Uma abordagem sobre a gestão de resíduos de serviços

Uma abordagem sobre a gestão de resíduos de serviços

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Revista Espaço para a Saúde, Londrina, v. 5, n. 2, p. 17-27, jun. 2004 17

Roberto Naime1, Ivone Sartor2 e Ana Cristina Garcia3

1 Departamento de Engenharia Civil - FENG – PUCRS e Curso de Engenharia Industrial, ICET/FEEVALE Endereço para

Correspondência: Departamento de Engenharia Civil, FENG/PUCRS – Av. Ipiranga, 6681 –Prédio 30 - Sala 135 Porto Alegre - RS - CEP 91619-900 -F.(0xx51)3320 3553 E mail: naimedec@pucrs.br

2 Faculdade de Farmácia, PUCRS, E mail isartor@pucrs.br 3 Curso de Engenharia Industrial, ICET/FEEVALE. E mail anagarcia@feevale.br

O presente trabalho insere a questão dos resíduos dos serviços de saúde, na dimensão da construção de modelos de desenvolvimento sustentável. São divulgados os conceitos de redução, reutilização e reciclagem dentro dos serviços de saúde. É feito levantamento bibliográfico do estado da arte do tema e são caracterizados e quantificados em proporção os resíduos sólidos gerados pelos serviços de saúde, visando a obtenção de informações para a elaboração de parâmetros de adequada gestão destes materiais. É proposta uma nova atitude pró-ativa para o setor de saúde, sendo diagnosticado um grande potencial para o desenvolvimento de técnicas que minimizem os impactos ambientais causados por este setor no meio ambiente. Palavras-chave: Serviços de saúde; Resíduos; Gestão.

This work inserts health services in the dimension of construction of sustainable development. Concepts of reduction, reutilization and recycling in the health services are discussed. Extensive review of bibliography was retrieved and quantification of waste materials generated by health services was analyzed, to obtain information in order to determinate parameters for management of this material. A new approach for health services is proposed, with the diagnosis of a potential for development of techniques for reduction of environmental impacts caused by health services. Keywords: Health services; Residues; Management.

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Introdução

As estratégias de sustentabilidade ambiental buscam compatibilizar as intervenções antrópicas com as características dos meios físico, biológico e sócio-econômico, minimizando os impactos ambientais através da menor geração de resíduos sólidos e pelo adequado manejo dos resíduos produzidos.

Quando a população humana era pequena e a natureza tinha como compensar os impactos a que era submetida, não ocorriam desequilíbrios. No entanto, quando a população começa a crescer, os efeitos dos impactos começam a surgir.

No século XVIII, com a revolução industrial a exploração dos recursos naturais passa a ser intensa. No entanto, já a partir da metade do século X, o modelo de desenvolvimento passa a ser questionado, considerando que os recursos naturais são finitos.

“Lixo é basicamente todo e qualquer resíduo sólido proveniente das atividades humanas. No entanto o conceito mais atual é de que lixo é aquilo que ninguém quer ou não tem valor comercial. Neste caso, pouca coisa descartada pode ser chamada de lixo” (BIDONE E POVINELLI, 1999).

Neste sentido, a reciclagem de lixo surge como uma opção importante no gerenciamento dos resíduos sólidos. O maior desafio para a reciclagem e a separação dos resíduos.

A falta de informações sobre o assunto é um dos principais motivos para a ausência de projetos bem sustentados que determinem melhorias no setor. Particularmente os resíduos dos serviços de saúde merecem atenção especial em suas fases de separação, acondicionamento, armazenamento, coleta, transporte, tratamento e disposição final, em decorrência dos riscos graves e imediatos que podem oferecer, particularmente na questão infecto-contagiosa.

É lícito citar que a própria Constituição Federal em seu artigo 174 prevê que o Estado seja o regulador das atividades econômicas, promovendo o desenvolvimento equilibrado entre produção e conservação ambiental (BRASIL 1988).

Este artigo é uma abordagem do tema que contribui para que o Estado e as organizações tenham subsídios adequados para assumirem suas responsabilidades.

Trabalhos anteriores

Um programa eficiente de gerenciamento dos resíduos infecto-contagiosos gerados nos estabelecimentos de saúde objetiva promover a melhoria das condições de saúde pública, através da proteção do meio ambiente.

Com um efetivo gerenciamento é possível estabelecer em cada etapa do sistema, a geração, segregação, acondicionamento, coleta, transporte, armazenamento, tratamento e disposição final dos resíduos, com manejo seguro dos mesmos através de equipamentos adequados aos profissionais envolvidos, inclusive quanto ao uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), que são indispensáveis no caso. A adoção de mecanismos prévios de separação e desinfecção permite a reciclagem do vidro, dos metais, do alumínio, dos plásticos e do papel.

As principais causas do crescimento progressivo da taxa de geração dos resíduos sólidos dos serviços de saúde (RSSS) é o contínuo incremento da complexidade da atenção medida e o uso crescente de materiais descartáveis. (SANCHES, 1995).

A população brasileira está cada vez mais concentrada em áreas urbanizadas e a expectativa média de vida do brasileiro vem crescendo de forma consistente. Estes fatores também se somam aos anteriores (FORMAGGIA, 1995).

A quantidade e a natureza dos resíduos depende do tipo de hospital, dos procedimentos adotados, de fatores sazonais e até do tipo de alimentação adotado (FORMAGGIA, 1995).

Assim sendo, é necessário um estudo de caracterização, como a pesagem e a análise dos resíduos em cada estabelecimento e em cada período do ano, para se determinar a correta natureza dos resíduos dos serviços de saúde em cada estabelecimento.

Segundo Petranovich (1991) o volume de resíduos dos serviços de saúde tem crescido 3% ao ano, num fenômeno alimentado pelo crescimento do uso de descartáveis que sofreu ampliação de 5% para 8% ao ano.

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Em geral, os resíduos dos serviços de saúde ainda não recebem o devido tratamento diferenciado, tendo muitas vezes como destino final o mesmo local utilizado para descarte dos demais resíduos urbanos (BRILHANTE e CALDAS, 1999).

Destaca-se que na maioria destes locais o acesso é livre aos catadores que praticam a reciclagem informal, tornando elevadas as possibilidades de assimilação de doenças infecto-contagiosas pelas pessoas expostas a manipulação de áreas contaminadas por estes resíduos. (BIDONE e POVINELLLI, 1999).

Joffre et al (1993) apresentam estudo comparativo entre a gestão clássica e a gestão avançada dos resíduos dos serviços de saúde (Tabela 1).

Tabela 1 – Gestão de resíduos de serviços de saúde.

Tipo Descrição básica Kg/leito/dia Países

A totalidade do RSSS é considerada especial (resíduos de pacientes com infecções virulentas, de pacientes com infecção de transmissão oral-fecal, de pacientes com infecções de transmissões por aerossóis, de resíduos perfurantes ou cortantes, cultivo e reservas de agentes infecciosos, sangue humano e resíduos anatômicos humanos).

Reino Unido

França

Bélgica Gestão Clássica

A totalidade do RSSS é considerada como infectante (classe A) e como especial (classe B). 1,2 - 3,8 Brasil

Gestão Avançada

considerada infectante e/ou especial0,005 – 0,4

Somente uma pequena percentagem dos RSSS é

Alemanha Holanda Canadá Áustria Suécia

No caso brasileiro, embora algumas ações estejam sendo desenvolvidas para alterar a gestão atual, o que se observa é que a maioria dos resíduos ainda é considerada perigosa (infectante ou especial).

Esta visão tem como premissa que todo resíduo originado de serviço de saúde esteja contaminado, levando a um preconceito que induz a uma negligência com políticas de gestão.

Monreal (1993) assevera, em confirmação a todas as observações anteriores, que a quantidade de resíduos sólidos gerados no estabelecimento de serviço de saúde é função das diferentes atividades que nele se desenvolvem, dependendo, portanto da quantidade de serviços médicos, do grau de complexidade da atenção prestada, do tamanho do estabelecimento, da proporção entre pacientes externos e internos, e do número de profissionais envolvidos, não sendo fácil, portanto, estabelecer relações simples que permitam estimar a quantidade de resíduos sólidos gerados.

Por simplificação, na maioria dos casos, é realizada uma relação entre a quantidade média de resíduos gerados, em função do número de leitos do estabelecimento, obtendose assim números que podem estar sujeitos a um certo grau de imprecisão, mas que permitem facilidades de manejo e aplicação.

Esta situação não pode ser aplicada a farmácias, ambulatórios, postos de saúde, consultórios e clínicas, para os quais são necessários estudos específicos.

Risso (1993) destaca vários casos de acidentes com resíduos de serviços de saúde, existentes na literatura, incluindo o acidente com o Césio 137 em Goiânia.

Materiais e métodos

Serão apresentadas as principais técnicas de manejo dos resíduos de saúde com discussões e exemplos. A NBR 12807 define manejo como a operação de identificação e acondicionamento dos resíduos.

Os itens de metodologia mais divulgados e consensuais para o gerenciamento dos Resíduos Sólidos dos Serviços de Saúde envolvem a minimização da geração na

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Revista Espaço para a Saúde, Londrina, v. 5, n. 2, p. 17-27, jun. 2004 20 origem, as técnicas de segregação na origem, o reuso e a reutilização dos materiais, conforme suas características e as categorias de classificação.

Discutem-se as normas, NBR 12809/1993 e NBR 12810/1993 que dispõem e normatizam o tema.

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