A redação de textos técnico-científicos

A redação de textos técnico-científicos

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Marco-Aurelio De Paoli mdepaoli@iqm.unicamp.br

Laboratório de Polímeros Condutores e Reciclagem, Instituto de Química, Universidade Estadual de Campinas, C. Postal 6.154, 13084-971 Campinas, SP, Brasil.

Este texto foi preparado com o objetivo de dar algumas indicações sobre as etapas de redação e as características de diferentes tipos de textos técnico-científicos. O texto não pretende ser um manual de redação e sim um roteiro de redação, por isso não discute regras gramaticais. Ele inclui algumas informações sobre a preparação dos trabalhos, montagem de figuras, unidades a serem usadas, tabelas, bibliografia, etc.

Também inclui sugestões de procedimentos para elaborar comunicações para congressos e trabalhos para serem submetidos para publicação. Inclue-se os procedimentos para enviar uma comunicação a um congresso e uma descrição do caminho que cada manuscrito científico percorre até ser publicado. Foi escrito com base na experiência adquirida em três décadas de trabalho científico. [1]

O texto está dividido em: I. Projetos.

I. Relatórios.

I. Dissertações e Teses. IV. Comunicações em congressos.

V. Publicações. VI. Figuras e tabelas.

VII. Apresentação da bibliografia

VIII. Patentes. IX. Bibliografia.

I- Projetos.

Um projeto é apresentado para solicitar uma Bolsa de Estudos, um Auxílio à Pesquisa ou como um adendo a um Convênio de Pesquisa. De qualquer forma, é sempre o primeiro passo para o desenvolvimento de um projeto de pesquisas. Por esta razão a sua redação é discutida em primeiro lugar.

As etapas da redação de um projeto são:

doutorado, projeto de pesquisa, etc). 2. Levantamento bibliográfico e leitura dos principais trabalhos. 3. Redação da 1ª versão contendo:

· Título: curto e suficientemente atraente para chamar a atenção sobre o trabalho; não deve parecer com um resumo do projeto.

• Introdução: o “estado da arte” no assunto, o mais abrangente possível. Deve também situar o trabalho no contexto da instituição e do grupo de pesquisas onde o projeto será desenvolvido.

• Objetivos do projeto: texto curto indicando as metas a serem alcançadas ou as hipóteses levantadas e que serão comprovadas ou contestadas.

• Metodologia a ser usada: i. Materiais. i. Equipamentos. Informar: se estão disponíveis no laboratório ou na instituição, se estão funcionando de forma regular e se já foi treinado para usá-los (se não foi, incluir o treinamento no cronograma). Se for usar equipamentos de outra(s) instituição(ões), incluir uma carta o autorizando a usá-los. i. Procedimentos experimentais a serem usados (sínteses, purificação, caracterizações, análises, etc) Para ensaios normatizados basta citar o número da norma, e.g., ASTM – D 2378. iv. Métodos de medida e de cálculo. Indicar os programas de computador que usará

(tem licença para usar?, está disponível na rede da instituição?, é grátis ?).

• Cronograma de execução do projeto: prever relatórios, reuniões, treinamentos, exames de qualificação, exames de idiomas, etc.

• Bibliografia atualisada. 4. Correção da 1ª versão.

5. Redação da versão final. 6. Submissão do projeto.

Em seguida são fornecidas algumas sugestões importantes:

Como fazer o levantamento bibliográfico? Aqui, acho interessante citar Umberto Eco.

“Ma um bravo studioso sperimentale non comincia a controllare le reazione dei suoi oggeti se prinma non ha fatto almeno um lavoro panoramico (esame degli studi analoghi già compiuti), perché altrimenti rischierebe di spcoprire l’ombrello, di dimostrare qualcosa che è già stato ampiamente dimostrato, o di applicare metodi che si sono dimostrati fallimentari (anche se può essere oggeto di ricerca il nuovo controllo di un metodo che non ha ancora dato risultati soddisfacenti). Quindi una tesi di carattere sperimentale non può essere fatta a casa propria, né il metodo può essere inventato. Anche qui si deve partire dal principio che, se si è un nano intelligente, è meglio saltare sulle spalle di qualche gigante, anche se di altezza modesta; o di un altro nano. C’è sempre tempo in seguito per procedere da soli.” [2]

(tradução - Um bom pesquisador experimentalista não começa a observar as reações do seu objeto de estudo se antes não fez pelo menos um levantamento bibliográfico panorâmico

(exame dos estudos já feitos), porque senão se arriscaria a “descobrir o guarda-chuva” (no Brasil usamos “descobrir a roda”), demonstrar algo que já foi amplamente demonstrado, ou de aplicar métodos experimentais que já se demonstrou serem inválidos (também pode ser objeto de pesquisa o desenvolvimento de um método que ainda não havia dado resultados satisfatórios). Assim, uma tese de caráter experimental não pode ser feita à causa própria, nem o método pode ser inventado. Aqui também deve se partir do princípio que, se és um anão inteligente é melhor saltar sobre os ombros de qualquer gigante, mesmo de altura modesta, ou mesmo de um outro anão. Há sempre a hora certa de prosseguir por conta própria”.)

· Uma vez definido o tema da pesquisa, tentar delinear as palavras chaves. Há listas de palavras chaves disponíveis nos “sites de internet” das editoras (Elsevier e Wiley, por exemplo).

assunto, ou relacionado ao assunto. Não é aconselhável restringir a antiguidade do levantamento. Por exemplo: os polímeros condutores intrínsecos só começaram a ser estudados com profundidade a partir da década de 70 do século X, mas no século XIX já haviam relatos da deposição eletroquímica dos produtos da oxidação da anilina e das suas propriedades eletrocrômicas. Isso significa que a pesquisa bibliográfica não deve se limitar aos bancos de dados existentes no momento que o projeto está sendo escrito deve-se usar também o Chemical Abstracts ou outros bancos de dados impressos que revisam os anos anteriores à existência dos bancos de dados informatizados.

• Selecionar as publicações mais relevantes, por autor, por conteúdo e, principalmente, por grau de detalhamento da parte experimental. Deve-se dar atenção especial aos trabalhos da área feitos por pesquisadores brasileiros.

· Ler as publicações, prestando atenção na parte experimental, nos resultados e discussão e nas conclusões. A primeira vez que nos deparamos com um assunto novo é difícil entender tudo o que se publicou, mas nas leituras subseqüentes irá melhorando o entendimento do assunto. Se for o caso, enviar uma mensagem de e-mail ao autor para tirar dúvidas que ainda persistam depois da leitura.

Para a apresentação das figuras, Gráficos, Tabelas e Bibliografia, ver o capítulos VI e VII.

Formatação das páginas.

• Usar sempre papel tamanho A4 (é o tamanho padrão em todo o mundo, exceto USA) • Numerar as páginas (exceção da folha de rosto).

• Margens razoáveis (2,5 cm em geral, a não ser que haja uma norma específica).

• Folha de rosto com: título, nome do(s) autor(es), orientador ou supervisor (se houver), local onde o projeto será desenvolvido, mês e ano.

Antes de submeter, ou mesmo antes de escrever o projeto, é interessante consultar o website da instituição para onde se vai remeter o projeto e verificar se o formulário de avaliação que será usado pelo(s) assessor(es) está disponível. Este formulário conterá os pontos que a instituição acha mais importante para serem avaliados. Desta forma será possível enfatizar no projeto estes pontos positivos e evitar aquilo que o órgão de fomento julga negativo.

I- Relatórios.

Depois que o projeto foi submetido e aprovado e já foi vencida uma etapa da pesquisa, é hora de fazer o primeiro relatório. Antes de faze-lo é bom reler o projeto e verificar em que etapa do cronograma de trabalho está a pesquisa. Depois disso pode-se passar à redação, lembrando que a pessoa que vai ler o relatório já leu o projeto, portanto é desnecessário repetir novamente tudo o que tinha no projeto. Mais especificamente, não há necessidade de repetir toda a introdução e a revisão bibliográfica. No relatório deve-se comentar somente a bibliografia que surgiu depois que o projeto foi redigido (ou alguma que “escapou” na primeira revisão bibliográfica). Sugere-se observar as seguintes etapas para montar o relatório:

1. Coleta e organização dos dados. 2. Organização das tabelas e figuras.

3. Discussão dos dados com o orientador, supervisor e/ou com os colegas. 4. Coleta, leitura e atualização da bibliografia. 5. Redação da primeira versão e correção pelo orientador ou supervisor. 6. Redação da versão final.

Abaixo está uma sugestão para a organização do relatório: 1. Folha de rosto.

2. Resumo de, no máximo, uma página do projeto e, se for o caso, do(s) relatório(s) anterior(es). 3. Resumo das atividades do período que abrange o relatório: congressos, publicações, treinamentos técnicos, cursos, disciplinas, monitoria, estágio docente, etc. 4. Objetivos, como apareceu na versão submetida do projeto. Se houver uma mudança de objetivos, esta pode e deve ser justificada nesta seção. 5. Se for o caso, resposta às questões levantadas pelo assessor no parecer do último relatório. O assessor pode se transformar em um excelente conselheiro se suas sugestões forem sempre acatadas ou rechaçadas com uma boa justificativa. De qualquer forma as sugestões e críticas do assessor não devem passar desapercebidas.

6. Atualização da revisão bibliográfica a partir da época em que foi escrito o projeto ou o último relatório. 7. A Parte Experimental deve conter uma descrição dos experimentos realizados compreendendo:

a) Equipamentos b) Materiais e reagentes c) Procedimentos experimentais e métodos de cálculo (a parte experimental não deve conter resultados ou discussão dos mesmos). A descrição dos procedimentos experimentais deve ser feita de modo que uma pessoa com a mesma formação do redator do relatório possa reproduzir os experimentos.

8. Resultados, contendo figuras, tabelas e discussão. Lembrar que primeiro deve-se apresentar e discutir os resultados para depois concluir alguma coisa a partir deles. Em um relatório deve-se incluir também os experimentos que não deram os resultados desejados. Isto será usado para justificar novos experimentos ou uma mudança do projeto e/ou cronograma. 9. Conclusões (parciais ou não). 10. Próximas etapas e cronograma. Aqui também se pode incluir uma justificativa para novas etapas ou para modificações do cronograma original 1. Bibliografia, utilizando a mesma norma usada no projeto.

O relatório deve ser apresentado da melhor forma possível, pois ele reflete a qualidade da pesquisa realizada. No caso de relatórios de bolsas de estudo ou de auxílios, também é bom verificar, antes de escreve-lo, quais os itens serão usados para o seu julgamento pela entidade financiadora da pesquisa. Isso é possível se os formulários a serem usados pelo(s) assessor(es) estiverem disponíveis no website da entidade financiadora da pesquisa. Desta forma será possível fornecer os dados que o(s) assessor(es) irão usar em seu julgamento.

Para a apresentação das figuras, Gráficos, Tabelas e Bibliografia, ver os capítulos VI e VII.

Formatação das páginas.

· Usar papel tamanho A4 (é o tamanho padrão em todo o mundo, exceto USA). • Numerar as páginas (exceção da folha de rosto).

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