Livro - práticas de conservação do solo e recuperação de áreas degradadas

Livro - práticas de conservação do solo e recuperação de áreas degradadas

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Altura docanal Largura do canal

19Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas interrupções, jogando a terra sempre para baixo, sobre a linha de estacas. Ao final da linha, reverter o arado e alinhar o trator de forma que a roda traseira direita fique no sulco deixado pela passada anterior. Repetir a operação até atingir a largura desejada (no exemplo, três passadas).

b) Levantar a terra para abrir o canal e formar o camalhão. Esse processo, chamado remontagem, é feito também com três passadas com velocidade normal de aração. Devese alinhar o trator de forma que a roda traseira direita fique a uma distância de 20 cm e do lado de cima da estaca sobre a terra arada. Repetir as passadas como na primeira fase, fazendo sempre com que a roda traseira direita fique sobre a passada anterior.

c) A fase de acabamento consiste em abrir o canal e formar o camalhão, dando acabamento ao terraço com três passadas sobre as anteriores. As operações devem se repetir como na fase anterior, porém apenas na última passada se recomenda alongar um pouco o terceiro ponto, de forma que o primeiro disco de corte fique um pouco suspenso.

Os terraços podem ainda ser construídos com arados não reversíveis ou com terraceadores (Fig. 7). Nesses casos, serão formados abaixo e acima das estacas usadas para a demarcação das linhas básicas.

Após a construção dos terraços, o plantio deve ser realizado sempre paralelamente a eles, de forma que contribuam para diminuir a erosão. Dependendo do tipo e formato do terraço e canais, estes podem ser cultivados com a lavoura principal ou com leguminosa, para melhorar a cobertura do solo. Anualmente deve ser feita a manutenção dos terraços, de forma a manter suas dimensões constantes.

A adoção do plantio direto em nível e a construção de terraços são as técnicas mais importantes no controle da erosão, evitando a degradação biológica das áreas, principalmente daquelas mecanizadas, onde os processos erosivos tendem a ser mais intensos.

Matas Ciliares

Mata ciliar ou ripária é a cobertura florestal localizada às margens de nascentes e cursos de água (Fig. 8). Sua conservação e recuperação têm sido atribuídas aos inúmeros benefícios por ela trazidos ao ecossistema, especialmente sobre os recursos naturais de origem biótica e abiótica (Durigan & Nogueira, 1990). Mais especificamente, sua ação está ligada à proteção das margens de rios, lagos, igarapés, cursos de água e nascentes contra desbarrancamentos e assoreamentos, mantendo a capacidade original de escoamento dos leitos; ao controle de aporte de nutrientes, de produtos químicos tóxicos e de outros sedimentos aos cursos de água, diminuindo a eutrofização das áreas ou, ainda, atuando na preservação da fauna e da flora local, além de facilitar a infiltração da água das chuvas no solo.

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Fig. 8. Área de preservação permanente (pequeno curso de água) preservada pela manutenção da mata ciliar em uma lavoura de soja.

Muito embora sejam reconhecidamente de grande importância para a biodiversidade pelos tipos de plantas, animais e microrganismos que a constituem, as matas ciliares são quase que unicamente referenciadas como protetoras dos recursos hídricos, sendo consideradas áreas de preservação permanente, ou seja, não podem ser derrubadas pois são protegidas por lei.

Consideram-se para as florestas e demais formas de vegetação natural ao longo dos rios ou de qualquer curso de água, as seguintes faixas de preservação permanente (Código Florestal Brasileiro, Lei 4.771/1965):

·30 m de cada lado para rios com menos de 10 m de largura.

·50 m de cada lado para rios que tenham de 10 a 50 m de largura.

·100 m de cada lado para rios que tenham de 50 a 200 m de largura.

·200 m de cada lado para rios que tenham de 200 a 500 m de largura.

·500 m de cada lado para rios que tenham largura superior a 600 m.

·Ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios de água naturais ou artificiais.

·Nas nascentes, ainda que intermitentes, e nos chamados “olhos-d’água”, qualquer que seja a sua situação topográfica, num raio mínimo de 50 m de largura.

Recuperação de Áreas Degradadas

Nas situações em que a degradação está ocorrendo, seja em sua fase inicial (degradação agrícola) ou final (degradação biológica), é necessário adotar técnicas de recuperação.

As estratégias para recuperação dessas áreas podem ser em longo, médio ou curto prazo e ainda depender do sistema de exploração da área (pastagens, lavouras, florestas cultivadas ou sistemas agroflorestais).

Foto: Paulo Wadt.

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Estratégias em Longo Prazo

A estratégia de recuperação em longo prazo consiste no abandono da área para que haja a recomposição natural da vegetação. O abandono da área (pousio) conduz ao desenvolvimento de arbustos e árvores que, com o passar dos anos, podem formar uma vegetação com característica de floresta secundária, em que muitas das funções da floresta primária são parcialmente restabelecidas.

Essa vegetação secundária passa a absorver água de camadas mais profundas do solo, atuar como sumidouro de carbono atmosférico e transferir nutrientes do solo para a biomassa, onde ficam menos susceptíveis à erosão.

Existem vários fatores que podem comprometer ou dificultar a formação da vegetação secundária, como baixo estoque de sementes de plantas nativas, efeito alelopático da vegetação cultivada (principalmente gramíneas de pastagens), alto nível de compactação do solo, baixa fertilidade do solo ou efeitos residuais de herbicidas e pesticidas.

Para tornar essa recuperação mais rápida pode-se optar pelo manejo melhorado da vegetação secundária (capoeiras). O manejo das capoeiras é tradicionalmente um componente da agricultura migratória na Amazônia, que consiste basicamente em abandonar áreas agrícolas por um dado período de tempo (5 a 15 anos ou mais) e depois reincorporá-las ao sistema produtivo, por meio da derrubada e queima da vegetação secundária que se desenvolveu no local. Esse período de abandono, também denominado pousio, consiste no tempo necessário para que, uma vez cessadas as principais saídas de nutrientes (erosão, exportação pela colheita), haja uma recuperação da fertilidade do solo.

O sistema pode ser manejado para diminuir o período de pousio. Esse processo, denominado manejo melhorado de capoeiras, é feito com a introdução ou plantio de uma espécie capaz de fixar nitrogênio por meio de associação simbiótica, normalmente, uma leguminosa arbustiva ou herbácea. Tratamentos silviculturais como desbaste seletivo, corte de cipós, cortes de liberação, plantio de espécies de valor econômico e eliminação das espécies indesejadas podem também ser realizados com o objetivo de aumentar a produtividade biológica e econômica do sistema.

Leguminosas de rápido crescimento (por exemplo: mucuna, puerária, feijão-de-porco) também podem ser indicadas para cultivo na área que será deixada em pousio por curto período de tempo. Entretanto, em áreas mais degradadas, que demandam um maior tempo para sua recuperação, devem-se plantar leguminosas arbustivas ou arbóreas, quando a capoeira ainda estiver nova (primeiros anos de regeneração).

Uma prática importante para a reutilização agrícola dessas áreas, após o período de pousio, está na eliminação do processo de queima da biomassa. Nesse caso, em vez de fazer a derruba e queima da vegetação secundária que se formou na área, utilizam-se equipamentos que permitem o corte e a trituração da biomassa, a qual é deixada para se decompor no solo. Esse processo deixa o solo menos exposto a processos erosivos e evita as perdas de vários nutrientes durante a queima, principalmente nitrogênio e enxofre.

O manejo da vegetação secundária e o posterior uso do local no processo produtivo sem a utilização do fogo são particularmente viáveis para áreas agrícolas, onde o plantio direto pode ser feito diretamente sobre a biomassa vegetal triturada.

A recuperação das matas ciliares é também considerada uma estratégia em longo prazo.

Uma vez sendo necessária a recomposição das matas ripárias, deve-se atentar para que se utilize o maior número possível de espécies, garantindo assim a heterogeneidade da flora. No entanto, para a escolha das plantas a serem reflorestadas, é fundamental ter conhecimento das plantas existentes na região (composição florística), seu comportamento e como estão situadas dentro da mata. Além disso, elas devem ser de

22Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas ocorrência natural e de diferentes estádios de sucessão, ou seja, pioneiras (espécies de crescimento mais rápido) e secundárias (espécies de crescimento mais lento, que se desenvolvem bem na sombra) (Kageyama et al., 1989; Yamazoe & Vilas Bôas, 2003).

É preciso observar também a preferência por maior ou menor umidade e as características dessas espécies, como a capacidade de permanecerem ou não encharcadas por determinados períodos do ano. Ingás e sangue-de-grado, por exemplo, são espécies típicas constituintes de matas ciliares, ocorrendo em solos encharcados e sujeitos a inundações periódicas. Já a copaibeira ocorre em matas ciliares e solos úmidos, mas é também freqüente em terra firme.

Para a recuperação das áreas degradadas é possível utilizar espécies nativas que possibilitem uso múltiplo, ou seja, que possam apresentar retorno econômico sem degradação ambiental. A seguir são citadas algumas espécies constituintes de mata ciliar e seus possíveis usos (Tabela 3).

Nome científico Família Nome vulgar Hábito Aproveitamento

Acacia sp. Mimosaceae Cipó unha-de-gato Cipó Medicinal

Actinostemonamazonicus Euphorbiaceae Pau-pirarucu Árvore Apícola

Aegiphila sp. Verbenaceae Fumo-bravo Árvore Apícola

Allophylusfloribundus

Sapindaceae Vela-branca Árvore Apícola; alimentaçãod e animais silvestres

Andira sp. Fabaceae Angelim-branco Árvore Alimentação de animais silvestres

Annonadensicoma

Annonaceae Araticum-cagão Árvore Alimentação de animais silvestres

Aspidospermaauriculatum Apocynaceae Carapanaúba-amarela

Árvore Medicinal; lenha/carvão

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