Atenção à saúde do adulto - HIV / AIDS

Atenção à saúde do adulto - HIV / AIDS

(Parte 1 de 11)

1ª Edição SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE MINAS GERAIS Belo Horizonte, 2006

MINAS GERAIS. Secretaria de Estado de Saúde. Atenção a saúde do adulto: HIV/AIDS. Belo Horizonte: SAS/MG, 2006. 68 p.

1. Saúde do idoso -HIV/AIDS. 2. HIV/AIDS - Atenção à Saúde da adulto - Diabetes. 3. Hipertensão e diabetes - Atenção à Saúde do Adulto. I.Título.

GOVERNO DO ESTADO DE MINAS GERAIS Governador Aécio Neves da Cunha

SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE DE MINAS GERAIS Secretário Marcelo Gouvêa Teixeira

SUPERINTENDÊNCIA DE ATENÇÃO À SAÚDE Superintendente Benedito Scaranci Fernandes

GERÊNCIA DE ATENÇÃO BÁSICA Gerente Maria Rizoneide Negreiros de Araújo

GERÊNCIA DE NORMALIZAÇÃO DE ATENÇÃO À SAÚDE Gerente Marco Antônio Bragança de Matos

COORDENADORIA ESTADUAL DE DST/AIDS Coordenadora Raquel Baccarini

Aporte financeiro Este material foi produzido com recursos do Projeto de Expansão e Consolidação da Saúde da Família - PROESF

Projeto gráfico e editoração eletrônica Casa de Editoração e Arte Ltda.

Ilustração Mirella Spinelli

Produção, distribuição e informações Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais Rua Sapucaí, 429 – Floresta – Belo Horizonrte – MG – CEP 30150 050 Telefone (31) 3273.5100 – E-mail: secr.ses@saude.mg.gov.br Site: w.saude.mg.gov.br

Maria Tereza da Costa Oliveira Vanessa Henriques Pinto

A situação da saúde, hoje, no Brasil e em Minas Gerais, é determinada por dois fatores importantes. A cada ano acrescentam-se 200 mil pessoas maiores de 60 anos à população brasileira, gerando uma demanda importante para o sistema de saúde (MS, 2005). Somando-se a isso, o cenário epidemiológico brasileiro mostra uma transição: as doenças infecciosas que respondiam por 46% das mortes em 1930, em 2003 foram responsáveis por apenas 5% da mortalidade, dando lugar às doenças cardiovasculares, aos cânceres e aos acidentes e à violência. À frente do grupo das dez principais causas da carga de doença no Brasil já estavam, em 1998, o diabete, a doença isquêmica do coração, a doença cérebro-vascular e o transtorno depressivo recorrente. Segundo a Organização Mundial de Saúde, até o ano de 2020, as condições crônicas serão responsáveis por 60% da carga global de doença nos países em desenvolvimento (OMS, 2002).

Este cenário preocupante impõe a necessidade de medidas inovadoras, que mudem a lógica atual de uma rede de serviços voltada ao atendimento do agudo para uma rede de atenção às condições crônicas.

Para responder a essa situação, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais estabeleceu como estratégia principal a implantação de redes de atenção à saúde em cada uma das 75 microrregiões do estado que permitam prestar uma assistência contínua à população. E a pré-condição para a eficácia e a eqüidade dessa rede é que o seu centro de coordenação seja a atenção primária.

O programa Saúde em Casa, em ato desde 2003, tendo como objetivo a melhoria da atenção primária, está construindo os alicerces para a rede de atenção à saúde: recuperação e ampliação das unidades básicas de saúde, distribuição de equipamentos, monitoramento através da certificação das equipes e avaliação da qualidade da assistência, da educação permanente para os profissionais e repasse de recursos mensais para cada equipe de saúde da família, além da ampliação da lista básica de medicamentos, dentro do programa Farmácia de Minas.

Como base para o desenvolvimento dessa estratégia, foram publicadas anteriormente as linhas-guias Atenção ao Pré-natal, Parto e Puerpério, Atenção à Saúde da Criança e Atenção Hospitalar ao Neonato, e, agora, apresentamos as linhas-guias Atenção à Saúde do Adolescente, Atenção à Saúde do Adulto (Hipertensão e Diabete, Tuberculose, Hanseníase e Hiv/aids), Atenção à Saúde do Idoso, Atenção em Saúde Mental e Atenção em Saúde Bucal e os manuais da Atenção Primária à Saúde e Prontuário da Família. Esse conjunto de diretrizes indicará a direção para a reorganização dos serviços e da construção da rede integrada.

Esperamos, assim, dar mais um passo na consolidação do SUS em Minas Gerais, melhorando as condições de saúde e de vida da nossa população.

Dr. Marcelo Gouvêa Teixeira Secretário de Saúde do Estado de Minas Gerais

Para a elaboração desta linha-guia “Atenção à Saúde do Adulto

- HIV/Aids” contamos com as valiosas informações fornecidas pelos funcionários da Coordenadoria Estadual de DST/Aids. Agradecemos, de maneira especial, os seguintes: Fernanda Junqueira, Júlio Verneque, Henrique Barbosa, Sandro Ribeiro e Soane de Souza.

A epidemia do HIV e aids trouxe grandes repercussões para todos os setores da sociedade. Na área da saúde, os avanços ocorridos nesses mais de 20 anos de história foram significativos. O maior conhecimento da doença permitiu a melhoria do diagnóstico e tratamento das doenças oportunistas e da própria aids. O tratamento anti-retroviral altamente eficaz provocou diminuição significativa da letalidade, aumento da sobrevida e da qualidade de vida dos pacientes.

O Brasil, inquestionavelmente, tem posição de destaque no cenário mundial. A mobilização dos diferentes setores da sociedade brasileira permitiu oferecer os benefícios dos avanços da saúde à população brasileira. Infelizmente, a maior parte desses avanços está relacionada ao tratamento da aids. Pouco impacto foi obtido no que diz respeito à prevenção da disseminação da infecção pelo HIV.

A situação epidemiológica brasileira atual lança novos desafios para o sistema de saúde. É preciso avançar na promoção da saúde e na prevenção, ampliando a distribuição de preservativos masculinos e femininos, expandindo o acesso a programas de redução de danos e trocas de agulhas e seringas e aprimorando o programa de prevenção da transmissão materno-infantil. Também é preciso ampliar o diagnóstico precoce da infecção pelo HIV, combatendo o preconceito e facilitado o acesso aos exames de triagem. Um percentual elevado dos pacientes chega aos serviços de saúde já doentes e beneficiam-se pouco do tratamento anti-retroviral.

A atenção básica de saúde é espaço importante para implementação das estratégias de promoção da saúde e de prevenção. A estrutura descentralizada e capilar da atenção básica permite a proximidade dos serviços de saúde e da população, o que facilita o acesso aos profissionais de saúde.

Com a publicação deste Guia, a Secretaria de Estado da Saúde de Minas Gerais, através do Programa Estadual de DST e Aids, dá um passo importante para a ampliação das ações de promoção da saúde e prevenção e do acesso aos testes diagnósticos. Além de orientações práticas, necessárias aos profissionais de saúde para implementação das ações do Programa, o Guia permite visualizar claramente a distribuição de recursos e da infraestrutura em Minas Gerais, o que facilita a construção das redes de referência e contrareferência.

A infecção pelo HIV e a aids faz parte do cotidiano dos profissionais de saúde. É preciso estar atento e preparado para levar aos pacientes todos os benefícios disponíveis no Sistema Único de Saúde. A Sociedade Mineira de Infectologia parabeniza e apoia a Secretaria de Estado da Saúde por mais esta iniciativa de grande impacto.

Prof. Antônio Carlos de Castro Toledo Jr. Presidente – Sociedade Mineira de Infectologia

Introdução13
portadores de HIV/aids15
1.1 Uma abordagem social17

I. As diretrizes para o atendimento aos

medidas preventivas de transmissão do HIV18

1.2 A avaliação de fatores de risco –

de HIV/aids em Minas Gerais21
2.1 O roteiro para a primeira consulta25

I. A organização da assistência ao portador

detecção de sinais de alerta28
2.3 A realização de exames laboratoriais31

2.2 As consultas subseqüentes –

portadores HIV/aids32
2.5 A notificação em adultos e crianças, casos34

2.4 Os serviços para o atendimento aos

não-governamentais (ONG)34
I. Quadros informativos37

A epidemia da aids inicia no Brasil em 1980 e até junho de 2005, 371.827 casos já foram notificados ao Ministério da Saúde, sendo 251.959 homens (68%) e 118.520 mulheres (32%).

O Estado de Minas Gerais, com uma população estimada para o ano de 2005 de 19.237.450 habitantes, distribuídos em 853 municípios, 75 microrregiões de saúde e 13 macrorregiões, registrou o primeiro caso de aids em 1982. Desde então, já foram notificados 21.663 casos de aids, 69% do sexo masculino e 31% do sexo feminino, em 602 municípios, até outubro de 2005. A taxa de incidência por 100.0 habitantes oscilou entre 9,0 a 10,6 nos últimos cinco anos.

Apesar de já existirem casos de aids notificados em 2/3 dos municípios mineiros, apenas cerca de 5% oferecem esse atendimento para portadores de HIV/aids, resultando na concentração de atendimento em poucos municípios. Nem toda microrregião assistêncial tem essa assistência.

Essa interiorização da epidemia torna necessária a descentralização da assistência e uma maior preparação dos profissionais de saúde para orientar a população na prevenção do HIV, bem como manejar o paciente portador de HIV/aids.

A epidemia tem apresentado as mesmas características nacionais de interiorização, feminização e pauperização, aproximando o portador de aids cada vez mais do perfil socioeconômico do brasileiro médio. Outra mudança importante foi em relação à forma de transmissão: no início da epidemia era a relação homossexual a mais importante; hoje, é a heterossexual.

Outro fato preocupante é a crescente incidência de aids em relação à faixa etária de 13 a 19 anos do sexo feminino. Tal fato é explicado pelo início precoce da atividade sexual em relação ao adolescente do sexo masculino, normalmente com homens de maior experiência sexual e mais exposto aos riscos de contaminação por DST e pelo HIV. É fundamental desenvolver ações preventivas voltadas para os adolescentes.

Cada vez mais as mulheres estão adquirindo o vírus HIV e podendo transmitir para seu filho durante a gestação, parto ou amamentação. Estima-se existirem, anualmente, mais de 1.500 gestantes HIV+ no Estado de Minas Gerais. Identificar essas gestantes é um desafio, considerando a extensão territorial (558.384 km2), população (19,23 milhões de habitantes) e o número de municípios do Estado (273 têm menos de cinco mil habitantes). Mas, é fundamental, considerando ser possível prevenir a transmissão vertical do HIV se o tratamento for iniciado precocemente na gravidez, o recém nascido não for amamentado e receber AZT oral.

Com o objetivo de prevenir a transmissão vertical do HIV e da sífilis, 90 maternidades e hospitais do Estado, onde são realizados cerca da metade de todos os partos, foram cadastrados para testar durante o parto as gestantes não testadas no pré-natal. Estas instituições informaram que, de janeiro a outubro de 2005, foram testadas 15.108 parturientes nesta condição, correspondendo a 25% dos partos realizados no período, e o teste foi positivo em 0,53% delas.

Atualmente, 231 crianças expostas ao HIV estão sendo acompanhadas pelos serviços estaduais.

Diante do exposto, é fundamental testar toda gestante durante o pré-natal, e garantir o tratamento adequado daquelas portadoras do HIV, evitando assim a transmissão para seu filho. Os profissionais de saúde devem estar preparados para o acompanhamento de toda criança exposta ao HIV.

Vale ressaltar que a detecção precoce do HIV é desejável não apenas para as gestantes, mas sim para a população em geral. Quanto mais precoce o vírus for identificado e sendo essa pessoa devidamente acompanhada, é possível postergar a evolução para a aids. Desde 1996, com a publicação da Lei 9 313, o Brasil oferece o tratamento gratuito a todo portador do HIV/aids. Hoje, a aids, apesar de não ter cura, tem tratamento e pode ser considerada como uma doença de evolução crônica. A identificação precoce do estado de portador do HIV também possibilita prevenir novas transmissões.

Outro fator importante a ser considerado é a coinfecção HIV/tuberculose. Uma pesquisa realizada em Belo Horizonte em 1996 encontrou essa coinfecção em 12,8% dos casos de tuberculose. Como esta coinfecção é relativamente comum, todo portador de tuberculose deve realizar o teste anti-HIV.

O presente guia tem como objetivo orientar os profissionais dos serviços de saúde da atenção básica do Estado na maneira de conduzir ações de prevenção da transmissão do HIV, assim como acompanhar estes pacientes e proceder ao encaminhamento dos mesmos para tratamento especializado.

ATENDIMENTO AOS

1.1 UMA ABORDAGEM SOCIAL

Historicamente, determinadas moléstias graves – especialmente aquelas não compreendidas e cujo tratamento não é bem sucedido – tornaram-se metáforas para tudo que não fosse natural, considerado social ou moralmente errado na sociedade. Na Idade Média, as doenças epidêmicas – como a peste – eram metáforas para a desordem social e o colapso das ordens religiosa e moral.

(Parte 1 de 11)

Comentários