Livro - práticas de conservação do solo e recuperação de áreas degradadas

Livro - práticas de conservação do solo e recuperação de áreas degradadas

(Parte 6 de 7)

Nome científico Família Nome vulgar Hábito Aproveitamento Tabela 3. Continuação.

Fonte: Nilsson, 1989; Araújo & Silva, 2000; Yamazoe & Vilas Bôas, 2003.

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Estratégias em Médio Prazo

Para os ecossistemas de pastagens, as estratégias de recuperação de áreas degradadas em médio prazo consistem na integração lavoura–pecuária e na introdução de sistemas silvipastoris. Para os demais ecossistemas agrícolas, a principal estratégia é a introdução de sistemas agroflorestais. Essas estratégias permitem a recuperação em um menor tempo e o aproveitamento econômico da área é quase imediato.

A introdução de árvores em pastagens tem como objetivo a melhoria na ciclagem de nutrientes, causada pela absorção desses elementos pelas raízes das árvores nas camadas mais profundas do solo, e a posterior deposição na camada superficial, por meio da decomposição das folhas, raízes e galhos. Se a espécie arbórea for capaz de promover associações simbióticas com bactérias fixadoras de nitrogênio, haverá também maior aporte desse nutriente no sistema.

Entre os benefícios da introdução de árvores em sistemas de pastagens, está o conforto térmico propiciado aos animais; a melhoria do valor nutritivo das pastagens; a maior disponibilidade de recursos forrageiros adicionais, proporcionados pelos frutos de algumas árvores; a maior diversidade do sistema, o que contribui para o controle de ectoparasitos do rebanho por aves; e o melhor controle de insetos-pragas das pastagens. Outro benefício indireto é a possibilidade de diversificar a produção pelos produtos madeireiros e frutíferos (madeira, óleos, resinas, frutas, etc.).

A integração lavoura–pecuária é, dentro da perspectiva de retorno econômico e viabilidade agronômica, a alternativa mais segura para a recuperação de áreas de pastagens degradadas. Esse sistema consiste no plantio de lavoura de grãos (uma ou duas safras), normalmente o milho ou outra gramínea exigente em fertilidade do solo, seguido ou não por uma safra de grãos de leguminosa (a soja é a cultura mais indicada, por ser uma leguminosa de alto valor econômico, boa estabilidade de produção e bastante responsiva à adubação).

Os cultivos anteriores ao plantio da pastagem devem ser fertilizados para atender às exigências nutricionais de cada cultura, sendo a adubação residual suficiente, na maioria das situações, para sustentar a recuperação inicial da pastagem, principalmente naqueles solos com maiores reservas de cálcio, magnésio e potássio, como é o caso de grande parte dos solos do Estado do Acre.

Existem variações desse método, como o plantio associado de uma gramínea produtora de grãos (arroz, milho, sorgo ou milheto) em semeadura simultânea com a pastagem, nas quais a gramínea da pastagem aproveitará o adubo residual. Após a colheita da lavoura de grãos, a pastagem estará renovada e a área recuperada. Esse sistema é aconselhável quando a degradação da pastagem foi causada por uma menor disponibilidade de fósforo.

Na recuperação de áreas degradadas, há uma grande variabilidade de combinações de sistemas agroflorestais, como o cultivo em faixas e sistemas multiestratos, o que torna extenso abordar cada um deles isoladamente. Entretanto, em geral, os principais benefícios dos sistemas agroflorestais são (Oliveira et al, 2004):

a)Desenvolvimento de uma camada densa de raízes com micorrizas, similar à floresta natural em sua função de diminuir a lixiviação de nutrientes e aumentar a absorção de fósforo disponível.

b)Produção de abundante folhagem, que contribui para aumentar a quantidade de húmus no solo ao final da decomposição.

d)Absorção de nutrientes das camadas mais profundas do solo, levando-os às camadas superficiais, tanto aqueles lixiviados quanto os liberados pela decomposição da rocha matriz.

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Estratégias em Curto Prazo

As estratégias em curto prazo consistem na adoção de tecnologias visando à pronta recuperação da área.

Normalmente, nas áreas agrícolas, envolvem o uso de corretivos da acidez, para eliminar os efeitos tóxicos do alumínio e fornecer cálcio e magnésio às plantas; utilização de leguminosas como fonte de nitrogênio e matéria orgânica; e adubação química para a recomposição dos teores de fósforo e potássio do solo. A puerária (Pueraria phaseoloides) é uma leguminosa de excelente adaptação para as condições climáticas do Estado e tem sido utilizada em rotação com a cultura principal com ótimos resultados.

As leguminosas também podem ser cultivadas em consórcio, principalmente com espécies arbustivas ou arbóreas, como é o caso do cafeeiro consorciado com a flemíngia (Flemingia congesta ).

Quando utilizadas com esse propósito, são denominadas de adubos verdes. Entretanto, além dos adubos verdes, existem outros tipos de adubação orgânica que podem ser utilizados na recuperação de áreas degradadas.

O uso de fontes orgânicas desencadeia no solo diversas reações benéficas, como o aumento da atividade microbiana, maior retenção de cátions e ânions, melhoria da estrutura e capacidade de retenção de água, o que ajuda na rápida recuperação das áreas degradadas.

Contudo, a adubação mineral, quando necessária, associada a práticas mecânicas, como subsolagem, torna mais rápido o processo de recuperação de áreas degradadas, cujo princípio está no fornecimento daqueles nutrientes que estejam em níveis inadequados ou insuficientes no solo, recompondo sua fertilidade natural ou, em muitos casos, tornando-o mais fértil que em condições naturais.

Normalmente, a recuperação visa elevar a saturação de bases a valores mínimos que devem ser definidos em função do tipo de solo e da cultura, ou aumentar a disponibilidade de cálcio, magnésio e potássio trocáveis e de fósforo assimilável.

Se houver problemas físicos associados à baixa fertilidade, como formação de pé de arado ou compactação do solo, será necessário o uso de subsoladores ou aração. A recuperação do solo, nesse caso, deverá estar associada com práticas conservacionistas (construção de terraços e plantio direto), para que seus benefícios sejam mais duradouros.

É importante salientar que nos ecossistemas agrícolas, a adoção das práticas conservacionistas integrada com o manejo adequado da fertilidade do solo (adubações minerais ou orgânicas equilibradas, adoção de adubação verde), além de ser uma importante garantia de boa produtividade, ao longo do tempo contribui para recuperar as áreas degradadas.

A recuperação deve ser aplicada em pastagens que se encontram nos primeiros estádios da degradação agrícola, enquanto a renovação deve ser realizada nas situações em que o grau de degradação é tal que sua recuperação torna-se inviável, como nas áreas com degradação agrícola mais intensa ou naquelas com degradação biológica.

As técnicas a serem empregadas na recuperação devem estar voltadas principalmente para a correção dos fatores responsáveis pela degradação e, normalmente, incluem a combinação de uma ou mais das seguintes práticas: controle de invasoras, adubação de manutenção, melhoria do manejo, plantio de forrageiras, introdução de leguminosas, diversificação do pasto, ocupação de nichos específicos e substituição de forrageiras.

Na recuperação, normalmente recomenda-se o preparo mecanizado da área, seguido da adubação e plantio de espécies forrageiras, preferencialmente em consórcio com leguminosas. Pode-se incluir ou não a destoca e enleiramento, caso existam tocos e

26Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas troncos na área. A necessidade de adubação e a escolha das espécies de gramíneas e leguminosas forrageiras devem ser de acordo com recomendações técnicas para o Estado do Acre (Andrade et al., 2002; Wadt et al., 2004; Wadt, 2004).

O fato dos solos do Estado do Acre serem naturalmente férteis e ricos em cátions alcalinos e alcalinos terrosos (cálcio, magnésio, potássio) facilita a permanência de leguminosas nos consórcios com as gramíneas. As principais espécies de leguminosas recomendadas para o Estado são o amendoim forrageiro (Arachis pintoi cv. Belmonte) e a puerária.

Em pastagens, uma vantagem da puerária em relação ao amendoim forrageiro é a facilidade de plantio. As sementes de puerária podem ser misturadas, na proporção de 5% a 10%, com o sal mineral fornecido ao rebanho, resultando em um estabelecimento lento e desuniforme da leguminosa, porém de baixo custo e acessível a qualquer produtor. O plantio da leguminosa pode ser feito com plantadeiras manuais, no início do período chuvoso, aproveitando os espaços abertos na pastagem. A dificuldade do amendoim forrageiro é que deve ser plantado por mudas (pedaços de estolão), após o rebaixamento do pasto, em covas, entre as touceiras do capim ou em sulcos distanciados de 1,0 m.

Nas pastagens, a queda na fertilidade do solo é uma das principais causas de degradação. Fatores como uso freqüente do fogo, superlotação das pastagens, ausência de leguminosas e falta de adubação de manutenção contribuem para acelerar esse fenômeno. Nas pastagens já formadas, as baixas disponibilidades de nitrogênio e fósforo representam as duas principais limitações a ser corrigidas. A adubação nitrogenada possibilita a recuperação mais rápida do vigor e da produtividade das pastagens de gramíneas, principalmente naquelas com mais de 10 anos de idade, enquanto o fósforo é importante na renovação.

Em solos de baixa permeabilidade também ocorre o problema da degradação de pastagens cultivadas com o capim brizantão (Brachiaria brizantha cv. Marandu). Esse processo não está relacionado à degradação dos solos em si, mas à ausência de adaptação dessa gramínea aos solos encharcados durante o período chuvoso, mesmo nas áreas mais elevadas da paisagem. A ausência de adaptação tem sido associada ao excesso de água no solo e conseqüente deficiência de oxigênio nas raízes. Por outro lado, essa teoria, isoladamente, não explica a causa da mortalidade das pastagens, havendo, inclusive, evidências e resultados de pesquisa contrários a essa abordagem do problema (Teixeira Neto et al., 2000). Na Embrapa Acre, estudos para elucidação da etiologia dessa doença de caráter complexo estão em andamento visando embasar medidas de controle.

O plantio de Brachiaria brizantha cv. Marandu iniciou-se no Acre em 1985 e em 1994 foram observados os primeiros focos da morte de pastagem no Estado, tendo forte expansão a partir de 1998 e levando à degradação total de muitas propriedades (Valentim, 2000a). A mortalidade das plantas inicia-se em reboleiras ou em faixas por onde caminham os animais e, a partir desses focos, a doença avança por toda a pastagem, deixando ilhas de plantas cloróticas e subdesenvolvidas numa paisagem desoladora de seca. Essa doença também ocorre na Colômbia, onde foram isolados das plantas afetadas fungos patógenos foliares e uma bactéria, Erwinia sp. (CIAT, 1996). No Brasil, no Estado do Pará, fungos fitopatogênicos das espécies Rhizoctonia solani, Fusarium spp., Pythium periilum e Pythium spp. foram encontrados associados às plantas com sintomas da doença em pastagens dessa cultivar sob mortalidade.

Com a morte do brizantão aparecem plantas invasoras, com destaque para o capim navalha (Paspalum virgatum), que dominam a vegetação e tornam essas áreas improdutivas.

A morte de pastagens é atualmente um dos problemas ambientais e econômicos do Estado. Estima-se que mais de um milhão de hectares de pastagens foram plantados

27Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas com o capim brizantão e que mais de 50% das áreas estão localizadas em solos que apresentam baixa permeabilidade e risco forte ou maior de morte dessa gramínea (Fig. 9 e 10).

Fig. 9. Zonas de risco potencial de morte de pastagens de Brachiaria brizantha cv. Marandu no Estado do Acre, na escala de 1:1.0.0. Rio Branco, AC, 2002. Fonte: Valentim et al., 2002a.

Fig. 10. Mapa de risco atual de morte de pastagens de B. brizantha em áreas desmatadas do sudeste do Acre, na escala de 1:500.0. Rio Branco, AC, 20. Fonte Valentim et al., 2002a.

Nessas situações de morte, se o processo ainda se encontrar em estágio inicial (degradação leve), é possível recuperar a pastagem por meio do plantio de espécies forrageiras adaptadas ao tipo de solo. As espécies recomendadas para substituir o brizantão, em solos de baixa permeabilidade, são o capim quicuio-da-amazônia (B. humidicola), o capim tangola, a estrela-africana roxa e o amendoim forrageiro. O plantio pode ser feito manualmente ou com sulcador, dependendo da condição da pastagem. O plantio em sulcos é recomendado para áreas mecanizáveis, apresentando maior rendimento operacional. Uma solução definitiva para o problema, entretanto, ainda necessita ser desenvolvida pela pesquisa.

28Práticas de Conservação do Solo e Recuperação de Áreas Degradadas Conclusões

Estimativas recentes apontam que aproximadamente 40% das áreas desmatadas do Estado do Acre estejam abandonadas, sendo ocupadas por vegetação secundária (capoeiras). Isso decorre, em grande parte, da perda da capacidade produtiva das áreas, o que conduz ao seu abandono e substituição por áreas de novas derrubadas.

A capacidade dessas áreas abandonadas em recuperar completamente a biodiversidade e as funções da floresta primária é baixa e lenta, assim, sua reutilização no sistema produtivo é a alternativa mais correta para evitar a demanda por novas áreas e novos desmatamentos.

A reutilização das áreas degradadas deve vir acompanhada de estratégias de ação visando a uma rápida recuperação de sua capacidade produtiva, como também da adoção de medidas que permitam seu uso sustentável.

A adoção de práticas de conservação do solo e a recuperação de áreas degradadas evitam a degradação das áreas de produção e a perda de áreas produtivas, o que se enquadra no modelo de desenvolvimento sustentável e ambientalmente correto, com benefícios para o produtor e para a sociedade.

Referências Bibliográficas

ACRE. Secretaria de Agricultura e Pecuária do Estado. Cadastro de Propriedades e do Rebanho Vacinado contra a Febre Aftosa na campanha de novembro de 2002. Rio Branco, AC: 2002. não paginado.

ACRE. Secretaria de Estado de Planejamento e Coordenação. Programa Estadual de Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre. Zoneamento ecológicoeconômico: recursos naturais e meio ambiente - documento final. Rio Branco, AC: 2000. v. 1, p. 37-42.

ANDRADE, C. M. S. de; VALENTIM, J. F.; WADT, P. G. S. Recomendação de calagem e adubação para pastagens no Acre. Rio Branco, AC: Embrapa Acre, 2002. 6 p. (Embrapa Acre. Circular Técnica, 46).

ARAÚJO, H. J. B.; SILVA, I. G. Lista de espécies florestais do Acre: ocorrência com base em inventários florestais. Rio Branco, AC: Embrapa Acre, 2000. 7 p. (Documentos, 48).

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