrevistado. Posteriormente as entrevistas foram transcritas na íntegra. Foram utilizadas as seguintes questões norteadoras: Para você, o que significa o CTI? Como você se sente trabalhando no CTI e cuidando de clientes graves?; Como você percebe a prática de enfermagem no CTI? Como é o relacionamento entre os membros da equipe de enfermagem do CTI? Um diário de campo foi confeccionado, para documentação dos dados referentes à observação participante e às entrevistas informais Os dados foram coletados somente após aprovação do projeto pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP), do HE/FMTM.

ANÁLISE Os dados obtidos foram analisados segundo princípios e procedimentos da Técnica de Análise de Conteúdo, utilizando-se Modalidade Temática.(7) Os dados brutos foram elaborados para que se pudesse alcançar os núcleos de sentido, tentando-se descobrir tanto o conteúdo manifesto quanto latente dos dados; estes foram tratados de forma a se apresentarem significativos e válidos. Portanto foi necessário realizar a classificação e a agregação dos dados por núcleos temáticos, discutidos a seguir, à luz do referencial teórico.

RESULTADOS E DISCUSSÃO Após a análise dos dados, buscando os trechos que respondiam as questões norteadoras, surgiram três categorias, com suas respectivas subcategorias, às quais passamos a descrever.

CTI: "...minha segunda casa..." Categoria traz depoimentos de toda equipe de enfermagem descrevendo aspectos positivos relacionados ao ambiente do CTI.

Estrutura física e humana do CTI A equipe do CTI deve ser especializada, treinada, apta a atender os clientes e manejar os equipamentos com segurança e destreza. Entre os profissionais da equipe de enfermagem, os escolhidos para trabalhar no CTI são aqueles com maior experiência, preparo e principalmente que demonstram interesse pelas finalidades e objetivos do setor, além de iniciativa e responsabilidade, pois este é um local

Trabalho no Centro de...

do hospital que possui equipamentos com tecnologia avançada, necessários a um bom atendimento.(9)

Sobre esse aspecto, os dados nos revelam que a equipe de enfermagem percebe a necessidade de se capacitar e de adquirir conhecimento científico para cuidar do cliente grave. Para esse grupo, a complexidade que envolve o setor não é um fator evidente que interfere no cuidado oferecido como nos mostram os relatos:

"A enfermagem é muito bem equipada, tem uma carga de conhecimento técnico-científico muito boa" (entrevista 7).

" Eu gosto do CTI, pois aqui 90% dos nossos pacientes são gravíssimos. Eu me simpatizo com os pacientes, a gente aprende muito com eles. Eu prefiro trabalhar em CTI do que em enfermarias, eu fico mais próxima do paciente e é isso que me agrada." (entrevista 3)

Assim, o CTI foi entendido pela equipe de enfermagem como um ambiente equipado, possuindo quantidade de funcionários satisfatória, com elevado grau de competência; e o serviço prestado pela equipe, foi considerado como de qualidade.

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