Agroecologia e saber ambiental

Agroecologia e saber ambiental

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1. O Renascimento do Ser no Concerto do Saber

A Agroecologia foi definida como um novo pa- radigma produtivo, como uma constelação de ciências, técnicas e práticas para uma produção ecologicamente sustentável, no campo. Neste Seminário, que congrega os mestres destas no- vas artes e ofícios, e eu não sendo o que conduz o arado, quem, com seu arado, remove a terra e planta a nova semente, que dirige um olhar ao caldeirão no qual se fundem e se amalgamam os

Agroecologia e saber ambiental*

* Texto apresentado ao I Seminário Internacional sobre Agroecologia, Porto Alegre, 26 a 28 de novembro de

2001. Traduzido ao português por Francisco Roberto

Caporal, em janeiro de 2002. O original, em espanhol, está disponível em w.emater.tche.br.

**O autor é Coordenador da Rede de Formação

Ambiental para a América Latina e Caribe, do Progra- ma das Nações Unidas para o Meio Ambiente - PNUMA.

conhecimentos que promovem esta mudança de paradigma, sobre o pró- prio sentido do saber agroecológico. Porque, mais que poder instrumental, no concerto destes saberes se joga o renascimento do ser: da natureza, da produção, do agrônomo, do cientista, do técnico, do camponês e do indíge- na; a reconstrução do ser que finda sobre novas bases o sentido da produção e abre as vias a um futuro susten- tável. Hoje, esta confraria de mestres da

Agroecologia, reunidos neste cenário, se congrega para a plantação de uma nova semente, mas também para avaliar os resultados de suas recentes colheitas. É um ritual que nos faz recordar aquele momento da maior glória das artes e ofícios no início do Renascimento, que ficou plasmado na história da arte da ópera pelos Mestres Cantores de Nuremberg, de Wagner. As práticas agroecológicas nos remetem à recuperação dos saberes tradicionais, a um passado no qual o humano era dono do seu saber, a um tempo em

um sentido da existênciacomo sapateiros, al-

que seu saber marcava um lugar no mundo e faiates ou ferreiros; como músicos e poetas. À época dos saberes próprios. Hoje, neste lugar, neste conclave de artífices da agroecologia, aparece novamente na cena um Ignacy Sachs, in- terpretando o sapateiro-poeta Hans Sachs; o mestre que joga com as regras da formação econômica e das formas musicais do pensamento para enriquecer a tradição econômica com a inovação do ecodesenvolvimento. Participam neste evento: Toledo, poeta da etnobiologia, e Altieri, mestre fundador das ciências e técnicas da Agroecologia; e o amalgamador Gliessman, o ferreiro Sevilla. Aqui estão os peleteiros e os alfaiates, que confeccionam o tecido do novo sa-

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Leff, Enrique**

Palavras-chave: Agroecologia, Desenvolvimento- Rural Sustentável - Saber Ambiental.

37 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.3, n.1, jan./mar.2002 ber praticando suas artes e ofícios, todos escritores, aprendizes e mestres cantores, todos forjadores do novo paradigma1. Todos represen- tantes daquele Walter, cavaleiro de Franconia, que, deslindando-se e transcendendo seus títu- los de nobreza das ciências normais, postulam a magia das palavras e a alquimia da poesia para repensar o mundo e suas práticas; para fazer terra em um mundo em reconstrução. Talvez, neste certame, o prêmio ao poeta-cantor não seja a mão da bela donzela, senão o gosto de compor música com seus saberes e recompor o mundo no pentagrama de Agroecologia. Os saberes agroecológicos são uma conste- lação de conhecimentos, técnicas, saberes e práticas dispersas que respondem às condições ecológicas, econômicas, técnicas e culturais de cada geografia e de cada população. Estes saberes e estas práticas não se unificam em torno de uma ciência: as condições históricas de sua produção estão articuladas em diferentes níveis de produção teórica e de ação política, que abrem o caminho para a aplicação de seus métodos e para a implementação de suas propostas. Os saberes agroecológicos se forjam na interface entre as cosmovisões, teorias e práticas. A Agro- ecologia, como reação aos modelos agrícolas depredadores, se configura através de um novo campo de saberes práticos para uma agricultura mais sustentável, orientada ao bem comum e ao equilíbrio ecológico do planeta, e como uma ferramenta para a autosubsistência e a segu- rança alimentar das comunidades rurais.

As múltiplas técnicas que integram o arsenal de instrumentos e saberes da Agroecologia não só se fundem com as cosmologias dos povos de onde emergem e se aplicam seus princí- pios, senão que seus conhecimentos e práticas se aglutinam em torno de uma nova teoria da produção, em um paradigma ecotecnológico fundado na produtividade neguentrópica2 do planeta terra. Esta nova teoria da produção toma seus princípios da ciência ecológica, do território em que a intervenção sobre a terra se nu- tre de seus potenciais ecológicos e significa- ções culturais, e do princípio da fotossíntese que Ignacy Sachs propôs nos anos 70 como funda- mento para a construção de uma nova civiliza- ção nos trópicos (Sachs, 1976). A Agroecologia sugere alternativas sustentá- veis em substituição às práticas predadoras da agricultura capitalista e à violência com que a terra foi forçada a dar seus frutos. A Agroecologia vai forjando suas normas e regras para um novo canto da terra, da mesma maneira que Walter aprendeu dos mestres cantores não suas velhas regras de composição, senão a necessidade de se construir uns princípios para dar voz ao seu canto e expressão a sua poesia. Como Hans

Sachs, que percebe a loucura, a ilusão e a futilidade da existência no início da modernidade, e que a saída para o mundo cercado e esgotado do nosso tempo não está em aferrar-se às normas do dogma produtivista, de um crescimento sem limites, que já não se sustenta, senão em transcendê-las através de um novo saber.

A Agroecologia é terra, instrumento e alma da produção, onde se plantam novas semen- tes do saber e do conhecimento, onde enraiza o saber no ser e na terra; é o caldeirão onde se amalgamam saberes e conhecimentos, ciên- cias, tecnologias e práticas, artes e ofícios no forjamento de um novo paradigma produtivo.

Na terra onde se desterrou a natureza e a cultura; neste território colonizado pelo merca- do e pela tecnologia, a Agroecologia rememora os tempos em que o solo era suporte da vida e dos sentidos da existência, onde a terra era tor- rão e o cultivo era cultura; onde cada parcela tinha a singularidade que não só lhe outorgava uma localização geográfica e suas condições geofísicas e ecológicas, senão onde se assenta- vam identidades, onde os saberes se convertiam em habilidades e práticas para lavrar a ter- ra e colher seus frutos. Os saberes se confundi- am com os sabores: o vinho era um produto da carícia ardente do sol sobre a dourada e redonda uva; seu fruto era transformado em um elixir de amor, marcando seu corpo em danças rituais, abraçando-o com mãos artesanais, colocando

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38 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.3, n.1, jan./mar.2002 seus sucos em perfumadas barricas e destilando-os para convertê-los em água da vida. O vi- nho se degustava saboreando os saberes da produção e formando os saberes do gosto. A maestria da arte da colheita permitia um vínculo do pro- dutor e do consumidor com os dons da terra. A cultura brincava com a evolução, reproduzindo e diversificando nas formas e nos tempos os sabores do milho, da batata, da mandioca. A cultu- ra coevolucionava com a natureza, hibridandose e diversificando-se, multiplicando os senti- dos da vida e as formas da natureza. Eram tem- pos em que o camponês extraía os sucosos e gostosos frutos da terra trocando seus excedentes em relações de complementaridade e reciprocidade e não por um mero interesse mercantil.

Quando o trabalho era saber fazer e saber ser e a terra era lavrada como o ferreiro molda o me- tal e o escultor molda a pedra. Quando o fruto do trabalho rendia o fruto das delícias da terra, o dom da vida convertido em sabores que não só saciavam a fome, senão que, como nos mostrou Barrau (1979) em suas etnobiografias, conjuga- vam "as metamorfoses da alimentação com os fantasmas do gosto".

Hoje, o domínio da economia sobre estes mundos de vida e a intervenção da tecnologia na própria vida, não só dessecou a terra, em sua fome insaciável de produtividade e lucro, como também espremeu o suco dos sabores para deixar só a forma sedutora de frutos e legumes que atraem pela vista, que saciam a fome de alguns consumidores, mas que não têm sabor de nada. Não se trata de nostalgia por tempos passados. Hoje a "tortilla", base da alimen- tação do povo mexicano, perdeu seu sabor; as frutas e legumes se exibem como bens de luxo, a preços exorbitantes, nos supermercados novaiorquinos. Parecem mulheres maquiadas atrás de uma vitrine: atraem os olhares, é possível fincar o dente e adornar com elas um palito de uma cozinha fina, mas não se pode tocar o sa- bor natural de sua pele e de sua suculenta carne. Hoje, o bom "confik d'öie", um "jarkoye", um

"gefilte fish", o acarajé ou o "chile en nogada" já se comem só em casa das avós sobreviventes da modernização forçada do campo, e seus sabores morrem quando elas se vão deste mun- do. De modo igual, ocorre em releção aos ali- mentos naturais, aos frutos do mar. Um "boi marinho" na Espanha ou uma "sapateria" em

Portugal são inexportáveis fora das costas do Mar Cantábrico e do Oceano Atlântico, que aca- riciam as terras galegas e lusitanas. A globalização, hoje, nos oferece comida de todos os países em todas as partes do mundo, junto com o Mc Donald's e a Coca-Cola, que homogeneizam o gosto dos cidadãos deste pla- neta. Mas um "mole" mexicano é em essência (e por suas essências) tão inexportável como os sabores de uma simples massa na mais modesta cafeteria de Hong Kong. Os sabores exigem e se aferram ao seu lugar de origem, à sua terra e à arte culinária de seus povos, e morrem de nostalgia ao serem desterritorializados e expatriados.

A terra foi desterritorializada e o camponês foi "descampesinado", separado de sua terra e do sentido de sua existência. Hoje, em nome da preservação da biodiversidade, se homogeneizam os cultivos de exportação, a tecnologia intervém na vida, manipulando gens, gerando uma transgênese que, com seu orgulho produtivo, vence as resistências dos estados livres de transgênicos e as defesas da biossegurança. Em nome da sobrevivência se vai matando a vida. A produtividade agronômi- ca não garante a distribuição de alimentos nem a segurança alimentar; avança sepultan- do os sentidos do cultivo e os sabores da terra.

dade ecotecnológica e racionalidade ambiental

A Agroecologia foi definida por Altieri (1987) como "as bases científicas para uma agricultura alternativa". Seu conhecimento deveria ser gerado mediante a orquestração das aportações de diferentes disciplinas, para compreender o funcionamento dos ciclos minerais, as trans-

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39 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.3, n.1, jan./mar.2002 formações de energia, os processos biológicos e as relações socioeconômicas como um todo, na análise dos diferentes processos que intervêm na atividade agrícola. A Agroecologia incorpora o funcionamento ecológico necessário para uma agricultura sustentável, mas ao mesmo tempo introjeta princípios de eqüidade na produção, de maneira que suas práticas permitam um acesso igualitário aos meios de vida. A Agroecologia compreende a dimensão entrópica da deterioração dos recursos naturais dos sistemas agrícolas, não obstante, ao orientar suas ações ao âmbito do produtor direto, não oferece um paradigma compreensivo que apresente soluções globais à degradação entrópica do planeta através de uma nova racionalidade produtiva que dê coerência e eficácia às dife- rentes técnicas e ações locais. Em suas aplica- ções pontuais, a Agroecologia contribui para desmontar os modelos agroquímicos tradicionais; mas sua ação transformadora implica a inserção de suas técnicas e suas práticas em uma nova teoria da produção (Leff, 1994, 2000).

A Agroecologia não é somente uma caixa de ferramentas ecológicas para ser aplicada pelos agricultores. Da maneira como é trabalhada por Altieri, Gonzáles de Molina, Sevilla ou

Gliessman, as condições culturais e comunitárias em que estão imersos os agricultores, sua identidade local e suas práticas sociais são elementos centrais para a concretização e apropriação social de suas práticas e métodos.

A Agroecologia, como instrumento do desenvolvimento sustentável, se funda nas experi- ências produtivas da agricultura ecológica, para elaborar propostas de ação social coletiva que enfrentam a lógica depredadora do modelo produtivo agroindustrial hegemônico, para substi- tuí-lo por outro, que orienta para a construção de uma agricultura socialmente justa, economicamente viável e ecologicamente sustentá- vel. Ela envolve o pesquisador na realidade que estuda, ao aceitar, em pé de igualdade com o seu conhecimento científico, os saberes locais gerados pelos agricultores. A Agroecologia sur- giu, precisamente, de uma interação entre os produtores (que se rebelam frente à deterioração da natureza e da sociedade, que é provocada pelo modelo produtivo hegemônico) e os pesquisadores e professores mais comprometidos com a busca de estratégias sustentáveis de produção. É a fusão entre a "Empiria camponesa" e a

"Teoria Agroecológica" que estabelece um de- senvolvimento alternativo, um Desenvolvimento Rural Sustentável (Sevilla, 2001). Isso impli- ca ir além do estudo das economias camponesas para garantir a sobrevivência das comuni- dades indígenas e a sustentabilidade das economias camponesas, estabelecendo um víncu- lo da Agroecologia em uma nova teoria da pro- dução, que se sustenta no espaço rural e que, portanto, convoca os povos do campo e das flo- restas como atores privilegiados do processo. A Agroecologia se assenta nas particulares condições locais e na singularidade de suas práticas culturais. Ela hibrida uma constela- ção de múltiplos saberes e conhecimentos. Mas sua consistência, suas perspectivas de validação e confiança dependem de sua articula- ção em torno de um novo paradigma produtivo. Pois, mais além de seus direitos próprios como práticas singulares de agricultores, sua existência se debate frente a uma racionalidade econômica e tecnológica que vai conformando e condicionando as formas de intervenção na terra, para extrair seus frutos, onde a produti- vidade de curto prazo prevalece sobre os princípios da produção sustentável e sobre as for- mas de apropriação da natureza.

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A Agroecologia incorpora o funcionamento ecológico necessário para uma agricultura sustentável, mas ao mesmo tempo introjeta princípios de eqüidade na produção

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Frente à transformação da geopolítica de uma economia ecologizada que hoje em dia revaloriza o sentido conservacionista da natureza - reabsorve e redesenha a economia natural dentro das estratégias de mercantili- zação da natureza -, reduzindo o valor da biodiversidade em suas novas funções como pro- vedora de riqueza genética de valores cênicos e ecoturísticos e de sua capacidade de absorção de carbono, a Agroecologia se encrava no contexto de uma economia políti- ca do ambiente. Desta maneira, devolve o sentido à força de trabalho como labor produtivo que trabalha com forças da natureza, onde o trabalho, dentro de conjunto de práticas, não só é conduzido por saberes e conhecimentos práticos, mas por uma teoria que os envolve em uma estratégia política que os conduz e os faz valer, frente às valorizações "crematís- ticas"4 da produtividade econômica e tecnológica de curto prazo.

A nova economia, que acolhe e se constrói nas práticas agroeconômicas, se baseia em princípios ecológicos e termodinâmicos desconhecidos e negados pela ciência econômica como foram "descobertos" por Nicolás

Georgescu Roegen (1971). Esta nova economia não só reconhece a Entropia como "Lei limite do crescimento econômico e da produção em geral". Além de sua negatividade crítica, esta nova racionalidade produtiva se funda no princípio de uma produtividade neguentrópica.

Este paradigma de produtividade ecotecno- lógica sustentável não só recupera e renova os princípios de uma fisiocracia sepultada – e seus saberes associados e subjugados – pela emergência e domínio da racionalidade eco- nômica. Hoje, ante a apropriação privada do núcleo genético das sementes e a injeção le- tal que impede sua reprodução como fonte de sustento do agricultor, são defendidos os direitos dos agricultores e se reconhece a pro- dutividade da natureza encapsulada nas sementes.

A Agroecologia se nutre desta capacidade de produtividade natural, da transformação neguentrópica da energia solar através da fotossíntese, da produtividade e reprodução das sementes. Gera técnicas para lavrar a terra, recombinar os gens da vida, multiplicar a capacidade de fotossíntese de diversos arranjos florísticos, das cadeias trópicas, de cultivos múltiplos e combinados, de pisos ecológicos e complementaridades espaciais, para incrementar a produtividade ecotecnológica sustentável de dado território.

Mas esta racionalidade ecotecnológica não se produz nem se pratica como um conjunto de regras gerais que se instrumentam e in- duzem desde cima – de um laboratório, uma universidade, uma burocracia - sobre as prá- ticas cotidianas dos agricultores e produtores agrícolas. É um "paradigma" pela generalida- de de seus novos princípios, mas que se aplica através de saberes pessoais e coletivos, de habilidades individuais e direitos coletivos, de contextos ecológicos específicos e culturas particulares. É isso o que abre um amplo pro-

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41 Agroecol.e Desenv.Rur.Sustent.,Porto Alegre, v.3, n.1, jan./mar.2002 cesso de mediações entre a teoria geral e os saberes específicos, uma hibridação de ciên- cias, tecnologias, saberes e práticas; um in- tercâmbio de experiências - agricultor a agricultor - das quais se enriquecem, se validam e se estendem as práticas da Agroecologia. A Agroecologia reconceptualiza a terra e a natureza como agroecossistema produtivo. Isso significa libertar o conceito de terra e de recur- so, das formas limitadas de significação do na- tural submetido à racionalidade econômica, que levaram a desnaturalizar a natureza de sua or- ganização ecossistêmica para convertê-la em recurso natural, em matéria-prima para a apro- priação produtiva (e destrutiva) da natureza; que levaram a desterritorializar a terra para poder estabelecer seu valor como uma renda, produto das fertilidades diferenciadas dos solos.

Hoje, parece que desapareceram os condicionantes físicos que obrigam os homens a adaptar-se às condições locais dos solos, do clima e da água; como um novo Prometeu li- bertado pela magia e pela força da biotecnologia, o neoliberalismo econômico e tecnológico pre- tende libertar a produção de seus limitantes naturais. Deslocando estas abstrações simplificadoras e fictícias, o saber ambiental recupera o ser da natureza e da terra.

O agroecossistema não só devolve à natu- reza a sua natureza ecossistêmica e recoloca a terra em suas bases territoriais (políticas e culturais). As práticas agroecológicas recuperam também o sentido do valor de uso (ecológi- co) da terra e seus recursos, e o devolvem a seu verdadeiro ser. Pois, se entendemos o verbo usar no sentido heideggeriano de "deixar uma coisa ser o que é e como é", o que "requer que a coisa usada seja tratada em sua natureza essencial" (Heidegger, 1954/1968), então o uso de recursos naturais implica que eles sejam tratados de acordo com suas formas de ser, com suas condições de existência, de renovação, de evolução. Visto desta forma, podemos reno- var o conceito de valor de uso natural ou valor de uso da natureza não só pelo valor intrínse- co de uma coisa (um recurso) que a faz ser útil, utilizável e necessária para uma pessoa; o valor de uso implicaria também o respeito ao objeto valorado e utilizado para um fim humano, quer dizer, o "valor em si" da natureza por suas condições de produção e reprodução, e como suporte das condições materiais e sim- bólicas da existência humana. As aproximações da Agroecologia constitu- em, assim, um exemplo prático da emergên- cia do potencial ecotecnológico de uma racionalidade ambiental. As práticas agroecológicas resultam culturalmente compatíveis com a racionalidade produtiva cam- ponesa, pois se constroem sobre o conhecimento agrícola tradicional, combinando este conhecimento com elementos da ciência agrí- cola moderna. As técnicas resultantes são ecologicamente apropriadas e culturalmente apropriáveis; permitem a otimização da unidade de produção através da incorporação de novos elementos às práticas tradicionais de manejo, elevando a produtividade e preser- vando a capacidade produtiva sustentável do ecossistema. Isso leva a um processo de reconstrução das práticas e dos valores autóc- tones das etnias, conservando suas identidades culturais. Os serviços ambientais que ofe- recem os sistemas agroecológicos contribuem para a sua produtividade, ao mesmo tem- po em que os fazem mais adaptáveis e resis- tentes aos câmbios climáticos. A Agroecologia, fundada nos princípios da produtividade ecotecnológica, oferece novos potenciais para o desenvolvimento sustentá- vel alternativo. Mas estes princípios não po-

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As práticas agroecológicas recuperam o sentido do valor de uso

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