(Parte 1 de 3)

I Simpósio Brasileiro de Gestão e Economia da Construção

I SIBRAGEC UFSCar, São Carlos, SP - 16 a 19 de setembro de 2003

PERALTA, Antonio Carlos

Prof. Mestre em Engenharia, acperalta@uem.br Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Maringá

O tema projeto foi e continua a ser amplamente discutido. Alguns autores têm defendido a criação de uma teoria de projeto. O questionamento é importante, pois facilita a compreensão da forma com que as metodologias de projeto se apresentam atualmente. Uma teoria representa um esforço para tornar o mundo inteligível: é uma descrição explanatória da maneira como as coisas são.

Desde o início da década de oitenta, pesquisadores vêm trabalhando no desenvolvimento de modelos que combinem representações geométricas, conhecimento semântico e modelos em bases de dados de engenharia ou modelos do produto.

As áreas de pesquisa em teoria e metodologia de projeto podem ser divididas em seis categorias: a) modelos descritivos do processo de projeto; b) modelos prescritivos do processo de projeto; c) modelos computacionais do processo de projeto; d) linguagens, representações e ambiente de projeto; e) análise para o suporte a tomada de decisões; f) projeto para manufatura e outros aspectos do ciclo de vida, tais como, confiabilidade, mantenabilidade etc.

A discussão realizada teve como objetivos: abordar a teorização do processo de projeto e situar o leitor com relação a uma classificação das áreas de pesquisas em metodologia de projeto de edificações.

The issue of design has been widely debated for quite a long time. Some authors defend the creation of a theory of design. The idea is particularly relevant because it facilitates the understanding of how design methodology presents itself nowadays. A theory represents an effort to make the world understandable; it is a detailed description of what things are like.

Since the beginning of the 1980’s, researchers have been working on the development of models which combine geometrical representations, semantic knowledge and engineering data basis models or product models.

The research fields in theory and methodology of design may be divided into six categories: a) descriptive models of the design process; b) prescriptive models of the design process; c) computational models of the design process; d) design languages, representations and environment; e) analysis to support decision making; f) manufacture designs and the other aspects of the life cycle, such as reliability and maintainability, etc.

This paper aims at presenting the theory of design process and presenting the reader a classification of the research fields in methodology of building design.

Palavras chave: processo de projeto, teoria de projeto, construção civil. Words key: process of project, project theory, civil construction.

1 INTRODUÇÃO

Na maioria das práticas de desenvolvimento de projetos na construção de edifícios ocorre a falta de sistematização e racionalização decorrentes de problemas amplamente conhecidos e comuns: falta de um projeto voltado à produção, normas e critérios desajustados da realidade, ausência de critérios de coordenação, falta de visão sistêmica entre outros. Como conseqüência, a desorganização da atividade de projeto constitui uma forma de bloqueio à inovação tecnológica e à racionalização progressiva do processo de produção como um todo. A aplicação dos conceitos e metodologias da gestão da produção tem mostrado caminhos novos e promissores quanto a sua aplicação no setor da construção civil.

Uma análise das práticas das empresas quanto ao desenvolvimento de projeto permite a identificação de problemas relativos à qualidade do processo ligados às características de capacitação de profissionais bem como a inexistência de sistemas formais de gestão do projeto. Muitas dificuldades do processo de produção do projeto estão relacionadas à estrutura de atividades e a rede de relacionamentos entre elas que se estabelecem ao longo do tempo. O estabelecimento de um modelo permite o planejamento adequado do processo. O planejamento das atividades de projeto é um processo interativo que parte de concepções abstratas e tem o objetivo de elaborar proposições em detalhamentos sucessivos com retornos para corrigir e refazer etapas anteriores, determinando todos os passos a executar, possibilitando o estabelecimento de um plano, considerado como um roteiro seguro para ser implementado, controlado e corrigido quando necessário.

O tema projeto foi e continua a ser amplamente discutido. Alguns autores têm defendido a criação de uma teoria de projeto pois facilita a compreensão da forma com que as metodologias se apresentam atualmente. Assim, o objetivo deste artigo foi uma abordagem sobre a teoria e prática de desenvolvimento de modelos de processos de projetos visando a classificação das áreas de pesquisas em projeto.

2 A TEORIZAÇÃO DO PROCESSO DE PROJETO

Na tentativa de sistematizar o processo de projeto, especialmente para objetos complexos, como é o edifício, entre outros tantos exemplos na engenharia, modelos e esquemas para a representação do objeto do projeto e, também, modelos para a representação do processo de projeto, têm sido apresentados por diversos autores.

Surgidas de áreas profissionais diversas (em especial arquitetura, planejamento urbano, desenho industrial, construção civil, engenharia mecânica), estas descrições constituem hoje uma base referencial na teorização do processo do projeto. O conceito comum que une estas investigações é o de que projetar constitui uma atividade humana, em geral com múltiplos atores e desenvolvida por equipes cooperativas. Ao considerar projeto uma produção humana, também compartilham a percepção de que a criatividade e as habilidades cognitivas do(s) projetista(s) desempenham um papel preponderante e, mais ainda, de que o conhecimento técnico nos domínios científicos que envolvem o objeto representa um fator potencialmente diferenciador da qualidade do trabalho. Nestes termos a teoria de projeto, segundo estas abordagens, busca descrever os caminhos de ação dos projetistas, apoiados em sua criatividade, experiência e conhecimento técnicocientífico, para estabelecer a dinâmica de trabalho e critérios de decisão mais adequados ao problema (MARTINS, 2001)

Os processos são utilizados para monitorar e para entender os métodos humanos de projetar, através do conhecimento de projeto e de processos, colaborações, uso de métodos e ferramentas, e comunicações de projeto. Pesquisa de inovação no processo de projeto permite criar uma base científica para racionalizar o desenvolvimento de produto que requer um equipe multidisciplinar e facilita solução de problemas de projeto.

O Processo de Projeto é visto como um processo de transformação de informações até o ponto em que esteja configurado o produto capaz de satisfazer as necessidades dos clientes, ser fabricado, funcionar corretamente, não agredir o meio ambiente, etc. Neste processo, o projetista deve estar apto não apenas a desenvolver e aplicar métodos, como também a identificar e correlacionar informações, seja pelo uso, ou não, de métodos. A implementação de sistemas de gestão tem provocado uma mudança de métodos de trabalho.

Segundo Hooker (1992), uma teoria representa um esforço para tornar o mundo inteligível: é uma descrição explanatória da maneira como as coisas são. As teorias não são necessariamente insubstanciadas, é comum se tratar determinados assuntos como sendo ‘fato’ ou ‘teoria’, como se uma teoria fosse especulativa e um fato, ao contrário, fosse algo estabelecido. Isto está incorreto em diversos níveis, acima de tudo, faz-se uma confusão entre a descrição e o que é descrito; um fato não necessita ser estabelecido, por exemplo, se o céu é azul, isto é um fato, independente do nosso conhecimento dele; por outro lado, uma teoria pode estar firmemente estabelecida como, por exemplo, a teoria do eletromagnetismo de Maxwell.

O principal argumento é de que a noção de uma teoria de projeto é problemática, pois o desenvolvimento de projeto é uma prática. Enquanto a química e/ou a física são definidas por um conjunto de fenômenos que se propõem a estudar, o projeto é definido por uma tarefa que se propõe a realizar. A teoria química é claramente possível, pois pode-se organizar o conjunto dos fenômenos químicos de forma sistemática. Porém, não é tão óbvio que se possa reduzir o conhecimento da prática da química a uma teoria.

Apesar desta impossibilidade, é razoável identificar uma forma sob a qual a teoria de projeto seja aceitável. As artes práticas, como o projeto, a medicina e assim por diante, são tipicamente assistidas por teorias de suporte que definem técnicas e uma compreensão básica dos fenômenos que se está tentando influenciar. Estas teorias, em geral, fazem parte de outras ciências (daí a multidisciplinaridade apontada pelos autores da área de projeto). Ainda assim, uma teoria de suporte pode investigar os fenômenos e empregar um nível ou estilo de análise que seja único para a prática em questão.

Pode-se, até, compreender teoricamente o fenômeno sócio-psicológico da prática de projeto, porém, Hooker (1992) argumenta ser impossível, por razões derivadas de pensamentos recentes da ciência filosófica, reduzir a prática de projeto a uma teoria. Por diversas razões, entre elas, a principal, o fato de que a prática precede a teoria. Deste modo, a criação de uma teoria (o que também constitui um ato de projetar) depende do conhecimento da prática, a qual não é estática, ao contrário, evolui com o passar do tempo.

Pesquisas em teoria de projeto conecta o conhecimento geral e específico de projeto para projetar metodologias e prática de projeto. Mais especificamente, pretende: a) explicar, generalizar e/ou observar o processo de projeto; b) organizar, criar conhecimento de projeto além do nível de habilidade; c) desenvolver teorias de projeto formais para uma representação de projetos e processos; (d) introduzir modelos idealizados para o processo de projeto, e (e) derivar teoremas, regras e procedimentos por resolvendo problemas de projeto em ambientes sintéticos (HORVÁTH, 2001).

3 UMA ABORDAGEM PARA A CLASSIFICAÇÃO DE PESQUISAS EM TEORIA E METODOLOGIA DE PROJETOS

Para Hooker (1992), o projeto é a passagem de uma descrição funcional para uma descrição física de um sistema/artefato, ou seja, quando uma pessoa inicia com uma descrição daquilo que uma coisa deve fazer e desenvolve uma descrição física de uma coisa que o faz, ela está projetando.

Portanto, uma vez que o projeto é fundamentalmente uma prática, uma teoria de projeto deve organizar o conhecimento da prática de projeto, serve como sistema de conceitualização e de classificação de fatos. Segundo Kaplan (1975), uma teoria é um meio para interpretar, criticar e unificar práticas estabelecidas, modificando-as para se adequarem a dados não previstos quando de sua formulação e para orientar a tarefa de descobrir novas e mais amplas generalizações. Porém, há dois sentidos distintos no que se refere ao conhecimento da prática de projeto. Um diz respeito ao conhecimento do fenômeno sócio-psicológico da prática de projeto, outro refere-se ao conhecimento que o projetista deve possuir para exercer a prática de projeto.

É possível identificar ambos os aspectos na classificação das áreas de pesquisa em projeto realizada por Finger & Dixon (1989). Segundo os autores, um campo de conhecimento maduro faz com que a sua comunidade científica compartilhe de uma visão comum do que seriam metodologias de pesquisa apropriadas, ou seja, quais questões são difíceis e precisam ser respondidas e o que constitui a pesquisa de qualidade. Enquanto isso, em um campo de conhecimento emergente como o de projeto, tal consenso não existe, gerando o caos e a expectativa de que novos e revolucionários paradigmas emergirão. Por isso, recomenda-se identificar os aspectos fundamentais da classificação apresentada pelos autores.

Pesquisa na Área de Projeto

Pesquisa do ProcessoPesquisa do Sistema

ModelosDescritivos ModelosPrescitivos ModelosComputacionais Linguagens, representações eambiente de projeto

Análise DFx

Conhecimento daestrutura constitutivaConhecimento do fenômeno sócio-psicológico da prática

Figura 1: Classificação das áreas de pesquisa em projeto (Finger & Dixon, 1989).

Finger & Dixon dividem as áreas de pesquisa em teoria e metodologia de projeto em seis categorias: a) modelos descritivos do processo de projeto; b) modelos prescritivos do processo de projeto; c) modelos computacionais do processo de projeto; d) linguagens, representações e ambiente de projeto; e) análise para o suporte a tomada de decisões; f) projeto para a manufatura e outros aspectos do ciclo de vida, tais como, confiabilidade, mantenabilidade, etc.(Figura 1). DFx significa Design For x, isto é, projeto para: confiabilidade, custo, produção, fabricação, etc.

3.1 Modelos descritivos do processo de projeto

Os modelos descritivos do processo de projeto abordam a questão de como as pessoas projetam, ou seja, quais processos, estratégias e métodos de solução de problemas os projetistas utilizam. Dentro dos modelos descritivos, as pesquisas podem ser divididas em duas correntes: uma que busca informações sobre como os projetistas projetam e outra que constrói modelos dos processos cognitivos, sendo que os modelos dos processos cognitivos são entendidos como modelos que descrevem, simulam ou emulam os processos mentais utilizados pelo projetista enquanto projeta.

No primeiro caso, uma corrente importante é a dos estudos que realizam a análise de protocolo. Hooker (1992) critica a construção de teorias sócio-psicológico baseadas neste tipo de pesquisa, pois um projetista pode saber projetar sem conhecer muito sobre como outros projetistas se comportam. Por outro lado, pode-se conhecer muito acerca do que os projetistas fazem e pouco de como projetar, particularmente se os próprios projetistas pesquisados souberem pouco de como projetar. No entanto, Hooker admite que a construção destes tipos de modelos é legítima e importante, auxilia na aprendizagem sobre como projetar melhor e eliminar vícios. Um exemplo disto pode ser extraído de Finger & Dixon (1989): a conclusão a que chegaram Ullman e Dietterich

(apud Finger & Dixon 1989) de que os projetistas tendem a prender-se a uma única solução, melhorando-a e consertando-a ao invés de gerar novas alternativas, contrapondo-se à visão tradicional de como o processo de projeto deve ser conduzido.

A segunda corrente, dos modelos cognitivos, busca principalmente construir modelos computacionais que descrevam, simulem ou emulem as habilidades utilizadas pelas pessoas para resolver problemas de projeto. Um modelo cognitivo descreve um processo formado por um conjunto de comportamentos que constituem uma habilidade. Observa-se que as áreas de pesquisas descritas anteriormente enquadram-se naquilo que

Hooker descreve como a criação de modelos sócio-psicológico do processo de projeto.

3.2 Modelos prescritivos do processo de projeto

Os modelos prescritivos, não se baseiam na observação formal do processo de projeto, a efetividade do modelo está garantida pela experiência do dono do método/processo, em função de um histórico bem sucedido na prática profissional. A definição das etapas e características do projeto, realizada a partir de formulações empíricas traz a noção de decisão balizada na experiência que deve ser seguida como correta, a menos que alguma premissa sobre o conceito de projeto apresente deficiência. Ao contrário dos modelos descritivos que buscam representar o processo de projeto como ele é, os modelos prescritivos apresentam proposições de como o processo de projeto deveria ser. Uma hipótese em geral assumida pelos pesquisadores desta área é de que se projetistas seguirem o processo prescrito melhores resultados serão obtidos.

Os modelos prescritivos do processo de projeto podem ser divididos também em duas correntes: aqueles que prescrevem a maneira como o processo de projeto deve ser realizado e; aqueles que prescrevem quais atributos/características o sistema projetado deve possuir. De acordo com o autor, é comum os projetistas adotarem práticas que diferem do processo prescrito. Tal discrepância é atribuída tanto aos projetistas por não serem suficientemente sistemáticos para seguirem o processo prescrito quanto à teoria por não ser realista nas suas recomendações para a ordenação do processo.

Os autores descrevem dois sistemas axiomáticos que prescrevem os atributos que os sistemas/processos devem possuir. O primeiro deles, o projeto axiomático de Suh (1990), baseia-se em dois axiomas: o da independência e o da informação. De acordo com esta proposta, um bom projeto realiza-se através de princípios de solução funcionalmente independentes e da maneira mais simples através da minimização do conteúdo de informação. O segundo sistema axiomático é a perda da qualidade de

Taguchi; neste, um bom projeto é aquele que minimiza a perda da qualidade ao longo do ciclo de vida, sendo que a perda da qualidade é definida como o desvio em relação a um desempenho desejado preestabelecido.

3.3 Modelos computacionais

(Parte 1 de 3)

Comentários