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Brasília - DF 2009

VIGILÂNCIA EM SAÚDE Zoonoses

Secretaria de Atenção à Saúde Departamento de Atenção Básica

VIGILÂNCIA EM SAÚDE Zoonoses

Brasília - DF 2009

Série B. Textos Básicos de Saúde Cadernos de Atenção Básica, n. 2

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Série B. Textos Básicos de Saúde Cadernos de Atenção Básica, n. 2

Tiragem: 1ª edição – 2009 – 35.0 exemplares

Elaboração, distribuição e informações: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção à Saúde Departamento de Atenção Básica Esplanada dos Ministérios, Bloco G, 6º andar, sala 655 CEP: 70058-900 - Brasília – DF Tel.: (61) 3315-2497 Home page: w.saude.gov.br/dab

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

Ficha Catalográfica

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica.

Vigilância em saúde : zoonoses / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. –

Brasília : Ministério da Saúde, 2009. 24 p. : il. – (Série B. Textos Básicos de Saúde) (Cadernos de Atenção Básica ; n. 2)

CDU 616.993

ISBN 1. Zoonoses. 2. Atenção básica. 3. Saúde pública. I. Título. I. Série. Catalogação na fonte – Coordenação-Geral de Documentação e Informação – Editora MS – 2009/0167

Títulos para indexação: Em inglês: Health surveillance: zoonoses Em espanhol: Vigilancia en salud: zoonosis

1 DOENÇA DE CHAGAS7
2 FEBRE AMARELA46
3 LEISHMANIOSE TEGUMENTAR AMERICANA63
4 LEPTOSPIROSE8
5 ACIDENTES POR ANIMAIS PEÇONHENTOS113
6 RAIVA144
PÚBLICA E EVENTOS DE POTENCIAL RISCO SANITÁRIO NACIONAL168
REFERÊNCIAS173
ANExOS176

7 PAPEL DOS SERVIÇOS DE ATENÇÃO BÁSICA NA RESPOSTA ÀS EMERGÊNCIAS EM SAÚDE EqUIPE TéCNICA .............................................................................................................................2

VIGILÂNCIA EM SAÚDE: Zoonoses 1 DOENÇA DE CHAGAS

1.1 APRESENTAÇÃO

A doença de Chagas (DC) é uma das conseqüências da infecção humana pelo protozoário flagelado Trypanosoma cruzi. Na ocorrência da doença observam-se duas fases clínicas: uma aguda, que pode ou não ser identificada, podendo evoluir para uma fase crônica. No Brasil, atualmente predominam os casos crônicos decorrentes de infecção por via vetorial, com aproximadamente três milhões de indivíduos infectados. No entanto, nos últimos anos, a ocorrência de doença de Chagas aguda (DCA) tem sido observada em diferentes estados (Bahia, Ceará, Piauí, Santa Catarina, São Paulo), com maior freqüência de casos e surtos registrados na Região da Amazônia Legal (Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Amapá, Pará, Tocantins).

A distribuição espacial da doença é limitada primariamente ao continente americano em virtude da distribuição do vetor estar restrito a ele, daí é também denominada de tripanossomíase americana. Entretanto, são registrados casos em países não endêmicos por outros mecanismos de transmissão. Os fatores que determinam e condicionam a sua ocorrência refletem a forma como a população humana ocupa e explora o ambiente em que vive. Questões como migrações humanas não controladas, degradação ambiental e precariedade de condições socioeconômicas (habitação, educação, entre outras) inseremse nesses fatores.

A área endêmica ou, mais precisamente, com risco de transmissão vetorial da doença de Chagas no país, conhecida no final dos anos 70, incluía 18 estados com mais de 2.200 municípios, nos quais se comprovou a presença de triatomíneos domiciliados. Até então, a região amazônica estava excluída dessa área de risco em virtude da ausência de vetores domiciliados.

Ações sistematizadas de controle químico focalizadas nas populações de Triatoma infestans, principal vetor e estritamente domiciliar no Brasil, foram instituídas a partir de 1975 e mantidas em caráter regular desde então, levaram a uma expressiva redução da presença de T. infestans intradomiciliar e, simultaneamente, da transmissão do T.cruzi ao homem. Associado a essas ações, mudanças ambientais, maior concentração da população em áreas urbanas e melhor compreensão da dinâmica de transmissão contribuíram para o controle e a reorientação das estratégias no Brasil.

Atualmente o risco de transmissão da DC depende: 1. Da existência de espécies de triatomíneos autóctones;

2. Da presença de mamíferos reservatórios de T. cruzi próximo às populações humanas;

3. Da persistência de focos residuais de T. infestans, nos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Bahia.

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Soma-se a esse quadro a emergência de casos e surtos na Amazônia Legal por transmissão oral, vetorial domiciliar sem colonização e vetorial extradomiciliar.

Com isso, evidenciam-se duas áreas geográficas onde os padrões de transmissão são diferenciados:

1. A região originalmente de risco para a transmissão vetorial, que inclui os estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Paraná, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Sergipe, São Paulo e Tocantins;

2. A região da Amazônia Legal, incluindo os estados do Acre, Amazonas,

Amapá, Rondônia, Roraima, Pará, parte do Maranhão, do Mato Grosso e do Tocantins.

1.2 AGENTE ETIOLÓGICO

A doença é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, caracterizado pela presença de um flagelo. No sangue dos vertebrados, o T. cruzi se apresenta sob a forma de tripomastigota, que é extremamente móvel e, nos tecidos, como amastigotas. No tubo digestivo dos insetos vetores, ocorre um ciclo com a transformação do parasito, dando origem às formas infectantes presentes nas fezes do inseto.

1.3 VETORES E RESERVATÓRIOS

A maioria das espécies de triatomíneos deposita seus ovos livremente no ambiente, entretanto, algumas espécies possuem substâncias adesivas que fazem com que os ovos fiquem aderidos ao substrato. Essa é uma característica muito importante, uma vez que ovos aderidos às penas de aves e outros substratos podem ser transportados passivamente por longas distâncias, promovendo a dispersão da espécie.

Figura 1: Estádios evolutivos do triatomíneo, de ovo a adulto. Livro Iconografia

VIGILÂNCIA EM SAÚDE: Zoonoses

A introdução no domicílio de materiais com ovos aderidos (como folhas de palmeiras para cobertura de casas e lenha) podem favorecer o processo de colonização.

A oviposição ocorre entre 10 e 30 dias após a cópula e o número de ovos varia de acordo com a espécie e principalmente em função do estado nutricional da fêmea. Uma fêmea fecundada e alimentada pode realizar posturas por todo o seu período de vida adulta.

Pouco se conhece sobre a biologia dos vetores nos seus ecótopos naturais. Muitas espécies são ecléticas quanto ao habitat e fonte alimentar, embora algumas sejam bem menos generalistas, como Cavernícola lenti, que habita ocos de árvores e se alimenta de sangue de morcegos, e espécies do gênero Psammolestes, que ocorrem em ninhos de aves.

A maioria das espécies conhecidas vive no meio silvestre, associada a uma diversidade de fauna e flora. E importante ter em mente que essa associação a habitats é dinâmica, ou seja, uma espécie hoje considerada exclusivamente silvestre pode se tornar domiciliada se as condições em que vivem forem alteradas.

A maioria das espécies do gênero Rhodnius encontra-se predominantemente associada a palmeiras (Figura 2), enquanto as espécies do gênero Triatoma e Panstrongylus vivem preferencialmente em associação com hospedeiros terrestres. Algumas poucas espécies, ao longo de seu processo evolutivo, adaptaram-se aos domicílios e às estruturas construídas no peridomicílio, como galinheiros e chiqueiros, e tornaram-se mais importantes na transmissão da doença ao homem.

Figura 2: Ecótopos naturais de espécies do gênero Rhodnius Palmeiras Mauritia flexuosa (Buriti) Maximiliana regia (Inajá)

Fotos: Aldo Valente

Um triatomíneo (seja ninfa ou adulto) que tenha se alimentado em um mamífero (incluindo o homem) infectado com o T.cruzi pode adquirir a infecção, assim permanecendo

MINISTÉRIO DA SAÚDE / Secretaria de Atenção à Saúde / Departamento de Atenção Básica por toda a sua vida. Não há transmissão transovariana do T. cruzi, portanto, os ovos não são infectados e os insetos que dele eclodirem permanecerão livres de infecção até a primeira ingestão de sangue contaminado.

Das 140 espécies de triatomíneos conhecidas atualmente, 69 foram identificadas no Brasil e são encontradas em vários estratos florestais, de todos os biomas.

Com a interrupção da transmissão vetorial por Triatoma infestans no país, quatro espécies de triatomíneos têm especial importância na transmissão da doença ao homem: T. brasiliensis, Panstrongylus megistus, T. pseudomaculata e T. sordida.

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