Livro - práticas de conservação do solo e recuperação de áreas degradadas

Livro - práticas de conservação do solo e recuperação de áreas degradadas

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É importante ressaltar que essas práticas não eliminam a necessidade de adubação, já que as perdas de nutrientes não cessam completamente, ocorrendo também por meio dos produtos agrícolas ou animais.

Para sistemas de pastagens, boas práticas de manejo, como o plantio de leguminosas em consórcio com gramíneas, rotação de pastos e o não uso do fogo, são benéficas para o controle da erosão. O uso da leguminosa, quando em consórcio, além de melhorar a qualidade da forragem para o gado, fornece nitrogênio à gramínea, melhorando seu desenvolvimento vegetativo.

A rotação do pasto permite seu corte mais homogêneo, facilitando uma rebrota uniforme da gramínea e uma melhor cobertura do solo. Quando essa prática é adotada em conjunto com o não uso do fogo, seus benefícios são maiores por reduzir as perdas de nutrientes pela erosão.

Nas áreas de pastagens, na época de reforma ou implantação, é aconselhável construir terraços, para disciplinar o escoamento da água de chuva, cujo dimensionamento deve ser orientado por técnico experiente com base nas recomendações para o Estado do Acre (Wadt, 2003).

Para culturas perenes e agroflorestas, normalmente os maiores problemas de erosão ocorrem nos primeiros anos de implantação, quando as espécies arbustivas ou arbóreas apresentam-se pouco desenvolvidas e assim produzem uma cobertura do solo insuficiente.

Nesse caso, as técnicas mais recomendadas são o cultivo em nível, a construção de terraços (Fig. 4) e o plantio de leguminosas (Fig. 5, Tabela 1), como adubos verdes, intercaladas com as espécies comerciais.

No caso de áreas agrícolas cultivadas com espécies de ciclo curto que exigem constante preparo do solo, as práticas conservacionistas mais recomendadas são o plantio direto na palha, plantio em nível e a construção de terraços.

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Fig. 4. Terraço em nível de base estreita, adequado para o controle da enxurrada em áreas com declividade acima de 8%.

Fig. 5. Utilização de puerária em rotação com a cultura principal e terraço em nível como exemplo da integração de práticas agrícolas para o controle da erosão.

Foto: Paulo Wadt. Foto: Paulo Wadt.

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Tabela 1. Leguminosas para uso como adubo verde, necessidade de sementes por ha e produção esperada, em termos de quilos de matéria seca por ha.

Onde: NS = necessidade de sementes, em kg ha-1; produção = matéria seca, em kg ha-1. Fonte: Gomes & Moraes (1997).

O plantio direto consiste no processo de semeadura em solo não preparado ou não revolvido, no qual o fertilizante e as sementes são colocados em sulcos com largura e profundidade suficientes para a cobertura adequada (Fig. 6).

Fig. 6. Feijão cultivado diretamente sobre a palha da cultura anterior.

No plantio direto algumas medidas de ordem geral são consideradas regras fundamentais (Pacheco e Marinho, 2001):

a) Eliminação das operações de preparo do solo: após a correção de deficiências químicas, por meio da incorporação de calcário e de fertilizantes fosfatados, e físicas, pela quebra de camadas compactadas, o solo deverá ser movimentado somente nos sulcos para distribuição localizada da adubação de manutenção e das sementes.

b) Controle de plantas daninhas: utilização de herbicidas dessecantes, visando substituir as operações de capina mecânica e de revolvimento do solo. É importante a combinação adequada de plantas de cobertura com a rotação de culturas e uso de herbicidas específicos.

c) Formação da cobertura morta: deve ser favorecida, principalmente na entressafra, com o cultivo de plantas específicas para cobertura, durante o período de seca.

Leguminosas

Nome comum Nome científico NS Produção

Mucuna-cinza Mucuna cochinchinensis 120 9.200 Mucuna-preta Mucuna aterrima 80 5.900 Mucuna-rajada Mucuna deeringiana 70 8.600

Calopogônio Calopogonium mucunoides 3 5.700 Guandu Cajanus cajan 15 6.0 Puerária Puerária phaseoloides 3 6.800

Desmódio Desmodium ovalifolium 0,5 6.500 Flemíngia Flemingia congesta 2 9.500

Tefrósia Tephrosia candida 2,5 8.0

Foto: Edson Patto.

17Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas d) Rotação e sucessão de culturas: deve-se dar atenção para a combinação de espécies com diferentes exigências nutricionais, produção de fitomassa e sistema radicular abundantes, utilizando-se na rotação e sucessão de culturas a alternância de uma cultura de alta relação carbono/nitrogênio (C/N), como as gramíneas, com outra de baixa relação C/N, como as leguminosas, para se obter um equilíbrio entre quantidade e qualidade de matéria orgânica.

e) Uso de semeadoras-adubadoras específicas: utilização de implementos adaptados quanto aos mecanismos de rompimento do solo, visando ao corte e fluxo da palha, abertura do sulco e adequada colocação das sementes e dos adubos.

O uso do plantio direto não elimina a necessidade do plantio em nível e a construção dos terraços, uma prática facilmente adotada quando em conjunção com a outra (Fig. 7).

O terraço, prática mecânica utilizada para disciplinar o escoamento das águas das chuvas, consiste de um canal (vala) e um camalhão (monte de terra), em nível ou desnível, e baseia-se no princípio da diminuição da rampa de escoamento.

Os terraços em desnível são indicados para solos mal drenados, são menos sujeitos à erosão e ao arrombamento, mas exigem um lugar para onde escoar a água (canal escoadouro).

Fig. 7. Soja cultivada em nível, diretamente sobre a palha da cultura anterior, em terraço de base média construído com terraceador.

Os terraços em nível são feitos com objetivo de reter toda a água no terreno, bastando que a área apresente condições de absorvê-la e retê-la no canal, caso contrário, o acúmulo após algumas chuvas possibilitará sua passagem por cima do camalhão e conseqüentemente provocará o rompimento das barreiras. Os terraços em nível, além de controlar a erosão, são importantes para regular a vazão dos rios e aumentar a disponibilidade de água para as culturas.

As dimensões e características construtivas dos terraços são determinadas por diversos fatores, como precipitação máxima diária, declividade da rampa, tipo e preparo do solo e tipo de cultivo ou lavoura, o que exige um técnico especializado no seu dimensionamento.

Foto: Paulo Wadt.

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As etapas de construção dos terraços envolvem a demarcação das linhas básicas, muitas vezes em nível, com a utilização de mangueiras, aparelhos topográficos (nível topográfico ou teodolito), ou outros sistemas, como o pé-de-galinha.

Após a demarcação dessas linhas básicas, cujas distâncias devem ser rigorosamente estabelecidas por meio de cálculos baseados nas características do clima, do solo, do relevo e do sistema de produção (Tabela 2), faz-se a construção dos terraços e dos canais.

É importante ressaltar que não se devem construir, em áreas mecanizadas, terraços com distância horizontal menor que 12 metros. Além disso, algumas das situações apresentadas na Tabela 2 são mais indicadas para canais em desnível, cujo dimensionamento segue outros critérios não utilizados na referida Tabela, que tem por objetivo simplesmente demonstrar a variabilidade de dimensões em função de mudanças nas condições locais.

Tabela 2. Distância horizontal, altura e largura do canal, para canais em nível, considerando uma precipitação máxima diária de 130 m, em função da declividade do terreno, tipo e preparo do solo e tipo de cultura na área.

Os implementos recomendados na construção dos terraços são os arados de discos, reversíveis ou não, e os terraceadores, mas podem ser feitos com o que o produtor dispuser na propriedade. O importante é saber construí-los bem, em áreas adequadas e mantê-los limpos.

As etapas envolvidas na construção de um terraço consistem em uma série de cortes e levantamento de terra. O corte e a retirada da terra originam o canal, e com o levantamento da terra forma-se o camalhão.

Quando construído com arado de discos reversíveis, normalmente são necessárias 10 a 14 passadas com trator.

A construção dos terraços pode ser feita do seguinte modo:

a) Arar uma faixa de terra de mais ou menos 2,4 m, com três passadas de arado reversível jogando a terra para baixo, com velocidade e regulagem normal de aração. O trator deve ser alinhado com a roda traseira direita a 20 cm da estaca; e depois movimentado paralelamente à linha das estacas, evitando-se curvas bruscas e

Declividade(%)

Tipo de solo Preparo do solo

Tipo decultura

Distânciahorizontal

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