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A Física Nuclear tem como objetivo a investigação da origem, evolução, estrutura e fases da matéria nuclear de interação forte. Questões fundamentais em aberto levaram a Física Nuclear a ampliar seus horizontes e hoje seu alcance se estende desde as partículas mais fundamentais, como os quarks, até gigantescas estruturas do universo, como as super-novas. De fato, os fenômenos nucleares estão relacionados a um enorme intervalo de energia e às mais diversas escalas de comprimento.

A comunidade internacional de Física Nuclear desenvolve um programa balanceado de esforço experimental e teórico para responder a diversas questões chaves. Existe um consenso internacional sobre a importância destas questões, já que elas receberam formulações quase idênticas nos relatórios do "Nuclear Science Advisory Committee" (NSAC-EUA) em 2007 e do "Nuclear Physics European Collaboration Committee" (NUPECC- União Européia) em 2004. Estas questões e as instalações onde estas questões podem receber respostas estão listadas abaixo:

O papel original e central da Física Nuclear é buscar a compreensão das propriedades dos núcleos e da matéria nuclear. Esta é uma tarefa das mais árduas, que parece ser melhor resolvida se for feita por etapas sucessivas: das equações básicas da QCD, através de teorias de campos efetivos até a interação nucleon-nucleon, sistemas de poucos corpos e núcleos muito leves; em seguida, usando as diferentes aproximações para descrever a estrutura nuclear, indo de "Green's Function Monte Carlo" (GFMC) ao modelo de camadas “no-core” ou teoria funcional de densidade. Cálculos baseados em interações microscópicas de nucleon-nucleon, com a inclusão de forças de 3 corpos obtiveram sucesso quantitativo na descrição de propriedades de núcleos leves. No entanto este acordo ainda não foi obtido para núcleos pesados. Este é um problema não apenas da descrição de núcleos pesados, mas é comum à descrição de outros sistemas complexos, como proteínas, por exemplo.

O objetivo primordial da Física Nuclear é desenvolver uma teoria completa e preditiva dos núcleos complexos. Em todo mundo isto levou ao desenvolvimento de feixes radioativos de alta qualidade, pois eles permitem passar da imagem unidimensional onde somente a massa do núcleo variava, à imagem bidimensional onde tanto o número de prótons como de nêutrons pode variar sobre uma grande extensão. Feixes radioativos podem ser obtidos pela fragmentação em vôo ou pelo processo "Isotope Separation On-Line" (ISOL). Existem hoje várias instalações em funcionamento dos dois tipos em vários países (Alemanha, França, USA, Japão, Suíça, Canadá etc) e outros tantos em construção ou em projeto. A procura por elementos super-pesados é um campo ativo na Rússia, Alemanha e Japão.

No Brasil (USP), está em funcionamento desde 2004 o sistema de duplo solenóide supercondutor RIBRAS (Radioactive Ion Beams in Brasil), que é a primeira instalação experimental no hemisfério sul que permite produzir feixes radioativos leves e de baixa energia.

A abundância dos núcleos H, He e Li foi produzida na nucleossíntese primordial, que aconteceu durante o esfriamento que se seguiu por volta de 3 minutos após do Big-Bang. Todos os outros elementos químicos existentes no universo foram produzidos por meio de reações nucleares em estrelas, explosão de supernovae, novae, estrelas de nêutrons, etc. É outro objetivo central da Física Nuclear explicar a origem e a abundância da matéria no Universo. A astrofísica nuclear tem como objetivo responder as questões fundamentais, tais como: a origem dos elementos; o mecanismo do colapso do caroço nas supernovas; a estrutura e esfriamento de estrelas de nêutrons e a presença de matéria estranha; a origem, aceleração e interações dos raios cósmicos mais energéticos; e a natureza de fontes de raios gama galácticos e extragalácticos. A astrofísica nuclear teve enorme progresso com as observações e modelagens astronômicas.

A comunidade de Física Nuclear tem contribuído diretamente para um melhor entendimento da astrofísica, tanto com relação à nucleosíntese, como com relação ao processo de evolução estelar. A descoberta de que os nucleons são, na realidade, sistemas compostos, redirecionou o interesse de muitos físicos nucleares para a investigação dos graus de liberdade de quarks e, com isto, atualmente os domínios da pesquisa da física nuclear e da física das partículas elementares se tornaram interligados, dando origem a Física de Hádrons. Landau propôs a existência de estrelas de nêutrons depois que os nêutrons foram descobertos por Chadwick, em 1932. Em 1934 sugeriu-se que as estrelas de nêutrons eram formadas depois de uma explosão de supernova, o que acontece quando o caroço de uma estrela muito massiva sofre um colapso gravitacional. A estrutura das estrelas de nêutrons e protonêutrons caracteriza-se por sua massa e raio que podem ser calculados a partir de equações de estado apropriadas para densidades da ordem de 10 vezes a densidade observada em núcleos comuns. Nessas densidades os efeitos relativísticos são certamente importantes. É interessante observar que, na área de Física de Hádrons, os mesmos modelos relativísticos que são capazes de descrever a matéria formada numa colisão de íons pesados podem ser utilizados na descrição da matéria estelar, uma vez que os parâmetros livres da teoria sejam convenientemente ajustados. Muito trabalho tem sido realizado na direção de melhor entender a evolução e as propriedades estelares e sua direta correlação com propriedades nucleares, como a pele de nêutrons e a fase pasta, possivelmente existente na crosta dos objetos compactos, por exemplo.

Além disso, cabe mencionar que uma nova era se abriu na astrofísica nuclear com o advento das instalações produtoras de feixes radioativos, pois estes núcleos de vida média curta podem ter enorme importância em reações relevantes à astrofísica. As medidas relevantes incluem processos de captura, a determinação de massas, vidas médias e estrutura de núcleos exóticos que ocorrem em ambientes estelares cataclísmicos. O Brasil também tem um programa de pesquisa em astrofísica nuclear com o uso de feixes radioativos do RIBRAS.

Nesta área, de estrutura, dinâmica e astrofísica nuclear, mesmo laboratórios de baixa energia como o Laboratório Aberto de Física Nuclear (LAFN), situado na USP, podem contribuir significativamente, existindo vários exemplos de laboratórios muito ativos e reconhecidos na área com alcance de energia comparável a este.

Nucleons são partículas compostas de quarks e glúons. Hoje em dia existem respostas parciais sobre a distribuição e movimento de quarks no nucleon e o Prêmio Nobel de Física de 2004 foi concedido pela descoberta da liberdade assintótica no contexto de Cromo Dinâmica Quântica (QCD) perturbativa. No entanto a QCD permanece não solúvel no regime de confinamento onde o acoplamento é demasiadamente intenso para permitir o uso de métodos perturbativos. Exemplos destes problemas são a massa e o spin do nucleon: os quarks de valência somente explicam 1% da massa do próton, o resto se deve a pares quarkantiquark e nuvens de pions. Somente 25% do spin do nucleon é explicado. A estrutura dos hádrons, e em particular do nucleon tem muitos aspectos ainda pouco entendidos, além das propriedades medidas através do espalhamento elástico e profundamente inelástico de léptons. A “tomografia” da estrutura eletrofraca do nucleon observada através do espalhamento Compton profudamente virtual é um desafio tanto a nível teórico como experimental. Novas ressonâncias hadrônicas estão sendo observadas que desafiam as interpretações tradicionais, abrindo espaço para novas estruturas exóticas como tetraquarks, ou moléculas mesônicas. A solução destes problemas exigem avanços tanto na teoria como nas experiências. Experiências estão sendo realizadas para fazer comparações com predições da QCD em facilidades nos EUA, Japão e Europa, em particular os Laboratórios ainda em construção de J-PARC em KEK (Japão), FAIR em GSI (Alemanha) e o "upgrade" para 12GeV do Jefferson Lab. (EUA) foram todos desenhados para responder estas questões em detalhe.

No Brasil temos vários grupos teóricos ativos trabalhando nesta área (IFUSP, IFT, ITA, UFSC).

Núcleos são a manifestação mais importante da matéria nuclear, pois eles representam 9.9% da matéria visível no universo. No entanto, hoje sabemos que a matéria escura e a energia escura são preponderantes no universo. A matéria nuclear também pode ser aquecida, absorvendo energia em colisões relativísticas. Neste caso, temperaturas similares àquelas nos primeiros momentos após o Big-Bang podem ser atingidas e a matéria nuclear, nesse regime, estudada.

A principal motivação no estudo de colisões entre íons pesados relativísticos é o de entender a equação de estado da matéria nuclear. Em energias de excitação mais elevadas, os núcleons são excitados em estados ressonantes bariônicos, seguindo de produção de partículas e formação de ressonâncias hadrônicas. Em colisões de íons-pesados, espera-se que estas excitações sejam capazes de criar matéria hadrônica. Em algumas destas colisões ocorre uma transição de fase para o estado no qual quarks e glúons encontram-se desconfinados. Esse estado é chamado de plasma de quarks e glúons (QGP, do Inglês, Quark Gluon Plasma). A formação deste plasma é o objetivo principal de experimentos envolvendo íons-pesados relativísticos. Para este propósito foram construídos o colisor RHIC (Relativistic Heavy Ion Collider) que está em operação desde o ano 2000 e o LHC (Large Hadron Colider), no Cern, que iniciou sua operação em 2008. No LHC, o experimento ALICE possui seu foco principal no estudo do plasma de quarks e glúons. O RHIC, além de explorar a fundo as propriedades da matéria nuclear em temperaturas extremas, possui um amplo programa dedicado ao estudo da origem do spin dos nucleons. Há grupos ativos no IFUSP e na UNICAMP que participam de experiências no RHIC (experimentos STAR e PHENIX) e que estão também envolvidos com experimentos no LHC. Também há diversos grupos teóricos trabalhando nesta área (IFUSP, IFT).

Apesar do grande interesse na observação e estudo aprofundado do QGP, a caracterização das várias fases da material nuclear que sucedem as colisões é igualmente importante. Essa caracterização é feita através de um grande número de diferentes análises que se complementam e fornecem a base para a compreensão desse cenário.

O Modelo Padrão foi testado com muitas experiências de precisão, mas ainda é considerado incompleto.

1. O Modelo Padrão é incapaz de explicar a predominância de matéria sobre a antimatéria existente no universo. Existe uma grande atividade experimental à procura de sinais de violação de Invariância de Reversão Temporal (TRI) nas propriedades de mésons, nêutrons e átomos.

2. O Modelo Padrão não explica a massa de neutrinos indicada pela sua oscilação. A observação do decaimento beta duplo sem neutrino revolucionaria o significado do número leptônico no Modelo Padrão e determinaria a massa do neutrino. Laboratórios subterrâneos, que procuram o decaimento do próton, o decaimento beta duplo sem neutrino, e a matéria escura, tem uma importância enorme na solução destes problemas.

3. A natureza de forças "super-fracas" que desapareceram quando o universo esfriou.

Tanto experiências de Física de Partículas Elementares, como de Física Nuclear estão à procura de indicações da existência destas forças nos momentos iniciais do Big- Bang. Medidas de violação de paridade atômica em experimentos com armadilhas usando feixes de núcleos radioativos constituem outra opção nuclear para testar o Modelo Padrão. Estas medidas necessitam de grande precisão e demandam grande tempo de uso de feixe acelerado. O Laboratório Aberto de Física Nuclear possui feixes radioativos de baixa energia e bastante tempo disponível de utilização de feixe. Se os feixes forem freados, poderiam ser armazenados em armadilha, permitindo seu uso para medidas de alta precisão de violação de paridade e outros fins. Esta linha de pesquisa está sendo planejada em colaboração com pesquisadores do Laboratório TRIUMF.

4. O Modelo Padrão não explica a existência da matéria escura e energia escura e não incorpora a força da gravidade.

teóricos

A comunidade de Física Nuclear no Brasil atualmente é constituída de 107 doutores experimentais, dos quais 89 com emprego permanente e 18 pós-docs; 127 estudantes de pósgraduação experimentais e 38 técnicos e engenheiros. Também somos 107 doutores teóricos, dos quais 89 com emprego permanente e 18 pós-docs e 1 estudantes de pós-graduação

Grande parte de nossa comunidade científica encontra-se no Estado de São Paulo (80% da pesquisa experimental e 35% da teórica), motivado pela localização dos aceleradores. No Instituto de Física da USP são 42 doutores, dos quais 31 experimentais, e 80 estudantes de pós-graduação, dos quais 58 experimentais. Temos 16 pós-docs, sendo 8 experimentais e 8 teóricos. No Instituto de Física Teórica, da UNESP, são 6 pesquisadores doutores teóricos, 3 pós-docs e 12 estudantes de pós-graduação. No ITA de São José dos Campos trabalham 4 doutores teóricos e 9 estudantes de pós-graduação. Na UNICAMP trabalham 15 doutores com posição fixa, dos quais 10 experimentais e 14 estudantes de pós-graduação. Na Universidade de Sorocaba (UNISO) temos um doutor experimental e um aluno de pósgraduação trabalhando em física nuclear e suas aplicações na área de ensaios não destrutivos. No Depto. de Física e Biofísica do Instituto de Biociências da UNESP de Botucatu existem 3 docentes doutores que trabalham com física nuclear e suas aplicações a medicina. Alem dos números citados, todos correspondentes a Universidades, existe o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), onde há atividades de pesquisa básica, aplicada e de instrumentação executados por 15 pesquisadores doutores experimentais, 37 estudantes de pós-graduação (experimentais) e 6 pós-docs, também experimentais.

No Estado do Rio de Janeiro existem quatro instituições com atividades em Física Nuclear, além dos centros de pesquisa da CNEN. O número de pesquisadores doutores que desenvolvem pesquisa em Física ou Engenharia Nuclear nestes centros é da ordem de 8 com 7 estudantes de pós-graduação nesta área. Esta informação foi dada pela Divisão de Aplicações Médicas e de Pesquisa (DIAMP) da CNEN. Em Niterói, a UFF possui 5 doutores, dos quais 3 experimentais, 4 pós-docs e 6 estudantes de doutorado. Na UFRJ do Rio de Janeiro trabalham 9 doutores teóricos e 13 estudantes de pós-graduação. No CBPF existem 4 doutores teóricos e 4 estudantes de pós-graduação e 2 pós-docs. Na UERJ também existe um grupo de teóricos, com 3 pesquisadores e 4 estudantes de pós-graduação. No CEFET/RJ há 2 professores teóricos.

Na região Centro-Oeste na Universidade Federal de Mato Grosso (Cuiabá) há 2 pesquisadores com 2 alunos trabalhando em Física Nuclear. Na IUNI há 1 pesquisador com 1 aluno em atividade de pesquisa em Física Nuclear.

Na região Sul existem centros de pesquisa em Física Nuclear no Paraná, Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Em Londrina, na UEL, são 7 doutores experimentais permanentes e 2 pós-docs, além de 5 estudantes de doutorado e 3 de mestrado experimentais e dois técnicos. No CEFET de Curitiba há 2 doutores experimentais e 3 estudantes. Em Guarapuava, na Unicentro, são 2 doutores experimentais permanentes. Em Toledo, na Unioeste, um doutor experimental permanente. Na UFSC de Florianópolis há 6 doutores teóricos e no Campus

Curitibanos mais 1, com 1 estudantes de pós-graduação e 1 pós-doc. Ainda em Santa Catarina, há 1 professor na Universidade Federal da Fronteira Sul, Campus de Chapecó. No Rio Grande do Sul, há 4 professores na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 4 na Universidade Federal do Rio Grande (FURG), 1 na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, 5 na Universidade Federal de Pelotas , 1 na Unipampa e 2 na Universidade de Caxias do Sul, todos teóricos. O RS conta ainda com 2 pós-docs e 13 estudantes de pós-graduação atuando na área de física nuclear, com ênfase na física de hádrons.

No Nordeste, em Ilhéus, Bahia, na Universidade Estadual de Santa Cruz existe um grupo de 7 pesquisadores doutores com 8 alunos de pós-graduação. Eles tem atividades em física nuclear básica teórica e física nuclear aplicada experimental e estão desenvolvendo infraestrutura local. Na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), em Juazeiro, Bahia, há 2 pesquisadores, um teórico e um experimental trabalhando em instrumentação nuclear. Também há um pesquisador teórico em atividade na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, 2 na Universidade Federal de Campina Grande e um na Universidade Estadual da Paraíba, com alguns estudantes.

No Norte, na Universidade Federal de Roraima, existe um pequeno grupo teórico de Astrofísica nuclear formado por um pesquisador doutor e 3 estudantes de pós-graduação que estudam matéria hadronica no interior de estrelas de nêutrons.

O quadro abaixo procura fazer um sumário dos dados regionais acima apresentados.

Sudeste

Exp. Teo

Sul Exp. Teo

Norte e

Nordeste

Exp. Teo

Oeste
ExpTeo

Centro- Totais

Doutores c/posição permanente

71 53 12 255 9 1 2 = 178
Pós-docs 16 152
-- -- -- --= 36
1 76 1 244 9 1 2 = 238

Pósgraduandos

TOTAL GERAL

TOTAIS 198 144 25 52 9 18 2 4 452

A formação de recursos humanos na área de Física Nuclear é de grande importância para que o país continue a dominar a tecnologia nuclear. Assim sendo, a parte educacional desempenha um papel importantíssimo dentro das atividades em Física Nuclear, cuja área apresenta características que a distingue das outras áreas da física: um forte componente experimental, aplicado e tecnológico e que requer uma sólida formação em física básica. O papel da física nuclear teórica nas nossas instituições deve ser também enfatizado, tanto na formação dos estudantes como na contribuição para a formulação de questões de fronteira, que por sua vez realimentam, em uma cooperação saudável, as atividades experimentais. É importante mencionar que a busca por novas tecnologias só pode ocorrer desde que a capacitação dos alunos esteja amparada nos fundamentos acima mencionados e portanto, natualmente inserida em programas de pós-graduação em fisica nuclear.

Os estudantes que trabalham dentro de um laboratório de Física Nuclear podem se envolver com o projeto, construção e manutenção de equipamentos experimentais sofisticados, além de utilizá-los para a pesquisa, tendo contato com a tomada de dados experimentais e interpretação dos resultados. Os estudantes aprendem técnicas modernas e fazem contribuições significativas para os programas de pesquisa. A excelente formação adquirida com essas atividades garante a geração dos futuros líderes científicos das ciências nucleares e de outras atividades de importância para o desenvolvimento tecnológico. A interação com outras áreas do conhecimento estará descrita mais adiante.

Exemplificando a formação de um físico experimental que trabalhe com aceleradores, um estudante de pós-graduação nesta área desenvolve know-how em desenvolvimento de novos materiais (para a construção de detectores), de informática (para a aquisição e tratamento de dados), de eletrônica rápida, de ultra-alto vácuo etc. Estes conhecimentos serão de grande valia no desenvolvimento do nosso parque tecnológico de ponta.

Para os próximos cinco anos há uma intensa necessidade de contratação dos pós-doutores atualmente existentes, e de um número apreciável de novos doutores. Em face do número grande de instituições e do tamanho variado dos grupos de pesquisa estimamos que a área necessita de 10 a 15 contratos novos/ano, 70% deles na área experimental.

Os vários desenvolvimentos tecnológicos que têm origem na pesquisa em Física Nuclear desempenham um papel importante em um número imenso de aplicações práticas. A energia nuclear constitui-se numa fundamental componente da política energética, sendo que o desenvolvimento de novos conceitos em reatores de fissão poderá resultar em reatores ainda mais eficientes e seguros. Técnicas nucleares vêm sendo largamente aplicadas em diagnóstico e tratamento de doenças, por meio da Radiologia Diagnóstica, Radioterapia e Medicina Nuclear. Para citar apenas alguns dentre os muitos exemplos: terapia de câncer com prótons ou com feixes de íons pesados (12C, por exemplo), imagens por ressonância magnética, tomografia por emissão de pósitrons (PET) para gerar imagens de funções do cérebro, uso de iodo radioativo como traçador do funcionamento da tireóide. Os radioisótopos também são utilizados como traçadores em pesquisas relacionadas aos mais variados campos como Genética, Fisiologia, Botânica, etc. Na agricultura, novas variedades de plantas com características melhoradas vêm sendo criadas por meio do processo de mutação induzida pela radiação. A excepcional sensibilidade das técnicas nucleares analíticas tem sido utilizada para o estudo estratégico do meio ambiente, como em pesquisas de poluição do ar, bem como em Arqueologia, por exemplo, na datação de objetos, em Biologia, Química, Odontologia, etc. O uso de aceleradores nucleares também encontra importantes aplicações na indústria. Por exemplo, feixes de partículas carregadas e raios gama são utilizados na esterilização de alimentos, na determinação da composição e propriedades de materiais, etc. Além disso, o desenvolvimento da pesquisa em Física Nuclear, por meio de novas e sofisticadas técnicas experimentais, também propicia o desenvolvimento de inovações tecnológicas não propriamente na área de Física Nuclear. Assim, inovações em tecnologia do vácuo, em criogenia, etc, muitas vezes decorrem da pesquisa em Física Nuclear. Com o crescente desenvolvimento de tecnologias, espera-se que novas e importantes aplicações continuem surgindo, consolidando cada vez mais a contribuição da Física Nuclear para o desenvolvimento e bem estar da sociedade. A figura 1 é um esquema ligando a Física Nuclear Básica, sua Instrumentação e algumas de suas diversas aplicações. Adiciona-se a este esquema a sub-área em rápido crescimento no país que é a de caracterização de objetos arqueológicos, de arte e do patrimônio cultural por métodos atômicos e nucleares, com ou sem o emprego de aceleradores. Outra sub-área que deve ser acrescentada é a de caracterização não-destrutiva de materiais envolvendo técnicas com aceleradores e metodologias com raios X e gama (composição química elementar, imageamento 3D, propriedades estruturais, etc.)

Fig 1 – A Física Nuclear e algumas de suas aplicações

Para o desenvolvimento de projetos experimentais em Física Nuclear é necessário constantemente o projeto e construção de equipamentos de ponta, que serão os embriões que contribuirão significativamente para o desenvolvimento do parque de instrumentação científica do país, desde avanços significativos em áreas como eletrônica e novos materiais, chegando a equipamentos supercondutores. O desenvolvimento da informática nacional teve início em laboratório de Física Nuclear Básica.

Claramente, a importância da Física Nuclear para o conhecimento básico da natureza, sua relevância na produção de energia, sua abrangência interdisciplinar e a ampla gama de aplicações práticas em tão diferentes áreas, a torna uma área de extrema importância estratégica para o país.

O Laboratório Aberto de Física Nuclear (LAFN) é o único laboratório no Brasil com acelerador voltado à pesquisa básica em Física Nuclear e produzindo feixes estáveis e radioativos com energias maiores que a barreira Coulombiana, tornando possível o estudo dos efeitos da interação nuclear. Na área de estrutura e dinâmica nuclear e astrofísica nuclear, mesmo laboratórios de baixa energia, como o nosso LAFN, podem contribuir significativamente. Existem atualmente no mundo 30 laboratórios em atividade com aceleradores de energia comparável a nossa, mas destes apenas 10 possuem feixes radioativos. O LAFN é localizado no Departamento de Física Nuclear do Instituto de Física da USP e tem como principal equipamento o Acelerador eletrostático Tandem Pelletron 8UD que permite produzir feixes de íons leves e pesados com energias até 3-5 MeV/nucleon e conta com um grande complexo de instalações que atende a um expressivo conjunto de pesquisadores e estudantes de mestrado, doutorado e pós-doutorado, além de programas de iniciação científica. Nos últimos 10 anos os resultados das atividades do LAFN correspondem a 57 teses de mestrado e doutorado, 96 publicações em revistas indexadas e 59 contribuições a conferencias, publicadas em revistas indexadas. Estes trabalhos foram todos realizados no LAFN com uso de seus equipamentos. Os equipamentos periféricos mais importantes do LAFN, instalados na área experimental são:

3.1.1.1.a. Em 2004 foi instalado o sistema RIBRAS (Radioactive Íon Beams Brasil), para a produção de feixes radioativos de núcleos leves, tais como 6He, 7Be, 8Li, 8B, 10Be, na investigação da estrutura de núcleos exóticos e na investigação de reações de interesse astrofísico. Ele consiste de dois solenóides supercondutores de campo magnético máximo de B=6.0T, montados em série.O feixe primário estável do Acelerador Pelletron bombardeia um alvo (primário) para produzir os feixes secundários de núcleos radioativos a partir de reações de transferência de poucos nucleons, que são selecionados pelos solenóides.

3.1.1.1.b. Uma câmara de espalhamento de grande porte. O conjunto de detectores instalados nela são formados por telescópios triplos que permite a investigação de escalas temporais de reações nucleares e reações fora do plano.

3.1.1.1.c. Espectrômetro SACI-PERERE, que consiste de 4 detectores gama de Germânio Hiperpuro dotados de supressores Compton, e 1 detectores cintiladores plásticos tipo phoswhich (∆E-E) dispostos com a geometria de um dodecaedro, cobrindo um ângulo sólido total de detecção de partículas carregadas próximo de 4.

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