Déficit hídrico e os processos morfológico e

Déficit hídrico e os processos morfológico e

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A fotossíntese desempenha importante papel na produção de uma cultura (Wullschleger & Oosterhuis, 1990) pois o rendimento de grãos é potencialmente influenciado pela duração da taxa de acumulação de carboidratos (Crafts-Brandner & Poneleit, 1992). De acordo com Jordan (1983) o déficit hídrico pode afetar a utilização de carboidratos, por alterar, basicamente, a eficiência com que os fotoassimilados são convertidos para o desenvolvimento de partes novas na planta. O déficit hídrico ocasiona mudanças na partição dos carboidratos no interior da planta, condicionando as plantas desenvolverem mecanismos de adaptação e resistência.

Quando a ocorrência do déficit hídrico é rápida, os mecanismos morfofisiológicos são severamente afetados e a planta necessita adaptar-se à nova situação, de forma rápida. Desta forma, plantas conduzidas em condições de irrigação normalmente apresentam menos resistência a situações de déficit hídrico no solo; já em plantas submetidas ao déficit hídrico gradual ou a deficiência de água no solo no início do seu ciclo, mais facilmente ocorre a adaptação das plantas. A tolerância da planta ao déficit hídrico parece ser um importante mecanismo de resistência, para a manutenção do processo produtivo em condições de baixa disponibilidade de água às plantas.

O estudo de Levitt (1980) demonstrou que, durante um déficit hídrico, os diversos ajustamentos fisiológicos da planta determinam as respostas adaptativas de ordem anatômica e morfológica, porém essas respostas sofrem variações de acordo com a espécie, a cultivar, o estado de desenvolvimento das plantas e duração com a intensidade do déficit hídrico. Segundo o mesmo autor, as plantas têm capacidade de resistir a períodos de déficit hídrico, procurando utilizar mecanismos que reduzam a perda de água.

Investigações de Gerik et al. (1996) demonstraram sensível redução no rendimento de grãos da cultura do milho, causada pelo déficit hídrico. Para Tollenaar apud Cirilo & Andrade (1996) a produção de fitomassa depende, entre outros fatores, da duração do desenvolvimento da cultura e da disponibilidade de reservas nas plantas. Os trabalhos de Westgate & Boyer (1985), demonstraram que a ocorrência de déficit hídrico durante a fase de enchimento de grãos altera todo o desenvolvimento da planta. O milho é relativamente tolerante ao déficit hídrico durante a fase vegetativa, porém demonstra extrema sensibilidade com decréscimo no rendimento de grãos se o déficit hídrico ocorrer na fase de florescimento e enchimento de grãos (Shaw apud Kasele et al., 1994). A conseqüência primária do déficit hídrico no rendimento de grãos ocorre devido à redução na expansão das folhas, à redução do aproveitamento dos nutrientes do solo e à redução na área fotossintética das plantas (Claassen & Shaw, 1970).

Limitação na disponibilidade de água no solo durante o período de pre-florescimento afeta o desenvolvimento das estruturas vegetativas das plantas, reduzindo a capacidade de produção de fitomassa pela cultura. Denmead & Shaw (1960) revelaram que a ocorrência de déficit hídrico se reflete em decréscimo de produção de milho em 25% antes da emissão dos estigmas e 50% na fase de florescimento.

A ocorrência de déficit hídrico durante o período de polinização aumenta o abortamento de sementes de milho.

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Trabalhos de Schussler & Westgate (1991a e b) demonstram que a ocorrência de déficit hídrico durante a antese e logo após a fertilização, causa abortamento das flores de milho, reduzindo a produção, mesmo que ocorra a polinização. Schussler & Westgate (1994) observaram que a inibição da fotossíntese por seis dias durante o período de polinização eliminou, praticamente, a formação de grãos em plantas submetidas a déficit hídrico.

O enchimento de grãos também é afetado pelo déficit hídrico que ocorre após a antese (Kobata et al., 1992). Investigações de Zinselmeier et al. (1988) não evidenciaram a influência da ocorrência de déficit hídrico durante a antese, no rendimento de grãos de milho; entretanto, trabalhos de Herrero & Johnson (1981) e Bassetti & Westgate (1993) demonstraram efeitos significativos do déficit hídrico na redução do índice de expansão nos órgãos reprodutores femininos (estilete) durante a antese causando, assim, impacto negativo no rendimento de grãos.

Westgate & Boyer (1985), concluíram que o período após o início da formação do grão é por demais dependente do suprimento de assimilados, simplesmente porque a planta não tem reservas suficientes para manter o desenvolvimento dos grãos. Embora a antese seja considerada a fase mais vulnerável ao déficit hídrico, o período de enchimento de grãos também causa sérios decréscimos na massa de grãos (Quarttar et al., 1987). O desenvolvimento dos grãos de milho é altamente dependente de um contínuo suprimento de assimilados para a espiga, decorrente da fotossíntese (Kiniry & Ritchie, 1985; Shussler & Wesgate, 1991a).

O rendimento do milho é caracterizado pelo número de espigas por planta e pelo número de grãos por espiga, sendo estes os principais componentes da produção e particularmente sensíveis ao déficit hídrico (Lafitte & Edmeades, 1995). Segundo Cirilo & Andrade (1994ab) o número de grãos por espiga no milho dependerá das condições fisiológicas da planta no florescimento; no entanto, as condições climáticas durante o período de enchimento de grãos podem afetar a produção e a alocação de fotoassimilados para a formação dos grãos (Uhart & Andrade, 1991).

De acordo com Kiniry & Ritchie (1985) o estádio em que o número de grãos por espiga é mais sensível ao déficit hídrico compreende o período entre duas semanas antes e duas a três semanas após a antese; já Tollenaar et al. (1992) encontraram que o período mais crítico para a formação de grãos do milho é justamente o momento do florescimento. As investigações de Ney et al. (1994) demonstraram que o déficit hídrico causou significativo efeito na redução do número de grãos, quando ocorreu junto ou após, o florescimento e que sua massa final era função da taxa de desenvolvimento da planta e da duração do período de enchimento dos grãos. A ocorrência de déficit hídrico durante o período reprodutivo do milho reduz a formação da espiga (Herrero & Johnson, 1981). O número de espigas por planta de milho é determinado, geralmente, pelo suprimento de carboidratos e nitrogênio próximo ao florescimento (Lafitte &

Edmeades, 1995).

Nas últimas décadas, muitos estudos foram conduzidos para avaliar o comportamento morfofisiológico das plantas em relação ao déficit hídrico; entretanto, considerações sobre o impacto da disponibilidade de água no solo sobre o crescimento e desenvolvimento das plantas têm recebido pequena atenção por parte dos pesquisadores; além disso, necessita-se caracterizar a ocorrência do déficit hídrico em termos quantitativos e não qualitativamente, como atualmente tem sido utilizado.

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