Violência e negociação entre os atores no cotidiano das escolas públicas de Araçoiaba da Serra/SP

Violência e negociação entre os atores no cotidiano das escolas públicas de...

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Pedro Luiz Dal Boni

Sorocaba/SP 2010

Pedro Luiz Dal Boni

Dissertação apresentada à Banca Examinadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Sorocaba/SP, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Educação.

Orientador:Prof. Dr. Hélio Iveson Passos Medrado.

Sorocaba/SP 2010

Ficha Catalográfica

D139vViolência e negociação entre os atores no cotidiano das escolas

Dal Boni, Pedro Luiz públicas de Araçoiaba da Serra/SP / Pedro Luiz Dal Boni. -- Sorocaba, SP, 2010. 186 f. : il.

Orientador: Prof. Dr. Hélio Iveson Passos Medrado Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade de Sorocaba, Sorocaba, SP, 2010.

1. Violência. 2. Violência na escola. 3. Violência na escola –

Prevenção. 4. Escola pública – Araçoiaba da Serra (SP). I. Medrado, Hélio Iveson Passos, orient. I. Universidade de Sorocaba. II. Título.

Aos meus pais, verdadeiros heróis, principalmente meu querido Pai falecido no início do presente ano, minha querida esposa, companheira de todas as horas em especial, pela atenção e paciência e a minha filha Alice, uma princesinha que preenche meu viver.

Preliminarmente ao Criador Supremo do

Universo, pela força, saúde e garra que me transmite para a superação de obstáculos.

Aos mestres: Prof. Dr. Hélio Iveson

Passos Medrado pela paciência e atenção , Prof. Dr. Romário de Araújo Mello e Profª. Dra. Eliete Jussara Nogueira pelo carinho, competência e seriedade com que transmitem seus conhecimentos e o fazem com amor à profissão.

Aos colegas de classe pela companhia fraternal e amizade cativada durante o curso e a todas as pessoas que de uma forma direta ou indiretamente me auxiliaram na elaboração desta dissertação.

A verdadeira medida de um homem não é como ele se comporta em momentos de conforto e conviniência, mas como ele se mantém em tempos de controvérsia e desafio. Martín Luther King.

A pesquisa contempla um estudo sobre as violências concreta, simbólica e intermediária produzidas no cotidiano das instituições escolares públicas de ensino fundamental e médio no município de Araçoiaba da Serra-SP. Destacamos as violências reproduzidas pela escola e seus agentes – professores, diretores, alunos e funcionários. Partimos do pressuposto que não existe uma violência, mas um conjunto de violências que precisa ser contextualizado. Nucleada por abordagens interdisciplinares a pesquisa se propõe a examinar a habilidade dos atores do cenário escolar em negociar com os atos de violência no ambiente escolar. Bourdieu, Charlot, Foucault, Maffesoli constituem fortes referenciais teóricos metodológicos; Tocqueville subsidia nossas reflexões a partir da concepção que conflitos são inerentes a qualquer organização social e, sempre, existiram formas pacíficas de encaminhamento de soluções. Portanto, a violência é passível de negociação. Na primeira parte da pesquisa discutimos a dificuldade da conceituação sobre violências concreta, simbólica e intermediária, pois se trata de um termo polissêmico, e defendemos que toda e qualquer forma de violência deva ser contextualizada, sob pena de incidirmos numa limitação conceitual. Na segunda parte examinamos os resultados dos questionários aplicados nas treze escolas públicas do município de Araçoiaba da Serra-SP e as certezas provisórias apontaram que existe negociação com os atos de violência ocorridos nas escolas, contrariando a tese de que as instituições escolares no Brasil se utilizam corretivos violentos (medidas disciplinares) no trato com a violência.

Palavras chave: Cotidiano escolar. Negociação. Violência escolar.

The research contemplate a study about the concret, symbolic and intermediary violences produced in everyday of institutions schools publics of teaching essential and medium of Araçoiaba da Serra-SP. Detachment the violences reproduced by scholl and his agents - teachers, directors, students and servants. Start from the presumption that no exist a violence, but a complex of violences that need context. Nuclear by approach interdisciplinaries the research whether to examine the ability of actors of scholl scene into bargain with the violents acts over element scholl . Bourdieau, Charlot, Foucault and Maffesoli constitute strongs reference theoretical methodological; Tocqueville subsidize ours reflexions at depart of conception that conflicts are present at any organization social and, always, exist shapes peaceable of route of solutions. Hence, the violence is passivity of bargain. In first part of research discuss at difficulty of concept about concret, symbolic and intermediary violences, for whether a controversial term, and defend that all and any form of violence must have need context, under nib of incident in concept limitation.In second part exam the result of questionnaires painstaking in thirteen public scholls of borough of Araçoiaba da Serra-SP and the certainty provisionals point that exist bargain with the violent acts occur in scholls, against the thesis of in institutions schools of Brazil whether utilize correctives violents ( measures disciplinaries) over treat with the violence.

Key Words: Everyday School. Bargain. Violence school.

Figura 1Conhecimento de violência na visão dos diretores
Figura 2Negociação com os atos de violência na visão dos diretores
Figura 3Ações realizadas para melhorar as relações no ambiente escolar na visão
Figura 4Conhecimento de violência na visão dos funcionários
Figura 5Negociação com os atos de violência na visão dos funcionários
Figura 6Ações realizadas para melhorar as relações no ambiente escolar na visão
Figura 7Conhecimento de violência na visão dos professores
Figura 8Negociação com os atos de violência na visão dos professores
Figura 9Ações realizadas para melhorar as relações no ambiente escolar na visão

LISTA DE ILUSTRAÇÕES dos diretores dos funcionários dos professores

Figura 10 Conhecimento de violência na visão dos alunos Figura 1 Negociação com os atos de violência na visão dos alunos Figura 12 Ações realizadas para melhorar as relações no ambiente escolar na visão dos alunos

1.INTRODUÇÃO1
2.Violência: conceito contexto17
2.1.A escola e sua origem29
2.2. Escola e violência35
2.3. Violência escolar43
2.4 A violência na concepção dos sociólogos e filósofos franceses56
2.5 Bourdieu e a violência simbólica56
2.6. Bernard Charlot e a concepção de violência60
2.7.A concepção Foucaultiana sobre violência62
3 A interdisciplinaridade68
4 A negociação73
5 Metodologia82
5.1 A pesquisa82
5.2 O cenário83
5.3. Tipo de pesquisa83
5.4 Coleta de dados84
5.5 A amostragem85
5.6 Critérios de inclusão e exclusão86
5.7 As escolas pesquisadas87
5.8 Caracterização das escolas87
6 Os resultados da pesquisa94
7 Discussão geral142
8.Certezas provisórias157
Referências160
Apêndice A – Questionário164
Apêndice B – Termo de consentimento esclarecido166
Apêndice C – Figuras dos diretores167
Apêndice D – Figuras dos professores172
Apêndice E – Figuras dos funcionários177

1 1 INTRODUÇÃO

Esta pesquisa aborda um estudo sobre as violências concreta, simbólica e intermediária produzidas no cotidiano das instituições escolares públicas de ensino fundamental e médio no município de Araçoiaba da Serra-SP. Destacamos as violências reproduzidas pela escola e seus agentes - professores, diretores, alunos e funcionários.

Partimos do pressuposto que não existe uma violência, mas um conjunto de violências que precisa ser contextualizado. Nucleada por abordagens interdisciplinares, a pesquisa se propõe examinar a habilidade dos atores do cenário escolar em negociar com as manifestações de violência no ambiente escolar.

A abordagem da questão contempla a interdisciplinaridade como recurso metodológico e, como postura do pesquisador e como referenciais teóricometodológicos pautamo-nos em estudos de Bourdieu, Charlot, Foucault e Maffesoli; Tocqueville subsidia nossas reflexões a partir da concepção que os conflitos são inerentes a qualquer organização social e, de que sempre, existiram formas pacíficas de negociação.

punidos

Por vezes, a escola faz uso de procedimentos violentos (ações disciplinares) para combater a própria violência, adotando posturas inadequadas e ineficazes para lidar com o problema, valendo-se de posturas autoritárias que levam à vigilância e punição. Segundo Guimarães (1996a), as técnicas disciplinares fazem com que as pessoas aceitem o poder de punirem e serem punidos, tornando essa prática natural e legítima, em que cada qual, nas suas respectivas posições, exerce um determinado tipo de poder, ou seja, todos vigiam e punem, ao mesmo tempo em que são vigiados e

Pautados nos estudos de Foucault, podemos afirmar que o ambiente escolar vem a assemelhar-se aos manicômios, às prisões, em nada evidenciando a real função da escola, de promover cultura e formar cidadãos, uma vez que, ao tratar da violência, aumentam-se os muros da escola, instalam-se câmeras de vigilâncias, solicitam-se reforços policiais e por vezes recorre-se aos encaminhamentos ao conselho tutelar, à polícia, à direção e não raras vezes, à transferência do aluno como formas infrutíferas de resolver o problema da violência. Estudos realizados pelo Grupo Interdisciplinar de Pesquisa – Podis (Poder e Disciplinamento nas Instituições Escolares de Sorocaba-SP) – Programa de Mestrado em Educação - Uniso, o qual estuda as violências concreta, simbólica e intermediária nas escolas públicas de Sorocaba-SP e as formas de negociação com os atos de violência, apontam que as instituições e políticas públicas insistem nas diferentes estratégias de eliminação dos problemas: a cura pela assepsia social, a extirpação pura e simples dos problemas sociais, por meio dos conhecidos corretivos violentos que muitas vezes, são mais violentos que as ações que se pretendem combater.

No entanto, nossas reflexões apontam que as aplicações de medidas disciplinares para coibir os atos de violência não surtem os desejados efeitos, também a miséria, os fatores sociais, apesar de serem pontos fecundos para o desenvolvimento da violência, não são a causa principal, pois entendemos que toda e qualquer forma de violência deva ser contextualizada, e uma análise que não contemple o contexto da situação, tais como os aspectos socioeconômicos, políticos e culturais, negligencia a investigação.

Outro fator importante a considerar consiste no fato de que os professores e as instituições não percebem que também são produtores de violência e, para estes, a violência é produzida pelo criminoso, e a questão da violência simbólica não se demonstra muito clara na percepção dos professores, diretores, funcionários e alunos que não se reconhecem como produtores de tal violência, banalizando a produção da mesma.

No entanto, não podemos censurar os atores do cenário escolar, pois até as políticas públicas procuram tratar a violência como assepsia social, como doença e um mal a ser combatido.

Um estudo sobre violência, não teria sentido, se não fosse abordada a semântica o termo “violência”. Verificamos a polissemia do termo violência, entretanto, apesar da complexidade do termo e da dificuldade de conceituação, existe um consenso básico de que todo ato de agressão – física, moral, institucional – que tenha como alvo a integridade do(s) indivíduo(s) ou grupo(s) é considerado ato de violência segundo

Abramovay (2004). Vislumbramos que a violência concreta é a comumente conhecida, sendo pouco entendida a violência simbólica, para cuja análise nos centramos nos estudos de Bourdieu (1998), sem no entanto nos esquecermos do contexto que envolve os atos de violência a serem investigados para analisá-la.

Examinamos a violência nas instituições escolares; analisamos as violências concreta, simbólica e intermediária; conceituamos negociação e defendemos a postura interdisciplinar ao examinarmos a habilidade dos professores, diretores, funcionários e alunos em negociar com os atos de violência ocorridos nas instituições escolares.

Ao analisarmos violência e negociação, encontramos pesquisas realizadas por

Abramovay (2004), onde são apontadas atitudes e experiências positivas nas escolas pesquisadas em que houve negociação com os atos de violências, as quais, a referida autora chamou-as de escolas inovadoras.

Quanto ao conceito de negociação, buscamo-la em Tocqueville (1977), que enfatiza ser possível contemporalizar e fazer concessões com a violência; também nos estudos de Freire (2007), em Pedagogia da autonomia, encontramos exemplos de atitudes negociadas pela relação de mediação, diálogo e comunicação entre professores e alunos.

A análise dos atos de violências e dos mecanismos utilizados pelos agentes do cenário escolar para lidar com a mesma foi contemplado no universo metodológico constituído por treze escolas públicas de Araçoiaba da Serra-SP, onde a pesquisa de campo se realizou, pautada numa postura metodológica interdisciplinar do pesquisador, compreendendo doze escolas municipais e uma estadual, sendo excluídas as escolas de ensino privado e creches; essas instituições atendem uma clientela heterogênea e localizam-se nas áreas urbana e rural do município.

Identificamos os perfis dos atores, os atos de violência, suas manifestações, o trato com as diferenças, se a escola produz violência, os iniciadores dos atos e as formas de negociações; para essa verificação aplicamos questionário aos professores, funcionários e alunos; ainda realizamos entrevistas com os diretores, através dos quais analisamos as formas de violência que afligem as escolas públicas de Araçoiaba da Serra-SP. Examinamos também quais medidas estão sendo adotadas por seus professores, diretores, funcionários e alunos para tratar com a violência. Verificamos, então, nossa hipótese de trabalho, ou seja, a habilidade dos agentes que exercem papéis definidos na escola em tratar os atos de violência, seja negociando ou aplicando corretivos também violentos para coibi-la.

Analisamos como os interlocutores tratam com o exercício das diferenças, a postura dos mesmos, se possuem as visões do inconcluso, a ruptura com a fragmentação do conhecimento e o cerco epistemológico. Esses pressupostos da pauta interdisciplinar que orientam a pesquisa.

A Justificativa do estudo prende-se ao fato de Araçoiaba da Serra-SP ser uma cidade pequena, contando atualmente com aproximadamente vinte e quatro mil habitantes, segundo dados do último Censo (2000). Além disso, por ser uma cidade acolhedora vem atraindo moradores da Capital e cidades vizinhas em busca de melhor qualidade de vida. Felizmente, os índices de criminalidade ocorridos no município não ocupam espaços na imprensa, salvo raras exceções, mas a questão da violência não é novidade, sempre faz parte de qualquer sociedade.

A presente pesquisa tem como objetivos gerais: estudar a violência, conhecer as escolas públicas e analisar as formas de violência que atingem tais escolas. Já os objetos específicos constituem-se no levantamento das ações que se manifestam sob forma de negociação com a violência escolar.

Abordamos a semântica do termo violência e suas diferentes conceituações, no sentido léxico, sob a ótica da psicanálise, na conceituação de Debarbieux (2002) e Chauí (1997), tendo em vista a polissemia do termo, constatando que o conceito básico e do senso comum de violência é aquele que apresenta a violência sob a forma concreta ou física, mais frequente em nosso cotidiano, e ponderamos que qualquer tentativa de conceituar a violência implica numa limitação conceitual, por isso, defendemos que toda e qualquer forma de violência deva ser contextualizada.

Por tratarmos de um estudo das violências concreta, simbólica e intermediária nas escolas públicas do município de Araçoiaba da Serra-SP, julgamos necessário uma conceituação de escolas e sua origem. Para isso, valemos especialmente dos estudos de Silva Jr.; Ferreti (2004) e Saviani (2007). Observamos que os primeiros autores enfatizam que a escola originou-se na Modernidade e o segundo, na Antiguidade. Para a conceituação de escola, utilizamos os apontamentos de Silva (1986), no Dicionário de Ciências Sociais e para o conceito léxico, os apontamentos de Ferreira (1986).

Escola e violência é o tema também abordado na pesquisa, onde a miséria e a pobreza, por vezes, são apontadas como causas da violência e atreladas às políticas públicas que criminalizam a pobreza. Entendemos, porém, que as referidas causas constituem-se num campo fértil para a proliferação da violência, mas não se constitui a causa única propriamente dita e defendemos a contextualização das situações que envolvem a violência no cenário escolar. Partimos do pressuposto de que a escola, através de seus agentes, aplica corretivos violentos para tratar a violência, pautados em encaminhamentos dos alunos à Diretoria, ao Conselho Tutelar e à Polícia. Neste contexto, defendemos a negociação com os atos de violência ocorridos no interior das escolas, através de condutas interdisciplinares pautadas no saber tratar com o exercício das diferenças, na não fragmentação do conhecimento e na visão do inconcluso.

Analisamos a violência escolar e ressaltamos as pesquisas realizadas por

Abramovay (2004), em 14 capitais brasileiras, onde aponta que a violência afeta a qualidade de ensino, comprometendo a formação profissional, sendo também abordada a política de tratamento da violência por parte das escolas analisadas. A autora considera inovadoras, as escolas que possuem capacidade de negociar com os atos de violência ocorrida no ambiente escolar.

A violência simbólica é analisada, e nos valemos dos estudos de Bourdieu (1998) para estudá-la; verificamos que se trata de uma violência imperceptível, revestida de uma relação de poder, onde o Estado é apontado como o maior produtor de referida violência. Segundo esse autor as escolas públicas, por se tratarem de instituições mantidas por órgãos estatais, também são produtoras da referida violência, no entanto, muitas vezes os atores do cenário escolar não se percebem como produtores dela.

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