Saúde da família e vigilância em saúde - em busca da integração das práticas

Saúde da família e vigilância em saúde - em busca da integração das práticas

(Parte 5 de 15)

Cruz tem, hoje, 100% do seu território com coleta diferenciada, por meio do Programa de Coleta Seletiva, e as ações consistem no manejo integrado de resíduos sólidos, elaboração do Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos, construção da oficina de artes, Postos de Entrega Voluntária, Programa de Imunização, estação de tratamento e beneficiamento de resíduos sólidos, Termo de Ajustamento de Conduta entre atores, geração e informação, acondicionamento, coleta e transporte, tratamento e beneficiamento, destino final com comércio e aterro de resíduos etc.

O programa de Cruz consiste, primordialmente, em envolver o maior número de pessoas na construção das políticas municipais de saneamento, com discussões como o gerenciamento saudável de resíduos sólidos. “Trabalhamos com a concepção de que a produção do lixo é diária e de todos. Mas para isso trabalhamos com a conscientização e, nesse ponto, a parceria com as Equipes de Saúde da Família (ESF) e escolas, por exemplo, é fundamental”, diz o coordenador da Saúde da Família, Fernando Antônio Pontes Castro.

Agenda 21 • A Agenda 21 consiste num programa de ações, criado com a participação da sociedade, especifi camente para um desenvolvimento sustentável que atenda às necessidades do presente sem comprometer as necessidades das gerações futuras.

Após a implementação e solidificação do seu Programa de Coleta, a comunidade de Cruz decidiu, em parceria com o banco estadual, elaborar e implementar sua própria Agenda 21, com base nos princípios e estratégias da Agenda 21 Brasileira e que, em consonância com a Agenda 21 Global, reconhece a importância do nível local na concretização de políticas públicas sustentáveis.

A implementação da Agenda 21 de Cruz consiste, ainda, na pactuação de compromissos e condutas, priorizando acertos como: produção de material informativo de formação dos multiplicadores sociais; cartilhas educativas para escolas com os temas: educação ambiental, gestão de água, gestão de esgoto, gestão de lixo; atividades culturais, implantação da Cooperativa de Reciclagem da Cidade de Cruz e o fortalecimento do Programa de Coleta Seletiva.

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Cabe à estratégia Saúde da Família orientar os serviços de saúde e ambiente, especialmente as noções de higiene referentes ao manejo de resíduos sólidos, formar os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) sobre o Programa de Coleta Seletiva e fazer o levantamento de dados por meio das ESF.

Tendo na estratégia Saúde da Família, mais especifi camente nos ACS, um grande aliado, o Programa apostou na sensibilização desses profi ssionais para instruírem os moradores, que são os geradores de resíduos sólidos, quanto à separação do lixo seco e úmido e acompanhar o calendário de coleta.

Pelo mesmo motivo que as ESF e os ACS, o envolvimento dos conselhos gestores é fundamental para o sucesso das atividades ligadas ao meio ambiente. A comunidade do Paraguai, por exemplo, em sua primeira reunião decidiu melhorar o serviço de limpeza, ampliando sua cobertura e sensibilizando os moradores sobre o correto manejo dos resíduos sólidos e já propôs a realização de ação conjunta com a comunidade sobre o problema com a defi nição dos papéis de cada componente, onde a escola deveria contemplar ações de informação e logística de coleta e armazenamento temporário dos resíduos recicláveis; os comerciantes fortalecendo a estrutura e a estratégia Saúde da Família fi cando responsável pelo acompanhamento nas casas.

Classifi cação dos Resíduos de Serviços de Saúde

GRUPO A (Biológico) • Resíduos com a possível presença de agentes biológicos que, por suas características de maior virulência ou concentração, podem representar risco de infecção.

GRUPO B (Químico) • Resíduos contendo substâncias químicas que apresentam risco à saúde pública ou ao meio ambiente, dependendo de suas características de imfl amabilidade, corrosividade, reatividade e toxicidade.

GRUPO C (Rejeitos Radioativos) • São resíduos contaminados com radionuclídeos ou outro elemento radioativo em quantidades superiores aos limites de isenção especifi cados na Norma CNEN – NE.6.02 – Licenciamento de Instalações Radioativas.

GRUPO D (Resíduos Comuns) • São todos os resíduos gerados nos serviços abrangidos que, por suas características, não necessitam de processos diferenciados relacionados ao acondicionamento, identifi cação e tratamento, devendo ser considerados resíduos urbanos.

GRUPO E (Perfurocortante) • São os objetos e instrumentos contendo cantos, bordas, pontos ou protuberâncias rígidas e agudas, capazes de cortar ou perfurar.

Gestão de Resíduos Sólidos de Serviços de Saúde

Ainda em 2004, foi iniciado o planejamento para um saudável gerenciamento dos Resíduos Sólidos de Serviços de Saúde, localizando suas unidades geradoras, e suas etapas de segregação, acondicionamento, coleta e transporte e destino fi nal. Como resposta a esse diagnóstico, foi realizada a capacitação em Gestão de Resíduos Sólidos de Serviços de Saúde para os profi ssionais de saúde (Hospital Municipal) e orientado as demais unidades geradoras para o manejo integrado.

1. Segregação e acondicionamento • Os resíduos seguem um processo de segregação. A orientação é feita para acondicionar os resíduos classe A em sacos leitosos e separar os resíduos classe D em úmidos e recicláveis. Também, para resíduos classe E, orienta-se acondicioná-los em caixas específi cas – DESCARTEX – ou em caixas estanque preparadas para este fi m. Essa técnica é usada, de forma segura, para o reaproveitamento de caixas de papelão.

2. Armazenamento • O armazenamento interno é feito por meio de lixeiras coletoras plásticas. Para resíduos classe A utilizam-se tambores plásticos grandes que recebem os sacos recolhidos pelo serviço de limpeza da unidade de saúde armazenando-os enquanto aguardam a coleta. Os resíduos de saúde, recicláveis e úmidos, seguem para tambores específi cos enquanto aguardam coleta.

3. Coleta e transporte • A coleta interna é feita com auxílio de carros de apoio ou similares até a chegada da coleta e transportes externos. Nesta etapa, conta-se com apoio de caçambas de limpeza, carroças e outros veículos de coleta e transporte. Ocorre, preferencialmente, nas sextas-feiras de cada semana, atendendo a sede e zona rural.

sólidos da sede e são queimados

4. Destino fi nal • Os resíduos tipo A produzidos na sede e no campo seguem para o Hospital Municipal e somados aos produzidos nesta unidade, seguem para o equipamento de queima dos RSSS construído em alvenaria no depósito de resíduos

5. Coleta seletiva e reciclagem • As unidades de saúde são atendidas pelo Programa de Coleta Seletiva da cidade de Cruz, com visitas de coleta nas quintasfeiras. Todo o material passível de reciclagem – plásticos, metais, vidros e papéis, bem como seus derivados – é separado e acondicionado em caixas de papelão e sacos grandes, entregues nos dias de coleta. Esses materiais têm origem, principalmente, da copa/cozinha, administração, recepção e alojamento.

Como reconhecimento da sua atuação, o município de Cruz já recebeu vários prêmios, dentre eles o Prêmio Saúde da Família e Ceará Vida Melhor e os selos Município Verde e UNICEF.

Embora conste na Lei Orgânica do Município de Cruz artigos que contemplem o meio ambiente, o que assegura que o município dê exemplo de cidadania e civilidade são as parcerias e o engajamento do povo da cidade.

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Qualifi cação dos profi ssionais da Atenção Básica favorece diagnóstico precoce da tuberculose

No Brasil e em outros 21 países em desenvolvimento, a tuberculose é um importante problema de saúde pública. Nesses países encontram-se 80% dos casos mundiais da doença. Segundo estimativas, cerca de um terço da população mundial está infectada com o Mycobacterium tuberculosis, com o risco de desenvolver a enfermidade. Todos os anos são registrados cerca de 8 milhões de novos casos e quase 3 milhões de mortes. Pessoas idosas, minorias étnicas e imigrantes estrangeiros são os mais atingidos nos países desenvolvidos. Nos países em desenvolvimento, o predomínio é da população economicamente ativa (de 15 a 54 anos) e os homens adoecem duas vezes mais do que as mulheres. O Brasil ocupa o 15º lugar entre os 2 países responsáveis por 80% do total de casos de tuberculose no mundo. Estima-se uma prevalência de 50 milhões de infectados com cerca de 1 mil casos novos e seis mil óbitos ocorrendo anualmente.

Fontes: OMS e MS

A médica Ana Lílian Guimarães Barros de Souza, pneumologista do Estado e da Coordenação Nacional de Tuberculose, coloca que “infelizmente a maioria dos casos ainda não são diagnosticados nas UBS e essa é a nossa maior expectativa. Para isso estamos trabalhando e qualifi cando as equipes”.

Cerca de 80% dos casos de tuberculose no mundo estão concentrados nas áreas em vermelho.

A Secretaria Estadual de Saúde

(SES) de Roraima está contando com as Equipes de Saúde da Família (ESF) para aprimorar os procedimentos de detecção da tuberculose no Estado. E, para isso, em fevereiro e março de 2007, foi realizada uma verdadeira “força-tarefa” no Estado com a Campanha de Mobilização de Tuberculose. Um amplo trabalho de conscientização e informação de toda a área de saúde, pública e privada, instituições parceiras e divulgação nos meios de comunicação com a fi nalidade de conscientizar também a sociedade.

Foi proposta e realizada, ainda, uma teleconferência simultânea sobre o tema em cinco municípios. Essa campanha, além da educação popular, em escolas e lugares de grande concentração popular, como a rodoviária, em Amajari, contou com a busca ativa.

A busca ativa consiste na qualifi cação dos profi ssionais das ESF a fi m destes estarem sempre atentos aos sintomas da tuberculose, bem como fazer todo um trabalho de campo em busca do diagnóstico de todos os casos possíveis dentro da área de atuação de uma Unidade Básica de Saúde (UBS/SF).

A figura central nessa detecção é o Agente Comunitário de Saúde (ACS), coloca André Chagas, técnico da SES: “O agente é o elemento-chave da busca ativa. É ele quem entra nas casas das pessoas e observa os principais sintomas e tem na tosse o primeiro indício. Quando o paciente apresenta a tosse o ACS o convida à UBS para fazer os exames necessários”.

Descentralização e priorização da Atenção Básica • Apesar de a busca ativa vir surtindo efeitos positivos sobre a detecção de novos casos, ainda há a procura espontânea da população diretamente na alta complexidade. Trazer esses pacientes para a detecção sintomático-respiratória na Atenção Básica, onde os diagnósticos podem ser obtidos mais precocemente tem sido o maior desafio dos profissionais da SES.

A médica Ana Lílian Guimarães Barros de Souza, pneumologista do Estado e da Coordenação Nacional de Tuberculose,

Acompanhamento do paciente a todo o momento • Além da busca ativa, outra iniciativa vem destacando o trabalho das ESF no combate à tuberculose em R. Trata-se da procura pela quebra da cadeia de transmissibilidade do Mycobacterium tuberculosis ou Bacilo de Koch (BK), causador da doença. A meta, coloca André Chagas, “é que todos os pacientes positivados (bacilíferos) façam o tratamento supervisionado e não auto-administrado. Essa iniciativa partiu da constatação dos profi ssionais da área que nem sempre o tratamento surtia o efeito esperado porque o paciente nem sempre seguia corretamente as designações do médico”.

Nessa etapa do trabalho a figura do ACS torna-se fundamental, coloca o técnico, que explica: “o tratamento supervisionado consiste em ir nas casas dos pacientes, nos horários determinados pela prescrição médica, para vê-lo engolir/deglutir a medicação e conferir passo-a-passo se todas as demais orientações estão sendo cumpridas. É garantir que a pessoa venha a apresentar ao fi nal do período proposto para o tratamento a negativa e é nisso que nosso programa está bom: no nosso índice de cura!

Estamos conseguindo curar e diminuir o abandono”.

Outra orientação importante é que todas as pessoas com a tuberculose façam, também, o exame de HIV, uma vez que a co-infecção, neste caso, pode diminuir a resistência do organismo ao BK. Nesses casos, onda há a constatação do HIV, os usuários são acompanhados, também, pelo Departamento de Infectologia. Segundo a OMS, a associação dessas duas enfermidades constitui um sério problema de saúde pública mundial, podendo levar ao aumento da morbidade e mortalidade pela tuberculose em muitos países.

coloca que Roraima passou por uma descentralização em 2001. As funções foram divididas, sendo que os casos positivados fi cam na Saúde da Família, acompanhados pelas UBS/SF. Os casos negativados ou suspeitos fi cam nas Secretarias Municipais de Saúde (SMS).

Essa qualifi cação acontece em todos os municípios do Estado e atinge médicos, enfermeiros, auxiliares e ACS. Com a capacitação, também se procura abastecer o Sistema de Informação de Agravos de Notifi cação (Sinan).

Para a coordenadora da Atenção Básica em Roraima, Irgélia Maria R. Palmeira, a tuberculose, junto com a hanseníase, é a área que mais demanda capacitações, com duas a três turmas por ano. A coordenadora coloca que a detecção ainda tem sido baixa e que o principal motivo disso é justamente o fato de ainda ser feita na alta complexidade. “Temos buscado que a Atenção Básica, pela estratégia Saúde da Família, faça essa detecção sintomático-

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Dona Elizabeth é de uma família de recorrentes casos de tuberculose. Junto à médica Ana Lilian e à equipe da Secretaria Estadual de Saúde de Roraima, busca fechar o cerco e quebrar a transmissibilidade. Por isso a SES está fazendo uma ampla varredura não só em toda a família, mas também com vizinhos e outros contatos mais próximos.

A partir da preocupação da ACS Marly, Maria descobriu, logo no início da doença, quando sequer apresentava sintomas, que era portadora do bacilo. Com previsão de tratamento de seis meses, sente-se aliviada por poder estar atenta com a saúde dos fi lhos que poderiam estar, inadvertidamente, expostos à tuberculose.

respiratória com diagnósticos mais precoces”, coloca Irgélia.

Busca ativa quer prevenir uma família inteira • Desde 2003, a família de Dona Elizabeth Nascimento vem apresentando a cada ano, uma nova pessoa acometida pela tuberculose. E em 2007, além dela própria, outras três pessoas apresentaram a doença. Frente a esse quadro, a Secretaria Municipal de Saúde de Boa Vista, em parceria com a SES, está promovendo uma busca ativa dentro dessa família.

Dona Elizabeth conta que o convívio entre seus familiares é extremamente amistoso e que praticamente todos os seus fi lhos e netos moram em casas num mesmo terreno. Logo, a freqüência de uns nas casas dos outros é constante e como a tuberculose é uma doença de transmissão aérea está fi rmado ali um habitat ideal para o bacilo se proliferar.

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