Violência contra as Mulheres

Violência contra as Mulheres

(Parte 1 de 3)

(English Vol.20, No1, september,2002) Novembro 2002

Violência contra as Mulheres: Efeitos sobre a Saúde Reprodutiva

Milhões de meninas e mulheres estão em situação de violência de gênero e sofrem suas conseqüências, devido às desigualdades nas relações de gênero em muitas sociedades. A violência contra as mulheres (freqüentemente denominada violência de gênero) representa uma grave violação aos direitos humanos das mulheres. Pouca atenção, no entanto, tem sido dada às graves conseqüências do abuso sobre a saúde e às necessidades de saúde, tanto das mulheres quanto meninas. As mulheres que sofreram violência física, sexual ou psicológica podem ter uma série de problemasdesaúde,muitasvezesemsilêncio.Sãomenossaudáveis físicaementalmente,sofremmais lesões e utilizam mais os serviços de saúde do que as mulheres que não passaram por situações de violência.

Mulheres de todas as idades podem estar em situação de violência e isto se deve, em parte, ao seu limitadopodersocialeeconômicocomparadocomodoshomens.Emboraoshomenstambémpossam ser vitimas de violência, a violência contra a mulher é caracterizada por sua alta prevalência dentro da própria família, aceitação pela sociedade e seu grave e/ou prolongado impacto sobre a saúde e sobre o bemestardasmulheres.AsNaçõesUnidasdefiniramaviolênciacontraamulhercomo“qualqueratode violência baseada no gênero que resulta, ou que provavelmente resultará em dano físico, sexual, emocionalou sofrimentopara as mulheres,incluindoameaça a tais atos, coerção ou privaçãoarbitrária da liberdade, seja na vida publica ou privada” 1

Os/as profissionais de saúde têm a oportunidade e a obrigação de identificar, tratar e educar as mulheres em situação de violência.Através do apoio a profissionais e clientes, as instituições de saúde podem contribuir significativamente para a abordagem do problema da violência contra a mulher. O desenvolvimento e a institucionalização de políticas nacionais de saúde, protocolos e normas para atenção a casos de violência dão visibilidade ao problema da violência de gênero e ajudam a garantir que seja oferecido um atendimento de qualidade às sobreviventes.

Este número do Outlook aborda as conseqüência da violência contra a mulher sobre a saúde reprodutiva.Apresentaexemplosextraídosde pesquisase programasbem sucedidos,e discutea forma pela qual o setor de saúde pode desempenhar um papel ativo na prevenção e tratamento da violência contra a mulher.

A Violência Contra a Mulher é um problema freqüente?

Em termos globais, pelo menos uma a cada três mulheres sofrem alguma forma de abuso baseado nas desigualdadesde gênerodurantesuasvidas.2Aviolênciacontrameninase mulherespodecomeçar antes do nascimento e perdurar durante toda a vida até a velhice. (Veja Figura 1).As mulheres relutam emdiscutiraviolência,epodemaceitá-locomopartedeseupapelfeminino.Mesmopresumindoqueos

dadosatuaissubestimemaprevalênciadaviolênciacontraamulher, milhões de meninas e mulheres em todo o mundo são submetidas a violência de gênero e sofrem suas conseqüências.

Asformasmaiscomunsdeviolênciacontraamulhersãooabuso físico, sexual e emocional praticado pelo marido ou parceiro.As pesquisasindicamque de 10 a 58% das mulheresjá passarampor situaçõesde violênciacometidapor um parceiroao longo de suas vidas.(Veja Figura 2).2 Os resultados preliminares de um Estudo daOrganizaçãoMundialdeSaúde(OMS)realizadoemváriospaíses sobre a Saúde da Mulher e Violência Doméstica indicam que em algumas partes do mundo até metade das mulheres já experimentaramdealgumaformadeviolência.5

Descrevemos abaixo várias formas de violência contra a mulher e sua prevalência:

• Em algum momento de suas vidas entre 12 e 25% das mulheresjáforamforçadasporumparceiroouex-parceiro a terem relações sexuais.6

• O estupro como ato de uma guerra é utilizado hoje em dia para desequilibraras comunidades e perpetuar a “limpeza étnica”. Da mesma forma, reconhece-se atualmente que a violênciasexualcontramulheresemcamposderefugiados e centros para mulheres desabrigadas é um problema importante.

• A iniciação sexual forçada e o abuso sexual de crianças são comuns em todo o mundo. Estudos demonstram que 40%dasmulheresnaÁfricadoSul,28%naTanzâniae7% naNovaZelândiarelataramquesuaprimeirarelaçãosexual foiforçada.3

• Umareleituradosestudosrealizadosem20paísesverificou que a prevalência do abuso sexual de meninas variava de 7 a 36%.7 Na maioriados casos, o agressorera uma pessoa conhecidadavítima.3

• OcasamentoprecocedasmeninasémaiscomumnaÁfrica

Sub-Saariana e no Sul da Ásia. Os dados oficiais sobre casamentos precoces (abaixo de 15 anos) são limitados, mas os estudos indicam que em partes da África Oriental e Ocidental, por exemplo, os casos de casamentos aos 7 ou 8 anos são comuns; em alguns lugares no norte da Nigéria, 1 anos é a idade média para o casamento.8 O casamento precocelimitaas oportunidadeseducacionaise outrostipos de oportunidades para as meninas, e, muitas vezes, leva à gravidez precoce e ao aumento dos riscos para a saúde.

• Abortosexo-seletivo,infanticídiofeminino, e a negligencia sistemática das necessidades nutricionais e de saúde das crianças do sexo feminino contribuem para uma taxa de mortalidademaiorentreasmeninas.Estesfatoresresultaram emumaestimativade60a100milhõesdemulheresemeninas “desaparecidas” em todo o mundo. 3

• Em algumas regiões, as mulheres são afetadas por práticas tradicionais como as mortes relacionadas ao dote, aspersão com ácido e assassinatos “em nome da honra”.

• Alguns profissionais de saúde participam de formas de abuso apoiadas na cultura, como exames para verificar a virgindade, partos cesáreos forçados, e mutilações da genitáliafeminina.(vejacaixanapágina4).9,10

• O tráfico de mulheres e meninas para trabalhos forçados e exploração sexual é um outro tipo de violência de gênero contra

Figura 1. O Ciclo da Violência Contra a Mulher e seus Efeitos sobre a Saúde*

Antes do nascimento Velhice

Violência contra idosas

Período neonatal Idade Reprodutiva

Infância Adolescência

Efeitos sobre a Saúde

Mortalidade infantil e neonatal Abuso de drogas Baixo peso ao nascimento Suicídio Saúde mental prejudicada Problemas ginecológicos Saúde física prejudicada Gravidez não desejada Lesões Complicações da gravidez Dor crônica Aborto sob condições de risco Problemas gastrointestinais Comportamento sexual de risco Estresse IST Depressão HIV/AIDS

Ansiedade

Aborto sexo-seletivo Violência contra idosas

Infanticídio feminino Negligência (cuidados de saúde, nutrição)

Assassinato em nome da honra Assassinato por dote

Violência conjugal Abuso sexual Homicídio Prostituição Tráfico de mulher

Assédio sexual

Prostituição forçada Tráfico de mulheres Abuso psicológico

Estupro

Abuso sexual MGF

Fatores que contribuem para a violência contra a mulher

A violência contra a mulher ocorre em todos os países, em todos os grupos sociais, culturais, religiosos e econômicos. No nívelsocial,a violênciacontraa mulheré maiscomumemculturas em que os papéis de gênero são estritamente definidos e impostos; onde a masculinidade é associada a dureza, honra ou dominância masculina; onde a punição de mulheres e crianças é aceita; e onde a violência é a forma padrão para resolverconflitos.2,1 Emborao abuso ocorra em todos os níveis socio-econômicos, a pobreza e o estresse a ela associado contribuem para a violência por parte do parceiro.1

Nos relacionamentos, o controle da riqueza e das decisões pelo homem e a instabilidade das relações estão fortemente associadasa violência.2 Numdeterminadomomentoacreditou-se que as mulheres que tinham muitos filhos corriam maior risco de abuso. As pesquisas atuais, entretanto, indicam que a violência doméstica aumenta o risco de as mulheres terem muitos filhos por limitarsuacapacidadedecontrolaromomentodasrelaçõessexuais e o uso de anticoncepcionais .12

Violência Contra a Mulher e Saúde Pública

As mulheres em situação de violência apresentam a saúde físic a e a saúde mental prejudicadas, mais lesões e maior necessidade de serviços de saúde do que as que não sofrem abuso. 4 O estudo da OMS realizado em vários países sobre Saúde da MulhereViolênciaDomésticaverificouqueasmulheresemsituação de violência no Brasil, Japão e Perú têm até duas vezes mais probabilidade de considerar seu estado de saúde atual como ruim ou péssimo.5

O impacto da violência de gênero sobre a saúde física pode serimediatoedelongoprazo.Asmulheresquesofreramagressores, entretanto, raramente buscam tratamento médico para o trauma agudo. Menos da metade das mulheres americanas que foram vítimas de abuso buscam tratamento para os ferimentos resultantes.4 Mesmo quando buscam tratamento, os problemas de saúde podem nunca ser atribuídos à violência. As sobreviventes de atos violentos muitas vezes demonstram comportamentos negativos para a saúde, incluindo uso de álcool e outras drogas. Dentre os problemas crônicos de saúde resultantes do abuso estão as dores crônicas (dores de cabeça e nas costas); problemas e sintomas neurológicos, como desmaios, convulsões; distúrbios gastrointestinais e problemas cardíacos.4

As mulheres agredidas freqüentemente vivem com medo e apresentam depressão, ansiedade e até mesmo a síndrome do estresse pós-traumático 4 Um estudo na América do Norte demonstrou que as mulheres agredidas têm três vezes mais probabilidades de apresentar síndrome do estresse pós-traumático do que as que não sofreram abusos. 4 O estudo da OMS em vários países verificou que as mulheres no Perú, Brasil,Tailândia e Japão que haviam sofrido abuso físico ou sexual por parte de seus parceiros tinham duas vezes mais probabilidades de pensaram em suicídio do que as mulheres que não haviam sofrido nenhuma forma de abuso. 5 Segundo pesquisas realizadas na Nicarágua, os filhos de mães agredidas podem apresentar níveis mais altos de mortalidade infantil.13Mesmoquenãosejamoalvodiretodoabuso,ascrianças quetestemunhamviolênciatêmmaiorprobabilidadedeapresentar

Efeitos Sobre a Saúde Reprodutiva

Asaúdereprodutivaesexualdasmulhereséclaramenteafetada pelaviolênciade gênero.Um estudorealizadonosEstadosUnidos verificouqueasmulheresqueeramagredidaspeloparceirotinham três vezes mais probabilidades de apresentarem um problema ginecológico do que as outras mulheres que não haviam sofrido este tipo de abuso.4 Estes problemas incluem dor pélvica crônica, sangramentooucorrimentovaginal,infecçãovaginal,dismenorreia, disfunçãosexual,doençainflamatóriapélvica,dornarelaçãosexual, infecçãourináriae infertilidade.

A violência sexual, especialmente a relação sexual com penetração forçada, pode causar trauma mental e físico.Além dos danos à uretra, vagina e ânus, pode causar infecções sexualmente transmissíveis (ITS), inclusive HIV/AIDS. Mulheres que relatam seremportadorasdo HIV podemtambémter sofridoviolência.4

Agravidezprecoce,muitasvezesconseqüênciadecasamentos forçados e precoces, pode levar a uma série de problemas de saúde que incluem os efeitos do aborto praticado sob condições de risco.As meninas com menos de 15 anos têm cinco vezes mais probabilidade de morrerem de complicação do parto do que as mulheres maiores de vinte anos.14 Elas enfrentam também maior risco de uma fístula obstétrica resultante de parto prolongado e obstruído.15

Aviolêncialimitaa autonomiasexuale reprodutivadamulher.

As mulheres que sofreram de violência sexual têm muito mais probabilidade de usar métodos anticoncepcionais clandestinamente, de interromper a anticoncepção por imposição do parceiro e de conviverem com um parceiro que se recusa a usar preservativos para prevenção de doenças.5 As sobreviventes de atos violentos têm maior probabilidade de adotarem comportamentos sexuais de alto risco, gravidez indesejada e de sofrerem de disfunção sexual do que as mulheres que não foram agredidas. 2 problemas de aprendizado, emocionais e comportamentais.12 Estas crianças apresentam também maior risco de se tornarem agressores ou de sofrerem abuso mais tarde.2

(Parte 1 de 3)

Comentários