Aleitamento Materno

Aleitamento Materno

(Parte 3 de 5)

Somando-se às vantagens já apresentadas, a amamentação exclusiva reduz custos para as famílias e para o sistema de saúde. Hospitais economizam com mamadeiras, bicos e fórmulas infantis; menos medicamentos para favorecer a contratilidade uterina no pós-parto e para tratar infecções neonatais. Pesquisa realizada em três hospitais, incluindo Brasil, Honduras e México, concluiu que a promoção dessa prática é altamente custo-efetiva para a prevenção de episódios de diarréia e para o ganho de “anos de vida ajustados por incapacidade” (Sanghvi, 1996).

Por todos os benefícios apresentados, a promoção do aleitamento materno exclusivo é considerada uma das mais vantajosas intervenções em saúde.

Aleitamento MaternoFEBRASGO - Manual de Orientação

A duração ideal da amamentação exclusiva tem sido objeto de debate entre especialistas ao longo de vários anos. Desde 1979, a recomendação da OMS quanto à duração do aleitamento materno exclusivo era de “4-6 meses”. Após uma ampla revisão sistemática da literatura sobre o tema (WHO, 2001), foi aprovada pela 54ª Assembléia Mundial de Saúde a recomendação da amamentação exclusiva por seis meses. A resolução conclama aos Estados Membros “o fortalecimento de atividades e o desenvolvimento de novos caminhos para a proteção, promoção e apoio à amamentação exclusiva por seis meses como uma recomendação global da saúde pública, levando em consideração os achados da consulta de experts da OMS sobre a duração ótima da amamentação, e o provimento de alimentação complementar segura e adequada, com a continuidade da amamentação por dois anos ou mais, enfatizando os canais de disseminação social desses conceitos a fim de levar as comunidades a aderir a essas práticas” (WHA54.2, 2001).

A análise comparativa de dados do Estudo Nacional da

Despesa Familiar – ENDEF/1975 e da Pesquisa Nacional sobre Saúde e Nutrição – PNSN/1989 permitiu traçar a evolução do aleitamento materno (independentemente do recebimento de outros alimentos) no Brasil desde a década de 70 e evidenciou uma tendência ascendente da amamentação entre

Aleitamento MaternoFEBRASGO - Manual de Orientação

1974 e 1989, com sua duração mediana aumentando de 2,5 para 5,5 meses (Venancio e Monteiro, 1998).

Em relação ao aleitamento materno exclusivo, aparentemente a única estimativa nacional fidedigna é da Pesquisa Nacional sobre Mortalidade Infantil e Planejamento Familiar realizada em 1986 (PNMIPF/1986). Essa pesquisa evidenciou que apenas 3,6% das crianças brasileiras entre 0-4 meses de idade recebiam somente o leite materno, sem qualquer outro líquido ou alimento sólido. Acredita-se que o dado publicado no relatório da Pesquisa Nacional sobre Demografia e Saúde - PNDS/ 1996, o qual aponta prevalência de 40% de amamentação exclusiva em crianças entre 0-4 meses de idade, esteja superestimando a real freqüência do aleitamento materno exclusivo, devido à não checagem adequada, junto às mães que declaravam oferecer somente leite de peito, do uso de água e chá (Monteiro, 1997).

Estudo coordenado pelo Ministério da Saúde em 1999, embora não tenha incluído amostra representativa da população brasileira, evidenciou nas capitais do País uma prevalência média de aleitamento materno exclusivo de 37% entre 0-4 meses.

Vários fatores podem influenciar a prática da amamentação exclusiva. Pesquisa realizada em cento e onze municípios do Estado de São Paulo mostra que mulheres com baixa escolaridade, adolescentes e primíparas são as que têm menor chance de amamentar seus bebês exclusivamente até o sexto mês de vida. Além disso, algumas características das crianças, como o baixo peso ao nascer e o sexo masculino podem ser apontados como fatores que dificultam a amamentação exclusiva. O mes-

Aleitamento MaternoFEBRASGO - Manual de Orientação mo estudo mostrou que a implementação de quatro ou mais ações de incentivo à amamentação na rede pública municipal pode aumentar em até duas vezes a chance de amamentação exclusiva em crianças até o sexto mês de vida, o que reforça a importância da implementação de políticas municipais de aleitamento materno.

Entre os principais obstáculos à prática da amamentação exclusiva incluem-se (Giugliani, 2001):

- O desconhecimento da população em geral, dos profissionais de saúde e gestores sobre o real significado da amamentação exclusiva e sua importância;

- As práticas inadequadas nos serviços de saúde. Cabe destacar o papel das maternidades, que muitas vezes dificultam o estabelecimento da amamentação exclusiva não promovendo contato pele a pele entre mãe e bebê após o nascimento, separando mães e bebês por longos períodos, oferecendo suplementos lácteos e impondo horários rígidos para as mamadas, além do uso de bicos artificiais;

- As práticas culturais e crenças, como o uso de chás, em nosso meio;

- A falta de confiança das mães em prover adequada nutrição aos lactentes, praticando o aleitamento materno exclusivo; - O trabalho materno fora do lar;

- A promoção comercial das fórmulas infantis;

- Outras situações, como a transmissão do HIV.

Aleitamento MaternoFEBRASGO - Manual de Orientação

Embora poucos estudos tenham testado estratégias para aumentar a freqüência do aleitamento materno exclusivo, seus resultados permitem fazer algumas inferências, entre elas: a prática da amamentação exclusiva pode ser ampliada com diferentes estratégias, sendo que a orientação/aconselhamento individual parece resultar no efeito mais consistente; o aconselhamento por pares parece ser a estratégia mais efetiva; o forte envolvimento da comunidade, incluindo os homens, parece ser muito efetivo; visitas domiciliares produzem mais efeitos que clínicas de lactação; as estratégias mais eficientes são aquelas que iniciam nas primeiras semanas após o parto, o período mais crítico para o abandono da amamentação exclusiva; programas baseados somente em hospitais aumentam a prevalência de amamentação exclusiva, mas os efeitos podem não ser duradouros (Giugliani, 2001).

Tendo em vista os obstáculos mencionados, as estratégias fundamentais devem incluir: - Educação em larga escala

- Adequação das práticas assistenciais

- Disseminação de mensagens sobre amamentação exclusiva que levem em consideração as práticas culturais - Apoio e orientação às mulheres lactantes

- Garantia dos direitos reprodutivos da mulher

- Implementação da Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes (NBCAL).

Aleitamento MaternoFEBRASGO - Manual de Orientação

5. TÉCNICAS EM ALEITAMENTO

Ariani Impieri de Souza, Gláucia Virgínia de Queiroz Lins Guerra, Vilneide Braga Serve

O apoio familiar, comunitário e profissional é a base do sucesso da amamentação. Ouvir a mulher sobre seus anseios, dúvidas e experiências anteriores faz parte do processo de aprendizado da amamentação, apoiando-a e aumentando sua auto-confiança.

Assim, tanto a mulher como o obstetra e todos os profissionais de saúde (que servirão de facilitadores para o início e manutenção da amamentação) devem estar aptos a manejar as técnicas de amamentação, que têm como base o posicionamento, pega e sucção efetiva.

1. POSICIONAMENTO DA CRIANÇA

A mãe pode estar sentada, deitada ou em pé. O bebê pode permanecer sentado, deitado ou até em posição invertida (entre o braço e o lado do corpo da mãe). O fundamental é que ambos estejam confortáveis e relaxados.

Existem quatro sinais indicativos da posição correta da criança: –O seu corpo deve estar encostado ao da mãe (abdome da criança/abdome da mãe); –O seu queixo deve estar tocando o peito da mãe;

–O seu corpo e a sua cabeça devem estar alinhados, de modo que ela não necessite virar a cabeça para pegar a mama;

–A criança deve ser apoiada pelo braço da mãe envolvendo a cabeça, o pescoço e a parte superior do tronco. Em casos de crianças muito pequenas, a mãe deve apoiar também suas nádegas com a mão.

Aleitamento MaternoFEBRASGO - Manual de Orientação

2. PEGA

Para que haja sucção efetiva, a criança deve abocanhar não só o mamilo mas, principalmente, toda ou a maior parte da aréola. Esta pega correta proporciona a formação de um grande e longo bico que toca o palato, iniciando assim o processo de sucção. Os ductos lactíferos terminais que ficam por baixo da aréola, são assim pressionados pela língua contra o palato e inicia-se a saída do leite, ajudada pelo reflexo de ejeção mediado pela ocitocina.

Caso haja a pega só no mamilo, ocorrerá erosão e/ou fissura mamilar por fricção continuada. A criança pode ficar inquieta, largar o peito, chorar ou se recusar a mamar, pois, sem a pressão dos ductos lactíferos contra o palato, não há saída adequada de leite, levando a mulher a acreditar que tem pouco leite, sentir dor, desencadeando assim o processo de desmame precoce.

A mãe pode ser auxiliada a aproveitar o processo de busca e apreensão, que é estimulado colocando o mamilo na bochecha do bebê, deixando-o explorar o peito com a língua. Para tanto, a criança deverá permanecer calma e alerta, facilitando a pega da aréola.

Deve-se ainda orientar a mãe a observar sinais de ejeção de leite como o vazamento da mama contra-lateral e a presença das contrações uterinas (cólicas uterinas no pós-parto imediato ou dores de “tortos”).

3. SUCÇÃO EFETIVA

Para que a sucção seja efetiva, devem ser observados cinco pontos:

–A boca do bebê deve estar bem aberta para abocanhar toda ou quase toda a aréola.

Aleitamento MaternoFEBRASGO - Manual de Orientação

–O lábio inferior deve estar voltado para fora e cobrir quase toda a porção inferior da aréola, enquanto a parte superior da aréola pode ser visualizada. –A língua deve permanecer acoplada em torno do peito.

–As bochechas devem ter aparência arredondada.

–A criança deve parecer tranqüila com sucção lenta, profunda e ritmada e com períodos de atividade e pausa.

Antes de iniciar a pega, a mulher deverá ser orientada a palpar a aréola. Se esta estiver túrgida, ordenhar um pouco de leite para facilitar a pega. Se a mulher desejar ou se tiver mamas muitos volumosas, pode pressionar a mama contra a parede torácica, segurando-a e erguendo-a com a mão oposta (mama direita / mão esquerda ), colocando os quatro dedos juntos por baixo da mama, e o polegar acima da aréola – pega da mama em “C”. Não há necessidade de afastar a mama do nariz do bebê, ele mesmo o fará se precisar, pendendo a cabeça levemente para trás. Por esta razão, a mama não deve ser apreendida com a mão muito próxima à aréola.

Devem-se criar condições favoráveis para o início da amamentação já na sala de parto (sem forçar o processo), mantendo-se a livre demanda (a criança deve mamar toda vez que desejar, sem horários estabelecidos, tanto durante o dia, quanto durante a noite).

Em cada mamada, ambas as mamas poderão ser oferecidas, dependendo da necessidade da criança. A criança deve sugar o peito o tempo que desejar, soltá-lo espontaneamente para, só então, ser oferecida a outra mama. Na mamada seguinte, começar pela mama que o bebê mamou por último. Entretanto, alguns bebês não aceitam o segundo peito. Daí a importância de ensinar a mulher desde o pré-natal, no pós-

Aleitamento MaternoFEBRASGO - Manual de Orientação parto e nas consultas de seguimento as técnicas de ordenha: para evitar o ingurgitamento.

4. POSIÇÃO DA MÃE

Há várias possibilidades de posições para amamentar. A mulher deve escolher a mais confortável que a deixe mais relaxada naquele momento.

Deitada:

–Ela pode deitar-se de lado, apoiando a cabeça e as costas em travesseiros. O bebê deverá permanecer também deitado de lado proporcionando o contato abdome/abdome. Os ombros do bebê devem ser apoiados com os braços da mãe para manter a posição adequada.

–A mulher pode ainda deitar-se em decúbito dorsal (posição útil para as primeiras horas pós-cesariana ou para aquela mulher que tem excedente lácteo muito grande). A criança deve ficar deitada em decúbito ventral, em cima da mãe.

Sentada:

–A mulher deve permanecer com as costas apoiadas na cadeira ou cabeceira da cama. Ela pode ainda cruzar as pernas ou ainda usar travesseiros sobre as coxas. Colocar os pés em um pequeno banco para dar mais apoio, pode ser útil.

–A criança pode ficar deitada, em posição invertida ou sentada (posição muito utilizado em situações especiais como crianças prematuras, fissuradas ou sindrômicas).

5. TÉRMINO DA MAMADA

-O ideal é que o bebê solte o peito espontaneamente. Se isto não ocorrer, a mulher pode colocar a ponta do dedo míni-

Aleitamento MaternoFEBRASGO - Manual de Orientação mo na boca do bebê pela comissura labial da criança, para romper o vácuo e soltar o peito sem machucar o mamilo. Ao término da mamada o mamilo fica levemente alongado e redondo, e não deve estar achatado, nem com estrias vermelhas.

6. AMAMENTAÇÃO DE GÊMEOS

A maioria das mulheres tem leite suficiente para amamentar gêmeos. As dificuldades que surgem podem ser superadas e ficam mais fáceis com o apoio familiar. A nutriz pode iniciar as mamadas simultaneamente de modo que possa ter tempo para seu próprio descanso. A mãe pode ficar sentada com um bebê na forma tradicional e o outro na posição invertida com o corpo do bebê em baixo da axila, segurando sua cabeça com a mão e o corpo apoiado em uma almofada. Nas mamadas seguintes devese fazer um rodízio de posições entre os bebês.

Outra posição que pode ser adotada é a mãe sentada confortavelmente e os dois bebês sentados nas pernas da mãe e a mesma sustentando as cabeças de ambos. Com o progredir da amamentação outras posições surgem espontaneamente e, com o crescimento dos bebês, eles mesmos escolhem as posições e mamas que preferem. O importante é verificar se os bebês estão crescendo adequadamente.

Outro ponto importante é informar as nutrizes que a amamentação não é para ser um sofrimento e que é comum acontecerem algumas dificuldades no início da lactação, porém com o apoio familiar e a orientação de um profissional capacitado, elas serão superadas e a amamentação será exitosa.

Um instrumento importante para os profissionais de saúde ajudarem uma mulher a posicionar corretamente seu filho no peito é o Formulário de Observação de Mamadas (adaptado de Helen Armstrong).

Aleitamento MaternoFEBRASGO - Manual de Orientação

Todos estes procedimentos devem ser orientados desde o pré-natal por uma equipe multiprofissional, sendo o obstetra membro fundamental para o sucesso e manutenção da amamentação.

Sinais de que a amamentação vai bem

Posição Corporal Mãe relaxada e confortável Corpo do bebê próximo ao da mãe Corpo e cabeça do bebê alinhados Queixo do bebê tocando o peito Nádegas do bebê apoiadas Respostas

O bebê procura o peito quando sente fome (O bebê busca o peito)

O bebê explora o peito com a língua Bebê calmo e alerta ao peito O bebê mantém a pega da aréola

Sinais de ejeção de leite (vazamento; cólicas uterinas)

Estabelecimento de Laços Afetivos A mãe segura o bebê no colo com firmeza Atenção face a face da mãe Muito toque da mãe no bebê Anatomia Mamas macias e cheias Mamilos protácteis, projetando-se para fora Tecido mamário com aparência saudável Mamas com aparência arredondada Sucção Boca bem aberta Lábio inferior projeta-se para fora Língua acoplada em torno do peito Bochechas de aparência arredondada

(Parte 3 de 5)

Comentários