A ictiofauna como indicador de qualidade ambiental em planíciesde maré do complexo estuarino de paranaguá, brasil

A ictiofauna como indicador de qualidade ambiental em planíciesde maré do complexo...

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Como a configuração bidimensional no MDS pode não ser a representação exata das similaridades entre as amostras, utilizou-se o índice de dispersão

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Ciências Biológicas multivariada (IMD). O menor valor de IMD ocorreu em fevereiro (- 0,1), mês com maior similaridade entre as amostras das regiões estudadas (Tab. I). Os valores positivos de IMD nos demais meses mostram que as similaridades entre as amostras das Laranjeiras são menores que as entre as de Paranaguá (Fig. 4). Os pontos de coleta na Baía das Laranjeiras estão mais distantes entre si, portanto o aumento no grau de dispersão pode estar refletindo a variabilidade espacial natural. Um provável aumento na dispersão resultante de impactos antropogênicos, não é evidente na região de Paranaguá.

FIGURA 3. ÍNDICE DE DIVERSIDADE DE SHANNON-WIENER (MÉDIA E 95 % DO

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A comparação entre a biomassa e a abundância através da estatística W, permitiu identificar a variação nos níveis de distúrbios na ictiofauna de cada planície (Fig.5). Nenhuma planície apresentou configuração de área impactada em todos os meses, sendo mais freqüentes os distúrbios nos pontos 4 e 8 (Fig. 5). Em fevereiro, apenas na planície 6 observou-se alteração na relação biomassa/abundância, e em nenhum mês os distúrbios estiveram presentes em todos os pontos de coleta. Nos meses de agosto e abril um maior número de pontos de coleta apresentou a abundância superando a biomassa (Fig. 5).

FIGURA 4. CONFIGURAÇÃO BIDIMENSIONAL DA ORDENAÇÃO MDS E O ÍNDICE DE DISPERSÃO MULTIVARIDA (IMD) DAS AMOSTRAS POR PONTO E MÊS DE

COLETA ( 1 A 4 = BAÍA DAS LARANJEIRAS; 5 A 8 = BAÍA DE PARANAGUÁ)

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As curvas de abundância de espécies ranqueadas e de k-dominância, por baía e mês de coleta, indicam em ambas as baías distúrbios na estrutura da ictiofauna (Fig.6). Na Baía de Paranaguá os métodos gráficos mostram curvas com configurações de área impactada em todos os meses, exceto fevereiro (Fig.6). Na Baía das Laranjeiras, as curvas de abundância das espécies ranqueadas e k-dominância apresentaram configuração de área impactada somente em agosto (Fig. 6).

FIGURA 5. VALORES DA ESTATÍSTICA W CORRESPONDENTE ÀS CURVAS ABC DE CADA PONTO E MÊS DE COLETA.

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FIGURA 6. CURVAS MENSAIS DA ABUNDÂNCIA MÉDIA DAS ESPÉCIES RANQUEADAS (A) E DE K-DOMINÂNCIA (B) PARA AS OITO PLANÍCIES DE MARÉ DAS BAÍAS DAS LARANJEIRAS E PARANAGUÁ. (CONTINUA)

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DAS BAÍAS DAS LARANJEIRAS E PARANAGUÁ

FIGURA 6. CURVAS MENSAIS DA ABUNDÂNCIA MÉDIA DAS ESPÉCIES RANQUEADAS (A) E DE K-DOMINÂNCIA (B) PARA AS OITO PLANÍCIES DE MARÉ

As áreas no litoral paranaense em que ocorrem as regiões de marismas são justamente aquelas de maior interesse para as comunidades humanas, uma vez que são as mais aproveitadas para a instalação de complexo industrial-portuário e para a expansão turístico-imobiliária. Este crescente desenvolvimento das atividades urbano-industriais é uma séria ameaça a esse ecossistema, podendo causar degradação no ambiente, principalmente nas regiões de margem continental, que são as primeiras a serem alteradas pela pressão antropogênica (18). Esta ocupação preferencial ocorre na Baía de Paranaguá, onde se encontra a cidade de Paranaguá e as instalações do terminal portuário, com o seu intenso tráfico hidroviário de grande porte. Diferentemente do que se observa na Baía de Paranaguá, na Baía das Laranjeiras existem apenas pequenos vilarejos de pescadores, ausência de atividade

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Ciências Biológicas industrial e tráfico limitado a pequenas embarcações de pesca. Conseqüentemente, os principais impactos sobre as marismas e manguezais da região paranaense estão associados com a urbanização e industrialização do grande pólo de desenvolvimento do litoral, que é a região de Paranaguá. Embora a maioria destes ecossistemas marinhos costeiros já demonstre sinais de degradações ambientais, as suas ictiofaunas têm sido pobremente documentadas(19). A escassez de estudos, não somente da comunidade de peixes, mas de todos os organismos presentes nessas áreas é preocupante, pois esses ambientes estão sendo modificados, sem que se conheçam os padrões naturais da biota.

Para se medir a variação e alguns atributos da estruturação da comunidade utilizam-se, normalmente, vários índices ecológicos que incluem o número total de indivíduos e de espécies. O aumento nos níveis de estresse ambiental está geralmente relacionado com a diminuição na diversidade, riqueza específica e equitabilidade, devido ao aumento na dominância de poucas espécies na região afetada. Esta interpretação, entretanto, pode ser uma simplificação da situação, tornando estes índices menos informativos que alguns medidores quantitativos(17).

As teorias mais recentes que tratam da influência do distúrbio ou do estresse na diversidade de espécies sugerem que nas situações onde esses distúrbios são mínimos a diversidade de espécies é reduzida, resultado da exclusão competitiva entre as mesmas; com um ligeiro aumento no nível ou freqüência do distúrbio a competição é relaxada, resultando em um aumento da diversidade e em níveis altos ou mais freqüentes de distúrbios, as espécies começam novamente a serem eliminadas pelo estresse e mais uma vez a diversidade diminui(17). Por isso em um primeiro momento as análises podem demonstrar que não há comprometimento ambiental do local, mas a longo prazo os problemas podem ser detectados.

O índice ecológico utilizado neste trabalho (diversidade de Shannon-

Wiener), demonstrou pouca variação significativa entre os meses e áreas de coletas, e seguiu um padrão observado em diversos trabalhos realizados na área. Não possibilitou a visualização de processos sazonais e muito menos das mudanças relacionadas ao estresse ambiental, em especial pela poluição. Estes resultados erroneamente parecem indicar que não há problema decorrente da antropização nas regiões estudadas. Por outro lado, a utilização neste trabalho da análise quantitativa proposta por CLARKE e WARWICK (1994), revelou em ambas as baías uma desestruturação na comunidade de peixes, podendo-se supor como causa principal, a alteração no padrão ambiental natural. A quebra na estrutura natural não era prevista nas planícies da Baía das Laranjeiras, onde não se observa o mesmo nível de degradação ambiental em comparação a Paranaguá(20).

Sistemas com severas condições ambientais tendem a serem dominados por espécies tolerantes, generalistas quanto ao habitat e à alimentação(21). Pode-

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Ciências Biológicas se perceber que, principalmente na Baía de Paranaguá, as curvas abundância de espécies ranqueadas e K-dominância demonstram a existência de poucas espécies dominantes, indicando provável estresse ambiental, pois a ausência de espécies sensíveis à poluição é um critério importante, uma vez que são as primeiras a desaparecer com o aumento da antropização(2).

A relação biomassa/abundância (estatística W) foi positiva em todos os pontos de ambas as baías somente em fevereiro, indicando que neste mês parece não haver impactos decorrentes da poluição, diferentemente do observado para os demais meses amostrados. Esta normalidade não deve ser atribuída à mudança temporal no efeito da degradação ambiental, na maioria das vezes um efeito crônico, com eventuais picos característicos de efeitos agudos. Esta provável mudança na relação não estaria indicando uma atenuação do estresse ambiental, mas sim a entrada de um grande número de recrutas, com a conseqüente reversão da relação número/peso.

A estrutura da comunidade de peixes da Baía de Paranaguá, através destas análises gráficas, parece refletir o maior estresse ambiental deta região em relação ao observado na outra baía. Na Baía das Laranjeiras, as curvas apresentaram resultados um pouco distintos comparados à estatística W; enquanto as curvas de abundância e dominância acumulativa mostraram dominância na comunidade de peixes apenas no mês de agosto, a estatística W, com exceção de fevereiro, indica a desestruturação da ictiofauna em vários pontos de coleta de outros meses. Essa diferença nos resultados pode ser devido ao tipo de relação que cada método utiliza. As curvas de abundância e dominância cumulativa levam em consideração apenas a quantidade percentual de cada espécie na amostragem, enquanto que a estatística W, utiliza uma relação entre a biomassa e a abundância de todas as espécies capturadas.

Os métodos analíticos aplicados parecem indicar algum efeito das alterações antrópicas sobre a da ictiofauna local. Como este estudo está inserido em um projeto interdisciplinar que procurou relacionar a qualidade ambiental e biodiversidade, uma melhor avaliação das tendências constatadas poderá ser obtida quando estiverem disponíveis os resultados dos estudos de fitoplâncton, zooplâncton, bentos, hidroquímica (incluindo contaminantes) e biomarcadores, amostrados simultaneamente aos peixes. Este conjunto de parâmetros permitirá melhor avaliação da saúde ambiental e das respostas de diferentes compartimentos da biota local às alterações antrópicas.

Agradecimentos Os autores agradecem ao CNPq e ao Dr Jorge Pablo Castello e Dr Paulo da Cunha Lana, coordenadores do projeto RECOS, Instituto do Milênio/CNPq, em cujo projeto este trabalho foi realizado.

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