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O Equilíbrio se rompe: A Grande Guerra O MUNDO DIVIDIDO: IMPÉRIOS EM 1914

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Na Primeira Guerra Mundial ( 1914 – 1918 ), o sistema de poder criado no Congresso de Viena entraria em colapso. Os principais fatores que levaram a "Grande Guerra" foram:

o Pangermanismo, isto é, as aspirações territoriais alemãs ampliadas pela ascensão ao poder, em1.

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1882, do Imperador Guilherme I, cujo projeto era a WELTMACHTPOLITIK ( Política de Poder Mundial ). Este objetivo germânico levou a uma "corrida armamentista" conhecida como a "Paz Armada". Berlim buscou, com êxito, formar um exército superior ao francês e uma marinha pelo menos igual à britânica. Uma verdadeira "corrida às tonelagens" passa a existir entre Inglaterra e Alemanha: navios cada vez mais pesados e artilhados. Agora, Berlim não só atemorizava a França, mas também a Grã – Bretanha, única nação detentora de uma "blue sea navy" ( "marinha de longo alcance" ). Toda essas ambições germânicas eram "legitimadas pelo mito da superioridade da cultura alemã, a única efetiva "guardiã dos valores do Ocidente"; a "Enferma do Levante" . As principais nações da Europa tinham o interesse de desmembrar o decadente Império Turco – Otomano, cujos recursos petrolíferos e seu domínio sobre áreas estratégicas do Oriente Médio atraíam a cobiça das grandes potências. O grau de enfraquecimento e corrupção do sultanato turco é explicitado pelo apelido a ele dado: o "Homem Doente da Europa"; o Pan-eslavismo e a "Monarquia Dual". A Rússia desde o século XVII, sonhava dominar a Europa do Leste em nome da "proteção" aos povos eslavos ali presentes. O grande obstáculo às pretensões de Moscou era a existência, na Europa Central, do Império Austro – Húngaro ( denominado de "Monarquia Dual" ), que exercia na região o papel de um "Estado Tampão", barrando as investidas russas. No entanto, Viena tinha um "calcanhar de Aquiles" – seu mosaico étnico. De fato, no Império habitavam germânicos, magiares, tchecos, croatas, eslovenos, poloneses, rutenos, além de outras inúmeras nacionalidades. Com exceção dos germânicos e húngaros, todas as outras minorias governadas por Viena eram eslavas e, portanto, muito suscetíveis à propaganda pan-eslavista. A Rússia fomentava um nacionalismo eslavófilo buscando "implodir" o Império Austro – Húngaro e assim tornar possível a presença dos súditos de Moscou na Europa Oriental; o "revanchismo" francês. Paris desejava se vingar do desastre que fora a batalha de Sedan, durante a "Guerra Franco – Prussiana", e recuperar as províncias carboníferas da Alsácia e Lorena. Em todo o território francês, corria o "slogan" – "não se esqueçam dos alemães";

A "Política das Alianças". Rompida a "Aliança dos Três Imperadores" ( Alemanha, Áustria e Rússia ), um acordo politicamente insustentável, pois Viena e Moscou eram potencialmente conflitantes, a França buscou fazer do governo de Moscou seu aliado, no que teve êxito. Assim, a Alemanha se viu cercada por um inimigo a oeste, a França, e outro a leste, a Rússia. Ao mesmo tempo, a Inglaterra e a França, após pequenas escaramuças, firmavam, em 1903, a "Entente Cordiale" ( o "Acordo Amigável" ) pela qual partilhariam amigavelmente a África do Norte. Surgiria, então, a "Tríplice Entente", agrupando Inglaterra, França e Rússia. Em represália, a Alemanha criou a "Tríplice Aliança", englobando os governos de Berlim, Viena e Roma. Na primeira década do século X, o equilíbrio multipolar era substituído por uma perigosa bipolarização. O Velho Continente estava em "pé de guerra";

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A competição industrial. A "Grande Guerra" teve também como causa a competição econômica entre a Alemanha, França e Inglaterra. Entre 1871 e 1900, o Reich germânico conheceu uma industrialização muito rápida. Isto pode ser comprovado se observamos o crescimento da siderurgia alemã – em 1870, a produção de aço da Alemanha era inferíor à da França; 30 anos depois, era superior à produção somada da Inglaterra e França. Além disso, ciente de que, pela falta de recursos naturais em abundância, não tinha condições de competir quantitativamente, Berlim optou pela "qualidade" de seus produtos. Seus manufaturados eram muito mais caros do que os franceses e ingleses, mas primavam pela excelente feitura. Nascia, então, o que até hoje subsiste: o mito da alta qualidade das máquinas alemãs. A agressividade industrial e comercial da Alemanha assustava os empresários franceses e britânicos. Em todo o planeta, proliferavam artigos germânicos

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Todas estas crises européias, aparentemente desligadas umas das outras, se fundiriam quando uma "reação em cadeia", gerada pela "questão balcânica", as transformaria em causas da conflagração iniciada em agosto de 1914. Nos Bálcãs, uma "potencia regional" – a Sérvia ( capital: Belgrado ) – desejava criar a "Grande Sérvia", reunindo sob o governo de Belgrado todos os sérvios da região. O grande obstáculo a esse sonho era o fato de que a Áustria anexara a Bósnia – Herzegovina, onde quase metade da população era de religião mulçumana, que convivia com uma enorme minoria sérvia e com uma presença de croatas relativamente pequena. Este diversificado cenário étnico era complicado por divergências religiosas, pois os sérvios são cristãos ortodoxos, ou seja ligados à Igreja Greco-Cismática, e os croatas são católicos. Agravando a situação, por si só já um "barril de pólvora", a Rússia, a maior potência eslava e ortodoxa do mundo, como não poderia deixar de ser, apoiava as aspirações sérvias. Além da identidade étnico – religioso, a Rússia, com a formação da "Grande Sérvia", passaria a ter bases navais no mar Mediterrâneo, concretizando, assim, o sonho da presença nos "mares quentes".

No Império Austro - Húngaro, certos segmentos da burguesia e da aristocracia propunham a

transformação da "monarquia dual" ( Viena e Budapeste ) numa "monarquia trial" ( que abrangeria Áustria, a Hungria e os povos eslavos balcânicos ). Obviamente, esta proposta era inaceitável para a Sérvia, pois dificultaria o projeto da "Grande Sérvia". Em junho de 1914, o herdeiro da Coroa austríaca, o Arquiduque Francisco Ferdinando - defensor do "trialismo" - visitou Sarajevo ( capital da Bósnia ). A motivação desta viagem era simples: passar em revista as tropas austríacas que ocupavam a Bósnia - Herzegovina. Jovens militantes do movimento "Jovem Bósnia", sociedade secreta de sérvios bosníacos favoráveis à "Grande Sérvia" e financeiramente sustentados pela organização terrorista sérvia denominada a "Mão Negra", levantaram a hipótese de que Francisco Ferdinando viria a Sarajevo no intuito de proclamar a "monarquia trial". Resolveram assassiná-lo. No dia 28 de junho, o estudante Gavrilo Prinzip, líder da "Jovem Bósnia", matou Francisco Ferdinando e sua esposa, a Baronesa Sofia. A Áustria acusou a Sérvia de ser a mandante do crime; Belgrado negou qualquer responsabilidade em relação ao assassinato do herdeiro do trono austríaco. Viena mobiliza tropas, a Sérvia chama seus reservistas e se prepara para a guerra. A Alemanha, aliada da Áustria, também mobiliza seus soldados e, simultaneamente, a Rússia, que firmara um acordo secreto com a Sérvia, entra em estado de alerta. A morte do Arquiduque Francisco Ferdinando, numa pequena e remota localidade do sul da Península Balcânica, coloca a Europa à beira do abismo da guerra. Acreditando que, nessa circunstância, a nação que desse início ao conflito teria mais chances de vitória, o Imperador alemão, Guilherme I, ordenou a implementação do "Plano Schlieffen". Este fora concebido em 1909, pelo general Schlieffen, para fazer face à eventualidade de uma "guerra em duas frentes". Neste caso, no entender do general, a Alemanha deveria lançar todas as suas forças contra a França, enquanto tropas austríacas barrariam as investidas russas. Ocupado o território gaulês, o exército

Matérias > Geopolítica > A Geopolítica e as Relações Internacionais file:///C|/html_10emtudo/Geopolitica/geopolitica_html_total.htm (13 of 36) [05/10/2001 2:2:13] germânico golpearia mortalmente as tropas russas. Para a infelicidade do governo de Berlim, nos meses iniciais da Primeira Guerra Mundial ( 1914 - 1918 ), os alemães não venceram a França e os austríacos não detiveram os russos. Assim, as forças militares germânicas se dividiram para enfrentar, simultaneamente, os ingleses e franceses na Europa Ocidental e as tropas de Moscou no leste do Velho Continente. A derrota alemã era inevitável.

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"Durante o debate de 27 de marco de 1900 expliquei.. . que eu entendia por política mundial

DA PAZ A GUERRA tão-somente o apoio e o avanço nas tarefas geradas pela expansão de nossa indústria, de nosso comércio, da força de trabalho, da atividade e da inteligência de nosso povo. Não temos a intenção de implementar uma política agressiva de expansão. Queríamos apenas proteger os interesses vitais que conquistamos no mundo inteiro, no desenrolar natural dos acontecimentos."

"Não é certo que uma mulher vá perder seu filho se ele for para o front; na verdade, a mina de

Chanceler alemão von Büllow, 1900 carvão e o pátio de manobras de uma ferrovia são lugares mais perigosos que o campo militar."

"Glorificaremos a guerra - a única higiene do mundo - , o militarismo, o patriotismo, o gesto

Bernard Shaw, 1902 destrutivo dos construtores da liberdade, belas idéias pelas quais vale a pena morrer e que as mulheres desprezam"

" A partir de agosto de 1914, a presença da guerra mundial rondou, impregnou e assombrou a

F. T. Marinetti, 1909 vida dos europeus. Quando da redação do presente texto, a maioria das pessoas deste continente, com mais de setenta anos, passou ao menos por uma parte de duas guerras na curva de suas vidas; todas as de mais de cinqüenta, com exceção dos suecos, suíços, irlandeses do sul e portugueses, tem a experiência de ao menos parte de uma delas. Mesmo os nascidos depois de 1945, depois de as armas terem silenciado nas fronteiras dos países europeus, conheceram raros anos em que em algum lugar do mundo não houvesse guerra, e viveram a vida toda com o sombrio espectro de um terceiro conflito mundial, nuclear, mantido sob controle apenas pela infindável concorrência visando a garantir a destruição mútua, como praticamente todos os governos lhes disseram. Como podemos chamar tal época de tempo de paz, mesmo que a catástrofe global esteja sendo evitada por quase tanto tempo quanto o foi uma guerra importante entre potenciais européias, entre 1871 e 1914. Pois, como observou o grande filosofo Thomas Hobbes, a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas num lapso de tempo durante o qual o desejo de rivalizar através de batalhas é suficientemente conhecido. Quem pode negar que esta seja a situação do mundo desde 1945? Não era assim antes de 1914: a paz era o quadro normal e esperado das vidas européias. Desde 1815 não houvera nenhuma guerra envolvendo as potências européias. Desde 1871, nenhuma nação européia ordenara a seus homens em armas que atirassem nos de qualquer outra nação similar. As grandes potências escolhiam suas vítimas no mundo fraco e não-europeu, embora às vezes calculassem mal a resistência de seus adversários: os boers deram aos britânicos muito mais trabalho que o esperado e os japoneses conquistaram seu lugar entre as grandes nações ao derrotar a Rússia em 1904-1905. Surpreendentemente com poucos transtornos. No território da maior e mais próxima vítima potencial - o Império Otomano, há muito em processo de desintegração, a guerra era, de fato, uma possibilidade permanente, dado que os povos a ele submetidos procuravam se estabelecer ou se expandir como Estados independentes e, por

Matérias > Geopolítica > A Geopolítica e as Relações Internacionais file:///C|/html_10emtudo/Geopolitica/geopolitica_html_total.htm (15 of 36) [05/10/2001 2:2:13] conseguinte, guerreavam entre si, arrastando as grandes nações em seus conflitos. Os Bálcãs eram conhecidos como o barril de pólvora da Europa, e foi, de fato, ali que a explosão global de 1914 começou. Mas a "Questão Oriental" era um ponto conhecido da pauta da diplomacia internacional, e embora tivesse gerado crises internacionais sucessivas durante um século, inclusive uma guerra internacional bastante substancial (a Guerra da Criméia), nunca escapara totalmente ao controle. Ao contrário do Oriente Médio, desde 1945 os Bálcãs pertenciam, para a maioria dos europeus que não viviam ali, ao reino das estórias de aventuras, como as do autor alemão de literatura infantil Karl May, ou das operetas. A imagem das guerras balcânicas, no final do século XIX, era a do livro "Arms and the Man", de Bernard Shaw, que, caracteristicamente, foi transformado em musical (The Chocolate Soldier, de um compositor vienense, 1908).

A possibilidade de uma guerra generalizada na Europa fora, é claro, prevista, e preocupava não

apenas os governos e as administrações, como também um público mais amplo. A partir do início da década de 1870, a ficção e a futurologia produziram, sobretudo na Grã-Bretanha e na França, sketches, geralmente não realistas, sobre uma futura guerra. Na década de 1880, Friedriech Engels já analisava as probabilidades de uma guerra mundial, enquanto o filósofo Nietzsche, louca porém profeticamente, saudou a militarização crescente da Europa e predisse uma guerra que "diria sim ao animal bárbaro, ou mesmo selvagem, que existe entre nós". Na década de 1890, a preocupação com a guerra foi suficiente para gerar o Congresso Mundial (Universal) para a Paz - o vigésimo primeiro estava previsto para setembro de 1914, em Viena - , o Prêmio Nobel da Paz (1897) e a primeira das Conferências de Paz de Haia (1899), reuniões internacionais de representantes majoritariamente céticos de governos e a primeira de muitas das reuniões que tiveram lugar desde então, nas quais os governos declararam seu compromisso decidido, porém teórico, com o ideal da paz. Nos anos 1900, a guerra ficou visivelmente mais próxima e nos anos 1910 podia ser e era considerada iminente.

E contudo sua deflagração não era realmente esperada. Nem durante os últimos dias da crise

internacional - já irreversível - de julho de 1914, os estadistas, dando os passos fatais, acreditavam que realmente estivessem dando início a uma guerra mundial. Uma fórmula seria com certeza encontrada, como tantas vezes no passado. Os que se opunham a guerra também não podiam acreditar, que a catástrofe há tanto tempo predita por eles, chegara. Bem no final de julho, depois da Áustria ter declarado guerra à Servia, os líderes do socialismo internacional se reuniram, profundamente abalados, mas ainda convencidos de que uma guerra generalizada era impossível e que uma solução pacífica para a crise seria encontrada.

"Eu, pessoalmente, não acredito que haverá uma guerra generalizada", disse Victor Adler, chefe

da social-democracia do Império Habsburgo, no dia 29 de julho. Nem aqueles que estavam apertando os botões da destruição nessa acreditavam, não porque não quisessem, mas porque era independente de sua vontade: como o imperador Guilherme, perguntando a seus generais, no último minuto, se a guerra, afinal de contas, não poderia ser situada na Europa Oriental se se evitasse atacar a França e a Rússia - e ouvindo a resposta de que infelizmente isso era impraticável. Aqueles que haviam construído os mecanismos da guerra e ligado os interruptores, agora estavam vendo, com uma espécie de incredulidade estupefata, as engrenagens começarem a se por em movimento. Para os que nasceram após 1914, é difícil imaginar como a crença de que uma guerra mundial não podia "realmente" acontecer estava profundamente enraizada no tecido da vida antes do dilúvio.

Assim, para a maioria dos Estados Ocidentais, e na maior parte do tempo entre 1871 e 1914, uma

guerra européia era uma lembrança histórica ou um exercício teórico para um futuro indefinido. A principal função dos exércitos em suas sociedades durante esse período era civil. O serviço militar

Matérias > Geopolítica > A Geopolítica e as Relações Internacionais file:///C|/html_10emtudo/Geopolitica/geopolitica_html_total.htm (16 of 36) [05/10/2001 2:2:13] obrigatório - alistamento - agora era a norma em todas as nações de peso, com exceção da Grã-Bretanha e dos EUA, embora, na verdade, nem todos os rapazes de fato se alistassem; e, com a ascensão dos movimentos de massas socialistas, generais e políticos às vezes ficavam nervosos, erroneamente, como veio a ser evidenciado ao pensar em por armas nas mãos de proletários potencialmente revolucionários. Para os recrutas comuns, mais familiarizados com a servidão do que com as glórias da vida militar, entrar para o exército se tornou um rito de passagem que marcava a chegada de um garoto à idade adulta por dois ou três anos de treinamento e trabalho duro, que se tornavam mais toleráveis devido a notória atração que a farda exercia sobre as moças. Para os suboficiais profissionais, o exército era um emprego. Para os oficiais, um jogo infantil onde quem brincava eram os adultos, símbolo de sua superioridade em relação aos civis, de esplendor viril e de status social. Para os generais era, como sempre, o terreno propício às intrigas políticas e ciúmes relativos à carreira, tão amplamente documentada nas memórias dos chefes militares.

Para os governos e as classes dirigentes, os exércitos eram não só forças para enfrentar inimigos

internos e externos, mas também um modo de garantir a lealdade, ou mesmo o entusiasmo ativo, de cidadãos com simpatias inquietantes por movimentos de massas que solapavam a ordem política e social. Junto com a escola primária, o serviço militar era talvez o mecanismo mais poderoso à disposição do Estado com vistas à inculcação do comportamento cívico apropriado e, não menos importante, a transformação do habitante de um povoado no cidadão (patriota) de uma nação. A escola e o serviço militar ensinaram os italianos a compreender, se não a falar, a língua "nacional" oficial, e o exército fez do espaguete, anteriormente prato regional do sul empobrecido, uma instituição de toda a Itália. No que tange à população civil, o colorido espetáculo público da exibição militar foi multiplicado para seu divertimento, inspiração e identificação patriótica: paradas, cerimônias, bandeiras e música. O aspecto mais familiar dos exércitos, para os habitantes não-militares da Europa, entre 1871 e 1914, era provavelmente a onipresente banda militar, sem a qual era difícil imaginar os parques e os festejos públicos.

Naturalmente, os soldados e, bem mais raramente, os marinheiros de vez em quando

desempenhavam suas funções básicas. Podiam ser mobilizados contra desordens e protestos em momentos de perturbações e de crise social. Os governos, especialmente os que precisavam se preocupar com a opinião pública e com seus eleitores, costumavam ser cuidadosos ao confrontar as tropas com o risco de atirar em seus compatriotas: as conseqüências políticas dos tiros, que soldados pudessem disparar contra civis podiam ser muito negativas, e as de sua recusa a fazê-lo podiam ser ainda piores, como ficou patente em Petrogrado, em 1917. Entretanto, as tropas eram mobilizadas com bastante freqüência, e o número de vítimas nacionais da repressão militar não foi, de forma alguma, irrelevante nesse período, mesmo nos Estados da Europa central e ocidental, onde não se supunha a iminência da revolução, como a Bélgica e a Holanda. Em países como a Itália tais intervenções podiam ser, de fato, muito substanciais.

Para as tropas, a repressão interna era uma atividade inofensiva, mas as guerras eventuais,

especialmente nas colônias, eram mais perigosas. O risco era reconhecidamente mais médico que militar. Dos 274 mil militares americanos mobilizados para a guerra hispano-americana de 1898, houve apenas 379 mortos e 1.600 feridos em combate, porém mais de cinco mil morreram de doenças tropicais. Não admire que os governos apoiassem com tanto entusiasmo as pesquisas em medicina, que no período que nos ocupa conseguiram algum controle sobre a febre amarela, a malária e outros flagelos dos territórios ainda conhecidos como "a tumba do homem branco". A França perdeu uma média de oito oficiais por ano em operações coloniais, entre 1871 e 1908, incluídas as cifras relativas à

Matérias > Geopolítica > A Geopolítica e as Relações Internacionais file:///C|/html_10emtudo/Geopolitica/geopolitica_html_total.htm (17 of 36) [05/10/2001 2:2:13] única zona onde houve perdas sérias, Tonkin, onde caiu quase a metade dos 300 oficiais mortos nesses 37 anos. Não é nosso intuito subestimar a seriedade dessas campanhas, sobretudo sabendo-se que as perdas entre as vítimas eram desproporcionalmente pesadas. Mesmo para os países agressores, essas guerras eram tudo, menos viagens de lazer. A Grã-Bretanha enviou 450 mil homens à África do Sul em 1899-1902, voltando com um saldo de 29 mil mortos em combate ou como conseqüência de ferimentos e 16 mil de doença, o que representou um ônus de 220 milhões de libras esterlinas. Tais custos eram importantes. Contudo, o trabalho do soldado nos países ocidentais era, de longe, consideravelmente menos perigoso que o de certos grupos de trabalhadores civis, como os dos transportes (especialmente por mar) e das minas. Nos três últimos anos das longas décadas de paz, morriam por ano 1.430 mineiros de carvão britânicos, e 165 mil (ou mais de 10% da força de trabalho) sofriam ferimentos. E a taxa de acidentes nas minas de carvão britânicas, embora mais elevada que a belga ou a austríaca, era algo mais baixa que a francesa, cerca de 30% menor que a alemã e não mais de um terço do que a dos EUA. Os que corriam o maior risco de vida e de integridade física não usavam farda.

Assim, se deixarmos de lado a guerra britânica na África do Sul, a vida do soldado e do

marinheiro de uma grande nação era bastante pacífica, embora não fosse o caso nos exércitos da Rússia czarista, envolvidos em sérias guerras contra os turcos nos anos 1870 e em outra, desastrosa, contra os japoneses em 1904-1905; nem no exército japonês, que lutou vitoriosamente tanto contra a China como contra a Rússia. Essa situação ainda pode ser identificada nas memórias e aventuras inteiramente não-bélicas daquele imortal ex-membro do famoso 91.° Regimento do exército imperial e real austríaco, o bom soldado Schweik (inventado por seu autor em 1911). Os quartéis-generais, naturalmente, se prepararam para a guerra, como era seu dever. Como de costume, a maioria deles se preparou para uma versão melhorada da última guerra importante de que os comandantes se lembravam ou que haviam vivido.

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Os britânicos, como era natural no caso da maior nação naval, se prepararam para uma

participação apenas modesta na guerra terrestre, embora fosse ficando cada vez mais evidente para os generais, que faziam os preparativos para a cooperação com os aliados franceses, nos anos que precederam 1914, que se exigiria muito mais deles. Mas, de maneira geral, foram os civis, e não esses homens, que previram as terríveis transformações da guerra, graças aos avanços da tecnologia militar, que os generais e mesmo alguns almirantes mais abertos à questão tecnológica demoraram a entender. Friedrich Engels, velho amante de assuntos militares, chamou muitas vezes à atenção sobre suas limitações, mas foi um financista judeu, Ivan Bloch, que em 1898 publicou em São Petersburgo os seis volumes de seu Technical, Economic and Political Aspects of the Coming War, um trabalho profético que predizia o empate militar da guerra de trincheiras, o que levaria a um conflito prolongado cujos custos econômicos e humanos intoleráveis exauririam os beligerantes ou os fariam mergulhar na revolução social. O livro foi rapidamente traduzido para numerosos idiomas, sem qualquer

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Enquanto apenas alguns observadores civis compreendiam o caráter catastrófico da futura

conseqüência no planejamento militar. guerra, governos que não o entendiam se lançaram entusiasticamente à corrida para se equipar com os armamentos cuja nova tecnologia o propiciariam. A tecnologia da morte, já em processo de industrialização em meados do século, avançou notavelmente nos anos 1880, não apenas devido a uma verdadeira revolução na rapidez e no poder de fogo das armas pequenas e da artilharia, mas também através da transformação dos navios de guerra por meio de motores-turbina, de uma blindagem protetora mais eficaz e da capacidade de carregar muito mais armas. A propósito, até a tecnologia da morte civil foi transformada pela invenção da "cadeira elétrica" (1890), embora os algozes de fora dos EUA tenham permanecido fiéis a amigos e comprovados métodos, como o enforcamento e a decapitação.

Uma conseqüência óbvia foi que os preparativos para a guerra se tornaram muito mais caros,

especialmente porque os Estados competiam uns com os outros para manter a primeira posição ou ao menos para não cair para a última. Essa corrida armamentista começou de maneira modesta no final da década de 1880 e se acelerou no novo século, em particular nos últimos anos antes da guerra. Os gastos militares britânicos permaneceram estáveis nos anos 1870 e 1880, tanto em termos de porcentagem do orçamento total. E o crescimento mais espetacular foi o da marinha, o que não é surpreendente, pois se tratava da ala de alta tecnologia de guerra, correspondente aos mísseis nos gastos modernos em armamentos. Em 1885, a marinha custara ao Estado 1 milhões de libras, e em torno da mesma ordem de grandeza, em 1860. Em 1913-1914 custou mais de quatro vezes esse montante. No mesmo período, os gastos navais alemães aumentavam de modo ainda mais acentuado, de 90 milhões de marcos por ano, em meados da década de 1890, a quase 400 milhões.

Uma conseqüência dos gastos tão elevados foi a necessidade complementar de impostos mais
da grande indústria"Ia grande industrie... se tornou uma necessidade política''. E, reciprocamente, o

altos, ou de empréstimos inflacionários, ou de ambos. Mas uma conseqüência igualmente óbvia, embora muitas vezes deixada de lado, foi que eles cada vez mais fizeram da morte em prol de várias pátrias um subproduto da indústria em grande escala. Alfred Nobel e Andrew Carnegie, dois capitalistas que sabiam o que os transformara em milionários dos ramos de explosivos e aço, respectivamente, tentaram compensar a situação destinando uma parte de sua riqueza à causa da paz. Nesse sentido foram atípicos. A simbiose entre guerra e produção da guerra transformou inevitavelmente as relações entre governo e indústria, pois, como observou Friedrich Engels em 1892, "como a guerra se tornou um setor Estado se tornou essencial para certos setores da indústria, pois quem, senão o governo, constitui a clientela dos armamentos? Os bens que essa indústria produzia eram determinados não pelo mercado, mas pela interminável concorrência dos governos, que os fazia procurar garantir para si um fornecimento satisfatório das armas mais avançadas e, portanto, mais eficientes. E mais, o que os governos precisavam não era tanto da produção real de armas, mas sim da capacidade de produzí-las numa escala compatível com uma época de guerra, se fosse o caso; isso quer dizer que eles tinham que zelar para que suas indústrias mantivessem uma capacidade de produção altamente excedente para tempos de paz.

Assim, de uma forma ou de outra, os Estados eram obrigados a garantir a existência de poderosas

indústrias nacionais de armamentos, a arcar com boa parte do custo de seu desenvolvimento técnico e a fazer com que permanecessem rentáveis. Em outras palavras, tinham que proteger essas indústrias contra os vendavais que ameaçavam os navios da empresa capitalista, que singravam os mares imprevisíveis do mercado livre e da livre concorrência. É claro que eles mesmos também podiam se

Matérias > Geopolítica > A Geopolítica e as Relações Internacionais file:///C|/html_10emtudo/Geopolitica/geopolitica_html_total.htm (19 of 36) [05/10/2001 2:2:13] envolver na fabricação de armas, como o fizeram por muito tempo. Mas nesse exato momento os Estados, ou ao menos o Estado liberal britânico, preferiram chegar a um acordo com a empresa privada. Nos anos 1880, os produtores privados de armamento assinaram mais de um terço de seus contratos de fornecimento com as forças armadas; nos anos de 1890, 46%; nos anos 1900, 60%: o governo, incidentalmente, estava disposto a garantir-lhes dois terços. " Não admire que as empresas de armamento estivessem entre os gigantes da indústria, ou passassem a estar: a guerra e a concentração capitalista caminhavam juntas. Krupp, na Alemanha, o rei dos canhões, empregava 16.0 pessoas em 1873, 24.0 em torno de 1890, 45.0 em torno de 1900 e quase 70.0 em 1912, quando 50.0 das famosas armas Krupp saíram da linha de produção. Na fábrica britânica Armstrong, Whitworth empregava 12.0 homens em suas instalações principais em Newcastle, que passaram a 20.0 ou mais de 40% de todos os metalúrgicos do Tyneside em 1914, sem contar os das 1.500 firmas menores que viviam de subempreitadas da Armstrong. Também eram muito rentáveis.

Como o moderno "complexo industrial-militar" dos EUA, essas concentrações industriais

gigantescas não teriam sido nada sem a corrida armamentista dos governos. Assim sendo, é tentador responsabilizar tais "mercadores da morte" (a expressão se popularizou entre os pacifistas) pela "guerra de aço e ouro", como a denominou um jornalista britânico. Não era lógico que a indústria de armas incentivasse a aceleração da corrida armamentista, inventando, se necessário, inferioridades nacionais ou "janelas de vulnerabilidade", que podiam ser removidas através de lucrativos contratos? Uma firma alemã, especializada na fabricação de metralhadoras, conseguiu inserir uma nota no jornal Le Figaro para que o governo francês planejasse duplicar seu número de metralhadoras. Como conseqüência, o governo alemão fez uma encomenda de 40 milhões de marcos de tais armas em 1908-1910, aumentando assim os dividendos da firma de 20 a 32%, Uma firma britânica, argumentando que seu governo subestimara de modo grave o programa de rearmamento da marinha alemã, beneficiou-se com 250.0 libras esterlinas por cada encouraçado encomendado pelo governo britânico, o que duplicou sua construção naval. Pessoas elegantes e pouco visíveis, como o grego Basil Zaharoff, atuando em nome da Vickers (e que mais tarde recebeu o título de cavaleiro pelos serviços prestados aos aliados durante a Primeira Guerra Mundial), tomaram as providências necessárias para que a indústria de armamentos das grandes nações vendesse seus produtos menos vitais ou obsoletos a Estados do Oriente Próximo e da América Latina, que já estavam em condições de comprar tais utensílios. Em suma, o comércio internacional moderno da morte já estava bem encaminhado.

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Contudo, a guerra mundial não pode ser explicada como uma conspiração de fabricantes de armas, mesmo fazendo os técnicos, com certeza, o máximo para convencer generais e almirantes, mais familiarizados com paradas militares do que com a ciência, de que tudo estaria perdido se eles não encomendassem o último tipo de arma ou navio de guerra. Não há dúvida de que a acumulação de armamentos, que atingiu proporções temíveis nos últimos cinco anos anteriores a 1914, tornou a situação mais explosiva. Não há dúvida de que havia chegado o momento, ao menos no verão europeu de 1914, em que a máquina inflexível que mobilizava as forças da morte não poderia mais ser estocada. Porém, a Europa não foi à guerra devido à corrida armamentista como tal, mas devido à situação internacional que lançou as nações nessa competição.

A discussão sobre a gênese da Primeira Guerra Mundial tem sido ininterrupta desde agosto de

1914. Provavelmente correu mais tinta, mais árvores foram sacrificadas para fazer papel, mais máquinas de escrever trabalharam para responder a essa pergunta do que a qualquer outra na história, inclusive, talvez o debate em torno da Revolução Francesa. A medida que as gerações se sucediam, que a política nacional e internacional ia sendo transformada, o debate foi ressurgindo. Mal a Europa mergulhara na catástrofe, os beligerantes começaram a se perguntar por que a diplomacia internacional não conseguira evitá-la e a atribuir-se mutuamente a responsabilidade. Aqueles que se opunham à guerra iniciaram imediatamente suas análises. A Revolução Russa de 1917, que publicou os documentos secretos do czarismo, acusou o imperialismo como um todo. Os aliados vitoriosos criaram a tese da "culpa de guerra, exclusivamente alemã", pedra angular do tratado de paz de Versalhes de 1919 e geradora de um imenso fluxo de textos, documentários e de propaganda histórica a favor e, sobretudo, contra essa tese. Naturalmente, a Segunda Guerra Mundial fez esse debate ser retomado, e ele foi revigorado alguns anos depois, quando tornou a surgir uma historiografia de esquerda na República Federal Alemã, que, ansiosa para romper com as ortodoxias conservadoras e patrióticas nazi-alemã, elaborou sua própria versão da responsabilidade da Alemanha. As discussões sobre os perigos para a paz mundial, que, por motivos óbvios, nunca cessaram após Hiroshima e Nagasaki, procuram inevitavelmente possíveis paralelos entre as origens das guerras mundiais passadas e as perspectivas internacionais atuais. Enquanto os propagandistas preferiram a comparação com os anos anteriores à Segunda Guerra Mundial ("Munique"), os historiadores encontraram cada vez mais similitudes entre os problemas dos anos 1980 e 1910. Assim, as origens da Primeira Guerra Mundial eram, uma vez mais, uma questão de importância candente e imediata. Nessas circunstâncias, qualquer historiador que tente explicar, como deve fazer um historiador do nosso período, por que ocorreu a Primeira Guerra Mundial, mergulha em águas profundas e turbulentas.

Contudo, podemos ao menos simplificar essa tarefa eliminando perguntas a que o historiador não

tem que responder. A mais importante delas é aquela da "culpa de guerra", que se refere a um julgamento moral e político, mas tem a ver apenas perifericamente com os historiadores. Se estivermos interessados em saber por que um século de paz européia cedeu o lugar a uma época de guerras mundiais, perguntar de quem foi a culpa é tão fútil quanto perguntar se Guilherme, o Conquistador, tinha um bom motivo legal para invadir a Inglaterra, a razão pela qual os guerreiros da Escandinávia partiram para conquistar numerosas áreas da Europa nos séculos X e XI.

É claro que nas guerras as responsabilidades muitas vezes podem ser identificadas. Poucos

negariam que, nos anos 1930, a atitude da Alemanha era essencialmente agressiva e expansionista e que a de seus adversários era essencialmente defensiva. Ninguém negaria que as guerras de expansão imperial em nossa época, como a Guerra Hispano-Americana de 1898 e a Sul-Africana de 1899-1902, foram provocadas pelos EUA e pela Grã-Bretanha e não por suas vítimas. Seja como for, todo mundo

Matérias > Geopolítica > A Geopolítica e as Relações Internacionais file:///C|/html_10emtudo/Geopolitica/geopolitica_html_total.htm (21 of 36) [05/10/2001 2:2:13] sabe que os governos de todos os Estados do século XIX, por mais preocupados que estivessem com suas relações públicas, consideravam a guerra uma contingência normal da política internacional e eram honestos o bastante para admitir que bem podiam tomar a iniciativa militar. Os Ministérios da Guerra ainda não se chamavam, eufemisticamente, Ministérios da Defesa.

Contudo, é indubitável que nenhum governo de qualquer uma das grandes potências de antes de

1914 queria uma guerra européia generalizada, seja mesmo ao contrário dos anos 1850 e 1860 um conflito militar restrito com outra grande nação européia.

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