Eucalipto Felizmente Existe GERAL

Eucalipto Felizmente Existe GERAL

(Parte 1 de 7)

EUCALIPTO, FELIZMENTE EXISTE Roberto Ferreira de Novais(1)

Comentários não favoráveis ao eucalipto ouvidos por minha filha, atualmente preparando-se para o vestibular, fizeram com que ela viesse conversar comigo sobre o assunto, sabendo do meu envolvimento científico com essa planta.

Em uma conversa longa, procurei dar a ela uma visão do que se conhece com o necessário fundamento científico sobre esta planta e seu cultivo, sem, contudo, utilizar a linguagem científica que faria com que nossa conversa fosse mais rapidamente dada por “satisfeita” pela minha aluna casual.

Ela estava brincando com uma chave na mão quando iniciamos nossa conversa. Lembro-me de sua indiferença inicial, própria da idade de “grandes problemas”, outros que não o eucalipto, quando lhe perguntei se para fazer aquela chave alguma árvore de eucalipto teria sido cortada. Imediatamente, a chave em sua mão ficou imóvel, sua atenção voltou-se para nossa conversa, dada sua expectativa de acerto a mais uma pergunta com alternativas, o que ela tanto exercitava nos últimos tempos. Neste caso, ela era favorecida pela escolha de uma única resposta entre duas alternativas apenas.

Ouvi um enfático “claro que não”, seguido de um “nada a ver”, próprio da idade, e uma fisionomia do triunfo não apenas por aquele momento mas também como um presságio do sucesso que teria no vestibular.

Disse-lhe eu: sim, felizmente uma árvore de eucalipto havia sido cortada para que aquela chave existisse. A fisionomia de triunfo de minha filha mudou-se imediatamente para a de contestação, não apenas pelo “sim” mas, também, e principalmente, pelo “felizmente”.

A justificativa para o “sim” foi mais fácil: aquela chave embora devesse ser uma liga de metais, seu principal constituinte é ferro. Este metal é encontrado na natureza na forma oxidada Fe3+ ou ferro férrico (linguagem comum ao vestibulando com chances de sucesso) semelhante ao encontrado na forma de ferrugem em superfícies metálicas e também em nossos solos vermelhos ou avermelhados.

A partir do Fe3+, sem forma definida, sem a rigidez necessária a todos os produtos do ferro metálico – Fe0 – e suas ligas como a de uma faca, martelo, motor de automóvel, estrutura metálica de prédios, etc. e a “chave” como a que ela tinha na mão,

(1) Professor Titular do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa esse Fe3+ do “inútil” teria que ser reduzido ao Fe0, metálico, do “útil”, como a “chave” numa insistência repetitiva, necessária à manutenção da atenção de jovens pouco “antenados”.

A ansiedade de minha aluna aumentava, demonstrada na pergunta: “e o que faz o eucalipto?”

As grandes reservas de mineral de ferro em nosso país, como a de Carajás, para se tornarem úteis às diversas demandas do homem, entre elas a “chave”, o Fe3+ desses minérios terá que ser reduzido, como já comentado, e você como brilhante vestibulanda sabe que para isto este elemento terá que receber três elétrons. Alguma fonte de energia terá que suprir esses elétrons que, como se sabe, também ilumina ambientes com as lâmpadas acessas, entre muitas outras funções. A fusão de Fe3+ com algum composto em forma reduzida (com grande “estoque” de elétrons), como a gasolina e o carbono fixado – C0 –, que é o carvão que também usamos na churrasqueira, iria suprir ao Fe3+ os elétrons necessários à sua redução a Fe0. Nesse processo, o C0 do carvão torna-se menos (ou não) energético e é transformado a CO2, como também a “energética” gasolina ao ser queimada como combustível nos veículos motorizados; depois de cumpridas suas funções libera CO2 para a atmosfera, no cano de escarga A indústria siderúrgica para a produção do ferro gusa a partir dos minérios de ferro, matéria prima para a fabricação de aços especiais e ligas diversas, consome carvão como redutor – suprimento de elétrons ao Fe3+ da natureza.

construções, etc., etce chave, como a sua. Antes que me esqueça, adianto-lhe que
metralhadoras, canhões,Sua geração, mais que a minha, saberá dar o fim bom ao Fe0

E aqui começa o envolvimento de eucalipto no processo: matéria prima para fazer o carvão vegetal necessário à obtenção da matéria prima, o aço, para fabricar veículos, implementos agrícolas, vergalhões necessários à estrutura do concreto nas carvão também é necessário à fabricação de armas diversas com revolveres, como para a uma construção que dê conforto ao homem e não para sua destruição.

Os padrões culturais do homem atual não permitiriam, em hipótese alguma, sobreviver sem Fe0 e seus derivados e esta forma reduzida de ferro não existe sem a redução do Fe3+, disponibilizada em grandeza espetacular como se a natureza tivesse previsto durante a gênese dos minerais de Fe a grande demanda que o homem teria deste elemento no planeta.

Com um ar abatido da adolescente vencida pelos argumentos, novos para ela, tentou sua última cartada: e você considera que cortar uma árvore seja “felizmente”?

Para justificar o “felizmente” comecei por perguntar-lhe, mais com o objetivo de mantê-la ligada à nossa conversa, sobre as vantagens do carro a álcool em comparação ao carro à gasolina.

Sem o preconceito anterior do “eucalipto, sou contra” que pelo início da conversa, lhe haviam incutido em um cérebro ainda receptivo aos comentários inquestionáveis de professor, numa reminiscência dos inquestionáveis “tios” do primeiro ciclo, ela deu uma aula de conhecimento, recheado de entusiasmo.

Sumariando toda a sua conversa, ela disse que o álcool é um combustível renovável e o petróleo não era. Assim, o produto final do álcool depois de cumprir suas funções energéticas no carro, era CO2 e este voltava a formar álcool pela fotossíntese das plantas a partir do “ressuprimento” de elétrons pela luz solar, para “energizar”, de novo, o combalido e desgastado CO2 do cano de escarga. Dessa maneira, a concentração de CO2 da atmosfera não seria alterada dado um processo de ciclagem viabilizado pela recomposição do nível de energia inicial do álcool pelo processo fotossintético das plantas, cana de açúcar, principalmente, no caso do álcool etílico.

Para gasolina, tendo também como produto final de sua “desenergização” o CO2, idêntico ao da queima do álcool, não há como voltar à gasolina a partir desse CO2, como acontece com o álcool. Não haveria ciclagem, ou renovação do combustível: mais petróleo seria explorado e transformado em energia mais CO2, num processo crescente de seu aumento na atmosfera com os conseqüentes efeitos-estufa e suas bem conhecidas e sentidas conseqüências.

Eu disse então que o petróleo era um mal necessário e que o homem atual não sabe, ainda, viver sem sua ajuda. E, por outro lado, o álcool era o bem necessário e que tudo indicava que com ele e outras de suas variantes, como o “biodísel”, poderíamos deixar o petróleo sepultado para sempre onde não causaria mal à vida da terra pela sua impossibilidade de liberar CO2 nessas condições. A conversa até então foi uma preparação apenas para justificar de maneira incontestável o “felizmente” para o corte da árvore de eucalipto.

Disse à minha aluna predileta que a redução do Fe3+ poderia tanto ser feita com o carvão vegetal como com o carvão mineral (“coque”) retirado de jazidas naturais, à semelhança do petróleo. É fonte de energia para diferentes fins como o carvão vegetal: redução de Fe3+, aquecimento para fins diversos e, no passado, para o suprimento de calor, pela sua queima, para movimentar máquinas a vapor – o mesmo pode ser feito com petróleo; observe a enorme semelhança entre o par petróleo e carvão mineral e entre o par álcool combustível e carvão vegetal. No primeiro par não há como voltar ao produto original e a conseqüência de seus usos seria o aumento do CO2 atmosférico; no segundo caso não, como já explicado.

A utilização do carvão mineral ou coque como redutor, além de liberar CO2 que não mais volta à origem, libera também diversos gases tóxicos, entre eles aqueles constituídos de enxofre, matéria prima para chuvas ácidas, bronquites, etc.

A resposta de minha aluna foi definitiva: “concordo! Ainda bem que para fabricar minha chave cortou-se uma árvore de eucalipto e não se utilizou carvão mineral ou coque”.

Embora ela tenha utilizado “ainda bem” que é mais ameno ou menos impactante que “felizmente”, numa reação própria da idade do “concordar com ressalvas”, ela me fez uma pergunta que me deixou feliz: quantas árvores de eucalipto foram cortadas para fazer o “Titanic”? Infelizmente, nenhuma, disse-lhe eu, porque naquela época só se usava carvão mineral mas sim o coque na indústria do aço; não plantavam eucalipto como hoje. Terminei fazendo-lhe uma sugestão: pergunte a seu professor se a construção do Titanic teve alguma culpa nas crises de bronquite que você tem tido. Se ele achar que sua pergunta é um desproposito, sem sentido, suas chances de aprovação no vestibular são um pouco menores.

Alguns dias depois de minha primeira conversa sobre eucalipto com minha filha, ela me apareceu com uma nova pergunta sobre a mesma planta, desta vez com um sorrizinho maroto, indicativo de vitória antecipada.

Era evidente que seu professor voltara ao tema com um novo argumento contra o eucalipto, muito provavelmente depois da “prensa” que deve ter levado de minha filha com os argumentos anteriores sobre a “chave”; com certeza, para aflorar mais sua veemência, com um misto de prepotência, ela deve ter começado a discussão com seu professor sobre a relação entre o Titanic e suas crises de bronquite. Certamente, o professor se sentiu perdido, foi convencido por ela quanto a algum grau de dependência causal entre as duas coisas e contra-atacou com algum argumento do tipo: “mas todo mundo sabe que o eucalipto seca o solo”, e contra isto não há argumento!

De novo, minha resposta deixou minha nova aluna das causas florestais espantada, agora não mais com o desdém de nossa primeira conversa mas com uma postura de precaução, sinal que de alguma maneira nossa conversa anterior tinha mudado sua postura para melhor.

Minha resposta foi simples e direta: felizmente o eucalipto, como qualquer outra planta, seca o solo. Esse novo “felizmente” causava desta vez uma perceptível curiosidade e, até mesmo, ansiedade sobre o que tinha para ouvir sobre este aparente paradoxo do “felizmente, seca!”.

Para lhe dar o suporte necessário à compreensão de toda a fundamentação teórica sobre o que íamos discutir, iniciei falando sobre como os solos são formados a partir das rochas, num processo denominado intemperismo. O intemperismo causa a desestruturação da forma compacta da rocha em partículas menores que alteradas química e biologicamente vão constituir o solo ou a terra numa linguagem mais comum.

Embora alguns fatores estejam envolvidos na maior ou menor eficiência do intemperismo para transformar rocha em solo, uma é facilmente imaginada: as características da rocha como sua dureza ou resistência à desagregação. Além disso, dois outros fatores são extremamente importantes nesse processo do intemperismo: água e temperatura. Por exemplo, na Antártica a quase ausência de água líquida – ela é seqüestrada pelas baixas temperaturas transformando-se em gelo – e a temperatura muito baixa fazem com que nessa região a existência de solo, quando ocorre, é incipiente, o que faz com que a existência de plantas torne-se extremamente precária. Há muitas rochas, riquíssimas em nutrientes essenciais às plantas mas, por se encontrarem presos às estruturas das rochas, as plantas não os acessam. Nessas condições de “ausência” de água na forma líquida e temperaturas muito baixas o intemperismo ocorre numa lentidão extrema.

Água é uma condição essencial às reações químicas (hidrólise) que fazem com que “coisas aconteçam” – múmias com mais de 2.0 anos são encontradas em regiões áridas dos desertos do Egito em condições de conservação, mas não o seriam sob mais de 2.0 m de chuvas anuais na Amazônia.

À medida que o volume médio de chuvas numa região é elevado, como nos

Cerrados do Brasil Central, comparativamente ao Semi-Árido dos Sertões do Nordeste, ambos em condições de temperaturas elevadas, o solo torna-se muito profundo nos cerrados – algumas dezenas de metros – mas não no Semi-Árido, com um perfil médio de poucos centímetros.

Pode-se deduzir que o volume de água pluvial que cai sobre uma região, mantendo outras características relacionadas à formação dos solos constantes – temperatura, relevo, características da rocha que deram origem ao solo, entre outros - é um grande definidor da espessura do solo sobre a rocha que lhe deu origem. Portanto, a rocha matriz vai se distanciar cada vez mais da superfície do solo embora, com o tempo, de maneira menos rápida que no início quando ela se encontrava junto a superfície e sujeita à todas as ações desagregadoras do intemperismo. Essa menor lentidão de formação de solo com o tempo é conseqüência de sua proteção às ações do intemperismo por um perfil de solo cada vez mais espeço.

Sumariando: os solos serão profundos (1) em regiões planas como nos Cerrados como que para preparar o tamanho da caixa (perfil do solo) capaz de acumular todo o volume de água precipitado durante a estação chuvosa. Por outro lado, no Semi-Árido dos Sertões Nordestinos as pequenas precipitações pluviais, mesmo em condições de temperaturas elevadas, fazem com que os solos sejam rasos.

Portanto, as chuvas que caem ao longo dos milênios sobre uma região talha na rocha o volume de caixa com a capacidade necessária para estocar o volume de água compatível com o que chega na estação chuvosa: muita chuva, perfis profundos; pouca chuva, perfis superficiais ou praticamente ausentes como na Antártica.

Minha filha, já inquieta com a longa conversa que lhe parecia completamente fora de foco, voltou a carga: “e daí, porque felizmente as árvores, e o eucalipto como uma delas, secam os solos? Parece-me um absurdo!”.

Vamos abrir mais um parêntese sobre o conhecimento de minha aluna a respeito do que é calor específico da água. Outra vez, seu interesse em demonstrar como estava preparada para o vestibular, aflorou com entusiasmo: “calor especifico é uma propriedade da física que trata da energia necessária em calorias para alterar 1 ºC a temperatura de um grama de uma substância; o calor especifico da água é 1 ou seja é necessária uma caloria para elevar ou abaixar 1 ºC da temperatura de 1 g de água.

Uma pergunta adicional deixou claro o quanto o conhecimento adquirido pelos nossos estudantes, de modo geral, é “particulado”, reducionista: qual o sentido prático desta informação, para que serve?

Depois de algumas respostas especulativas, não conclusivas, expliquei-lhe que a umidade relativa elevada em uma região fazia com que sua temperatura se mantivesse mais amena, sem os excessos de calor no verão e de frio no inverno. Este tamponamento da temperatura era causado pela umidade, dado seu elevado calor específico que fazia com que fosse necessária maior entrada de energia na área para que

(1) Comentários paralelos foram apresentados à minha filha como este: Em regiões declivosas, como nas montanhas, o solo formado pelo intenso intemperismo é erodido pela própria água em elevados volumes que ao mesmo tempo que “faz” solo o transporta para as regiões mais planas. Nessas regiões declivosas não há também razão para perfis profundos para estocar água como na região plana, por razões óbvias.

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