Saúde da família e vigilância em saúde - em busca da integração das práticas

Saúde da família e vigilância em saúde - em busca da integração das práticas

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Preocupada com a situação, a pneumologista Ana Lílian decidiu, com o respaldo da SMS, fazer uma varredura completa em todos os contactantes de Elizabeth, “queremos proteger essa família e ver se conseguimos acabar de vez com essa história que se arrasta desde 2003 (...) Eles estão se contaminando e, inclusive, estamos estendendo também a busca ativa para aqueles vizinhos com contato mais direto, visto já o tempo de exposição que essa família e as pessoas mais próximas estão tendo à doença”, coloca.

A diferença do olhar experiente de uma ACS • Detectada nos primeiros meses de infecção, Maria da Conceição, descobriu-se com a doença graças à preocupação da ACS Marly Carvalho, da Unidade Alvorada. Quando ficou sabendo que a mãe de Maria estava internada, por causa da mesma doença, Marly, ACS experiente, recomendou que fi zesse o exame, mesmo que por precaução. “Quando ela aceitou, no dia seguinte eu trouxe os frasquinhos para coleta de material para a papiloscopia, o primeiro resultado foi negativo, mas como nós temos de fechar o diagnóstico, fi zemos um segundo exame que deu positivo. Isso sem que a paciente apresentasse nenhum sintoma”, coloca a ACS Marly.

Para Maria o susto foi grande, pois como colocou a ACS, ela não apresentava nenhum sintoma. Seu tratamento terá a duração de seis meses e nesse período, sua atenção deverá ser redobrada. A dona-de-casa coloca: “Agora que eu já sei que também estou com a doença estou seguindo as recomendações da médica aqui da Unidade e fazendo o possível para que meus fi lhos não peguem também, já que deu negativo no exame dos três”.

Guarapuava, no Paraná, tem uma população de aproximadamente 170 mil habitantes e conta com 32 unidades de saúde e uma unidade de referência.

Todas as unidades de saúde realizam o diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos casos de tuberculose, encaminhando os de maior complexidade para o AMPDS que é o centro de referência no atendimento de hanseníase e tuberculose, composto por uma equipe multiprofi ssional qualifi cada para atender o paciente de forma integral. “Essa equipe recebeu vários treinamentos que contribuíram para capacitação da mesma, na realização e repasse das ações técnicas do Programa de Controle da Tuberculose (PCT); vindo de encontro ao desejo de um atendimento personalizado e humanizado ao paciente”, conta a enfermeira especialista em estratégia Saúde da Família, Ana Alice Carneiro França.

Todas as baciloscopias diretas e culturas de escarro solicitadas pelas unidades de saúde são realizadas pelo laboratório municipal, que quando detecta BK positivo informa imediatamente ao AMPDS, o nome do paciente, o profi ssional solicitante, a unidade de saúde e o endereço do mesmo. Mediante a informação e munido do kit fi chamento, um profi ssional do centro de referência, geralmente a enfermeira, dirige-se à unidade de origem do paciente e acompanhada do enfermeiro e do Agente Comunitário de Saúde (ACS) correspondente, realizam visita domiciliar para o preenchimento dos formulários e orientação do paciente e seus familiares sobre: resultado dos exames, sinais e sintomas da doença, formas de contágio, importância da adesão ao tratamento, possíveis efeitos colaterais da medicação e solicitação do teste de HIV.

De segunda a sexta-feira, o ACS responsável vai a casa para administração da medicação e acompanhamento, sendo que nos fi nais de semana e feriados o paciente e seus familiares são orientados quanto a tomada do medicamento. O ACS registra em formulário próprio a administração do medicamento que segue assinado por ele e pelo paciente diariamente. Durante a visita é preenchida uma fi cha com os dados dos comunicantes e as pessoas presentes são examinadas, fi cando sob responsabilidade da unidade básica o exame dos demais.

Esse modelo de atendimento se aplica a todas as formas de tuberculose diagnosticadas e com raras exceções é feito o tratamento auto-administrado.

Os pacientes avaliados pela assistente social recebem, ainda, cesta básica e vale transporte para realização de exames, consultas e avaliação especializada, para os casos indicados.

Para que as intercorrências durante o tratamento tenham uma assistência adequada, desenvolveu-se uma parceria de confi abilidade mútua com alguns profi ssionais médicos vinculados aos hospitais, facilitando o internamento dos pacientes, “nos casos de pacientes com agravos associados (alcoolistas, psicóticos, dependentes químicos etc.) que apresentam difi culdade de adesão ao tratamento, quando esgotamos as tentativas por parte da equipe local e da referência em manter a regularidade da tomada da medicação, conseguimos com que psiquiatras possibilitassem o internamento e a inclusão ao tratamento psiquiátrico e supervisão da medicação específi ca de tuberculose”, conta Sonia Maria Nunes Lozove, psicóloga, educadora em Saúde Pública.

Segundo a equipe, alguns aspectos garantem o sucesso do PCT em Guarapuava:

-Apoio do gestor municipal que permite a realização das ações decididas pela equipe, apoio fi nanceiro às Campanhas Educativas e liberação de profi ssionais técnicos para participação de eventos;

-Comprometimento dos profi ssionais das ESF no acompanhamento dos pacientes, dando especial valorização ao ACS;

-Atendimento personalizado/humanizado do paciente que se sente amparado pelos profi ssionais envolvidos favorecendo a adesão ao tratamento e evitando abandono;

-A UBS e a referência têm um prontuário paralelo com os dados dos pacientes, resultados de exames, medicamentos, exame de comunicantes, intercorrências, que permite uma supervisão continuada de cada caso;

-Implantação dos livros: de Registro do Sintomático Respiratório no Serviço de Saúde e do Registro de Pacientes e Acompanhamento de Tratamento dos Casos de Tuberculose, por meio de reunião com todos os profi ssionais de cada unidade no seu próprio local de trabalho (uma unidade por semana, com paralisação do atendimento por duas horas);

-Reuniões mensais com a equipe do

AMPDS, representante do programa DST/ AIDS, laboratório municipal, vigilância epidemiológica municipal e regional.

Profissionais das ESF participam de treinamento constante

Profi ssionais da Saúde da Família se engajam na Campanha de Combate à Tuberculose

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Na prevenção de Doenças

Sexualmente Transmissíveis, a estratégia Saúde da Família também faz vigilância

A cidade de Sorocaba, no interior paulista, iniciou, em 1998, um programa de prevenção da transmissão materno infantil do HIV, o “Programa Transmissão Vertical Zero”, com base em conhecimentos existentes, em experiências internacionais e em parceria com o Ministério da Saúde (MS), Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Centros Municipais de Saúde, vigilâncias estadual e municipal de saúde, maternidades e organizações não-governamentais (ONGs).

Foram desenvolvidos, então, protocolos com estratégias que levaram ao envolvimento de centenas de profi ssionais de saúde o que resultou numa signifi cativa redução do número de bebês infectados na cidade, “nossos resultados devem servir de estímulo a todos que desejam um compromisso com a cidadania”, comemora a pediatra do Programa, Maria José de Souza.

O Programa oferece treinamento contínuo aos profi ssionais de todas as 27 Unidades Básicas de Saúde (UBS) e oferta do teste HIV voluntário no primeiro e terceiro trimestres de gestação com aconselhamento em todas as fases às gestantes. “Caso o resultado seja negativo, a paciente continua o pré-natal na UBS e caso dê positivo ou indeterminado ela é encaminhada para o Centro de Orientação e Apoio Sorológico (Coas) e posteriormente à Clínica Municipal DST/Aids”. Na clínica, segundo Maria José, a gestante contará com atendimento especializado de pré-natal e infectologia com uma equipe multidisciplinar que realiza a contagem do CD4 e a carga viral, “fazemos, então, o

As Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) são alvo das ações de Vigilância em Saúde no sentido de prevenir e controlar as doenças que requerem de todo o sistema de saúde engajamento e sensibilidade, uma vez que dizem respeito à intimidade do indivíduo e exigem, também, tratamento não só do paciente, mas do seu parceiro(a). Por sua relação de proximidade com os pacientes, as Equipes de Saúde da Família são peças importantes para o sucesso dos programas desenvolvidos em diversos municípios.

tratamento com anti-retrovirais tanto para a gestante como para o recém-nascido”.

Outra vertente do Programa é o treinamento da equipe obstétrica da maternidade da Santa Casa de Sorocaba de forma a prepará-la para a realização do teste rápido no préparto quando não há informações na carteira da gestante. Nesse momento, também, caso o resultado do teste seja negativo é feito o agendamento na UBS e em exames positivos, o bebê entra no Programa Recém-Nascido de Risco, com o agendamento na Clínica Municipal DST/Aids, consultas pré-agendadas e distribuição do leite em pó (fórmula infantil) – para a qual o MS possui verba especifi ca para o fornecimento nos seis primeiros meses. Com o acompanhamento por meio do Programa Recém-Nascido de Risco, fecha-se um ciclo que permite a cura da criança até os 18 meses.

Segundo Maria Tereza Morales Dib, coordenadora do Programa Municipal DST/Aids, são oferecidos diversos treinamentos por ano para fazer a sensibilização, “onde chamamos os coordenadores, ginecologistas, pediatras e enfermeiras da ponta para fazer a sensibilização, pois precisa partir das UBS e dos hospitais que é onde os profi ssionais têm a percepção exata da dimensão do problema”.

O Programa Municipal de DST de

Sorocaba tem credibilidade e já conseguiu, em relação à Transmissão Vertical (TV), que nos últimos quatro anos, dos 32 casos suspeitos com três crianças positivas, todas se negativassem após o tratamento, “não gosto de falar que não houve casos, porque na realidade você sempre tem uma gestante que é moradora de rua e que você pode não localizar. É importante mostramos aos gestores que evitar a TV é mais viável economicamente do que tratar uma criança soropositivo. Tivemos, em 2004, um gasto de 75 mil reais para testagem de toda população de gestantes da rede do município e o custo estimado de cada criança soropositivo, somente no primeiro ano de vida, é de mais de 115 mil reais”.

O tratamento da criança é feito por via oral e cabe à mãe se responsabilizar por isso, “se percebemos que isso não está sendo feito a assistente social pode fazer uma visita ou até mesmo o conselho tutelar. Mas evitamos falar que isso pode acontecer, pois a mãe tem medo da intervenção e não queremos criar uma relação de medo ou constrangi-

ONGs, como a Crianças de Belém, desenvolvem trabalhos de acolhimento às mães e crianças com Aids.

Atendimento na UBS/SF Bataillard, em Sorocaba

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mento e sim ajudar a paciente que já está num momento difícil. A partir do momento que você parte para isso, perde muito o relacionamento com ela”.

Já que no pré-natal – que possui uma cobertura de 97% – o primeiro exame é feito pelas enfermeiras, há um grande acesso à categoria “e temos feito um trabalho com os aconselhadores nas UBS na tentativa de descentralizar o Programa e para favorecer a população um acesso mais próximo aos diagnósticos, ao acompanhamento e podendo falar em prevenção, vulnerabilidade”.

Outra parceria que tem sido fundamental para o sucesso do Programa se dá com as UBS, uma vez que é fundamental a atenção durante o pré-natal. Nas UBS que contam com a estratégia

Saúde da Família, a efi cácia da orientação da equipe e dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) é mais visível, devido à proximidade com os usuários. “As Equipes de Saúde da Família (ESF) são fundamentais, porque a UBS é a porta de entrada da paciente e precisamos que ali tenham pessoas que escutem, que acolhem, pois, caso contrário, vamos perder muita gente. Estamos investindo no treinamento desses profi ssionais para tornar o atendimento ainda mais efi caz, pois antes eles próprios tinham medo de sugerir o exame por não saberem o que fazer em caso positivo”, diz Tereza Dib.

Liliane Maria Guimarães Pinto, coordenadora da Saúde da Família em Sorocaba, lembra que o agente anda pelas ruas, “sabe quem faltou ou se atrasou para a consulta e percebe se aquela família está em situação de vulnerabilidade. O agente passa na casa de todas as gestantes, independente se fazem pré-natal no Sistema Único de Saúde ou não, pois no que pudermos ampliar a atenção em termos de vigilância no pré-natal, vamos fazer”.

Atualmente a cidade conta com 1

ESF que atendem em quatro UBS, “e observamos que os profi ssionais que trabalharam na Saúde da Família acabaram levando a fi losofi a para os outros serviços e falam que gostariam de ter a estratégia, ou sua fi losofi a, nos outros lugares”, conta Liliane Guimarães.

Ela acredita que no território da Saúde da Família há ações de Vigilância em Saúde que podem ser ampliadas, “podemos avançar, entrar, penetrar; como o ACS precisa identifi car as situações, ele precisa ser capacitado para isso e a qualidade de trabalho dos nossos agentes melhorou muito, em termos de dimensão política, técnica, teórica, prática, sociológica, relacionamento etc. e com isso a equipe está diferente. Com a Saúde da Família, a gente vai buscar o paciente e quem busca, principalmente, é o ACS; não só ele, mas principalmente”.

Liliane Guimarães lembra que a ESF precisa estar capacitada “para fazer um pré-natal bem feito e nossas equipes estão, agora, discutindo o Pacto de acordo com as políticas e as patologias e brevemente haverá um intercâmbio entre todas as ESF da cidade”.

O Programa de Sorocaba está se solidifi cando, “pois dá bons resultados e o controle social apóia. Além das ONGs que se envolvem bastante nas ações. Mas a cidade tem uma população de 600 mil habitantes e cada lugar tem de se adaptar à sua realidade e traçar sua estratégia, a nossa foi a aliança com a Atenção Básica/SF”, diz a médica Maria José.

Para a médica, o maior desafi o na prevenção de qualquer DST é a noção – ou falta dela – de vulnerabilidade, “até mesmo as pessoas que já desenvolveram a Aids não têm essa percepção da vulnerabilidade, que aumenta ou diminui sua consciência de que esse risco existe e que você está vulnerável a todo momento, em cada situação da sua vida. Temos ações organizadas, fl uxos de trabalho e até espaço para esse tipo de assistência, mas quando você chega no indivíduo limita a sua ação, porque a mudança de comportamento é individual e não tem como impor. O que sabemos, hoje, é que 2/3 dos infectados nunca fi zeram um teste, ou seja, o número de casos é muito maior do que conhecemos e acompanhamos”, refl ete a pediatra.

Envolvimento. Essa é a chave para que qualquer programa de saúde seja bem sucedido. A cidade de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, é exemplo disso no que se refere ao Programa de Combate à Sífi lis Congênita – iniciado em 1996, em parceria com o Ministério da

Saúde, e que tem o objetivo de prevenir a ocorrência da doença em mulheres em idade fértil; evitar ou interromper a transmissão da sífi lis adquirida materna para o seu concepto e reduzir as conseqüências da doença para a criança infectada, por meio do diagnóstico e do tratamento oportuno e adequado.

A sífilis é quatro vezes mais freqüente nas gestantes do que o HIV e estima-se que, a cada ano no Brasil, 48 mil gestantes estejam infectadas – desse total, aproximadamente 12 mil crianças adquirem a sífilis congênita. Mas a doença tem cura se a gestante for tratada, juntamente com seu parceiro, de forma adequada, possibilitando, assim, a interrupção da transmissão da mãe para o bebê que passa a ter toda a possibilidade de nascer sadio.

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