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Fisiopatologia da Dor

Introdução

Até a década de 60, no século passado, a dor era considerada uma resposta sensorial inevitável à lesão tecidual. As outras dimensões da experiência dolorosa, como componente afetivo, cognitivo, diferenças genéticas, ansiedade e expectativa, eram pouco valorizadas. Nos últimos anos, grandes avanços foram feitos na compreensão dos mecanismos que são subjacentes à dor e no tratamento de pessoas que se queixam de dor. O papel dos fatores externos ao organismo foi esclarecido. Em 1965, a teoria de controle do portão de Melzack e Wall enfatizava o mecanismo neurofisiológico que controlava a percepção de um estímulo nociceptivo, integrando a aferência, o processo de informação ascendente com a modulação descendente do encéfalo. Estas teoria, porém, não abrange as mudanças a longo prazo que podem ocorrer no sistema nervoso central, em resposta ao estímulo nociceptivo. Estudos fisiológicos e comportamentais mostraram que a plasticidade ou aprendizado desempenham papel fundamental no processo doloroso. Algumas situações clínicas de pacientes com dor deixam claro que o encéfalo pode gerar dor na ausência de impulsos periféricos dos nociceptores ou da medula espinhal, por exemplo na dor de membro fantasma. A melhor definição de dor é a proposta pela IASP (International Association for the Study of Pain), em que a dor é uma experiência emocional, com sensação desagradável, associada a lesão tecidual presente, potencial ou descrita como tal. A existência de muitos tipos de dor pode ser compreendida pela identificação da nocicepção, da percepção dolorosa, do sofrimento e comportamento doloroso. Subjacente a estas situações clínicas, pode-se identificar substrato anatômico, fisiológico e psicológico. A nocicepção é a detecção de lesão tecidual por transdutores especializados ligados a fibras dos nervos periféricos do tipo A delta e C. Estes transdutores podem ser alterados por mudanças neurais ou inflamatórias no seu meio ambiente mais próximo, tendo seu sinal amplificado ou inibido. A percepção dolorosa é freqüentemente desencadeada por estímulo nocivo, seja uma lesão ou uma doença em tecido somático ou tecido nervoso, periférico ou central. O sofrimento é uma resposta negativa induzida por inúmeros fatores, entre os quais estão a dor, o medo, estresse, perdas. A linguagem da dor pode ser usada para descrever sofrimento, independente da causa, levando tanto o médico como o paciente a equívocos quanto ao motivo do mesmo. O sofrimento aparece quando a integridade física ou psicológica do indivíduo é ameaçada. Nem todo sofrimento é causado por dor, mas freqüentemente ele é descrito nestes termos. O comportamento doloroso resulta de dor e sofrimento, como posturas ou atitudes que visam diminuir o desconforto. Eles são observáveis por terceiros e podem ser quantificados (figura 1). Do ponto de vista temporal, a dor é classificada como aguda ou crônica e, sob a óptica da fisiopatologia, descreve-se a dor como associada a nocicepção, à neuropatia ou desaferentação e a de influência pelo sistema nervoso simpático. Por vezes, um quadro aparentemente agudo, pelo tempo de desenvolvimento, tem uma fisiopatologia que indica grande potencialidade para cronificação; os mecanismos fisiopatológicos poucas vezes são estanques, havendo freqüentemente uma mescla de mecanismos com eventual predomínio de um deles. Para que a compreensão seja simplificada e a didática contemplada, os mecanismos serão descritos de maneira independente.

Componentes da dor Figura 1

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Dor por Nocicepção

Na dor por nocicepção é importante identificar os transdutores de sinal (nociceptores), as vias que conduzem o sinal e como ele pode ser modulado, tanto por via neural como através de substâncias endógenas e/ou exógenas.

Mecanismo periférico Transdutores de sinal - os nociceptores são transdutores encontrados nos tecidos superficiais, profundos e vísceras, que anatomicamente se apresentam como terminações nervosas livres. Sua principal característica eletrofisiológica é o alto limiar de excitabilidade. Quando um estímulo mecânico, térmico ou químico intenso, potencialmente lesivo, é aplicado ao organismo, os nociceptores são ativados e uma informação de agressão é encaminhada ao sistema nervoso central (figura 1). Existem três classes de nociceptores, os mecanonociceptores, que são sensíveis a estímulos mecânicos; os termonociceptores, sensíveis a estímulos térmicos, e os nociceptores polimodais, que respondem a estímulos mecânicos, térmicos e químicos. Vias periféricas - a informação caminha por fibras com baixa velocidade de condução do tipo A delta e C em direção à medula espinhal, atingindo-a através do gânglio da raiz posterior, em seu maior contingente. As fibras A delta conduzem a uma velocidade entre 2,5 a 20 m.seg-1 e as fibras C a uma velocidade menor que 2,5 m.seg-1. Uma pequena parte das fibras pode alcançar a medula espinhal pelo corno da raiz anterior. Mediadores algogênicos e modulação periférica - quando um estímulo intenso provoca lesão tecidual, há desencadeamento de um processo inflamatório seguido de reparação tecidual. As células lesadas liberam enzimas de seu interior, que no ambiente extracelular ciclizam ácidos graxos de cadeia longa e atuam sobre os cininogênios, dando origem à formação de cininas, principalmente a bradicinina, uma substância algógena e vasoativa. A partir da membrana celular pela ação da fosfolipase A libera-se ácido araquidônico, que por ação da ciclooxigenase e lipoxigenase origina, respectivamente, prostaciclinas, prostaglandinas, tromboxano e leucotrienos. A biossíntese de prostaglandinas, principalmente PGE2, promove diminuição do limiar de excitabilidade dos nociceptores, fazendo com que estímulos menos intensos sejam capazes de estimulá-los. Os macrófagos e leucócitos polimorfonucleares liberam fatores solúveis de regulação da fase aguda, as citocinas (interleucina 1,6 e fator alfa de necrose tumoral), que vão estimular as células endoteliais a iniciar o processo de adesão. Este processo faz parte do mecanismo de migração dos leucócitos para a área lesada e libera selectinas, integrinas, fatores quimiotáticos e óxido nítrico. As células do tecido lesado, juntamente com os macrófagos e neutrófilos, liberam diversas substâncias oxidantes e enzimas, que resultam na formação de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio. Estas estimulam a produção de uma segunda geração de produtos, que tanto exercem função reparadora (catalases para eliminar radicais livres, colagenases e esteromelisina com atividade de reparo tecidual), como também mantêm a inflamação com produção de citocinas e moléculas de adesão. Além dessa resposta inflamatória tecidual, há também uma resposta inflamatória neurogênica, com produção de vasodilatação e extravasamento de proteínas plasmáticas e ação sobre as células inflamatórias com liberação de mediadores químicos. A estimulação dos nociceptores produz um reflexo axônico local, que libera substância P, neurocinina A e peptídeo geneticamente relacionado à calcitonina. A vasodilatação e aumento da permeabilidade vascular são conseqüências da ação da substância P e resultam em produção de enzimas lisossômicas, prostaglandina, interleucina 1 e 6, além de síntese de óxido nítrico pelo endotélio vascular. Estes fatores contribuem tanto para a manutenção da inflamação como para a sensibilização dos nociceptores. Os mediadores inflamatórios agem sinergicamente, aumentando a sensibilidade dos nociceptores, com conseqüente redução de seu limiar de excitabilidade (figura 2). Esta série de eventos que se segue a uma lesão tecidual é conhecida como sensibilização periférica. A sensibilização periférica é um mecanismo muito complexo e menos elucidado que a sensibilização central; entretanto, alguns fenômenos ligados aos receptores parecem mediar a transdução neuroquímica da nocicepção, tanto periférica como centralmente (figura 3).

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Em geral, mediadores inflamatórios interagem com canais iônicos de membrana, tipo voltagem-dependentes (canais de sódio, potássio e cálcio), canais iônicos operados por receptor (receptor colinérgico e nicotínico), com receptores associados a tirosinocinase ou com receptores de membrana acoplados à proteínas regulatórias denominadas proteínas G, como ocorre com os receptores de prostaglandinas e bradicinina. A inflamação parece ter ainda um outro papel sobre os nervos periféricos. Há uma classe de aferentes primários não-mielinizados que normalmente não são sensíveis a estímulos térmicos e mecânicos intensos; entretanto, em presença de sensibilização inflamatória ou química, tornam-se responsivos, despolarizando-se vigorosamente, mesmo durante movimentos normais. Estes receptores foram identificados em diversas espécies animais e são denominados nociceptores silentes (figura 4). Outros fenômenos ocorrem nos terminais periféricos em vigência da reação inflamatória. Além do fenômeno de sensibilização, que tende a ampliar a informação nociceptiva, existe

Transmissores, mediadores e outros fatores envolvidos na geração da nocicepção nas terminações nervosas das fibras C

Figura 2

Transdução neuroquímica da nocicepção Cousins MJ & Sidall P 11th WC Anesthesiologists 73-81, 1996.

Figura 3

Sociedade Brasileira de Anestesiologia – Curso de Ensino à Distância 2002 4 um mecanismo de modulação inibitória mediado por receptores opióides periféricos. Estes receptores estão localizados nas terminações nervosas sensoriais e quando ativados diminuem a excitabilidade dos terminais sensoriais bem como a liberação de substâncias excitatórias, como a substância P. Os ligantes endógenos dos receptores opióides periféricos são a endorfina, as encefalinas e dinorfinas, que se encontram em células relacionadas à imunidade, como linfócitos T e B, monócitos e macrófagos. Estes peptídeos opióides localmente produzidos e liberados podem ocupar os receptores nas terminações nervosas, produzindo analgesia (figura 5). Quando há persistência de reação inflamatória, o número de receptores opióides aumenta, indicando que a inflamação estimula o transporte axonal de receptores para a periferia; estão aí presentes receptores mu, delta e kappa. Estudos recentes mostraram que o acesso de opióides aos receptores periféricos é facilitado pela inflamação por ruptura do perineuro, uma cobertura normalmente quase impermeável que recobre as fibras nervosas periféricas.

Mecanismo medular Vias no sistema nervoso central - na medula espinhal, os aferentes primários fazem sinapse nas lâminas I, I e V, assim designadas pela classificação de Rexed. A lâmina I ou camada marginal do corno posterior da medula espinhal é o centro de recepção da informação que chega da periferia. Seus neurônios fazem sinapses com os neurônios da lâmina I (substância gelatinosa de Roland) que possuem uma função inibitória e os sinais são retransmitidos através dos neurônios da lâmina V em direção ao tálamo e córtex. Após deixarem a lâmina V, os neurônios cruzam a linha média da medula espinhal e dirigem-se para o tálamo através do fascículo ântero-lateral, que contém os feixes espinotalâmico e espinorreticular. Antes de penetrar na substância cinzenta, as fibras que entram através do corno dorsal ascendem e descendem alguns segmentos (cerca de três) formando o trato de Lissauer, que parece desempenhar importante papel em algumas formas de dor, em que fibras autonômicas estão envolvidas. Uma vez integrado neste sistema medular, o impulso nociceptivo caminha por feixes ascendentes.

Sensibilização perfiférica. Figura 4

Mecanismo periférico opióide GRD: glânglio da raiz dorsal; T: linfócito T; linfócito B; MF: magrófagos; M: monócitos

Figura 5

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Em situações patológicas, quando há lesão dos feixes ascendentes e o impulso é impedido de transitar por estas vias, contribuem para a condução do estímulo os feixes espinocervicotalâmico e fibras pós-sinápticas da coluna dorsal. O feixe espinotalâmico dirige-se ao tálamo para o complexo ventrobasal, núcleo posterior e núcleos intralaminares; as informações processadas nestas áreas são transmitidas ao córtex. O feixe espinorreticular vai à formação reticular e aí diversas áreas possuem papel relevante, como o núcleo gigantocelular e formação reticular bulbar adjacente, formação reticular mesencefálica, substância cinzenta periaquedutal e núcleo da rafe (figura 6).

Além dos sistemas ascendentes, existe um sistema descendente, que se origina no córtex e na formação reticular, desce anatomicamente pelo funículo dorsolateral e faz sinapse com os neurônios da lâmina I na medula espinhal. Este é um sistema com função inibitória (figura 7). Mediadores e modulação na medula espinhal - estudos farmacológicos forneceram também importante subsídio na identificação de neurotransmissores e neuromoduladores envolvidos no processo doloroso no corno dorsal da medula espinhal. Sabe-se que grande número de receptores está envolvido na transmissão dolorosa. Estes receptores estão localizados pré e póssinapticamente na terminação central do aferente primário nociceptivo. São observados

Sistemas inibitórios centrais

Figura 7

Vias ascendentes Da dor

Figura 6

Sociedade Brasileira de Anestesiologia – Curso de Ensino à Distância 2002 6 em posição pré-sináptica receptores opióides mu/delta, kappa, GABA b, alfa-2 adrenérgicos, neurocinina 1 e 5HT2. Na posição pós-sináptica encontram-se receptores GABAa,b, AMPA, NMDA, mu, mu/delta, alfa-2 adrenérgicos, 5HT1b, adenosina. A riqueza de neurotransmissores, neuromoduladores e receptores da sinapse entre aferente primário e neurônio do corno dorsal da medula espinhal faz prever a importância e complexidade da área (figura 8). A transmissão excitatória no sistema nervoso central é feita principalmente pelo glutamato e secundariamente pelo aspartato, chamados genericamente de aminoácidos excitatórios. Em muitas sinapses, a liberação de glutamato é conjunta com a liberação de substância P e neurocininas, que são designadas neuromoduladores. A freqüência e duração dos estímulos conduzidos até a medula espinhal determinam fenômenos de nocicepção com finalidade biológica ou sua transformação em quadros patológicos. Um dos principais fenômenos que ocorrem nesta região é a sensibilização central. Sensibilização central - a sensibilização central é induzida ou desencadeada por impulsos sensoriais veiculados pelas fibras amielínicas C. Estas fibras terminam nas camadas mais superficiais do corno dorsal da medula espinhal e são caracterizadas por sua capacidade de produzir potenciais excitatórios pós-sinápticos lentos. As fibras A de baixo limiar de excitabilidade produzem potenciais excitatórios pós-sinápticos que duram alguns milissegundos, enquanto os aferentes de pequeno calibre produzem potenciais lentos que podem durar até 20 segundos. Os potenciais excitatórios pós-sinápticos rápidos são mediados pela ação excitatória do glutamato sobre receptores ionotrópicos, conhecidos como AMPA. Estes receptores uma vez estimulados possibilitam uma corrente iônica para dentro da célula de curta duração. Os potenciais excitatórios pós-sinápticos lentos, produzidos pelas fibras de fino calibre, são mais complexos, exibindo três componentes. Inicialmente, podem também ser desencadeados pela ação do glutamato sobre os receptores AMPA, durando cerca de milissegundos; a seguir, aparece um segundo componente, que é sensível aos antagonistas do receptor NMDA (N-metil- D-aspartato) e dura cerca de cinco segundos. O terceiro componente, que é o mais prolongado, é resistente aos antagonistas do receptor NMDA e parece ser mediado por taquicininas, como substância P ou neurocinina A. A substância P e a neurocinina A estão presentes nos terminais centrais dos aferentes C e coexistem com glutamato nos mesmos neurônios. Quando uma fibra C é estimulada, ela pode teoricamente liberar ambos os grupos de neurotransmissores, os aminoácidos excitatórios e os neuropeptídeos. Há evidências de que poderia haver um mecanismo de controle pré-sináptico, que permitiria a liberação de apenas um tipo de neurotransmissor. Uma vez liberado, o glutamato pode agir em três tipos de receptores: AMPA, NMDA e metabotrópicos. As taquicininas podem agir nos receptores NK1 e NK2, sendo que a substância P tem grande afinidade pelo NK1 e a neurocinina A pelo NK2 (figura 9). O receptor NMDA está associado a um canal iônico e pode ser bloqueado por magnésio; assim, quando o glutamato liga-se a ele, a corrente iônica resultante é pequena. Se, entretanto, ocorrer estímulo prolongado e/ou repetitivo, o magnésio é retirado do canal iônico, permitindo, além da entrada de sódio, a de cálcio, produzindo não só despolarização da célula pós-sináptica,

Neurotransmissores e neuromoduladores espinhais

Figura 8

Sociedade Brasileira de Anestesiologia – Curso de Ensino à Distância 2002 7 como também estimulação de segundo mensageiro intracelular. O glutamato ativa também receptores metabotrópicos, que podem aumentar indiretamente o influxo de cálcio e ativar enzimas intracelulares através da fosfolipase C. Os receptores de neurocininas estão acoplados a proteínas G, sendo também capazes de ativar a fosfolipase C. O aumento do cálcio intracelular provoca uma ampla gama de efeitos, que incluem a ativação de cinases protéicas, como a proteinocinase C e outras enzimas, como a óxido nítrico sintetase. A ativação destes outros sistemas enzimáticos pode resultar em alteração da excitabilidade da membrana por períodos prolongados. Existem evidências diretas sobre o envolvimento do receptor NMDA na ativação e inicialização da sensibilização central. A administração de antagonistas do receptor NMDA evita o desenvolvimento de sensibilização central em resposta a estímulos que normalmente o fariam. Os antagonistas das taquicininas também são efetivos em prevenir a sensibilização central. A prevenção da elevação do cálcio intracelular é eficaz em evitar a sensibilização central, assim como a inibição da fosfolipase C, óxido nítrico sintetase e proteinocinase C.

Observou-se, recentemente, que o bloqueio dos receptores de ácido gama-aminobutírico (GABA) e de glicina na medula espinhal produzia aumento da excitabilidade, qualitativamente idêntico ao produzido pelos impulsos conduzidos pelas fibras C (figura 10). Estes fatos levantam a possibilidade de que diversos mecanismos podem manter um aumento da excitabilidade da membrana, desencadeada pela atividade do nociceptor. Eles incluem a somação temporal dos potenciais excitatórios lentos, redução da inibição tônica e elevação do cálcio intracelular ou ativação da fosfolipase C e proteinocinase C.

Sensibilização Central Figura 10

Ação do glutamato nos diferentes receptores

Figura 9

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A reação inflamatória periférica altera também as respostas dos neurônios da medula espinhal. Isto foi demonstrado de forma cabal em neurônios nociceptivos não-específicos (wide dynamic range - WDR) da medula espinhal. Estes neurônios recebem impulsos tanto de nociceptores como de mecanorreceptores de baixo limiar. Assim como ocorre com os aferentes nociceptivos, a inflamação periférica diminui o limiar de excitabilidade destes neurônios à medida que a intensidade e duração da reação inflamatória progridem. Outra alteração importante é o aumento do campo receptor periférico, que pode ser interpretado como aumento da sensibilidade dos neurônios da medula espinhal a impulsos subliminares captados na periferia do campo receptor do nociceptor, esta alteração do campo receptor é o substrato da hiperalgesia secundária, ou seja, uma área que circunda a reação inflamatória nos tecidos afetados (área de hiperalgesia primária). Uma vez desencadeada, a sensibilização central persiste por período prolongado, mesmo com o desaparecimento da causa inicial. Alguns fármacos podem prevenir o desenvolvimento de excitabilidade central aumentada, como a morfina. In vivo, a morfina é capaz de prevenir o desenvolvimento de excitabilidade central aumentada, em doses abaixo daquelas necessárias para inibir a nocicepção; entretanto, doses muito maiores são necessárias para reduzir a excitabilidade central, uma vez que ela esteja estabelecida. A morfina tem ação pré e pós-sináptica. Pré-sinapticamente, a morfina bloqueia a liberação de neurotransmissor por inibição dos canais de cálcio através da proteinocinase A. Na membrana pós-sináptica, ela ativa canais de potássio, prevenindo a despolarização progressiva necessária para remover o bloqueio exercido pelo magnésio nos canais ligados ao receptor NMDA. Os antagonistas do receptor NMDA são efetivos tanto na prevenção do desenvolvimento de sensibilização central como na redução da excitabilidade quando a sensibilização central já está estabelecida. A principal implicação clínica decorrente deste complexo mecanismo fisiopatológico é que parece ser mais vantajoso prevenir o desenvolvimento de sensibilização central do que tratar a dor após seu estabelecimento. Este é o racional das diversas táticas empregadas na analgesia preemptiva.

Neuroplasticidade - os neurônios têm a capacidade de transmitir, inibir e avaliar informações, mas também de armazená-las por longos períodos (figura 1). A compreensão deste fenômeno, que nada mais é do que o mecanismo subjacente da memória, e a possibilidade de correlacioná-lo com outras funções do sistema nervoso, possibilitou o entendimento de diversas modificações desencadeadas pela nocicepção. O fenômeno fundamental é o aumento da força sináptica induzida por uso. A plasticidade sináptica no hipocampo é um modelo celular largamente estudado de aprendizado e memória e estudos recentes sugerem que mecanismo similar é aplicável nas vias nociceptivas, podendo ser responsável por algumas formas de hiperalgesia, alodinia e analgesia. A descoberta da plasticidade sináptica no sistema nociceptivo forneceu um conceito relativamente simples para explicar diversos fenômenos clínicos relevantes. A capacidade do encéfalo em transformar experiências transitórias em memória foi atribuída à modificação atividade-dependente na força sináptica - LTP (long term potentiation). Embora o mecanismo de indução e manutenção de LTP possa variar entre diferentes tipos de sinapses, ele apresenta pontos em comum na maioria das sinapses glutamatérgicas no sistema nervoso central. A estimulação elétrica de fibras nervosas pré-sinápticas em freqüências relativamente altas (20-200Hz) por alguns segundos induz LTP, envolvendo neste mecanismo vias de transdução do sinal dependentes do cálcio. Um aumento transitório, porém significativo de Ca++ pós-sináptico é necessário e suficiente para indução de LTP. Na maioria das sinapses glutamatérgicas, este fenômeno pode ser conseguido por influxo de cálcio através dos canais do receptor N-metil aspartato (NMDA); entretanto, canais de cálcio voltagem-dependente, canais de cálcio do receptor AMPA ou liberação de cálcio dos estoques intracelulares (por exemplo, pela ativação dos receptores metabotrópicos do tipo I) podem também estar envolvidos. Foram identificadas sinapses no sistema nervoso central que possuem receptores de glutamato do tipo NMDA sem possuir os do tipo AMPA. Como o Mg++ bloqueia de forma voltagem-dependente o canal iônico do receptor NMDA, se glutamato for liberado nesta sinapse não há aparecimento de correntes pós-sinápticas. Somente quando o estímulo for de grande intensidade e duração mais prolongada é que posterior estimulação pré-sináptica resultará em atividade pós-sináptica. Esta transformação de sinapses silentes em sinapses ativas ocorre por inserção de receptores AMPA, funcionalmente ativos. Este fenômeno é observado em

Neuroplasticidade Figura 1

Sociedade Brasileira de Anestesiologia – Curso de Ensino à Distância 2002 9 modelos de estimulação que induzem LTP. Assim, a LTP pode ser atribuída a um número aumentado e/ou função aumentada de receptores pós-sinápticos AMPA e NMDA. Outros fenômenos importantes, como a ativação intensa de um conjunto de sinapses, pode facilitar a indução de LTP em conjunto independente de sinapses adjacentes. Isto é observado por ativação intensa e simultânea de sinapses convergentes, sendo considerado uma analogia celular de aprendizagem associativa e condicionamento clássico. Esta plasticidade heterossináptica pode decorrer da difusão de Ca++ das sinapses ativas para as sinapses vizinhas inativas, ou através de ondas de Ca++ liberadas de estoques intracelulares ou ainda por propagação retrógrada do potencial de ação na árvore dendrítica. Inversamente, a transmissão sináptica pode também ser deprimida por longos períodos de tempo (LTD - long term depression), assim como uma LTP estabelecida pode ser despontecializada por uma estimulação sustentada condicionante de baixa freqüência (1-2 Hz por 15 minutos). Esses fenômenos de LTD e despotencialização requerem uma elevação moderada do Ca++, menor que a necessária para indução de LTP. O conceito de plasticidade uso-dependente dos neurônios é uma ferramenta rica e versátil para modificar a função de redes neuronais, de maneira rápida e reversível. A hiperalgesia e alodinia após trauma, inflamação ou lesão nervosa aguda, são ao menos em parte causadas por aumento da sensibilidade dos neurônios do corno dorsal da medula espinhal à estimulação sensorial - sensibilização central, que pode em muitos aspectos ser explicada pela LTP na via nociceptiva. No corno dorsal da medula espinhal, a ativação simultânea de múltiplos receptores (NMDA, neurocinina 1 e 2 e receptor mGlu) é necessária para indução de LTP, tanto por estimulação elétrica tetânica (modelo experimental) como por estímulo nocivo natural. Esta estimulação provoca um aumento significativo e transitório do Ca++ em neurônios do corno dorsal. O bloqueio dos receptores NMDA, de neurocinina ou mGlu, evita a indução de LTP espinhal, mas não sua manutenção (quando já instalada) ou a transmissão normal. Correspondentemente, o bloqueio destes receptores evita a sensibilização central e hiperalgesia induzidas por aferência pós-trauma, inflamação ou lesão nervosa aguda, mas não bloqueia sua manutenção ou dor aguda.

Dor Neuropática e Central

Normal Degeneração proximal

Sensibilização neuronal

Brotamento reforço de sinapse

Ampliação do campo receptivo

A lesão aguda de um nervo periférico raramente produz dor imediatamente; assim, cortar ou comprimir um tronco nervoso produz uma descarga intensa dos axônios afetados, sentida eventualmente como um forte choque. Alguns dias depois, dor em queimação e sensibilização a estímulos mecânicos não-nociceptivos podem aparecer no local da lesão, com irradiação para a área correspondente do nervo afetado (figura 12).

Lesão periférica Estudos experimentais demonstraram que a ponta de um neurônio em regeneração, num nervo periférico, contém numerosos brotos de pequeno diâmetro, que se originam de todas as classes de neurônios. Estes axônios em regeneração apresentam descargas espontâneas, possivelmente causadas pela permeabilidade iônica aumentada nos brotos. Se esse padrão de regeneração é interrompido por qualquer motivo, forma-se um neuroma. Os brotamentos dentro de um neuroma são sensíveis a estímulos mecânicos e a excitação pode ocorrer e ser mantida por estimulação cruzada entre axônios próximos. As células do gânglio da raiz dorsal podem também tornar-se espontaneamente ativas, representando outra fonte potencial de descarga anormal proximal à lesão tecidual. Embora os neurônios normais exibam pouca sensibilidade a estímulos químicos, após lesão nervosa experimental em ratos observou-se que o axônio em regeneração na área de seus brotos tornava-se sensível às catecolaminas exógenas ou endógenas. Este efeito parece ser mediado por receptores alfa-adrenérgicos existentes na fibra em regeneração. Dois tipos diferentes de canais de sódio foram encontrados em neurônios sensoriais. O primeiro tipo é sensível à tetrodotoxina (toxina extraída de um peixe), e o segundo tipo é insensível a ela. Os canais de sódio sensíveis à tetrodotoxina são responsáveis pelo início do potencial de ação e existem em todos os neurônios sensoriais. Em contraste, os canais de sódio insensíveis à tetrodotoxina são encontrados somente nos neurônios sensoriais nociceptivos. Eles têm uma cinética de ativação e desativação mais lenta do que os sensíveis e estão envolvidos em estados patológicos. Após lesão de um nervo, ambos os tipos de canal de sódio começam a se acumular no neuroma e ao longo do axônio, resultando em focos de hiperexcitabilidade e potenciais de ação ectópicos. Este mecanismo fisiopatológico explica o quadro clínico de dor espontânea, independente de estímulo e é o racional do tratamento com bloqueadores de canal de sódio (por exemplo, anticonvulsivantes e anestésicos locais).

Repercussões centrais das neuropastias periféricas

Figura 12

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