Mulheres honestas, mulheres faladas

Mulheres honestas, mulheres faladas

PEDRO, Joana Maria. Mulheres honestas e mulheres faladas: uma questão de classe. 2ª ed. Florianópolis: UFSC, 1998.

Prefácio de Maria Odila Leite da Silva Dias (USP)

(p.9) – “Ao contrário de muitas pesquisas recentes de história social das mulheres, que insistem em se manter dentro de papéis normativos e de espaços sociais pré-demarcados, este trabalho tem como objetivo principal romper limites, focalizar o tema das mulheres em movimento, em mudança, situando-as com tenacidade em conjunturas históricas bem definidas, de modo a revelar o conteúdo ideológico dos papéis normativos [estuda o conjunto da sociedade de Santa Catarina articulado ao universo dos papéis femininos em Desterro]. Nada nos parece mais oportuno, no estágio atual da historiografia das mulheres, do que pesquisas abrangentes da urdidura [trama, meada, enredo] das relações sociais de sobrevivência, de estratégias de organização familiar e de trabalho, nas mais diversas conjunturas de formação das classes sociais e do processo de urbanização. Ao documentar aspectos novos dos papéis femininos na formação das elites de Desterro, Joana Maria Pedro nos traz vislumbres das estratégias políticas com que estas elites enfrentavam as vicissitudes da transição para a República e sua inserção nas elites dirigentes nacionais (...) a autora encontrou veredas certeiras e através delas, perseguiu os contornos sociais de valores masculinos a respeito dos papéis das mulheres, confrontando-os e integrando-os na historiografia de Desterro. A sua contribuição principal constitui justamente o exercício de crítica da ideologia de dominação e dos valores que definiam os papéis sociais femininos. As mulheres de Desterro aparecem integradas nas transformações das elites de dirigentes, que acompanharam os momentos difíceis de transição para a República e de inserção na política de hegemonia nacional”. (p.10) – “A historiadora enfrentou riscos ao optar pelo estudo das imagens e estereótipos da imprensa local, masculina, riscos que não podem ser subestimados nesse gênero de trabalho, uma vez que lidar com ideologia é difícil e capcioso, exigindo uma hermenêutica [interpretação do sentido das palavras; arte de interpretar leis, códices, textos sagrados] ousada e pertinaz para romper com coerências de pensamento, que parecem sempre universais e perfeitamente contidas na própria lógica. É precisamente à historicidade do discurso que se refere Claude Lefort [As formas da história] ao acenar para a necessidade de buscar nos desvãos, nas entrelinhas, no ‘oco’ dos argumentos, a brecha através da qual captar o pensamento das fontes fora do círculo contido da representação de si mesmo. Muitos estudos sobre mulheres soçobram [afundam, naufragam, perdem o ânimo, esmorecem] na tarefa de enfrentar verdades que parecem óbvias, e que se têm sempre como universais. Principalmente, quando resvalam pela ideologia burguesa, os papéis de rainha do lar, de moral familiar e religiosa, reforçados por séculos de erudição e pela cadência tão assimilada na nossa formação da leitura dos romances urbanos, dos folhetins, reforçados pelas imagens que a cultura de massa, as novelas e o cinema disseminam incessantemente (...). Joana Maria Pedro deixa bem claro as fronteiras das classes sociais entre as quais circula (...). É o que contribui para o senso crítico apurado com que delineia e cerca suas fontes: encontrar o não dito, o atípico, o particular, a especificidade histórica. / As imagens idealizadas e os estereótipos das mulheres, enquanto mães e esposas, foram cuidadosamente perscrutados sempre sob o pano de fundo da formação das elites políticas do Desterro. A tarefa mais estratégica da historiadora foi o exercício de historicizar e de temporalizar estas imagens genéricas. Em nenhum momento, imagens e referências aos papéis normativos das mulheres de Desterro deixam de ser devidamente contextualizados, através de uma bibliografia atualizada e especializada, que permite a autora nuançar o processo de modernização e trabalhar as mediações do processo civilizador de importação dos modelos europeus de Paris à Corte; e, ainda, o seu desdobrar e difundir através dos jornais do Rio de Janeiro até a imprensa local de Desterro (...). // Enquanto Capital da Província de Santa Catarina, Desterro desempenhava um papel polarizador na sociedade bastante diversificada da cidade portuária da Província”. (p.1) – “A autora delineia o papel importante da imprensa no processo de formação e de consolidação de uma elite dirigente em Desterro (...) / Ao invés de ceder à intemporalidade das imagens idealizadas de mulheres honestas, a símbolos e metáforas da tradição judaico-cristã, Joana Maria Pedro persegue as especificidades locais de chavões genéricos da ideologia burguesa européia, e quer discernir o modo como contribuíram para a formação das elites de Desterro [provavelmente tal fator ocorreu também no Espírito Santo, em torno da sociedade vitoriense – a importância da imprensa no processo de formação das elites urbanas capixabas]. (...) A escolha da imprensa local, como fonte, levou-a a um estudo minucioso da filiação político-partidária dos jornais locais, e a uma atenção criteriosa para o seu papel no processo de acomodação e de remanejamento das elites dirigentes. As notícias que transcreviam dos jornais da Corte, o quanto dependiam das nomeações do Rio de Janeiro, de contatos com o nepotismo do poder central e, aos poucos, o surgimento de uma elite de comerciantes em função das atividades do porto de Desterro e do escoamento da produção local. (...) A relativa mobilidade social que tornava tão importante a política casamenteira foi o veio que a historiadora explorou, para integrar as mulheres na formação da elite política e econômica de Desterro. [lembrar que a autora se concentra mais na segunda metade do século XIX, fazendo menções menos numerosas, mas complementares, do início do século X, com o Brasil já sob o regime republicano]. / Mulheres casadouras e ideologia de controle social são os parâmetros com que analisa as colunas dos jornais, a intenção didática e educadora dos jornais na formação de uma elite de funcionários públicos em ascensão social”. [observar, no caso de Vitória, quais são os parâmetros contextuais que permitem historicizar os escritos feministas capixabas].

(p.12) – “Na urdidura dessas imagens idealizadas de mulheres, Joana Maria Pedro acompanha as instabilidades da crise da passagem para a República e o remanejamento das elites locais; remanejamento que a autora documenta nas páginas de recortes femininos dos jornais e no acirramento das disputas de controle dos cargos públicos, que beira a guerra civil no momento em que os federalistas são derrotados (...) o controle dos cargos públicos e a política de casamento dos novos grupos que ascendiam ao poder, encontram sua expressão na politização da vida privada e na intensificação do modo como as mulheres na imprensa são definidas enquanto objetos sexuais e reprodutoras. Não aparecem enquanto indivíduos, ou enquanto mulheres que têm ocupações definidas na escala das parcas oportunidades de emprego oferecidas por um processo incipiente de urbanização. Alianças de facções políticas republicanas, compromissos com ex-federalistas, vêm associadas ao machismo e ao culto da honra familiar que limitava os papéis sociais femininos. O fato de estarem envolvidas numa política de controle do espaço doméstico, privado e familiar, em nada diminuiu o papel estratégico que desempenharam as mulheres de elite na consolidação do poder político provincial e na construção de uma política nacional. Os casamentos com os bacharéis do nordeste, com políticos do Rio e sobretudo com famílias prosperas das áreas de imigração italiana e alemã documentam formas de inserção no processo histórico mais amplo da época. / Das imagens didáticas e civilizadoras, de que os jornais transbordavam em suas colunas internas, a autora transita até o início do século, quando estão momentaneamente estabilizadas as elites locais, e os jornais deixam de registrar meras referências idealizadas ao dever ser dos papéis femininos: neste momento, passam a dar destaque a notícias das mulheres de elite, de carne e osso: damas da sociabilidade mundana, senhoras de iniciativas filantrópicas, escritoras e literatas desfilam nos meandros da linguagem ideológica da imprensa. O conservadorismo dos papéis das mulheres de elite acena para os limites provincianos em que atuavam. / Joana Maria Pedro documenta o fastígio [auge, cume, elevação, sublimidade] da elite política de Desterro, que se alonga entre 1918 e 1928, a que atribui o caráter conservador de se revestiu a imprensa local, mesmo de periódicos femininos. A revista Pena, agulha e colher manteve-se alienada dos movimentos feministas da Europa, dos Estados Unidos e mesmo do Rio de Janeiro”. (p.13) – “A autora interpreta o modo como as metáforas, as imagens, os símbolos das colunas da imprensa, que construíram a ideologia de consolidação das elites dirigentes de Desterro, passaram, aos poucos, através da formação de uma opinião pública, a atuar como ideologia de controle e de diferenciação social. As imagens da imprensa passaram a constituir uma política atuante de discriminação social sobre mulheres de classes trabalhadoras, cujas vidas se vêm cerceadas, senão brutalmente controladas, por valores hegemônicos de que não tinham condições de participar. As reformas urbanas e os padrões de higiene, saneamento e controle dos bairros mais pobres viriam dificultar a sobrevivência das mulheres pobres, cujas vidas familiares e pessoais não se coadunavam com as imagens segregadas de papéis familiares de mulheres de elite. / (...) Resulta um confronto entre os papéis muito diferentes das mulheres pobres – costureiras, lavradoras, vendedoras – e da mentalidade normatizadora das elites no processo de saneamento e de urbanização de Desterro. Algumas escritoras e professoras surgem com a individualidade de personagens históricos, mas o que resulta como contribuição importante é o exercício da historiadora de interpretação dos papéis normativos femininos como instrumentos da hegemonia das elites. Ao documentar a experiência de mulheres de outras classes sociais no processo de formação de uma futura classe trabalhadora, Joana Maria Pedro interpreta os valores ideológicos, que pretendem dar universalidade a normas machistas e que nunca chegaram a dar conta dos papéis informais vividos por mulheres de outras classes e de outros espaços sociais. O livro termina com um confronto sutil entre a ideologia das elites locais, os papéis restritos reservados às mulheres das elites dirigentes, e o esforço da historiadora em resgatar, sob este pano de fundo, experiências de vida diferentes das mulheres trabalhadoras [integrando] no panorama da história do Brasil (...) esta nova história social das mulheres, que nunca perde de vista o conjunto da sociedade brasileira”.

Introdução

(p.15) – “As mulheres são, para a construção desta história, um desses pontos que, se esquecidos comprometem a reconstrução das tensões sociais que permeiam a história de toda formação social (...) / Maria Odila Leite da Silva Dias aponta (...) que a reconstrução histórica das relações sociais pressupõe a dos papéis sociais femininos. / Neste trabalho, pretendo, além de reconstruir os papéis sociais femininos, em Desterro/Florianópolis, perceber as imagens idealizadas das mulheres que, principalmente, os jornais dets cidade divulgavam, no período de 1880 a 1923. / A reconstituição de imagens femininas corre o risco de apenas reproduzir o mítico, as normas, os estereótipos, presentes na longa duração da cultura ocidental cristã. Dar historicidade a estas imagens é buscar, não as suas origens ou causas, mas os momentos em que, numa determinada formação histórica, tais imagens são reativadas (...). Demonstram, não somente a resistência dessas normas culturais, como também a importância das mulheres e de seu comportamento nos embates sociais”. (p.16) – “Em Desterro/Florianópolis, no final do século XIX e início do X, as mulheres e seus comportamentos foram um valioso ponto de referência para a delimitação de distinções entre as elites. (...) / A análise que Jünger Habermas fez da sociedade burguesa européia, a partir da constituição das esferas pública e privada, serve, em relação à formação histórica específica de Desterro, para estabelecer balizas que enriquecem a análise da constituição de uma classe que, ao enriquecer, reelaborou valores transmitidos internacionalmente a partir de questões da cultura local e de sua história”.

Capítulo I – “Imagens femininas na formação da elite de Desterro”

(p.17) – “Como se vê [na imprensa] não se destacava a proprietária, a lavadeira, a mulher que exalava peixe, que fazia farinha, que plantava, que colhia; enfim, não interessavam as inúmeras atividades que eram exercidas pelas mulheres. Somente seus papéis familiares na relação com os homens é que contavam. / A elite, na sua constituição, contou com o apoio de toda uma população de pequenos funcionários públicos, pequenos comerciantes e proprietários. Camada letrada que encontrava, nos jornais, formas de expansão de suas aspirações de ascensão social, expondo modelos idealizados para os novos sujeitos que se construíam. / Em contrapartida, as camadas populares viram-se pressionadas com a crescente proletarização e com os inúmeros mecanismos de controle e fiscalização, que a sociedade foi criando è medida que crescia, e ia tomando uma nova complexidade. (...) É preocupação deste trabalho perceber a construção de imagens idealizadas de mulher, as quais atestam a constituição de uma nova configuração da elite”. (p.18) – “Os novos personagens que passaram a compor a elite eram oriundos, principalmente, do comércio e do transporte de mercadorias. Deram início à formação de uma esfera pública burguesa, estabelecendo uma cisão em relação ao poder público; este era, originalmente, formado por funcionários civis e militares, enviados para a administração da Ilha de Santa Catarina. / [Sua] posição estratégica (...) determinou o povoamento planejado e a transformação da Ilha em base militar. / Data de 1737 o estabelecimento do primeiro contingente militar (...) em função das lutas contra a Espanha por causa da Colônia do Sacramento. (...) Os primeiros Governadores da Capitania eram militares (...). Ficava configurado, assim, o caráter militar da ocupação de Desterro / (...). A distribuição de pequenos lotes de terra para estes colonos recém-chegados marcou o povoamento da região, caracterizado pelo número reduzido de escravos. Uma outra característica foi a vinculação, de forma subsidiária, à economia de exportação”. (p.19) – “A produção, que era diversificada e destinada à subsistência, tornou-se, pouco a pouco, especializada em farinha-de-mandioca (...) / É possível que em Desterro a posse de escravos representasse, para alguns, muito mais uma demonstração de posição social do que vínculos com os processos de produção”. (p.21) – “Miriam Lifchitz Moreira leite nos alerta para o fato de que, muitas vezes, os viajantes, ao falarem das mulheres brasileiras, referiam-se exclusivamente às brancas de família abastada. Alguns ignoravam a existência de filhas de imigrantes pobres, das mulatas e negras livres, enquanto outros nem sequer as classificavam como mulheres, pois nem sempre eram capazes de levar em conta as contradições da vida paralela das diferentes camadas sociais [A Condição feminina no Rio de Janeiro – século XIX] / Possivelmente, a formação social de Desterro, com um componente racial branco mais numeroso que o negro, e um modo de vida vinculado à pequena propriedade- livre, portanto, de ‘sistemas de controle característicos das famílias pertencentes à aristocracia rural’ –, deve ter feito com que os viajantes reconhecessem, como mulheres, as brancas pobres que percorriam as ruas de Desterro, comuns, também, em outras cidades do Brasil, porém, com um outro componente racial”. (p.2) – “É difícil averiguar se, realmente, a quantidade de mulheres era superior à de homens. Na verdade, esta afirmação foi feita em várias ocasiões por comentaristas, e aparecia no final do século XIX em jornais, alertando as mulheres para a conquista de seu ‘raro’ marido. É possível pensar-se que estas referências deviam estar vinculadas a controles de comportamentos feminino, muito mais que a qualquer realidade empiricamente comprovada. / (...). A década de 50 do século XIX tem sido apresentada, pela historiografia local, como um marco da História de Santa Catarina e, particularmente, na de Desterro. Embora não represente um significativo crescimento urbano, esse período tem sido apontado como aquele da definitiva inclusão da economia catarinense, em geral, e a Desterro, em particular, no circuito do comércio agrário-exportador brasileiro, como subsidiária, ou seja, como exportadora de alimentos para o mercado interno. / Tal década, marcada pela abolição do trafico de escravos, pela expansão cafeeira e pela Lei de Terras, representou, também, um consequente aumento nos preços dos alimentos que subiram até 200%. O aumento dos preços do café no mercado externo, e a subsequente destinação da mão-de-obra escrava para a produção deste artigo, promoveram uma procura geral dos demais alimentos, estimulando as exportações para as áreas cafeicultoras”. (p.23) – “Tais atividades deram ensejo ao surgimento de uma classe de comerciantes, armadores, agenciadores e construtores de navios que irão, no decorrer da segunda metade do século XIX, promover o aparecimento de uma esfera pública formada por pessoas privadas [de capital financeiro privado], da qual os jornais serão um dos órgãos privilegiados para a divulgação e o diálogo. / Embora o primeiro jornal de Desterro tenha sido publicado em 1831, na década de 50 do século XIX surgiram inúmeros periódicos. Muitos tiveram vida efêmera, permanecendo em circulação por período muito reduzido. (...). Neles, a mulher, o amor e a maternidade, eram enfocados em tom romântico (...) / [o que] exprime toda uma idealização do papel social da mulher como mãe, o qual vinha, há muito, sendo divulgado na Europa. Vinculava-se à valorização da criança e da vida, que a sociedade burguesa inaugurava. Philippe Áries sugere que, a partir do século XVII, modificou-se, na Europa, a concepção de infância que os adultos possuíam (...) / No bojo dessa preocupação com a infância, no século XVIII inaugura-se, na Europa, uma grande quantidade de discursos que centraliza, nas mães, o interesse pela vida e pela educação das crianças. Elizabeth Badinter mostra como se passou a fazer, acentuadamente, a associação entre // (p.24) as palavras ‘amor’ e ‘materno’, bem como houve um certo tipo de recrudescimento da valorização da mulher enquanto mãe. / A simetria entre aquelas divulgações na Europa, iniciadas no século XVII, e estas dos jornais de

Desterro, atestam, não só a cópia dos modelos europeus, como o espraiar-se de um processo burguês de construção de sujeitos a que a nova configuração econômica da cidade dava ensejo. / Essas imagens, envolvendo mulher, amor e maternidade, estiveram presentes nos jornais, ao longo de todo o final do século XIX e início do X; porém, em determinados momentos, foram delineadas em cores mais vivas. Acompanhando tais eventos é possível inferir-se algumas questões que as motivaram. Entre estas destacaram-se: a formulação de uma elite ligada às atividades comerciais e ao transporte de mercadorias, bem como a mobilidade social dela decorrente. / Em sua constituição, essa elite reformulou o espaço urbano de Desterro, e procurou delimitar espaços sociais. Novos sujeitos sociais foram construídos, novas mulheres e homens experimentaram a ordem burguesa que se constituiu. Criaram, para si próprios, códigos de distinção e de identificação. Entre estes, o registro de uma mulher ideal. / Essas imagens idealizadas de mulher encontravam-se em vários registros, não apenas nos jornais. Na literatura, nos sermões da Igreja, nos textos escolares, na tradição local, tais imagens também eram frequentes; no entanto, diferentes daquelas veiculadas pelos periódicos, estas vinham ligadas a uma temporalidade vinculada à longa duração. Eram estereótipos que constituíam como que um pano de fundo da sociedade ocidental, onde tais imagens circulavam entre as diversas classes sociais; estavam presentes, também, nos discursos de variadas instituições. / (...) Nos jornais, no entanto, é outra a temporalidade. As imagens de mulher publicadas nos periódicos de desterro vinham ligadas a um tempo // (p.25) linear, presas a uma conjuntura específica [à da formação de uma elite urbana, dentre outras]. Embora também reproduzissem estereótipos de origem secular, a sua intensa reprodução acompanha uma conjuntura determinada, onde a demonstração de distinção e a exposição de um certo verniz social implicava em focalizar as mulheres de uma determinada classe. Nas imagens dos jornais, por exemplo, diferentes daquelas da Igreja, das mães dependia o progresso e a civilização, elas eram consideradas, principalmente, como as criadoras e as educadoras das novas gerações. / (...). Na compreensão dessas imagens e de sua inserção na história local, é importante destacar as formas de acumulação e de ostentação da riqueza, que se estabeleceram no espaço urbano de Desterro. / A constituição de um espaço urbano e de suas demandas teve origem, ainda, no século XVIII, (...) O controle da população recém-chegada exigiu a criação de novos cargos administrativos e, com isso, deve ter surgido uma nova gama de funcionários, que, estabelecidos na vila, criaram a procura por novos serviços urbanos (...) / Em função do porto, estabeleceram-se agências de navegação, estaleiros e casas exportadoras (...) / O porto de Desterro foi, no século XIX, o mais importante porto da Província. Como entreposto principal, promoveu a acumulação de riquezas, criando uma próspera classe de comerciantes, armadores e agenciadores de navios”. (p.26) – “Embora Desterro fosse o porto mais movimentado da Província, em relação ao movimento geral do comércio do país, esse porto, assim como a própria Província, tinha uma contribuição pouco significativa. (...) / Parece conveniente ter em conta estas limitações, ao estudar-se a possibilidade de acumulação de riquezas proporcionada pelo porto de Desterro. Convém, entretanto, destacar que, mesmo de forma limitada, foi devido ao porto que a cidade urbanizou-se. Especialmente em função dele surgiram as várias casas comerciais (...). / A freqüência de navios de passageiros no porto promoveu, também, o aparecimento de hotéis, estalagens, pensões, restaurantes, bem como de um comércio ambulante de comidas que freqüentava os trapiches e as ruas centrais”. (p.27) – “Como podemos perceber, a acumulação de riquezas, bem como a diversificação de atividades na área urbana, teve nas atividades do porto seu principal elemento. No entanto, outros fatores também contribuíram para a formação de riquezas. Um destes foi a produção e, principalmente, o comércio de alimentos, especialmente a farinha de mandioca. Esta destacou-se em vários momentos, na pauta de exportações do porto de Desterro. / A alta dos preços dos alimentos, da década de 50 do século XIX, foi um destes momentos”. (p.28) – “Era para o porto do Rio de Janeiro que se escoava a maior parte da farinha exportada, sendo possivelmente, de lá, reexportada para outros locais. / Considerada grossa e de qualidade inferior, a farinha era, em geral, procurada quando faltava a de outras regiões. Além disso, foi, desde o início de sua produção, sujeita a embargos por parte da Coroa que, muito irregularmente, e isso quando fazia, pagava tais embargos. Estes embargos visavam à alimentação das tropas, e esse repetiram até 1886, trazendo inúmeras dificuldades aos agricultores, em especial aos pequenos proprietários. / (...) A especialização na produção da farinha de mandioca levou à necessidade de abastecimento, e ainda à política governamental das requisições de farinha, promoveu o aparecimento de uma elite ligada ao comércio, à especulação e ao contrabando, a qual, junto com os elementos enriquecidos através das atividades do porto, promoveu uma mudança nas formas de distinção social. Estas eram dadas inicialmente pela ocupação de cargos públicos e/ou pela graduação na hierarquia militar. Outros referenciais de distinção passaram a ser formulados a partir de então, entre eles a construção social de mulheres destinadas exclusivamente às funções de esposas, mães e donas de casa e, portanto, a símbolos de status, de um ‘brilho’ recém-adquirido. / A acumulação de riquezas promoveu, também, inúmeras mudanças na paisagem urbana de Desterro. A cidade (...) foi se modificando no decorrer do século XIX, principalmente em seu último quartel”. (p.29) – “Estes sobrados eram construídos para atender às atividades de moradia e de comércio. No andar térreo, ficava a loja e, no superior, a moradia da família. A localização dos sobrados era, em geral, no centro da cidade. (...) O crescimento do porto direcionou a expansão urbana na direção dos trapiches, local onde se fazia todo o movimento de cargas e passageiros. / O aparecimento dos sobrados não significou o desaparecimento das casinhas de ‘porta e janela’. Elas foram saindo do centro da cidade, acompanhando a expulsão dos pobres dessa área. (...) / Este processo de retirada gradual das casinhas de ‘porta e janela’ encontram-se no bojo de toda uma nova delimitação de espaços sociais, que se tornou bastante visível no último quartel do século XIX. (...) / [a nova elite passou a desempenhar cargos administrativos, substituindo os funcionários civis e militares]. A par de tais funções administrativas, a nova elite produziu novos hábitos, que pretendiam copiar aqueles que eram usuais em grandes centros, como o Rio de Janeiro” [Joana Maria Pedro usa, sem culpa, a palavra cópia, pois explicita a particularidade local na adoção de tais códigos externos, que são reelaborados internamente]. (p.30) – “O Rio de Janeiro era, além da principal praça destinatária da importação e exportação que se fazia através do porto, o modelo que se pretendia seguir. De lá chegavam os jornais com notícias, modas, questões, que eram, em grande parte, transcritos nos jornais locais. Pretendia-se imitar o Rio, ele era o grande modelo. As casas de modas anunciavam ‘moda do Rio’, os modelos de ‘civilidade’ e ‘gosto’ eram os do Rio de Janeiro [o Rio havia alcançado toda uma credibilidade nessa instância e atraía os olhares de parcela significativa das outras regiões brasileiras, que buscavam referências nas quais pudessem ancorar seu anseio por modernidade. Mesmo que as novidades ‘modernas’ do ‘velho mundo’ desembarcassem antes em outro porto que não o carioca, o que era de um modo muito peculiar, quase impossível, já que a maior parte do comércio internacional dava-se através do porto da capital federal, elas só ganhavam projeção quando adotadas, desfiladas e postas em exposição no Rio. Sua credencial como receptora e difusora do aparato que compunha a modernidade, contudo, não pode ser considerada à risca, à margem da noção de que não há ‘cópia’ sem adaptação, como se todas as outras capitais que se dispuseram a moldar uma realidade urbana semelhante à do Rio, não se dispusessem, igualmente, a reelaborar, ressignificar todos esses novos hábitos]. / (...) Os bondes, instalados em 1880, tornaram-se um espaço de demonstração de ‘civilidade’ e de ‘lugar social’. (...) / Atestando, ainda, a riqueza acumulada [ao invés de acumulação de capital, evitando referências a teoria marxista], havia chácaras na Praia de Fora, no Forte de Sant’Ana (...). Estas chácaras eram uma espécie de refugio (...) / A riqueza acumulada era, também, no último quartel do século XIX, demonstrada através do aumento dos sobrados, do ornamento das fachadas”. (p.31) – “Por entre os móveis e cortinas, no andar superior do sobrado, deveria caminhar uma mulher especial, cujas imagens os jornais delineavam. As ascendentes dessas mulheres tinham participado diretamente da acumulação da riqueza que, agora, na ostentação, exigia sua reclusão no andar superior. / Catherine Hall, no texto ‘Sweet Home’, apontou, na Inglaterra, as transformações no comércio como o motivo para o isolamento gradativo das mulheres na esfera privada. Em Desterro, o crescimento do comércio também determinou uma nova distribuição de funções e delimitação de papéis sexuais / (...) O isolamento das mulheres nas atividades de esposa, mãe e dona-de-casa tornou-se forma de distinção para uma classe urbana abastada e, também, para funcionários públicos, pequenos comerciantes e proprietários urbanos, estes desejando ascensão social. / Eram os homens que compunham o judiciário, que chefiavam a polícia, o exército, a administração, que decidiam sobre a educação, faziam sermões religiosos, votavam e eram eleitos, aqueles que participavam dos órgãos político-administrativos, eram, também, os redatores e os leitores dos principais jornais da cidade. Eles prescreviam as formas de ser ‘distinto’ e ‘civilizado’, que incluíam modelos idealizados para as mulheres, segundo os quais estas deveriam restringir-se aos papéis familiares. / Estes jornais tematizavam questões morais, notícias, educação e comportamento ético, além de questões político-partidárias”. (p.32) – [imprensa] “Constituíam-se, portanto, em formadores de opinião pública, além de serem instrumentos pedagógicos, divulgadores de ‘civilidade’ e ‘moralidade’. / Jünger Habermas situa no início do século XIX, na Inglaterra, essa passagem da imprensa ‘publicadora de notícias para, além disso, construtora da opinião pública (...) De qualquer forma, esses periódicos tornaram-se a expressão de uma esfera pública que se formava em Desterro. / Possivelmente, os jornais de Desterro não acompanham, como ondas atrasadas, todos os movimentos dos periódicos dos grandes centros. Estes tinham uma história específica [da qual abordar]. Oswaldo Rodrigues Cabral vincula a existência dos periódicos à política partidária local. O fato de não haver, à época, um diário oficial, fazia com que os decretos, as leis e atos oficiais fossem publicados nos jornais [provavelmente igual motivação ocorreu na imprensa do Espírito Santo] (...) / Tiveram, também, vida efêmera as publicações literárias – os jornais ditos ‘imparciais’. Entre 1880 e 1923, período em que se pretende focalizar as imagens de mulher divulgadas por estes periódicos, circularam 109 jornais. Muitos não passaram dos primeiros números. Dentre os jornais de maior periodicidade, destacamos, para análise, o Jornal do Comércio, o República e O Dia. / É possível que, em Desterro, nas camadas populares, [os] pasquins, bem como as conversas, as redes informais de comunicação, tivessem // (p.3) maior eficácia que os jornais. Porém, provavelmente, as notícias, os folhetins, os provérbios, as quadrinhas presentes nos jornais, também circulavam para além dos meros assinantes e dos leitores dos jornais, através de tais redes informais de comunicação (...) / A ‘camada letrada’ escrevia nos jornais, fazia transcrições, comentários, e até traduções. Desta forma, os periódicos resultavam de uma mistura de ‘extraídos’ com algumas informações, e produções literárias locais (...) / Embora os jornais já tenham sido identificados com o empobrecimento da cultura através de sua massificação, de sua ‘elegância barata’ [Walter Benjamin, Obras escolhidas; Sodré, Werneck], é importante destacar que, em cidades do porte de Desterro, este é um veículo cultural de suma importância. É o que a população alfabetizada, que em Desterro era bastante reduzida, lia”. (p.34) – “Embora fosse lido por um número menor do que o total das pessoas alfabetizadas, o jornal teve grande importância na hierarquização das classes sociais (...) / Além da cisão entre os que

apresentados assumindo formas de poemas, provérbios, comentários, notícias, piadas, etcDe

sabiam ler e aqueles limitados à cultura oral, e ainda entre os que liam os jornais diretamente importados e os que obtinham informações a partir dos jornais locais, estes periódicos de Desterro promoviam alegoricamente, em suas páginas, a divisão entre o público e o privado. Mormente na primeira página, estes periódicos dirigiam-se a um público interessado na disputa políticopartidária. Porém, da segunda página em diante, encontravam-se outros textos (...). Estes textos, pela abundância de referências à mulher, pareciam dirigir-se ao público feminino (...) / Na segunda metade do século XIX, surgiram, no Rio de Janeiro, inúmeros jornais e revistas dedicados à família e à mulher. Em Desterro, no período de 1880 a 1923, inúmeros pequenos jornais de vida efêmera, com conteúdo literário, também pareciam dirigir-se às mulheres. Nos grandes jornais, como os que se pretende analisar, a divisão de gêneros parece dar-se através das páginas. A primeira e, às vezes, parte da segunda, destinavam-se aos leitores; as demais às leitoras. Esta divisão, porém, obviamente não era rígida”. (p.35) – “Como se percebe, de forma alegórica as primeiras páginas destinavam-se à esfera pública e, nas seguintes – em especial no setor de ‘variedades’ – abria-se um espaço para a subjetividade originada na esfera íntima da família. Nesse setor, as mulheres eram o principal tema. / Nas páginas internas dos jornais, eram reproduzidas imagens idealizadas de mulheres, onde se explicitavam formas que deveriam ser assumidas, bem como aquelas que deveriam ser evitadas, constituindo-se, estes jornais, em instrumentos normatizadores de conduta. (...) / Em relação às mulheres, tal papel dos jornais de Desterro era flagrante. Em inúmeros textos, virtudes e defeitos femininos eram maneira geral, referiam-se a uma ‘natureza feminina’, que ora era valorizada, ora criticada. / O caráter normatizador dos jornais [foi] (...) destacado por (...) Maria Fernanda Baptista Bicalho, em O Belo Sexo, Imprensa e Identidade feminina no Rio de Janeiro em fins do século XIX e início do X, [que] mostrou a difusão, pelos jornais femininos, da ‘ação normatizadora da educação feminina’, que visava ‘regular o comportamento da mulher de acordo com a elevada missão que lhe compete na sociedade – a de mãe e mestra dos filhos’. / Nesse trabalho, a autora analisou a imprensa feminina como manifestação de uma ideologia individualista (...). Mostra como os jornais femininos reivindicavam a educação para as mulheres, como suporte indispensável à sua emancipação. / Neste trabalho, (...) pretendemos perceber as imagens de mulheres que apareciam em jornais dirigidos por homens (...). / Entretanto, é possível verificar que muitos dos assuntos apontados por Bicalho, constantes dos jornais femininos, no Rio de Janeiro, apareciam, igualmente, nos jornais de Desterro. Isso nos leva a inferir que alguns destes jornais femininos talvez chegassem a // (p.36) Desterro, ou que, sendo temas de debates, à época, ultrapassavam os limites da imprensa feminina. (...) / outros temas se repetem nos jornais do Rio de Janeiro e nos de desterro. É o caso das questões relativas à educação das mulheres, que foi analisada no trabalho de Maria Thereza

Caiuby Crescenti Bernardes. Neste, a autora buscou (...) expor as vozes masculinas e as femininas a respeito da educação das mulheres. Na primeira parte do trabalho, a autora expôs as opiniões dos escritores do final do século XIX sobre a importância da educação das mulheres (...). Na segunda parte, através das personagens femininas dos romances da época, procurou dar a versão masculina da condição feminina do período. Na terceira parte do trabalho, analisou jornais femininos entre 1840 e 1890, buscando resgatar as vozes das mulheres de letras sobre a questão da educação feminina”. (p.37) – “Tais constatações permitem notar que, guardadas as especificidades locais, os articulistas dos jornais de Desterro estavam engajados, de uma forma ou de outra, nas discussões que aconteciam nos grandes centros. É possível, entretanto, que nas escolhas dos textos, as cores locais tivessem um peso de grande importância: afinal, os articulistas, ao fazerem tais escolhas, teriam em mente os leitores locais. A história e a cultua própria da região deviam, portanto, pesar nas decisões dos articulistas. Por outro lado, fica difícil saber como eram lidos tais textos, como eram vividas, experimentadas no cotidiano, essas imagens de mulheres que os jornais reproduziam. Somente se pode saber o que era publicado, e não como era lido e entendido pelos leitores. / Para analisar as imagens, é preciso levar em conta as formas como se apresentam. Muitas delas apareciam em forma de crônicas, outras eram veiculadas através de notícias. Outras, ainda, eram organizadas sob a forma de piadas, provérbios, quadrinhas. Essas variadas formas podiam produzir impactos diferenciados. É importante estar atento a que a notícia, por exemplo, possui um ‘conteúdo de verdade’ que tende a criar uma ‘realidade’. Diferente, pois, do efeito produzido por uma piada, um poema ou, ainda, pela opinião formulada em forma de crônica. / Por outro lado, é possível que uma piada, uma quadrinha, um provérbio, sejam lidos com mais facilidade. Repetidos, poderão alargar o âmbito da mensagem para além dos leitores dos jornais. / São numerosas as piadas que aparecem nos jornais sobre as mulheres. Os principais alvos eram as sogras. Mas havia, do mesmo modo, aquelas sobre a vaidade feminina, a idade, a velhice, a busca do casamento. Parece que pretendiam ridicularizar os desvios de comportamentos, fortalecendo as normas vigentes (...). No entanto, seria ingênuo pensar que o humor tivesse sempre tal caráter funcional”. (p.38) – “Levamos em conta que a visão de mundo que os jornais de Desterro veiculavam era a de uma sociedade burguesa e masculina. Por outro lado, esses temas não emergiam somente na linguagem escrita dos jornais; nas formas verbal, visual, gestual, eles se reproduziam. Não eram temas isolados; estavam presentes em outras formas de discurso, nesta formação social concreta. / Estes textos que os jornais reproduziam não eram apenas reflexos ou ‘uma sombra da realidade, mas também um fragmento material dessa realidade’. Parafraseando Mikhail Bakhtin, pode-se dizer que a palavra escrita é o ‘território comum’ do escritor e do leitor. ‘Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige a alguém’. Desta forma, o escritor, o articulista de jornal, ao escrever, // (p.39) ao selecionar os textos, por mais que seja guiado por decisões subjetivas, seria conduzido pela existência do leitor, as escolhas que respondessem aos interesses, às visões de mundo que circulavam em Desterro. ‘O centro organizador de toda enunciação, de toda expressão, não é interior, mas exterior: está situado no meio social que envolve o indivíduo’. / Os leitores dos jornais, por sua vez, estabeleceriam a verdade, a falsidade ou a mentira do discurso a partir dos valores de sua visão de mundo. Porém, a forma da apresentação das imagens, a linguagem empregada, poderia colaborar, mais ou menos, para o estabelecimento da verdade. Seria oportuno levar em conta que a ‘finalidade última de todos os atos de comunicação não é informar, mas é persuadir o outro a aceitar o que está sendo comunicado’. [José Luiz Fiorin. Elementos de Análise do Discurso]. / Muitas vezes, porém, os articulistas dos jornais de Desterro não estavam preocupados em persuadir seus leitores. A necessidade de preencher espaços para fechar a edição parecia ser maior. Quando faltavam assuntos para ocupar as quatro páginas do jornal, apelava-se para qualquer coisa. Publicavam-se, então, grosseiras explicitações de misoginia, reproduções de textos já impressos”. (p.40) – “A escolha de numerosas imagens de mulher, seu uso no preenchimento de espaços no fechamento das edições, e as numerosas formas como essas imagens apresentavam-se, denota uma preocupação muito viva com a construção de papéis femininos”. (p.41) – “É possível perceber, através de sua leitura, a quantidade e a variedade de textos que tematizavam as mulheres e, ainda, que os períodos de maior freqüência de tais materiais eram aqueles em que a riqueza da cidade estava em pleno apogeu (...). / Esta constatação leva-nos a inferir que, para além da reprodução de temas recorrentes na cultura ocidental, essa ostensiva publicação de textos sobre as mulheres tinha a função de estabelecer papéis femininos definidores de distinção na sociedade local”. (p.42) – “Textos informando sobre o comportamento esperado de uma esposa foram frequentes. Alguns até explicitavam a classe social da esposa-modelo (...). / Uma esposa que ajudasse o marido e não lhe arranjasse mais despesas, era o desejado (...) / O artigo prosseguia, sugerindo que se educassem as mulheres e se desse a elas profissões ‘ou ofícios adequados perfeitamente à atividade da mulher’. Estes ofícios sugeridos eram ‘as lojas de perfumarias, de modas, de cabeleireiros, de floristas, as indústrias manuais delicadas, em que seria ocioso empregar a virilidade de um homem ganhando pingues ordenados, bem como as oficinas de tecelagem e de outros artefatos, pois tudo isso lhe fornecia recursos de vida”. (p.43) – “A semelhança deste retrato, delineado por Machado de Assis [em Quincas Borba], com as questões levantadas pelo Jornal do Comércio acerca da educação das mulheres e das dificuldades enfrentadas pelos candidatos à ascensão social, faz-nos pensar que se trata do mesmo processo: a demonstração de distinção social, centrada principalmente no comportamento feminino. Daí a preocupação em delinear a esposa e a mãe ideal. / Na tentativa de construir uma esposa e uma mãe ideal, a educação das mulheres foi uma discussão que esteve sempre presente, e não somente em Desterro. / A preocupação com a educação da mulher era questão discutida nos jornais femininos do Rio de Janeiro, desde a década de 50 do século XIX. Buscava-se a ‘emancipação moral’ das mulheres, e isto significava instruí-las. Pretendia-se, não que ela saísse do lar e fosse competir com o homem no espaço público, mas que exercesse melhor os papéis de esposa e mãe. / Mas não era somente para instruir as futuras esposas que se preconizava a educação das mulheres. Coerentemente com a ideia de uma ‘natureza feminina’ maniqueisticamente voltada, ora para o bem, ora para o mal, reivindicava-se, em 1887, (...) a educação, para não ‘deixar a mulher seguir inconscientemente as inclinações frívolas, que são naturais a seu sexo’”. (p.4) – “Esta educação que reivindicavam, destinava-se, portanto, ao lar urbano e a uma classe social que podia dispensar o vai-e-vem das mulheres vendedoras, lavadeiras, que faziam da rua, da ‘praça pública’, seu lugar de trabalho, ou seu caminho em direção a este. Possivelmente, essas mulheres que viviam os ‘perigos da vida das multidões’ não eram consideradas como pertencentes ao ‘delicado sexo’. / Em Desterro [final do século XIX] a educação das mulheres da elite se fez, principalmente, através do ensino particular, na própria casa da aluna ou em escolas dirigidas por professoras particulares. (...) / Em 1875, havia, em Desterro, 24 escolas, sendo 21 públicas e 3 particulares. Nessas escolas, havia 429 alunas e 648 alunos (...) A diferença na quantidade de meninos e meninas que freqüentava a escola pública – 630 meninos e 356 meninas – invertia-se na escola particular: 18 meninos e 73 meninas, de onde se infere a preferência dos pais, com algumas posses, pela educação das meninas em escolas particulares da cidade (...). É possível que, em Desterro, acontecesse o mesmo, sendo os meninos das famílias de posse enviados para estudar em centros maiores como o Rio de Janeiro. / O ensino público em Desterro, assim como em Santa Catarina e no país, foi marcado pela preocupação com a construção da nação brasileira que, embora despontasse em vários momentos, após a independência, teve na década de 70 do século XIX um dos pontos de destaque no processo // (p.45) de autoconsciência dos intelectuais brasileiros. A ‘geração de 1870’, de acordo com Lúcia Lippe de Oliveira [A questão nacional da primeira república], pretendia ‘iluminar o país através da ciência e da cultura’, e confiava em que a ‘educação intelectual era o único caminho legitimo para melhorar os homens’. / Na constituição dos

‘homens melhores’ que formariam a nação brasileira, além da escola era necessária a formação no lar, e esta deveria ser ministrada por uma mãe instruída. Foi dentro desta filosofia que se reivindicou a educação pública para meninos e, principalmente, para meninas. / Entretanto, o ensino secundário, em Santa Catarina, iniciou-se masculino. (...) / Em 1880, foi criado o Curso Normal, porém nenhum aluno ou aluna matriculou-se (...) / A instrução pública das meninas, no entanto, encontrou resistência (...) na Ilha de Santa Catarina, a professora primária Francisca Carolina

Willinzton, em 1881, reclamava que os pais das alunas dificultavam a freqüência destas Às aulas, dando-lhes inúmeros ‘afazeres domésticos’; além disso, de acordo com a professoram eram muito pobres, e faltavam-lhes roupas e material escolar. / Isto, porém, não era exclusivo de Desterro”. (p.46) – “Como podemos constatar (...), apesar das preocupações da elite, principalmente da ‘elite letrada’, com a ‘civilização’, e a construção da nação brasileira, dessa preocupação não participavam as camadas populares. Eram os grupos que compunham a elite de Desterro que estavam envolvidos num processo de auto-afirmação, e que se empenhavam em ‘parecer civilizados’. / De acordo com Norbert Elias, o conceito de civilização ‘expressa a consciência que o Ocidente tem de si mesmo’. Parafraseando-o, diríamos que, em Desterro, esta palavra era utilizada, nos textos dos jornais, significando a auto-imagem que a elite fazia de si mesma: de suas maneiras, de seu comportamento, de suas casas, de sua família. / Ter uma família ‘civilizada’ era possuir uma esfera familiar separada da pública, onde reinava uma esposa educada para as funções de mãe e dona-de-casa. Uma família restrita a pai, mãe e filhos [família nuclear; família conjugal moderna], excluídos os demais parentes. Foi possivelmente com esta preocupação, de construir a ‘família civilizada’, que os jornais empenhavam-se, de maneira acintosa, em ridicularizar as sogras”. (p.47) – “A urbanização e o aburguesamento dessa sociedade, que tem como modelo a família nuclear, deve ter encontrado resistência na tradição matrilocal [o marido passa a residir na família da esposa]. Além disso, no embate entre a nova ordem que se pretendia implantar e os costumes locais de origem açoriana, morar com a sogra passava a não ser mais ‘civilizado’. Era fazer parte de uma tradição que estava sendo desqualificada”. (p.48) – “Eram as elites urbanas que estavam empenhadas em delimitar espaços sociais e estabelecer modelos de comportamento e de família, que se prestavam a legitimar a desigualdade. / Neste processo de busca de formas de distinção e de exclusão, os jornais tiveram, como se vê, papel importante e, em relação às mulheres, utilizavam-se, muitas vezes, de mitos e símbolos da cultura masculina, // (p.49) branca e ocidental. Simone de Beauvoir afirma, em O Segundo Sexo, que ‘ninguém nasce mulher, torna-se mulher’, e esta construção das mulheres é realizada tanto pela família, como pela vizinhança, escola, Igreja, literatura, etc. No caso de Desterro, ao ressuscitar mitos e símbolos envolvendo as mulheres, os jornais estavam, possivelmente, não só contribuindo com a construção social das mulheres, como determinando para elas uma forma legitima de ser, pois lhes reservavam apenas papéis familiares. / (...) Pareciam querer desvalorizar as mulheres; impor, por exemplo, a ideia de que eram ‘objetos’ capazes de serem comprados, vendidos e, até, passíveis de serem perdidos no jogo”. (p.50) – “Para a elite que se formou em Desterro na segunda metade do século XIX, através da acumulação de riquezas provenientes do transporte e do comércio de mercadorias, as mulheres foram alvos privilegiados da preocupação com a distinção, bem como com a busca de diferenciação em relação ao restante da população. O processo de legitimação da desigualdade contou com a participação de funcionários públicos, pequenos proprietários e comerciantes, camada letrada que, nos jornais, estabelecia, através de padrões importados, modelos a serem seguidos pelos grupos envolvidos na ascensão social”.

Capítulo I – “As crises das elites e as mulheres como ‘pilares’ da sociedade”

(p.51) – “O período que se inicia com a Proclamação da República, até os primeiros anos do século X, caracterizou-se por uma forte crise política, econômica e social em Desterro. Nesse período, em vários momentos os jornais ficaram repletos de textos, envolvendo as mulheres (...). Estabeleceram, num mar de instabilidade, pontos de referência que permitiam distinguir as famílias honradas: as mulheres. / (...) Em Desterro, o declínio das riquezas acumuladas nas décadas anteriores e a mudança das relações de produção oriunda da extinção da escravidão; a modificação do regime político, da Monarquia para a República; o aparecimento de novos cargos políticoadministrativos; a disputa por esses cargos; a Revolução de 1893 e a mudança do nome da cidade que, a partir de 1894 passou a chamar-se Florianópolis, todos esses fatores marcaram o final do século XIX e o início do X com uma grande instabilidade. / Em meio a essa instabilidade, os jornais de Desterro/Florianópolis continuaram divulgando imagens femininas. Em algumas ocasiões, tais imagens foram publicadas com mais intensidade. Na compreensão desse período tão tumultuado da História de Desterro/Florianópolis, convém perceber as imagens femininas e suas possíveis relações com a crise que se configurou”. (p.52) – “Dentre as crises pelas quais passou a sociedade de Desterro, a decadência de seu porto foi uma das mais importantes, pois representou o desaparecimento definitivo de uma das formas de enriquecimento local. / O porto de Desterro, elemento importante na acumulação de riqueza e na formação de uma elite, sofreu, no início do século X, uma decadência que levou, aos poucos, à sua completa eliminação na atualidade. Foi substituído por outros portos, como os de Itajaí, São Francisco e Laguna, em função de estes apresentarem melhores condições naturais e de obterem reformas e melhoramentos que permitiam acompanhar o desenvolvimento tecnológico e o aumento do tamanho dos navios. (...) / A decadência do porto de Desterro não foi presenciada de forma passiva. Inúmeros pedidos para a melhoria do porto foram feitos. (...) / Todavia, não foi somente o porto que entrou em decadência. A farinha de mandioca, que proporcionava possibilidade de acumulação de riquezas, a partir de 1886 teve sua exportação paulatinamente reduzida. (...) e deixou de representar condições de enriquecimento. / As atividades industriais em Desterro nunca chegaram a ter grande expressão. Nesta cidade, não chegou a se construir um parque industrial, capaz de proporcionar uma acumulação de grande monta”.

(p.53) – “Foi nesse quadro de início de declínio econômico que, em 1889, chegou a Desterro a notícia da Proclamação da República. Esta mudança na forma de governo do país trouxe também reordenamento nos grupos que compunham a elite de Desterro, levando a lutas que desembocaram na Revolução Federalista, agravando a crise econômica. / Com a Proclamação da República, surgiu também um novo periódico em Desterro: o jornal República (...) / Em suas páginas, surgiram em inúmeras ocasiões textos onde se delineavam imagens femininas. Uma dessas, bastante freqüente, era a que relacionava mulher e casamento, retratando as mulheres como ‘caçadoras de marido’. / Apesar de toda a discussão dos jornais a respeito da educação das mulheres, e de destiná-las às funções de esposa e mãe, os mesmos periódicos ridicularizavam a busca feminina pela única carreira destinada a elas pela ‘natureza’, ou seja, o casamento”. (p.56) – “Há, ainda, uma outra questão que deve ter reforçado a preocupação com o casamento para as mulheres, e isso independentemente de classe social. O casamento, ou a união consensual, tem sido pensado para a mulher como a única forma legítima de exercer a sua sexualidade. Além disso, a própria veiculação das imagens femininas como sendo, somente, esposas e mães, reforçava, no cotidiano dessas mulheres, tal possibilidade como o único ideal de vida possível” (p.60) – “Lendo-se estes jornais, o que transparece é a ausência de personagens femininos. Somente os homens participam de todos esses embates. As mulheres, no entanto, aparecem nos jornais sob a forma de imagens. / Nas páginas centrais dos jornais, preenchendo espaços nas edições de ambos, figuraram inúmeras imagens femininas. Estas apareciam nas discussões intensas sobre a educação feminina, avanços do feminismo, // (p.61) modelos de mulher, sogras, fidelidade e, inclusive, davam vazão a inúmeras formas de misoginia. / Pode-se inferir, dessa proliferação de imagens femininas, a importância da honra familiar no interior dos embates partidários. Nas lutas políticas, nas disputas pelo poder, os grupos familiares sempre estiveram presentes [“Funções da família”. História da Vida Privada. Michelle Perrot] e, neste caso, a honra da família era um elemento frágil, que podia desqualificar os grupos em disputa. Como as mulheres eram as principais referências da honra familiar, seu comportamento precisava ser, antes de tudo, observado e delimitado. / (...) podia-se destacar uma preocupação muito grande com a fidelidade das mulheres. Assim, enquanto os federalistas e republicanos disputavam acirradamente o governo em Santa Catarina, e faziam e desfaziam concessões e privilégios, também afirmavam que as mulheres eram traidoras e não mereciam a confiança masculina”. (p.61) – “Estes provérbios, delineando imagens femininas, são recorrentes. Jean-Louis Flandrin, em O sexo e o Ocidente, no texto “A jovem nos antigos provérbios franceses”, observou a imagem que a sociedade francesa antiga faziam da jovem ideal e bem educada. Mostra, no entanto, uma outra sociedade, com outras referências. Neste provérbio, a associação que se fazia era entre pudicícia e habilidade para o trabalho, por um lado, e, por outro, coqueteria, impudor e preguiça. Nos provérbios dos jornais de Desterro, a associação era entre meiguice, fragilidade e amor, de um lado, // (p.62) e, de outro, vaidade, futilidade e traição. O que mais diferenciava os dois grupos de provérbios era a referência ao trabalho das mulheres. O que os aproximava era que ambos falavam de mulheres idealizadas../ Ainda com relação às diferenças, era possível que a questão do trabalho da mulher não fosse mais objeto da ação normativa dos provérbios nos jornais, embora pudesse estar presente na tradição oral das camadas populares de Desterro/Florianópolis. Os jornais, por se dirigirem a uma classe social que pretendia demonstrar sua riqueza através da ociosidade – ao menos na aparência das mulheres –, reproduziam provérbios que respondiam muito mais às preocupações da classe à qual se dirigiam. Daí porque, a meiguice, a fragilidade e o amor eram consideradas grandes virtudes femininas, enquanto que a vaidade, a frivolidade e a infidelidade eram apontadas como os maiores defeitos”. (p.63) – “Esses jornais estavam, em tais matérias, ressuscitando imagens atávicas, de uma misoginia que remontava ao simbólico e ao mítico, os quais pertenciam à tradição judaico-cristã. É preciso investigar as razões pelas quais, na formação social específica deste período, essas imagens retornaram com tanta força, embora se revestissem de novos sentidos. (...) / Michel Foucault mostrou como as sociedades ocidentais modernas instalam, principalmente a partir do século XVIII, o dispositivo da sexualidade superpondo-se ao dispositivo da aliança, embora sem colocar este de lado. Ambos articulam-se aos parceiros sexuais, porém de forma diferente. Pelo dispositivo de aliança (casamento, transmissão de nome e herança), ficavam definidas as regras do que era proibido ou não, muitas vezes dadas pela doutrina eclesiástica. Já o dispositivo da sexualidade tinha, como razão de ser, ‘o proliferar, inovar, anexar, inventar, penetrar nos corpos de maneira cada vez mais detalhada, e controlar as populações de modo cada vez mais global’. / No final do século XVIII e início do século X, apareceram na Europa uma série de textos médicos que discutiam a masturbação, as doenças venéreas, as perversões. Era o surgimento de uma medicina especialmente preocupada com o sexo. Buscava-se o controle do sexo e da fecundidade. / Através da família burguesa, a sexualidade, tanto da criança quanto da mulher, foi primeiramente medicalizada”. (p.64) – “Foi a mulher burguesa a primeira personagem a ser investida pelo dispositivo da sexualidade. A minuciosa medicalização do corpo e do sexo da mulher burguesa era feita ‘em nome da responsabilidade que ela teria no que diz respeito à saúde de seus filhos, à solidez da instituição familiar e à salvação da sociedade’. / Colocou-se, na mulher burguesa, a responsabilidade por um dos fatores de autodiferenciação que a burguesia criou para si, ou seja, a geração de uma prole plena de força, vigor, saúde (...). em Desterro, a preocupação com a sexualidade das mulheres da elite não parecia, entretanto, vincular-se apenas à busca de um distanciamento em relação às camadas populares, a uma legitimação da desigualdade. A preocupação com sua fidelidade parecia prender- se, em especial no final do século XIX, à redefinição das famílias que compunham a elite [o remanejamento devido a mudança de regime político] (...) / O que estamos supondo é que a modelação das famílias, o ressurgimento de imagens atávicas referentes à mulher, podem ser explicadas por essa intensa mobilidade social que estava se processando, no final do século XIX e início do X. Na busca de influencias, de cargos, de vantagens, a desqualificação do concorrente também podia se feita pela família, apontando-a como não condizente com a ‘moral e a civilização’. As mulheres, neste processo, eram um ponto-chave. (...) A honra da família, sua permanência ou ascensão aos grupos de comando, parecia depender do comportamento da mulher. Sua forma de se // (p.65) portar carregava as possibilidades, não da sobrevivência pura e simples, mas da manutenção nos grupos de comando, ou a ascensão a eles”. (p.6) – “De maneira geral, as palavras das mulheres têm sido desqualificadas pelas instituições masculinas. As mulheres foram proibidas de falar na Igreja Católica. Seus sermões só eram ouvidos quando produzidos por algum tipo de transe divino [Judith Brown. Atos impuros: a vida de uma freira lésbica na Itália da Renascença]. O protestantismo, entre suas inovações, concedeu alguma voz às mulheres, nos cultos. Assim mesmo, com muita relutância, e de forma limitada. [Natalie Zemon Davis. A cultura do povo]. / As conversas femininas eram consideradas tagarelices, diferentes das vozes dos homens que, controlando a escrituração oficial, tinham suas palavras registradas. Maria Odila Leite da Silva Dias mostrou como a palavra falada era instrumento essencial do seu trato de sobreviver de mulheres analfabetas’. Michelle Perrot esclareceu que a fala das mulheres mantinha ‘toda uma rede de comunicações horizontais’ que, diferentemente daquela dos homens, ‘apanhados pelas redes do texto’, escapava ao poder que modelava e normatizava. / As mulheres foram ensinadas a silenciar, sua conversa foi rebaixada e chamada de tagarelice, enquanto a dos homens era considerada séria e digna de ser ouvida. As mulheres mais bem educadas nem ousavam falar na presença dos homens. / O que se percebe é que, no final do século XIX, esta preocupação com a ‘faladeiras’ se acentua, possivelmente, em vista da preocupação com as fofocas e comentários que poderiam surgir a respeito da honra das mulheres [Esse silêncio imposto às mulheres é importante de ser mencionado por conta da posição que sua palavra vai ocupar, com maior freqüência no final do século XIX, na produção literária. Uma longa permanência no silêncio é rompida pela publicidade cada vez maior que os textos femininos passam a receber, menos de editores de livros e mais de editores de jornais, que intercalam notícias e outras produções de autoria masculina com escritos femininos, que se tornarão cada vez mais avultantes na imprensa à medida que avança o século X, o que lhes conferirá maior visibilidade e autoridade como sujeito produtor de sentidos]. (p.67) – Relação entre mulher e natureza: “Frases [atribuídas] a Cícero, a Salomão ou a outro ‘sábio’ qualquer, compunham, com o ‘apoio dos mestres’, imagens femininas nas quais se denunciava a dificuldade de controlar as mulheres. Estes textos indicavam ligações entre ‘natureza’ e ‘mulher’. Dita ligação podia justificar a dificuldade de entender e controlar as mulheres (...) / A relação entre mulher e natureza tem sido discutida pela Antropologia. Representa um tema recorrente nas várias sociedades estudadas, e é justificada por uma suposta maior proximidade entre a mulher e a natureza, em vista das funções maternais”. (p.68) – “Nos textos dos jornais, as imagens femininas são de seres ‘universais’. Não possuem classe social, cor ou cultura específica (...) / Muitos dos textos relacionando, de forma maniqueísta, mulher e natureza, representam a divulgação de discussões que estavam se processando na Europa. Por exemplo, em 1892, o jornal República publicou as opiniões de Césare Lombroso sobre as mulheres. Num dos textos, o articulista comenta que Lombroso afirmava que as mulheres teriam menor sensibilidade à dor física, embora pudessem demonstrar, ou apresentar, maiores ‘manifestações externas de dor’. No outro texto, o articulista informava que Lombroso ‘é de opinião que a mulher é mentirosa por natureza’. [essas apreciações também podem ser verificadas na Vida Capichaba] / Mencionadas afirmações faziam parte de uma questão mais ampla, ligada ao evolucionismo, na qual Lombroso tentava demonstrar os vários estágios da evolução dos seres humanos, através de características físicas. Neles, as mulheres estavam sempre num patamar inferior ao dos homens // (p.69). E, assim como tal ‘evolucionismo’ foi uma dos carros-chefe da justificativa do neo-colonialismo do século XIX e da legitimação de diferenças, servia, no caso da discussão de Lombroso sobre as mulheres, para operar também uma divisão sexual da riqueza social. Pertencendo a um estágio inferior, por estarem presas ao trabalho de reprodução, as mulheres não estariam aptas ao exercício do comando político e/ou econômico. Sua ligação com a natureza tornava-as seres perigosos, difíceis de controlar (...) / Numa extensão da ligação entre a mulher e a natureza, muitos textos reivindicavam das mulheres beleza e juventude eternas (...). Os articulistas pareciam ter dificuldades para entender as mulheres de carne e osso que envelheciam, e que nem sempre eram belas. Nos jornais, as mulheres idosas eram ridicularizadas (...) / Por outro lado, toda essa referência às mulheres e à natureza podia significar desejo de continuidade, diante da instabilidade que a sociedade local estava vivendo; afinal, pensar que, apesar de todas as mudanças econômicas, sociais e políticas, as mulheres, como a natureza, permaneceriam as mesmas, podia ser alentador. / Convém lembrar, ainda, que as idéias republicanas, inspiradas no positivismo, destinavam, preferencialmente, para as mulheres, o tradicional papel de mãe e de esposa, de ‘guardiã do lar’ [A formação das almas. José Murilo de Carvalho]. A política, a cidadania e a igualdade eram destinadas aos homens, as mulheres deveriam permanecer em ‘seus lugares’, na esfera do privado”. [Essa condição da mulher, defendida pela maior parte dos republicanos, ia contra a ideia de democracia, já bastante incompleta, deturpada e de difícil objetividade conceptiva, mas acordava com a noção positivista de sociedade civil].

(p.70) – “É possível que os articulistas dos jornais temessem que as mulheres não aceitassem voluntariamente tais papéis. Elas eram apresentadas como potencialmente destruidoras. Era, então necessário mostrar-lhes que a ‘natureza’ já lhes ditara funções determinadas, e que, portanto, não lhes restava alternativa senão obedecer (...) / Notas, comentários, artigos, piadas, foram frequentes sobre como deveriam ser as mulheres, e como se deveria educá-las para que elas exercessem a contento os papéis a elas destinados”. (p.72) – Mulher letrada: “Como vemos, na escala de valores do autor, uma mulher sábia e literata ocupava o degrau mais baixo. O que pensariam as mulheres de seu tempo que tivessem aspirações literárias, que gostassem de escrever poesias ou contos, romances, etc? Com elas, o autor não tinha piedade. Dizia que ‘uma mulher literata é o flagelo de seu marido’, e acrescentava que tal coisa não era ‘missão da mulher’, e que isso era ‘aberrar a natureza’. Pois as mulheres que abandonam tudo para escrever, a única coisa que conseguiam era ‘tornarem-se ridículas’ (...) / Que uma mulher fizesse versos e escrevesse algumas linhas como ‘passatempo’, o autor até admitia, ‘não vejo nisto um grande mal, mas que aspire ao título de letradas, (...) não compreendo’ (...) / Aparentemente, toda essa agressão às letradas fazia efeito. (...) Não deveria ser fácil, para as mulheres da época, ousar ‘erguer-se acima de seu destino’, assumindo-se como letrada. / O que (...) desejava era a delimitação rígida das esferas privada e pública: a mulher reinaria na primeira e os homens na segunda”. (p.76) – “A educação das mulheres que, durante o final do século XIX, nos jornais, era reivindicada para a construção das mães, responsáveis pela educação dos filhos, parece mudar de enfoque por volta de 1901. não mais no jornal República, mas no jornal O Dia, sugeria-se que as mulheres deveriam ser educadas para brilhar nos salões da sociedade. Neste artigo, o articulista falava do marasmo e da monotonia da vida social de Florianópolis”. (p.79) – “O jornal O Dia inaugurou, em 1903, uma coluna chamada ‘Salão Azul’, onde eram publicadas notícias de aniversários, casamentos, batizados e participações das mulheres em clubes culturais e associações beneficentes. Ao que parece, já não bastava que as mulheres desempenhassem seus papéis de esposa e mãe; era preciso ter seus nomes publicados no jornal, no desempenho dessas funções e, ainda, irradiando sua generosidade e cultura ‘pela nossa sociedade afora’. Os jornais da época, além de divulgarem imagens idealizadas, passavam a exigir, para as mulheres, uma educação que as fizesse ‘brilhar’ na sociedade. Eram outros tempos...”

Capítulo I – “Consolidação da elite política e outras formas de distinção”

(p.81) – “As primeiras décadas do século X foram marcadas, em Desterro, por múltiplos movimentos. A consolidação da República e da nova elite política permitiu inúmeras transformações e interferências do poder público no espaço urbano. As imagens femininas, divulgadas pelos jornais, foram rareando, em especial no final da década de 10 e início da década de 20. ao lado disso, novas formas de distinções, baseadas nas mulheres, pareciam configurar-se: eram as publicações nos jornais, em especial nas colunas sociais, dos eventos familiares, bem como da participação das mulheres em atividades culturais e beneficentes. / A área central de Florianópolis, neste início do século, passou por inúmeras reformas e melhoramentos: em 1909, foram instaladas as primeiras redes de água encanada; entre 1913 e 1917, foi construída a rede de esgotos; em 1910, instalada a iluminação pública com energia elétrica; em 1919, também, foi dado início à construção da primeira avenida da cidade, a qual, em sua conclusão, passou a chamar-se Avenida Hercílio Luz. (...) As reformas urbanas realizadas em Florianópolis no início do século X, dependeram, principalmente, da força de sua elite política [caso de Vitória] (...). Esta elite (...) carreou recursos públicos para a remodelação da Capital”. (p.82) – “As reformas urbanas das primeiras décadas do século X, em Florianópolis, contaram, além dos recursos públicos oriundos de impostos, com vultosos empréstimos internacionais, além de convênios. (...) / As mulheres da elite e da classe média desta cidade mantiveram-se, em sua maioria, em ocupações de esposas e professoras. Em Florianópolis, por exemplo, não surgiram movimentos femininos em favor do voto para as mulheres. / Algumas mulheres expuseram-se publicamente como escritoras; porém, com exceção de Antonieta de Barros, apresentaram um discurso tão ou mais conservador que aqueles dos jornais masculinos do século XIX. Estas mulheres, por seu comportamento e discurso, demonstravam o quanto eram distintas das demais mulheres, que não participavam dos grupos de comando. Estes grupos tendiam a depender, cada vez mais, do carreamento de recursos alocados a nível estadual e federal, os quais significavam: para a cidade, melhoramentos urbanos; para as famílias, rendas, nas formas de cargos e contratos. / (p.87) – “A distinção das famílias, que até então fora demonstrada pela restrição das mulheres aos papéis familiares, parecia, aos poucos, encontrar novas formas de demonstração de prestígio. As mulheres tornavam-se temas dos jornais, não mais apenas como imagens. Os periódicos davam publicidade às suas relações familiares e à sua sociabilidade. Aparecer nos jornais tornou-se uma nova forma de distinção”. (p.8) – “A partir de então, no jornal O Dia, observa-se um crescimento paulatino de notícias sobre mulheres de ‘carne e osso’, tanto da cidade quanto de grandes centros do país e do exterior. Paralelamente, as imagens femininas idealizadas foram se tornando menos numerosas (...) / Além disso, também em outras cidades, como no Rio de Janeiro, a crônica social fazia sucesso. Nicolau Sevcenko relata-nos que o figurinista Figueiredo Pimentel, tido, no Rio de Janeiro, como criado da crônica social, tornou ‘as senhoras e senhoritas da alta sociedade carioca pelo menos tão conhecidas como os ministros de Estado’ (...) / As famílias que controlavam o poder político local eram os privilegiados temas dos jornais; suas mulheres deixavam de ser objeto de poemas e idealizações, e passavam, pouco a pouco, a aparecer como um público, em suas relações familiares, em sua educação e em sua sociabilidade”. [citar Joana Maria Pedro para demarcar essa transição na exposição da mulher na imprensa capixaba, se é que houve nos termos como ela descreve ter havido em Florianópolis]. (p.89) – “Jacques Donzelot, em A polícia das famílias, mostra como a mulher burguesa, na França, através da revalorização das tarefas educativas, estabelece uma continuidade entre as atividades familiares e suas atividades sociais (...) Ela se tornou instrumento de ‘irradiação cultural’. / Em 6 de outubro de 1901, fundava-se, em Florianópolis, a Sociedade Literária Recreativa Catarinense, composta exclusivamente de moças (...) / essa Sociedade, diferente das ‘sociedades femininas combatidas pelo gênio masculino’, eram defendidas. Possivelmente, porque suas componentes correspondiam às imagens idealizadas. Tais moças tinham passado suas infâncias sob o bombardeio dessas imagens, não só nos jornais, mas também na Igreja, na escola. Eram fruto de construções sociais, que se faziam desde meados do século XIX, sobre suas mães e avós. Não era, pois, contestatória. (...) Essas sociedades eram formas de ‘irradiação’ cultural das mulheres da elite de Florianópolis. Formas, inclusive, de ganhar individualidade. (...) Não se constituíam em formas de avanço, de busca de igualdade entre os gêneros”. (p.90) – “[Nos] jornais, ao invés de imagens [idealizadas], cresciam em numero as publicações de nomes de mulheres de ‘carne e osso’. Embora a maioria delas pertencesse à elite e estivesse referenciada pelo desempenho de papéis familiares. No entanto, tinham, também, seus nomes publicados nas exonerações e admissões ao serviço público, o qual, no século X, tendeu a crescer. Além disso, ao participarem de associações culturais e beneficentes, ganhavam publicidade (...) / Embora no ideário da República brasileira constasse a igualdade, a cidadania para todos concretizava-se apenas para os homens alfabetizados que podiam participar da esfera pública política, votando e sendo eleitos. Para as mulheres foi reservado o cerne da esfera privada, ou seja, a esfera íntima; portanto, não lhes foi ao menos assegurada a possibilidade de adquirir a ‘maioridade’ garantidora da cidadania. / No entanto, em centros maiores, como no Rio de Janeiro, as mulheres reivindicavam o direito ao voto. Os jornais de Desterro/Florianópolis davam publicidade a esta luta, que não era exclusiva do Brasil. Nos jornais locais, também se reproduziam debates acerca da luta pelo voto feminino nos Estados Unidos e na Europa. Nos jornais analisados, porém, não se encontra qualquer notícia de associação de mulheres reivindicando o voto ou, até mesmo, qualquer protesto isolado. Ao que parece, a união das mulheres em Florianópolis dedicou-se à assistência e à recreação. Não tinham pretensões emancipadoras, apenas demarcavam distinções. / O termo ‘feminismo’, e discussões sobre a ‘emancipação da mulher’, aparecem em inúmeras notícias, crônicas e piadas nos jornais de Desterro/Florianópolis. Estes reproduziam notícias dos grandes centros. Porém, isto, aparentemente, não modificou o cotidiano das mulheres desta cidade. Isso nos leva a pensar que uma certa cronologia que dê conta da história dos grandes centros, não corresponde, necessariamente, às cidades menores. Não significa, também, que as cidades maiores sejam o carro-chefe de acontecimentos que irão, em ondas sucessivas, atingir, obrigatoriamente, os pequenos centros. Muitas discussões que, nos grandes centros, levaram a mudanças estruturais, não atingiram, a não ser apenas // (p.92) em suas palavras e discursos, as localidades menores. Por outro lado, seria conveniente lembrar que, como Desterro, existem inúmeras pequenas cidades. Para estas a cronologia dos grandes centros não é suficiente. / Neste caso, falar do ‘feminismo no Brasil’ e situar suas primeiras manifestações no início do século XIX, como faz June Hahner, não tem qualquer significado para a história das mulheres de Desterro [mas elas foram igualmente atingidas pelos desdobramentos políticos provocados pelo movimento feminista no Brasil, mesmo que este estivesse concentrado em áreas específicas de atuação, como ocorreu com a aprovação do voto feminino na Constituinte de 1934, e isso faz com que seja atribuído algum significado para a história das mulheres de Desterro]. Nem as primeiras, nem as segundas ou terceiras manifestações das mulheres feministas no Rio de Janeiro, ou em São Paulo, fizeram eco em Desterro/Florianópolis. O primeiro jornal feminino de Florianópolis surgiu em 1918, e nem sequer reivindicava o voto feminino: reproduzia, na verdade, imagens de mulher ligadas a uma ‘missão’ que as destinava às funções de esposa e mãe. / Nos jornais de Desterro, o termo feminino vinha associado à luta pelo voto feminino e à busca de igualdade, embora o jornal, em geral, usasse esse termo na crítica à ocupação paulatina, por mulheres, de cargos antes ocupados unicamente por homens. (...) / O século XIX acendeu, em vários países, a discussão sobre a igualdade entre os gêneros. Nos Estados Unidos, tal discussão surgiu junto com a campanha pela abolição dos escravos e, principalmente, por ocasião da reivindicação dos direitos políticos para os negros. No Brasil, também, o grande impulso para a luta pelo sufrágio feminino [fez com que as mulheres se envolvessem numa causa de alcance político e social, portanto, pública] teve início com as campanhas abolicionista e republicana. Já em 1875, o jornal feminino do Rio de Janeiro, O Sexo Feminino, reivindicava o voto para as mulheres. / Nos jornais de Desterro aparecem, no período analisado, artigos a favor e contra o feminismo”. (p.94) – “O que se depreende da crítica ao feminismo feita pelos jornais, no final do século, é sempre um apelo à natureza feminina que, de acordo com o jornal, não se adaptaria a tal emancipação, essa igualdade pretendida, pois, além de abandonar a missão de mãe e esposa, a que foi destinada, sua natureza frágil a trairia (...) / No início do século, o tom das críticas ao feminismo suavizou-se. Um artigo de 1923, do jornal República, aceitava-o, mas reclamava que se tratava de importação de ideias americanizadas. Sugeria que se divulgassem as ideias feministas nas escolas, para que as futuras gerações as aceitassem”.

(p.95) – “O escritor (...) aceitava o feminismo, mas não para as mulheres da geração dele, e sim para as próximas. / Discutia-se, principalmente, o direito de voto para as mulheres. Notícias da Europa e dos Estados Unidos davam conta das reivindicações e das vitórias da campanha feminina pelo voto. (...) / Era no Rio que acontecia a luta das mulheres pelo direito do voto, frustrado com a Constituição de 1891. Antes, porém, desta data, em // (p.96) 1886, o Jornal do Comércio noticiava que, no Rio Grande do Sul, uma mulher formada em ortodentária pela Faculdade de Medicina da Bahia, pedia a inclusão de seu nome no alistamento eleitoral. O juiz de direito negou-lhe o pedido, e ela tencionava recorrer de seu julgamento. / Como podemos perceber, apesar de toda esta publicidade dada pelos jornais sobre as discussões acerca do voto feminino, em nenhum momento, do final do século XIXI ou do início do X, os periódicos analisados noticiaram qualquer envolvimento das mulheres de Florianópolis com a luta pelo direito ao voto. Será que aceitavam a esfera pública política como exclusivamente masculina?” (p.97) – “As notícias mostravam que, em outros locais, as mulheres estavam ocupando lugares (...). Os jornais apresentavam as várias profissões que estavam sendo ocupadas por mulheres em várias partes do mundo, e também no Brasil; porém, de Desterro nada se noticia (...) / Em Desterro, no século XIX, estes avanços femininos não repercutiam. As mulheres da classe média e da elite continuavam sendo, principalmente, esposas e professoras”. [Provavelmente, no século XIX, esta fosse a realidade também de Vitória, ocorrendo mudanças, nesse sentido, somente no início do século X, com mais ênfase, em sua segunda década, propiciada por vários fatores]. (p.100) – “Em Florianópolis, como vimos, por muito tempo as mulheres da classe média tiveram, como única carreira, um ‘bom’ casamento. Somente na segunda década do século X começaram a despontar novas profissões para elas. Isto não significa que tais mulheres não sonhassem, insistissem e reclamassem por carreiras mais autônomas. As vozes femininas, a este respeito, não foi possível recuperar. Podemos, entretanto, inferir que as noticias sobre os avanços femininos, em várias partes do mundo e nas grandes cidades brasileiras, despertaram sonhos de maior autonomia nas mulheres de Florianópolis. / Os jornais, porém, ao lado de noticias sobre novas conquistas profissionais e políticas das mulheres, publicavam textos que pretendiam cercear estes anseios femininos. Eram as ameaças de um perigo que, real ou ficticiamente, corriam as mulheres quando estavam longe da proteção de um pai, marido, irmão, filho, etc”. (p.102) – “A participação das mulheres na esfera pública literária [Habermas], em Florianópolis, tornou-se mais efetiva no século X, quando, além de participar de clubes culturais, passaram a divulgar seus poemas e seus textos nos jornais locais e em livros. / No século XIX, a publicação de textos escritos por mulheres foi bastante restrita; contava, inclusive, com uma opinião pública desfavorável”.

(p.103) – “Os poemas e as prosas poéticas de Delminda Silveira de Souza denotavam uma vinculação com o romantismo. Em muitos de seus textos, reproduzia algumas imagens idealizadas de mulher, semelhantes àquelas que os jornais masculinos divulgavam no século XIX”. (p.104) – “São imagens de mulher que circulavam; faz-nos pensar em sua eficiência. Delminda as reproduzia porque fizeram parte de sua vida. Eram lidas nos jornais, ouvidas nas missas, veiculadas em livros. Compunham seu cotidiano: como não reproduzi-las? / Esta mulher, no entanto, não viveu os papéis de esposa, mãe e noiva. Deve ter, porém, sonhado com eles. É o que pudemos deduzir de vários de seus poemas. Ela teve um prestígio social que vinha de seu desempenho como literata; no entanto, em seus poemas, enaltecia os papéis normativos femininos. Seriam contradições entre imagens idealizadas e papéis sociais efetivamente vividos?” (p.107) – “(...) acerca da eficiência das imagens, na construção de uma prática discursiva das mulheres. Estas mulheres repetiam muitas das imagens que os jornais masculinos divulgavam. / Não temos como constatar se elas escreviam o que pensavam realmente, nem se elas agiam conforme prescreviam. O que podemos é perceber suas vozes, e estas eram ecos das masculinas; muitas vezes, com um acento até mais conservador. / Aquela profusão de imagens – que constatamos e tentamos delinear nos vários jornais – compôs o cotidiano das avós, das mães e destas mesmas mulheres. Tais imagens construíram uma prática discursiva, porque atuaram como expectativa, como modelo a ser seguido, colaborando na construção de papéis sociais. / No entanto, as camadas populares, e até mesmo algumas mulheres da elite e da classe média urbana, desempenharam, junto com os papéis normativos, inúmeras outras funções; algumas, inclusive, eram costumeiramente desempenhadas por homens. (...) Não podemos esquecer que, como mulheres de elite, estas escritoras sabiam que seguir ou aparentar seguir tais imagens femininas idealizadas, era o que as distinguia das demais mulheres; daí, talvez, a razão do empenho, tão conservador, de delimitar, para as mulheres, os papéis normativos. No entanto, o próprio ato de publicar seus escritos, embora sob pseudônimo, não representaria, nesta cidade, uma certa transgressão? Afinal, escrever e publicar permitia dar publicidade ao desempenho, por parte dessas mulheres, de funções distantes daquelas da esfera íntima familiar. Era participar intensamente da esfera pública mesmo sendo a literária”.

(p.109) – “Thomas Foster, analisando o texto de Júlia Kristeva, 1 ‘Women’s time and housekeeping’, em History, critical theory and Women’s social practices, aponta que a primeira geração de feministas buscava a participação no ‘tempo monumental’, ou seja, ‘buscavam ganhar

1 Julia Kristeva (búlgaro: Юлия Кръстева) (nascida em 24 de junho 1941) é uma filósofa búlgara-francesa, crítica literária, psicanalista, feminista, e, mais recentemente, romancista. Sua imensa massa de trabalho inclui livros e ensaios que abordam intertextualidade e a semiótica, nas áreas de lingüística, teoria e crítica literária, psicanálise, biografia e autobiografia, análise política e cultural, arte e história arte. Juntamente com Barthes, Todorov, Goldmann, Genette, Lévi-Strauss, Lacan, Greimas, Foucault, e Althusser, ela permanece como uma das principais estruturalistas. Suas obras têm também um lugar importante no pensamento pós-estruturalista.

um lugar no tempo linear visto como o tempo de projeto e história’. Quando Antonieta reivindicava a educação para as mulheres para que elas se tornassem ‘indivíduos’, e, ainda, a própria vivência de Antonieta como deputada, nos permite identificá-la como pertencendo, como classifica Kristeva, à primeira geração feminista que pretende entrar na história, tomando o poder ‘sem transformá-lo ou questioná-lo de modo adequado’ [essa parte é essencial para o meu trabalho, esclarece muito coisa e me dá legitimidade para identificar as mulheres intelectuais capixabas como pertencentes a primeira geração de feministas, retira o meu desconforto]. Embora a própria Antonieta não se identifique como tal”. (p.110) – “No entanto, a vida desta mulher representou muito mais quebra de estereótipos do que seus textos [como o caso de Haydée Nicolussi] (...) / É possível que o peso dos discursos normativos fosse grande demais para ser sacudido. O fato de, apesar dos preconceitos sexistas e étnicos, ter sido aceita por esta sociedade, deve ter-lhe custado muita luta e muito cuidado. / (...) Seus discursos precisavam ser comedidos, a sua ascensão tinha preço”. (p.1) – “Para a história social das mulheres de Florianópolis, Delminda, Antonieta e as redatoras do jornal Pena, Agulha e Colher, são vozes femininas isoladas, no meio de uma imensidão de textos masculinos, estes dizendo como as mulheres deveriam ser, principalmente as da elite. Todas estas escritoras, com exceção de Antonieta, haviam nascido no interior da elite local, sabiam o que se esperava delas, que papéis deveriam desempenhar, que discursos deveriam repetir, para servirem de atestado da classe (...). / Todas essas vozes, as das escritoras e as dos jornais masculinos, tinham um público alvo: era à elite local e, no máximo, à classe média culta, que se dirigiam. Isto implica em relativizar a importância do jornal como fonte histórica. Este veículo descreve imagens e vidas que não abrangem a sociedade como um todo. Fora do público que lê e escreve nos jornais, milhares de outras vidas desempenham outros papéis e reproduzem outras imagens. Uma visão da história social das mulheres de Desterro/Florianópolis fica seriamente comprometida se ficar restrita aos jornais”. (p.112) – “Além disso, como órgão de classe os jornais reproduzem, apenas, o que lhes diz respeito: o público dos jornais é seu próprio tema. As demais pessoas, os acontecimentos que não envolvem o público dos jornais, são geralmente deixados de lado, ou, quando ganham publicidade, vêm em forma desabonadora”. (p.113) – “Nas páginas dos jornais, mulheres com personalidades fortes, ocupando funções e cargos diversos dos normativos, são notícias raras, observadas com curiosidade. Para o público leitor e que escrevia nos jornais, a ‘verdadeira mulher’ era aquela que desempenhava restritamente as funções familiares. / (...) Para encontrar mulheres de ‘carne e osso’, de outras classes sociais, e até mesmo da elite, é preciso consultar relatórios de polícia, ofícios à câmara municipal, processos jurídicos, cartas, diários, entrevistas, enfim, ouros documentos que não prendam as mulheres a papéis tão restritos”.

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