Saúde da família e vigilância em saúde - em busca da integração das práticas

Saúde da família e vigilância em saúde - em busca da integração das práticas

(Parte 7 de 15)

A atividade do pré-natal é, dessa forma, a ação prioritária de vigilância da sífilis congênita, “uma vez que o tratamento adequado da gestante com sífi lis surte efeito sobre a saúde do feto, podendo evitar o abortamento, a morte perinatal e as graves seqüelas próprias da doença”, diz Ana Scis, enfermeira que trabalha no Programa – que faz parte do Programa Municipal de DST/Aids – que completa: “para obter êxito é necessária a integração entre os Programas materno-infantis, as Equipes de Saúde da Família (ESF) e Agentes Comunitários de Saúde (ACS), programas estaduais e municipais de DST/Aids, ONGs, profi ssionais de saúde e a comunidade”.

Em linhas gerais, o programa consiste no acompanhamento dos serviços de pré-natal para detectar casos de sífi lis em gestantes, que após a confi rmação da doença recebem todo o acompanhamento para verifi cação da conclusão do tratamento. Profi ssionais envolvidos no pré-natal se mobilizam no sentido da detecção precoce e do tratamento adequado do agravo, buscando melhorar a captação dos parceiros. Um segredo para que o tratamento dê certo é a abordagem dessas gestantes, a maneira como são tratadas e o acompanhamento feito de perto pelos agentes comunitários e demais atores do processo. “O diferencial é a maneira de abordar a paciente,

Na UBS/SF, os profi ssionais recebem treinamento para lidarem com a questão das DSTs

A pediatra Maria José e a coordenadora do Programa Municipal DST/Aids de Sorocaba,

Tereza Dib.“Nossos resultados devem servir de estímulo a todos que desejam um compromisso com a cidadania.”

Maria José de Souza, pediatra do “Programa Transmissão Vertical Zero

“O ACS sabe quem faltou ou se atrasou para a consulta e percebe se aquela família está em situação de vulnerabilidade. O agente passa na casa de todas as gestantes, independente se fazem pré-natal no Sistema Único de Saúde ou não, pois no que pudermos ampliar a atenção em termos de vigilância no pré-natal, vamos fazer.” Liliane Maria Guimarães Pinto, coordenadora da Saúde da Família em Sorocaba

“O diferencial é a maneira de abordar a paciente, e nunca encontramos resistência, até porque a grande preocupação delas é ter certeza de que a sífi lis tem cura e de que o bebê fi cará bem.” Marise Regina Bender, técnica administrativa

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As ações para o controle da Sífl is envolvem farmácias, praças públicas, empresas e distribuição de kits para as gestantes que concluem o tratamento.

“Se você está numa unidade tradicional e chega uma paciente com sífi lis, você trata e ela desaparece, mas na Saúde da Família os profi ssionais fi cam vigilantes, acompanham e se envolvem com a comunidade.” Vânia Lopes, coordenadora dos Programas da Prefeitura

“Demos palestras em uma transportadora e em uma empresa de ônibus para um público predominante masculino. Na verdade, aos poucos estamos montando um programa para atender homens heterossexuais no sentido de sensibilizá-los de alguma maneira da importância de se tratar antes de planejar uma família.” Ana Scis, enfermeira do Programa de Combate à Sífi lis Congênita e nunca encontramos resistência, até porque a grande preocupação delas é ter certeza de que a sífi lis tem cura e de que o bebê fi cará bem”, dia a técnica administrativa, Marise Regina Bender que também atua no Programa.

No pré-natal deve-se pedir o exame para a mãe e seu parceiro e como a contaminação pode acontecer em qualquer momento da gestação, é necessário pedir o VDRL também no início do último trimestre da gestação, “para dar tempo, pois o tratamento precisa estar terminado até pelo menos 30 dias antes do parto. Os nascidos vivos assintomáticos não estão livres de desenvolverem a doença, por isso precisam ser investigados e acompanhados nos três primeiros meses de vida”, alerta Ana Scis.

Em Petrópolis há cerca de 4.180 partos por ano, sendo que em 2006 foram notifi cados 31 casos de sífi lis congênitas. Os casos aparecem com mais freqüência entre mulheres com 20 a 29 anos – na faixa etária onde os relacionamentos são mais estáveis, também ali é maior o número de demais casos de DST. “Um ponto que nos preocupa é que essa infecção tem se mantido naquele casal durante um longo período e fi camos vigilantes nesse sentido. Com esses casais tentamos fazer uma intervenção para que eles vejam que a permanência da sífi lis durante muito tempo pode ter conseqüências mais graves”, relata Ana.

O diagnóstico precoce na gestante é difícil, a captação do parceiro durante o pré-natal é quase nula e nem sempre existe a adesão ao tratamento.

Os casos de contaminação durante a gravidez mostram que a prática de sexo seguro muitas vezes é abandonada durante o período gestacional deixando a mulher mais vulnerável à sífilis e às outras DST.

Ana conta que há cerca de um ano e meio foi realizado um evento só para os ACS com foco para a importância do agente de saúde dento do contexto da comunidade no controle das DST e que agora está programado um outro encontro apenas para falar de sífi lis congênita.

O agente sabe que representa um papel importante e trabalha bem, segundo Ana, “têm agentes comunitários de saúde que nos ligam informando e procurando orientações; já tivemos uma ACS que vinha acompanhar a mãe na consulta ao pediatra porque ela tinha uma porção de fi lhos e comparecer às consultas era uma difi culdade enorme, então ela vinha com aquela paciente e a ajudava a trazer os quatro fi lhos”.

Segundo Vânia Lopes, coordenadora geral dos programas da Prefeitura, a estratégia e as ESF têm obtido bons resultados na cidade, “temos unidades bem avançadas no que se refere a cumprimento de jornada, educação permanente e envolvimento com a população. Algumas UBS já oferecem homeopatia e acupuntura, dentre atividades diversas”.

Para Vânia, as ESF devem atuar antes na gravidez, “na prevenção das DST de uma forma geral e do adolescente ao idoso”. Vânia acredita que as ESF tenham mais sucesso no acompanhamento do pré-natal.

Outro ponto importante está no fácil acesso aos laboratórios que fazem os exames para a detecção da sífilis,

“nós contamos com um laboratório da prefeitura aqui do lado, então assim que o casal chega já vamos com ele ao laboratório e colhemos o sangue”, conta Marise que sempre acompanha os pacientes ao laboratório e diz que seus profissionais são sensibilizados com a questão da sífi lis “e isso também é importante”, lembra Marise.

Sob o ponto de vista econômico, o tratamento é vantajoso para a gestão e para os pacientes, “pois é barato e as gestantes fazem tudo de graça, além de levarem um kit para o bebê”, diz Marise Bender – o Programa oferece uma cesta às mães que começam e terminam o tratamento adequadamente.

Para Marise e Ana, os problemas estão relacionados a outros fatores. O serviço de pré-natal deve ser bem montado, médicos bem treinados e bastantes sabedores da conduta do que fazer, como medicar e como tratar a sífi lis, “isso é fundamental para se evitar erros no tratamento, nas dosagens e aplicações. Os laboratórios, sejam eles particulares ou públicos, precisam se conscientizar de que nós precisamos da notifi cação da sífi lis em gestantes porque por meio dessa notifi cação é que agente vai poder captar essa gestante o mais rápido possível. Se ela faz no primeiro mês a primeira consulta de pré-natal já pegamos uma notifi cação positiva e não precisamos ‘perder tempo’ e sim ‘ganhar tempo’ com o tratamento. Daí a importância da notifi - cação por parte do laboratório”.

Ana fala, ainda, que faltam campanhas de informações que esclareçam exatamente quais são as conseqüências da sífi lis, o que faz com que a população não tenha a noção exata dos efeitos que ela pode causar e das conseqüências. E completa que já teve difi culdade para colocar esse assunto em pauta nos veículos de comunicação da cidade – sim, além de batalhadoras do programa, Ana e Marise fazem a assessoria de imprensa para divulgá-lo.

Marise explica como se dá o processo de envolvimento da população nas campanhas, “passamos a envolver todos na luta contra a sífi lis. Tivemos um caso em que o balconista da farmácia se negou a aplicar a penicilina na paciente, justamente porque ela estava grávida, o resultado foi um aborto. Quando a paciente nos contou o que tinha acontecido resolvemos fazer um seminário com todos os farmacêuticos da cidade”.

Além de mobilizações em praça pública, Ana fala que periodicamente fazem palestras em empresas e estão preparando seminários com os labora- tórios e profi ssionais de saúde, “demos palestras em uma transportadora e em uma empresa de ônibus para um público predominante masculino. Na verdade, aos poucos estamos montando um programa para atender homens heterossexuais no sentido de sensibilizá-los de alguma maneira da importância de se tratar antes de planejar uma família”.

Para a experiente enfermeira Susie

Nogueira, que trabalha a questão da Aids e Sífilis há anos, a sífilis ainda é subestimada porque as pessoas “não têm vergonha de ter sífi lis, pois é uma doença que toma remédio e ninguém é discriminado, ao contrário da Aids, que mata. Mas em termos de prevenção as duas são iguais e se você usa camisinha está se prevenindo contra tudo”. Susie coloca que os programas existentes são bons, mas “falta todos colocarem na prática o que está escrito, ou seja, fazer o que o MS já determinou e, se for o caso, adequar em cada cidade”.

Marise Regina Bender, do Programa de Combate à Sífi lis Congênita, com a médica responsável pelo laboratório municipal Márcia Tojal e o farmacêutico bioquímico Alcides Lopes: importantes aliados.

Ana Scis, do Programa de Combate à Sífi lis Congênita, a respeitada enfermeira Susie Nogueira e Vânia Lopes, coordenadora geral dos programas.

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Valorização profi ssional aponta caminho para o controle da hanseníase no Brasil

A região Centro-Oeste mantém uma das mais preocupantes taxas de prevalência de hanseníase no país: 5,8 casos para cada 10 mil habitantes, quase seis vezes mais que o proposto pela OMS: 1/10 mil.

Entretanto, o estado de Goiás vem se destacando no combate à hanseníase aumentando a cobertura das ações de controle em municípios considerados prioritários para a Secretaria Estadual de Saúde (SES) – Anápolis, Aparecida de Goiânia, Goiás, Jussara, Minuaçu, Niquelândia, São Miguel do Araguaia, Senador Canedo e Trindade.

Das 351 Unidades Básicas de Saúde (UBS) dessas cidades, aumentaram de 106 para 245 aquelas que fazem o diagnóstico e o tratamento de hanseníase e esse avanço elevou o percentual no estado de 57 para 68%, atualmente 1.191 UBS em Goiás fazem os procedimentos.

A hanseníase em Goiânia • A capital do Estado, Goiânia, até o ano de 2005, não vinha apresentando números satisfatórios. Na ocasião, o Programa de Controle da Hanseníase abrangia somente 12,8% de cobertura populacional. O Centro de Referência em Diagnóstico e Terapêutica (CRDT) não conseguia cumprir seu papel de referência, pois agia como centro de demanda e não tendo para onde encaminhar o paciente, acabava por assumi-lo; devido ao excesso de demanda, o Centro não conseguia fazer um acompanhamento individualizado, o percentual de abandono aumentava e a taxa de cura diminuía.

Insatisfeita com esses indicadores da hanseníase no município, a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (SMS) reuniu seu corpo de gestores a fi m de

Em todo o Brasil são diagnosticados, por ano, segundo o Ministério da Saúde, uma média de 47 mil novos casos de hanseníase. Um parâmetro alto de endemicidade, especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Isso rende ao país duas indesejáveis posições: a de primeiro lugar nas Américas em número de pessoas portadoras do mal e segundo país no mundo com maior número de casos – com indicadores melhores somente que a Índia. Para combater essa doença que ainda acomete muitos brasileiros, a estratégia Saúde da Família, aliada às ações da Vigilância em Saúde, vem se mostrando uma poderosa ferramenta social no combate e prevenção.

discutir soluções para a questão que pedia urgência.

Capacitação Campanha • Foi então elaborado todo um cronograma procurando causar impactos sobre os indicadores municipais. Estas atividades primaram pela elaboração de projeto piloto: a Capacitação Campanha que se pautou em: capacitação teórica dos profi ssionais aliada a uma parte prática (desde o médico ao Agente Comunitário de Saúde (ACS)); descentralização dos serviços; e concentração de esforços nos bairros silenciosos.

Ainda em 2005, foram formadas 57 turmas, pelas quais 1.664 profi ssionais de saúde foram capacitados. Destes, 728 eram ACS, 520 médicos, técnicos e auxiliares de enfermagem totalizaram 384 e ainda 32 farmacêuticos.

A prática aliada à teoria • Para Eliana de Abreu, técnica em hanseníase, do departamento de epidemiologia, a maior diferença se deu ao vincular a prática à capacitação, “fi zemos um treinamento anterior a 2005, muito amplo com diversos profi ssionais, mas esse não logrou êxito, não tivemos melhoras nos indicativos da hanseníase. Chegamos à conclusão que aqueles profi ssionais passaram pela teoria, mas não passaram pela prática. Reavaliamos isso e mudamos a estratégia (...) a partir do momento que esses profi ssionais tiveram acesso também à prática, resultou em aumento no número de detecção de novos casos e podíamos também transferir os pacientes para as unidades mais próximas, o que ajudou a efetivar a implantação”.

Outra prática adotada pela SMS no combate à hanseníase foi o aprimoramento das parcerias com a sociedade, como, por exemplo, a mobilização e conscientização utilizando espaço de grande fl uxo de pessoas, como diversas igrejas da cidade.

Para sanar a carência de agentes destinados ao Programa de Combate à Hanseníase em alguns bairros da cidade, a SMS fi rmou uma parceria com a Universidade Católica – implantando na cidade o Campo de Estágio, no qual estudantes dos últimos períodos de enfermagem prestam serviços à secretaria ao mesmo tempo que têm ganho curricular em estágios supervisionados. Segundo a professora do curso de Enfermagem, Kristina de Freitas F.Santos, “o ganho é mútuo, temos 30 alunos participando da iniciativa e é isso justamente que nos ajuda a complementar nossos serviços educacionais: o acesso à prática. Os alunos saem da universidade conhecendo a realidade do dia-a-dia do trabalho e saem também como uma consciência mais humanizada do atendimento”.

Apesar dessa parceira com a Universidade Católica, Eliana conta que a SMS ainda enfrenta alguns problemas de

O grupo de gestoras da SMS de Goiânia, a enfermeira Aline Sampaio Bello, a técnica em hanseníase, Eliana de Abreu, a diretora do Deptº de Epideliologia, Aminadas R.Rodarte e a chafe da Divisão de Doenças Transmíssiveis. Gilma Moreira de Sousa. Para Aminadab, “a população em geral e os próprios servidores da saúde têm um ganho muito grande, porque vemos que uma doença crônica, que não tinha cura e levava à deformidade física hoje é uma doença curável.

Revista BrasileiraSaúde da Família3637Revista BrasileiraSaúde da Família3637 territorialização com o hospital-escola da cidade, pois ainda há a cultura, por uma parte da população, de procurar prioritariamente esse hospital, e por se tratar de um centro de formação, muitas vezes os casos não são encaminhados para a Atenção Básica.

Atendimento diferenciado • Para Gilma Moreira de Souza, chefe da Divisão de Doenças Transmissíveis, o encaminhamento de todos os pacientes às UBS é de extrema importância, pois auxilia no processo de descentralização das ações. Ela observa que “quando o paciente está próximo da unidade de saúde o abandono do tratamento é bem menor, pois se dá mais atenção à pessoa e o volume no centro de referência diminui. E isso também minimiza o número de casas que os ACS têm de visitar e melhora o atendimento; a pessoa se sente valorizada”.

O médico Sandro Rogério Rodrigues Batista é coordenador da estratégia

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