16865099 - Coordenação - da - Qualidade

16865099 - Coordenação - da - Qualidade

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Produção, v. 17, n. 3, p. 471-485, Set./Dez. 2007471

Quality coordination: a proposal of structure and method for agri-food production chains

Resumo A realidade competitiva vivenciada pelas empresas desestimula que elas ajam de forma isolada, requerendo ações coordenadas com outras empresas da mesma cadeia. Por essa razão, a busca pela coordenação de cadeias de produção visando à melhoria da qualidade do produto e à redução dos custos associados às perdas da produção e aos custos de transação está se tornando uma prática mais comumente adotada por empresas que partilham o objetivo de adicionar valor e competitividade ao produto final da cadeia. Este artigo aborda o problema da coordenação da qualidade em cadeias de produção agroalimentares (CPAs). Com base em conceitos da revisão bibliográfica e de evidências empíricas, são propostos uma Estrutura (ECQ – Estrutura para Coordenação da Qualidade) e um Método (MCQ – Método para Coordenação da Qualidade) para a coordenação da qualidade em CPAs. Em algumas cadeias, a implementação da ECQ/MCQ vem sendo ilustrada bem como usada como alternativa técnica possível e confiável para coordenar e garantir a qualidade do produto final.

Palavras-chave Coordenação da qualidade, segurança do alimento, cadeia de produção agro-alimentar, gestão da qualidade.

Abstract Today’s reality prevents companies in general from planning or acting alone, requiring that they engage in coordinated action with others in the same production chain. For this reason, production chain coordination to improve product quality and reduction of production wastes and transactions costs is becoming a widespread practice to promote integrated management of companies that share the goal of adding value to the chain’s final product. This paper discusses the problem of quality in agri-food supply chains (ASC). Based on wide bibliography review, a structure (ECQ) and a method (MCQ) are proposed for the quality coordination in ASC. In some chains the ECQ/MCQ implementation has been studied and used as a possible and liable technical alternative to coordinate and assure the final product quality.

Key words Quality coordination, safety product, agri-food supply chain, quality management.

Coordenação da qualidade: proposta de estrutura e método para cadeias de produção agroalimentares

MIGUEL ANGEL AIRES BORRÁS JOSÉ CARLOS DE TOLEDO UFSCar

Miguel Angel Aires Borrás; José Carlos de Toledo

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A crescente preocupação com a segurança e a qualidade dos alimentos, como um dos principais fatores competitivos das cadeias de produção agro-alimentares (CPAs), exige que estas busquem mecanismos para melhoria da gestão da qualidade.

De um lado, para dar evidência à qualidade de seus produtos, garantindo que estes tenham as qualidades intrínsecas esperadas pelo consumidor e incrementando a qualidade percebida pelo mercado. De outro lado, melhorando a qualidade de conformação, buscando reduzir custos de falhas e de perdas ao longo da cadeia.

São vários os exemplos de registros de problemas econômicos e de saúde pública decorrentes da produção e consumo de alimentos contaminados em todo o mundo. Dentre os mais recentes e conhecidos problemas desse tipo, no setor agroindustrial, pode-se citar o mal da “vaca louca” (encefalopatia espongiforme bovina ou bovine spongiform encephalopathy – BSE).

O problema do mal da “vaca louca” teve sua origem na primeira metade da década de 1970, quando parte do rebanho britânico de gado bovino passou a ser tratado com dieta à base de carne e osso (RAMASAMY, 2004; HEIM; MUMFORD, 2005).

Porém, o primeiro caso registrado de contaminação com o agente da BSE surgiu em 1985, na Grã-Bretanha, tendo atingido seu ápice na década de 1990 (HEIM; MUMFORD, 2005).

Em 1996, provou-se cientifi camente que o mal da “vaca louca” poderia ser transmitido aos seres humanos através do consumo de carne contaminada pelo agente da BSE, causando a doença de Creutzfeldt-Jakob (BERG, 2004). Iniciado na Grã-Bretanha, em 2002 o mal da “vaca louca” já atingia toda a Europa, os EUA, o Japão e Israel (HEIM; MUMFORD, 2005).

Percebe-se, então, que a utilização de uma dieta contaminada com o agente da BSE na etapa de produção agropecuária gerou perdas para toda a cadeia de produção da carne de gado bovino e para as nações que abrigaram focos da doença, gerando perdas econômicas signifi cativas e a desconfi ança do consumidor, que passou a exigir maior segurança da carne consumida (BERG, 2004). Tal reação do mercado obrigou as cadeias de carne bovina, espalhadas em todo o mundo, a

A gestão tradicional se limita a ações no âmbito de empresas e hoje se observa a necessidade de coordenação da cadeia.

adotarem práticas de gestão que melhor garantissem a qualidade e segurança da carne produzida, como, por exemplo, a adoção da prática de identifi cação e rastreabilidade (HEIM; MUMFORD, 2005).

A qualidade do produto fi nal, bem como a efi ciência da

CPA em termos de desperdícios e de custos com perdas e retrabalhos, dependem de ações e práticas coordenadas entre segmentos e agentes e das transações de bens, serviços e informações na cadeia. Nesse contexto, evidencia-se a importância de gerenciar a qualidade de maneira coordenada ao longo das CPAs.

Os instrumentos tradicionais de gestão da qualidade se limitam a ações no âmbito das empresas, e observa-se a necessidade do desenvolvimento de métodos e ferramentas de apoio à coordenação da qualidade na cadeia como um todo, capacitando os agentes da cadeia a defi nir, receber, processar, difundir e utilizar informações de modo a implantar e gerenciar as estratégias da qualidade.

Este artigo tem como objetivo apresentar um modelo de gestão, desenvolvido a partir de evidências práticas e teóricas, constituído por uma estrutura e por um método para coordenação da qualidade, que auxilie nos processos de garantia e de melhoria da qualidade em CPAs.

Ainda que se reconheça a infl uência das características das transações e dos agentes no processo de coordenação de uma cadeia produtiva, a consideração de tais aspectos encontra-se fora do escopo deste artigo, o qual se limita a uma proposta de auxílio à melhoria da competitividade das cadeias, por meio da coordenação das práticas de gestão e de melhoria da qualidade realizadas por seus agentes.

O modelo apresentado é genérico para CPAs, devendo ser entendido como um modelo de referência que deve ser adaptado às especifi cidades de cada cadeia.

Segundo Boehlje et al. (1998), a motivação para coordenação de cadeias, a fi m de ganhar vantagem competitiva, se dá em três fases seqüenciais em busca de: a) melhoria na efi ciência e redução de custos; b) redução de riscos quanto à qualidade, quantidade e segurança do alimento; e c) satisfação das necessidades dos consumidores. Em todas essas motivações pode-se dizer que há a presença de algum aspecto da qualidade.

Assim, pode-se afi rmar que coordenar a qualidade ao longo de uma cadeia de produção implica em gerenciar informações referentes aos requisitos exigidos da qualidade do produto e da gestão da qualidade e ao grau de atendimento destes pelos agentes da cadeia. Tal gerenciamento deve ser estabelecido tanto para os agentes quanto

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Coordenação da qualidade: proposta de estrutura e método para cadeias de produção agro-alimentares para toda a cadeia, buscando a integração de todos os seus segmentos.

De fato, para Frohlich e Westbrook (2001) quanto mais amplo o grau de integração da cadeia de produção, melhores serão os seus indicadores de desempenho.

Além disso, Schiefer (2002) afi rma que a gestão da qualidade na cadeia de produção diz respeito ao fl uxo de informações sobre as características de produção, as características da qualidade, o controle do produto e dos processos e sobre o suporte a atividades de melhoria da qualidade.

Assim, neste artigo defi ne-se coordenação da qualidade em cadeias de produção como o conjunto de atividades planejadas e controladas por um agente coordenador, tendo por fi nalidade aprimorar a gestão da qualidade e auxiliar nos processos de garantia e melhoria da qualidade dos produtos ao longo da cadeia, por meio de um processo de aquisição, gestão e distribuição de informações, contribuindo para a melhoria da satisfação dos clientes e para a redução de custos e perdas na cadeia.

Baines e Davies (1998) e Ziggers e Trienekens (1999) listaram alguns dos resultados que podem ser alcançados com a garantia da qualidade numa CPA: a) aumento da probabilidade de fornecer produtos de qualidade por monitoramento, ação corretiva e melhoria contínua; b) habilidade de responder e controlar situações de emergência; c) habilidade para responder a requisitos de órgãos públicos e de consumidores; d) aumento da confi ança do consumidor com relação a toda a cadeia; e) adição de valor ao produto; e f) redução de custos totais da produção nos segmentos da cadeia.

A seção seguinte do artigo descreve a proposta da Estrutura e do Método para Coordenação da Qualidade (ECQ e MCQ).

A pesquisa descrita neste artigo teve como objetivo principal o desenvolvimento de uma proposta de método para coordenação da qualidade (MCQ), baseada numa revisão bibliográfi ca e na consulta a empresários e especialistas do setor. Essa pesquisa pode ser classifi cada como básica/ teórica quanto ao método utilizado, exploratória e descritiva quanto ao seu objetivo.

A pesquisa foi desenvolvida em três etapas: 1) Revisão bibliográfi ca: etapa mais longa da pesquisa; os dados e informações nela coletados serviram de base para as outras etapas da pesquisa. Como fontes de dados e informações foram utilizados livros, artigos científi cos, revistas, anais de congressos, leis e normas, páginas de Internet, visitas técnicas e entrevistas informais com especialistas. Devido ao caráter inovador da presente pesquisa, houve a necessidade de se pesquisar uma diversidade de temas: defi nições de qualidade, alimentos e assuntos afi ns; teorias de troca; teoria acerca da gestão de cadeias de produção; métodos de pesquisa; teorias de marketing; métodos e ferramentas da qualidade e outras teorias econômicas e de gestão, conforme Borrás (2005); 2) Elaboração do Método para Coordenação da Qualidade:

Nesta etapa, com base nos dados e informações levantados na etapa 1, defi niu-se o conceito de coordenação da qualidade, a Estrutura para Coordenação da Qualidade (ECQ) e a lógica de implantação e aplicação do Método para Coordenação da Qualidade (MCQ), além de se propor um tipo de estrutura para o agente coordenador; e 3) Validação e Ilustração: com o intuito de verifi car se a

ECQ e o MCQ são aplicáveis na prática, validou-se a ECQ e o MCQ por meio de um workshop realizado com 9 representantes de média gerência de 3 usinas sucro-alcooleiras e 4 produtores rurais fornecedores de cana-de-açúcar para as referidas usinas, localizadas na região de Sertãozinho-SP. De cada usina, reuniram-se representantes do departamento agrícola, do setor de produção e do setor de vendas, estes últimos tendo sido escolhidos para trazer à discussão a problemática do fornecimento dos açúcares granulado, invertido e líquido para outros segmentos desta cadeia agroalimentar. O workshop teve duração de 5 horas, e foi dividido em três partes: a) apresentação da ECQ e do MCQ, com duração de 1 hora; b) discussão da ECQ e do MCQ, com duração de 3 horas e c) preenchimento de questionário sobre a ECQ e o MCQ e discussão dos resultados, com duração de 1 hora. Neste artigo, o resultado do workshop apresenta-se na seção de validação do MCQ. Além desta avaliação, foram elaboradas duas ilustrações de aplicação da ECQ e do MCQ: uma para a cadeia de produção agroindustrial da maçã e outra para a cadeia de produção agroindustrial do queijo meia-cura.

A escolha de empresas do setor sucro-alcooleiro para a validação se deu por dois motivos: facilidade para reunir representantes de empresas líderes de mercado desta cadeia de produção e importância estratégica da indústria sucroalcooleira.

Todas as usinas escolhidas são gerenciadas com uma visão sistêmica da cadeia do açúcar, comprovada por visitas técnicas e entrevistas com gerentes dessas usinas, antes da execução do workshop.

Além disso, todas elas são certifi cadas pela ISO, possuindo os certifi cados ISO 9001:2000 e ISO 14000, além de já possuírem os sistemas de Análise de Perigos e Pontos Críticos de Controle (APPCC), Boas Práticas Agrícolas (BPA) e Boas Práticas de Higiene (BPH), implantados ou em fase de implantação em suas linhas de produção de açúcar.

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Todos os gerentes presentes no workshop haviam participado ou estavam participando dos processos de implantação e auditoria interna relativos a tais certifi cações. Essas características das usinas e dos gerentes foram importantes para garantir que todos possuíssem um nível mínimo de conhecimento e aplicação de sistemas da qualidade.

Havia entre os participantes um mínimo de reconhecimento de que a coordenação da qualidade na cadeia seria o próximo passo na busca de mais elevados patamares de capacidade competitiva.

Todos os gerentes que participaram do workshop tinham ao menos dez anos de experiência no cargo, com profundo conhecimento das práticas de produção aplicadas em suas respectivas áreas de atuação: agrícola, produção e vendas/ expedição.

A ausência de representantes do segmento de distribuição e de outras empresas compradoras de açúcar para elaboração de outros produtos alimentícios foi satisfatoriamente coberta pela presença dos gerentes de vendas das usinas, que possuíam forte relacionamento e conhecimento sobre os segmentos a jusante na cadeia.

Os produtores rurais escolhidos são graduados em administração ou em engenharia agronômica. Para uma validação confi ável da ECQ e do MCQ, o entendimento dos princípios teóricos e da lógica de funcionamento e implantação do MCQ, era de fundamental importância para a pesquisa.

A ECQ apresenta as funções básicas de: a) identifi car e desdobrar os requisitos da qualidade do produto, para satisfazer a qualidade demandada pelo mercado e pelo ambiente institucional; e b) defi nir, implementar e controlar processos de melhoria da qualidade do produto e de gestão da qualidade.

São quatro os elementos que formam a ECQ: a) a CPA, seus segmentos e agentes; b) os requisitos da qualidade do produto e da gestão da qualidade; c) o Método de Coordenação da Qualidade; e d) o agente coordenador (Figura 1).

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