(Parte 4 de 4)

Mas como reagiriam as massas da Europa a uma guerra que não podia senão ser uma guerra

de massas, já que todos os beligerantes, salvo os britânicos, se prepararam para lutar com exércitos de recrutas de enormes dimensões? Em agosto de 1914, antes mesmo da deflagração das hostilidades, 19 milhões e potencialmente 50 milhões de homens armados estavam frente a frente de um lado e de outro das fronteiras. Qual seria a atitude dessas massas quando convocadas e qual seria o impacto da guerra entre os civis, especialmente se, como alguns militares argutamente suspeitavam, embora quase não levando o dado em conta em seus planos, a guerra não terminasse rapidamente? Os britânicos eram particularmente sensíveis a esse problema, pois dispunham apenas de voluntários para reforçar seu exército regular modesto de 20 divisões (comparado com 74 da França, 94 da Alemanha e 108 da Rússia), porque as classes trabalhadoras eram sustentadas, sobretudo com alimentos despachados de navio do ultramar, o que era extremamente vulnerável a um bloqueio, e porque nos anos imediatamente anteriores à guerra, o governo enfrentara agitação e tensão sociais inéditas na memória das pessoas vivas à época, e uma situação explosiva na Irlanda. "A atmosfera de guerra", pensou o ministro liberal John Morley, "não pode ser propícia à ordem num sistema democrático que está à beira do espírito de 1848". Mas a atmosfera interna das outras nações também era de natureza a inquietar seus governos. É um erro pensar que em 1914 os governos se precipitaram à guerra para desativar suas crises sociais internas. No máximo, calcularam que o patriotismo minimizaria as resistências mais graves e a não-cooperação.

Nisso eles estavam certos. A oposição liberal, humanitária e religiosa à guerra sempre fora

insignificante na prática, embora nenhum governo (com a exceção eventual da Grã-Bretanha) estivesse disposto a reconhecer uma recusa a prestar serviço militar por objeção de consciência. Os movimentos trabalhista e socialista organizados, em seu conjunto, se opunham ardentemente ao militarismo e à guerra, e o Partido Trabalhista e a Internacional Socialista inclusive se engajaram, em 1907, numa greve geral internacional contra a guerra, mas políticos teimosos não levaram o fato muito a sério, embora um extremista de direita tenha assassinado o grande líder e orador socialista francês Jean Jaurès poucos dias antes da guerra, quando ele tentava desesperadamente salvar a paz.

Matérias > Geopolítica > A Geopolítica e as Relações Internacionais file:///C|/html_10emtudo/Geopolitica/geopolitica_html_total.htm (34 of 36) [05/10/2001 2:2:14]

Os principais partidos socialistas foram contra essa greve, poucos acreditavam que fosse viável e, de qualquer maneira, como Jaurès reconheceu "uma vez deflagrada a guerra, não podemos fazer mais nada". Como vimos, o ministro do Interior da França nem se incomodou em prender os perigosos militantes antiguerra, dos quais a polícia preparara cuidadosamente uma lista com esse intuito. A dissidência nacionalista não demonstrou imediatamente ser um fator grave. Em suma, a convocação do governo ao alistamento não enfrentou uma real resistência.

Mas os governos se enganaram no que tange a um ponto crucial: foram pegos totalmente de

surpresa, assim como os que se opunham à guerra, pela extraordinária vaga de entusiasmo patriótico com que seus povos pareciam mergulhar num conflito no qual ao menos 20 milhões de pessoas seriam mortas ou feridas, sem contar os incalculáveis milhões de nascimentos que deixaram de acontecer e o excesso de mortes civis devido à fome e à doença. As autoridades francesas previam 5 a 13 por cento de deserção: na verdade apenas 1,5 por cento se esquivou ao recrutamento em 1914. Na Grã-Bretanha, onde havia a mais forte oposição política à guerra e onde ela estava profundamente enraizada na tradição, tanto na liberal quanto na trabalhista e socialista, o número de voluntários nas primeiras oito semanas foi de 750 mil, mais um milhão nos oito meses seguintes. Os alemães, como previsto, nem sonharam em desobedecer às ordens. "Como alguém vai poder dizer que não amamos nossa pátria, quando após a guerra tantos milhares de nossos bons companheiros do partido dizem "fomos condecorados por heroísmo?". Assim escreveu um militante social-democrata alemão, tendo recebido a Cruz de Ferro em 1914. Na Áustria não foi só o povo dominante que foi abalado por uma breve onda de patriotismo Como reconheceu o líder socialista austríaco Victor Adler, "mesmo entre as nacionalidades, lutar na guerra era uma espécie de libertação, uma esperança de que algo diferente viria". Até na Rússia, onde haviam sido previstos um milhão de desertores, todos, salvo poucos milhares dos 15 milhões, obedeceram à convocação. As massas seguiram as bandeiras de seus respectivos Estados e abandonaram os líderes que se opuseram à guerra. Na verdade, deles restavam poucos, ao menos em público. Em 1914, os povos da Europa foram alegremente massacrar e ser massacrados, por pouco tempo, no entanto. Após a Primeira Guerra Mundial, isso nunca mais aconteceu.

O momento os surpreenderá, mas não mais pelo fato da guerra, ao qual a Europa se

habituaria, como alguém que vê uma tempestade se aproximando. De certo modo sua chegada foi amplamente sentida como uma libertação e um alívio, sobretudo pelos jovens da classe média, homens, muito mais que mulheres, embora menos pelos operários e menos ainda pelos camponeses. Como uma tempestade, ela rompeu o abafamento da espera e limpou o ar. Significou o fim da superficialidade e da frivolidade da sociedade burguesa, do tedioso gradualismo da melhoria do século XIX, da tranqüilidade e da ordem pacífica que era a utopia liberal para o século X e que Nietzsche denunciara profeticamente, junto com a "pálida hipocrisia administrada por mandarins". Após uma longa espera no auditório, significou a abertura da cortina para o início de um drama histórico grandioso e empolgante do qual o público descobriu ser o elenco. Significou decisão.

O fato de a guerra ter sido o momento da transposição de uma fronteira histórica, uma

daquelas raras datas que marcam a periodização da civilização humana teria sido reconhecido como algo mais que uma conveniência pedagógica? Provavelmente sim, apesar da esperança muito disseminada numa guerra curta, num retorno previsível à vida normal e à "normalidade" retrospectivamente identificada a 1913, presente em tantas das opiniões registradas de 1914. Até as ilusões dos jovens patriotas e militaristas, que mergulharam na guerra como num elemento novo, "como nadadores na pureza saltando", implicaram mudanças profundas. O sentimento da guerra

Matérias > Geopolítica > A Geopolítica e as Relações Internacionais file:///C|/html_10emtudo/Geopolitica/geopolitica_html_total.htm (35 of 36) [05/10/2001 2:2:14] como fim de uma época era talvez mais forte no mundo da política, embora poucos tivessem uma consciência tão clara como o Nietzsche dos anos 1880 da "era de guerras, levantes [Umstürze], explosões monstruosas [ungeheure]" que começara, ainda menos numerosos foram os de esquerda que, interpretando a seu próprio modo a guerra, nela viam esperança, como Lenin. Para os socialistas a guerra era uma catástrofe dupla e imediata, pois, como movimento dedicado ao internacionalismo e à paz, foi subitamente reduzido à impotência, e a vaga de união nacional e patriotismo sob a direção das classes dirigentes tomou conta, embora momentaneamente, dos partidos e até do proletariado com consciência de classe dos países beligerantes. Entre os estadistas dos antigos regimes houve ao menos um que reconheceu que tudo mudara. "As lâmpadas estão se apagando na Europa inteira", disse Edward Grey ao ver as luzes da sede do governo inglês apagadas na noite em que a Grã-Bretanha e a Alemanha entraram em guerra. "Não as veremos brilhar outra vez em nossa existência."

Temos vivido, desde agosto de 1914, no mundo de guerras, levantes e explosões monstruosas

que Nietzsche profeticamente anunciou. Isto que envolve a era anterior a 1914 com a névoa da nostalgia, uma tênue idade de ouro, de ordem e de paz, de perspectivas não problemáticas. Tais projeções passadas de bons velhos tempos imaginários pertencem à história das últimas décadas do século X, e não das primeiras. Os historiadores dos dias anteriores ao apagar das luzes não pensavam nelas. Sua preocupação central, que perpassa este livro, deve ser a de entender e mostrar como a era da paz, da civilização burguesa confiante e cada vez mais próspera, e dos impérios ocidentais, carregava inelutavelmente dentro de si o embrião da era da guerra, da revolução e da crise que marcou seu fim." (Eric J. Hobsbawm)

Clique no mapa para ampliar

Matérias > Geopolítica > A Geopolítica e as Relações Internacionais file:///C|/html_10emtudo/Geopolitica/geopolitica_html_total.htm (36 of 36) [05/10/2001 2:2:14]

(Parte 4 de 4)

Comentários