A ictiofauna como indicador de qualidade ambiental em planíciesde maré do complexo estuarino de paranaguá, brasil

A ictiofauna como indicador de qualidade ambiental em planíciesde maré do complexo...

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1Cadernos da Escola de Saúde Número 01 - Julho 2008

Ciências Biológicas

Biografia

1. Aluno de Pós Graduação do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná – UFPR 2. Aluno de Pós Graduação do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná – UFPR 3. Aluno de Pós Graduação do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná – UFPR 4. Centro de Estudos do Mar – UFPR 5. Aluno de Graduação de Ciências do Mar - UFPR 6. Bióloga estagiária do Laboratório Biologia de Peixes – CEM/UFPR 7. Prof Dr. Docente do Curso de Ciências Biológicas – Zoologia - Faculdades Integradas do Brasil - UniBrasil.

Descriptors environmental quality; anthropogenic impacts; ichthyofauna; biological indicators

Descritores qualidade ambiental; impactos antropogênicos; ictiofauna; indicador biológico.

Marcelo Grumach Falcão1

Helen Audrey Pichler2

Fabiana Cézar Félix3 Henry Louis Spach4

Marcelo Eduardo Barril5

Kelly Cristina Bronbatti de Araujo6 Rodrigo Santiago Godefroid7

O presente trabalho utilizou-se de características da ictiofauna para avaliar a qualidade ambiental de duas áreas com diferentes históricos de ocupação humana. Para tal, coletas bimestrais com duas redes tipo picaré foram realizadas em planíceis de maré de duas baías inseridas no complexo estuarino de Paranaguá, PR. O parâmetro univariado de diversidade de Shanon-Wiener não evidenciou diferenças estruturais nas assembléias de peixes. Os resultados do ordenamento, testados pelo Anosim, indicaram menores diferenças entre os pontos amostrais em agosto e fevereiro, meses com distúrbio na estruturação da ictiofauna das duas baías e ausência do mesmo, respectivamente. A estatística W, uma simplificação da relação biomassa /abundância, indicou a desestruturação dessa relação em cada ponto e mês de coleta, porém em alguns meses diferiram dos resultados das demais curvas de abundância. As curvas de abundância de espécies ranqueadas e de porcentagem cumulativa indicaram a existência de um distúrbio ambiental somente na Baía de Paranaguá em todos os meses de coleta, exceção a fevereiro, provavelmente devido ao recrutamento.

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Ciências Biológicas

The present work used ichthyofauna’s characteristics to assess the environmental health of two areas with different historical process of human occupation. Monthly samples with two seine nets were carried out in tidal flats of two bays of Paranaguá estuarine complex. The univariate diversity index of Shannon-Wiener did not evidence any structural differences in the fish assemblages. The ordination results, tested by the Anosym, indicated minor differences between the sampling areas in august and february, months with disturbance on the structure of the ichthyofauna of the two bays and absence of the same, respectively. The W statistics, whichreprsents a simplification of the relationship biomass/abundance, indicated the inversion of this relation in sampling station and month of collection, however in some months they had differed from the results of the abundance curves. Average ranked species abundance and K-dominance curves only indicated the existence of environmental disturbance in every month of collection on the Paranaguá’s Bay, with the exception of february, probably due to the recruitment period.

As zonas costeiras mundiais estão sob estresse ambiental como resultado das atividades humanas que incluem pesca, turismo, agricultura, aqüicultura e atividade industrial(1). Muitos estuários no mundo já estão comprometidos por estas atividades, como os pequenos estuários da costa de Natal, África do Sul(2), o de Tagus em Portugal(3), o de Forth na Escócia(4) e o de Humber no Reino Unido(5), mas neste sentido, pouco se conhece sobre os estuários da costa brasileira.

Os indicadores ambientais são definidos como medidas físicas, químicas, biológicas ou sócio-econômicas que melhor representam os elementos chaves de um complexo ecossistema(6). Eles podem ser qualitativos ou quantitativos, embora os quantitativos sejam mais utilizados para conduzir ações de gerenciamento(7). Usando indicadores é possível avaliar a condição fundamental do ambiente sem a necessidade da complexa descrição da estrutura do sistema.

Muitos grupos de organismos têm sido sugeridos e usados como indicadores de alterações ambientais e ecológicas(8). Embora nenhum grupo seja preferido para designar este tipo de resposta, recentemente peixes, pássaros e plantas têm recebido a maior parte das atenções(9-12). As ações antropicas nos hábitats estuarinos e, consequentemente nas assembléias de peixes associadas a eles, podem ter influência direta na distribuição, recursos alimentares, diversidade, reprodução, abundância, crescimento, sobrevivência e comportamento tanto das espécies

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Ciências Biológicas de peixes residentes quanto das migratórias. A relação direta e indireta entre as comunidades ictiofaunísticas e os impactos humanos nos estuários reforçam a escolha deste grupo taxonômico como um indicador biológico que pode auxiliar na formulação de objetivos de qualidade ambiental e ecológica(7).

Neste trabalho, atributos das assembléias de peixes de áreas intertidais foram utilizados para avaliar a qualidade ambiental de duas áreas com diferentes níveis de ocupação humana.

O complexo estuarino de Paranaguá possui diversas vilas de pescadores e algumas cidades, sendo a maior destas a cidade de Paranaguá. Nesta área, coexistem diversas atividades: urbana, portuária, industriais (fertilizantes, estocagem de produtos químicos, granéis), dragagens e atividades pesqueiras, entre outras(13). Na Baía de Paranaguá os impactos são devidos principalmente à poluição orgânica e química originadas por efluentes domésticos e industriais da cidade de Paranaguá e seu porto(14).

No que se refere aos pontos amostrados nesta baía, os três primeiros (P5, P6 e P7) estariam em áreas sob o efeito mais direto da cidade e do porto de Paranaguá. O ponto 5 fica próximo aos terminais portuários da FOSPAR, Petrobrás e Catalina e da desembocadura do Rio Nhanha que passa pela Vila Guarani, um bairro com ocupação urbana desordenada e inúmeras moradias sem tratamento de esgoto. Os pontos 6 e 7 ficam próximos do porto e na entrada do Rio Itiberê que corta a cidade de Paranaguá e recebe esgoto doméstico e industrial. Por outro lado, apesar da distância de Paranaguá, o ponto 8 pode receber efeitos indiretos, principalmente através de correntes de maré.

Embora a Baía das Laranjeiras sofra a influência da cidade de Guaraqueçaba, o sistema apresenta um reduzido grau de perturbação antrópica quando comparado às baías de Paranaguá e Antonina(15). A Baía das Laranjeiras encontram-se circundada por várias categorias de Unidades de Conservação protegidas por leis estaduais, federais e internacionais(15). Esta baía apresenta ocupações urbanas ao longo da sua área, na sua maioria pequenas vilas de pescadores, que tem como atividade principal a pesca artesanal com pequenos barcos e canoas. O ponto 1 está localizado em frente à vila da ponta do Lanço, o ponto 2 nas proximidades da vila de Mariana e Almeida e o ponto 4 em frente à vila do Pasto, vilas que apresentam baixa densidade demográfica(14).

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Ciências Biológicas COLETA DE PEIXES

Nos meses de agosto, outubro e dezembro de 2003 e em fevereiro, abril e junho de 2004 foram realizadas coletas em oito planícies de maré do Complexo Estuarino de Paranaguá, sendo quatro na Baía de Laranjeiras (Fig. 1) e quatro na Baía de Paranaguá (Fig. 2). Em cada planície amostrada, foram realizados três arrastos consecutivos de 15 m cada, os dois primeiros com uma rede tipo picaré de 9 m x 2,5 m, laterais com malha de 13 m e saco com malha de 5 m, e o terceiro com rede semelhande porém de dimensões 15 m x 1,60 m, laterais com malha de 13 m e saco com malha de 5 m.

FIGURA 1 E 2 - MAPAS DA BAÍA DAS LARANJEIRAS E BAIA DE PARANAGUÁ COM OS PONTOS DE COLETA.

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As comparações entre as médias do índice de diversidade de Shannon-

Wiener entre os pontos de coleta de cada mês foram efetuadas por meio da análise de variância unifatorial nos níveis de significância de p < 0,05 e p < 0,01. O teste de Mínima Diferença Significativa (LSD) foi utilizado a posteriori nas comparações múltiplas entre as médias(16).

A fim de avaliar a variabilidade entre as amostras das duas baías utilizouse o método MDS não métrico, a análise de similaridade (ANOSIM) e o índice de dispersão multivariada (IMD), para tal os dados foram transformados pela raiz quadrada e as matrizes de similaridade calculadas a partir do índice de similaridade de Bray-Curtis(17).

Aplicou-se também a estatística W, que consiste em uma sumarização numérica da curva ABC, cujos valores variam entre –1 (curva de abundância sobre a de biomassa) e +1 ( curva de biomassa sobre a de abundância) e as curvas de abundância de espécies ranqueadas e K-dominância, as quais permitem extrair informações sobre os padrões das abundâncias relativas das espécies, sem reduzir essa informação a uma estatística sumária, como os índices ecológicos (17). Diferentemente dos métodos multivariados, estas distribuições podem extrair características universais da estrutura da comunidade, que não são função de um taxa específico presente, podendo, assim, serem relacionados a diferentes níveis de estresse biológico(17).

Um total de 11992 indivíduos de 45 taxa e 2 famílias de peixes foi capturado nas duas baías (Tab. 1). Dominaram em número nas duas áreas as famílias Atherinopsidae, Engraulidae e Mugilidae. Na baía das Laranjeiras predominaram as espécies Atherinella brasiliensis , Anchoa tricolor , Eucinostomus argenteus e Mugil sp. A espécie Atherinella brasiliensis também foi à espécie mais abundante na Baía de Paranaguá, , seguida por Anchoa parva, Sphoeroides greeleyi e Mugil sp. (Tab. 1).

As espécies Cathorops spixii, Caranx bartolomaei, Trachinotus carolinus, T. falcatus, Anchoa lyoleps, Ctenogobius stigmaticus, Microgobius meeki, Chitarichthys spilopterus, Diplectrum radiale e Prionotus punctatus e os taxa Strongylura sp., Trachinotus sp. e Syngnatus sp. foram exclusivos da Baía das Laranjeiras. A Baía de Paranaguá apresentou as seguintes espécies exclusivas: Harengula clupeola, Opistonema oglium, Hemirhamphus brasiliensis, Mugil platanus e Poecilia vivipara e Sphoeroides sp.. Todos os taxa exclusivos sempre apareceram em baixa freqüência, independente da área de ocorrência, com exceção de Poecilia vivipara que representou 4,17% do

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Ciências Biológicas total amostrado na Baía de Paranaguá (Tab.1)

Carangidae

Clupeidae

Engraulidae

Gerreidae

Gobiidae

Mugilidae

Paralichthtydae

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Ciências Biológicas

Diferenças significativas entre os valores médios por ponto de coleta do índice de diversidade de Shannon-Wiener foram observadas em agosto, fevereiro e junho (Fig. 3). Em agosto a diversidade é maior no ponto 3 em relação aos pontos 2, 7 e 8; no ponto 6 em comparação aos 2, 7 e 8 e no ponto 4 quando comparado ao 7 (Fig. 3). No mês de fevereiro a diversidade foi estatisticamente menor no ponto 1 em relação às demais áreas de coleta, com maior média na estação 8, quando comparada com as médias das estações 4, 5, 6 e 7 e desta última, frente às estações 4 e 5 (Fig. 3). Já em abril, as maiores diversidades médias ocorreram nos pontos 2 e 3 em relação aos demais, com exceção do 4, que apresentou diversidade média maior que as observadas nos pontos 5 e 7. Também foi maior a diversidade do ponto 6 em relação ao 7 (Fig. 3).

Os MDS não métricos mostram maiores agrupamentos entre as amostras de Paranaguá em todos os meses de coleta, sendo menores em agosto e fevereiro (Fig. 3). As réplicas da Baia de Laranjeiras estão amplamente distribuídas, resultado de uma maior variabilidade entre as amostras dessa área (Fig. 4). A análise de similaridade (ANOSIM) indicou que as diferenças entre as amostras das duas baías só não foram significativas em agosto e fevereiro (Tab. I).

Mês R p IMD Agosto0,04616,3 %+ 0,34 Outubro0,2780,1 %+ 0,30 Dezembro0,2620,1 %+ 0,5 Fevereiro0,095,6 %- 0,1 Abril0,4300,2 %+ 0,56

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