Guia Prático do Estudante

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GPE - Há protocolos suficientes entre instituições de ensino superior e empresas, no sentido de estreitar relações entre formação e mercado de trabalho? MCTES: A reforma em curso do sistema de ensino superior introduziu um conjunto de medidas que visam estreitar as relações entre a formação e o mercado de trabalho, quer no plano institucional, ao tornar obrigatória a inclusão de membros externos no órgão responsável pela definição da orientação estratégica das instituições, o conselho geral, quer no plano da organização dos cursos, quer no plano da oferta de formação. Algumas medidas que são de assinalar neste domínio incluem-se (i) As parcerias e redes internacionais envolvendo empresas e instituições de ensino superior, que agilizam o intercâmbio e a mobilidade de estudantes, docentes e investigadores; (i) A reorganização dos Cursos de Especialização Tecnológica (CET) e a expansão da sua oferta que, no que se refere às instituições de ensino superior já atinge os 150 cursos; quanto ao número total de novos estudantes nos CET, passou de pouco mais de

1000 em 2005 para mais de 4.800 admitidos em 2007 (i) As medidas de apoio aos estudantes que após a obtenção do grau, se encontrem a realizar estágio profissional para o exercício de uma profissão, os quais, por um período de 24 meses, passam a conservar, sem pagamento de quaisquer propinas ou outros encargos, alguns dos direitos dos alunos da instituição onde obtiveram o grau, designadamente acesso à acção social escolar, incluindo a bolsas de estudo, e acesso a bibliotecas e recursos informáticos; (iv) a obrigatoriedade de as instituições de ensino superior divulgarem o trajecto de empregabilidade dos seus diplomados.

melhor aplicação do financiamento público disponível. Neste sentido, não são financiadas novas admissões em cursos onde a procura se mantenha manifestamente baixa de forma continuada (3 anos), admitindo, porém, excepções a esta regra, em áreas de formação onde, pela sua natureza, a procura é naturalmente baixa, mas é essencial garantir oferta de Ensino em Portugal. Ainda neste contexto, a Agência de Avaliação e Acreditação, no quadro do processo de avaliação e acreditação dos cursos superiores, terá em consideração, não só a qualidade intrínseca dos cursos, como também a articulação entre a formação, a qualificação profissional e a ligação ao mercado de trabalho.

diplomados a maisé um mito?

GPE - Há a ideia que em Portugal existem MCTES: Sim, é claramente um mito. A ideia que o mercado de trabalho em Portugal está saturado de pessoas qualificadas é totalmente falsa. De facto, o país ainda apresenta um défice de qualificações quando comparado com a média da OCDE. Segundo dados recentes publicados por aquela organização, em 2006, a percentagem da população portuguesa entre os 25 e os 64 anos com qualificação superior situava-se nos 14 por cento, sensivelmente metade da média dos países da OCDE, que é de 27 por cento. Por outras palavras, para que Portugal atinja os níveis médios da OCDE será necessário que duplique o número de pessoas com qualificação superior. Em 2008, existiam em Portugal 891 mil pessoas (entre os 25 e os 64 anos) com

“A maior parcela dos diplomados que procuram emprego são pessoas que concluíram o seu curso em anos recentes, encontrando-se na sua maioria à procura do primeiro emprego há menos de um ano”

“Foi tornada obrigatória a divulgação anual pelas instituições de ensino superior de informação sobre o percurso de empregabilidade dos seus diplomados”

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“Isto não está fácil”É o que se ouve dizer por

Uma luz ao fundo do túnel todo o lado, quando o assunto é emprego. Mas o truque é saberes exactamente onde te moves, conheceres os altos e baixos do mercado e depois decidires se queres, mesmo assim, lutar pelo teu sonho, sabendo que tipo de esforço e sacrifícios isso te vai custar. Na opinião de Filipe Neves, gestor de projectos da IPN Incubadora – uma incubadora portuguesa de empresas de base tecnológica instalada no Instituto Pedro Nunes, em Coimbra, e recentemente considerada a segunda melhor do mundo pela “The Technopolicy Network”, o pessimismo deve ser uma palavra a evitar na hora de se escolher um curso superior, mesmo que o futuro pareça cinzento. “Hoje em dia, ter um curso superior, nalguns ramos da actividade, já não é garantia de empregabilidade, mas obviamente que o facto de não se ter esse mesmo curso superior pode ser um entrave ainda maior”.Com a cabeça nas nuvens e os pés na terra, este pode ser o grande truque para decidires a tua carreira.

Cursos com sinal intermitente Segundo o relatório “A procura de emprego dos diplomados com habilitação superior”, divulgado em Fevereiro de 2009 pelo Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais(GPEARI) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – que incide sobre os inscritos nos Centros de Emprego com habilitação superior, em Dezembro de 2008 –, por áreas de estudo, as que têm um maior número de inscritos nos centros de emprego, e relativamente ao total com habilitações superiores, são as Ciências Empresariais (19%), as Ciências Sociais e do Comportamento (12%) e a Formação de Professores/Formadores e Ciências da Educação (10%). Este total resulta em quase metade (41%)

Texto: Bruna Pereira e Renata Lobo

Quando eras pequenino sonhavas ser jornalista? Psicólogo? Professor de Matemática? Chegou a hora de escolheres um curso superior e estás num cruzamento: para a esquerda a via está desimpedida, para a direita há muito trânsito, mas se calhar é essa via congestionada que te leva ao teu sonho… E agora? Esta é talvez a primeira grande opção que vais ter de tomar, na qualidade de condutor da tua própria vida.

dos diplomados inscritos nos

Centros de

Emprego.

Questionado sobre se os cursos superiores com menor taxa de empregabilidade devem ser congelados temporariamente, Sebastião Feyo de

Azevedo, professor noDepartamento de Engenharia Química da Faculdade de

Engenharia da Universidade do Porto e membro da Comissão de Acompanhamento do Processo de Bolonha em Portugal, refere que “ir por esse caminho é abrir espaço para decisões arbitrárias, insustentáveis num sistema democrático, como é o nosso”. O professor abre um parêntesis para lembrar que vivemos uma conjuntura económico-financeira dificílima que afecta fortemente o mercado de trabalho e sublinha que o problema de haver cursos a mais em várias áreas é uma situação

Guia Prático do Estudante 2009 | 1 que se vê a “olho nu” e que contempla vários aspectos. “O primeiro é o da gravíssima permissividade das condições de acesso ao ensino superior, que está ligado a outra questão – a de termos uma oferta de rede de formação pós-secundária deficitária na diversidade da oferta de formações curtas para jovens que na idade dos 17/18 anos não tenham, por várias razões, apetências, competências e motivações para embarcarem numa formação de nível universitário. Depois, isto é uma bola de neve: a pressão para entrada nos cursos de licenciatura, por falta de alternativa, é grande, e o mercado responde à procura, oferecendo cursos que só se aguentam se o sistema de acesso for permissivo, e assim sucessivamente.” A solução para ajustar tais problemas, refere Sebastião Feyo de Azevedo, passaria por “informar a sociedade, de facto, das situações de mercado de trabalho e da relação procura/oferta, para que os jovens procurem as suas formações de forma mais consciente e não em função dos facilitismos anunciados, assim como definir condições de entrada nas licenciaturas consentâneas com os níveis de formação universitária e, claramente, fomentar as formações curtas ligadas às licenciaturas ou mesmo dentro delas”, refere o docente.

Cursos com luz verde Nas áreas de estudo com menor número de registos nos Centros de Emprego encontramos as Ciências Veterinárias (0,3%), Matemática e Estatística (0,6%), Informática (0,9%) e Serviços de Segurança (0,2%). As Ciências Veterinárias incluem Medicina Veterinária e Enfermagem Veterinária. Se fores um adepto da Matemática e da Estatística, estas áreas envolvem cursos de Estatística, Matemática, Matemática Aplicada e Computação. Na área de Informática encontras Engenharia Multimédia, Informática, Informática de Gestão e Tecnologias de Informação e Comunicação. Finalmente, na área de Serviços de Segurança, tens a possibilidade de optar por Ciências Militares Navais, Engenharia Militar, Protecção Civil ou Segurança no Trabalho.

Psicologia é, de momento, um dos cursos com as saídas profissionais mais “congestionadas”. Manuela Brito, membro da Sociedade Portuguesa de Sexologia Clínica e psicóloga clínica na Delegação Regional do Norte, do Instituto da Droga e da Toxidependência (IDT), fala da situação. “Tenho tido a oportunidade de atender clinicamente colegas mais novos que não conseguem encontrar colocação e penso que uma redução de vagas ou então mesmo um congelamento dos cursos seria o ideal”, acrescentando que “as médias são altas e as pessoas lutam para entrar e depois não têm colocação”.

Bolonha: a “Via Verde” para outros mercados? Com Portugal a integrar o conjunto de países do Espaço Europeu de Ensino Superior (EEES) empenhados em seguir as directivas do processo de Bolonha, os diplomados portugueses da “era Bolonha” têm as portas abertas a outros mercados além-fronteiras. Sebastião Feyo de Azevedo acredita que, “numa visão estritamente académica e política, vivemos um período em que prevalece (e bem) a

DE DESEMPREGADOS (% face ao número de diplomados no período 97/98 - 06/07)

Serviço Social (Instituto Superior Miguel Torga) 12,7% (212 registos)

Psicologia Aplicada (Inst. Sup. de Psicologia Aplicada) 6,5% (204 registos)

Direito(Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra) 6,5% (189 registos)

Economia(Fac. de Economia da Universidade do Porto) 8,1% (187 registos)

Psicologia(Univ. Lusófona de Humanidades e Tecnologias) 8,2% (185 registos)

Serviço Social (Inst. Sup. de Serviço Social do Porto) 15,9% (160 registos)

Direito (Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa) 3,3% (153 registos)

Psicologia (Instituto Superior da Maia) 1,8% (152 registos)

Psicologia (Universidade Lusíada do Porto) 19,8% (148 registos)

Rel. Públicas e Publicidade (Inst. Sup. Novas Profissões) 9,8% (137 registos)

Prós… “Tenho tido a oportunidade de atender clinicamente colegas mais novos que não conseguem encontrar colocação e penso que uma redução de vagas ou então mesmo um congelamento dos cursos seria o ideal” Manuela Brito, psicóloga clínica

…e contras “Ir por esse caminho é abrir espaço para decisões arbitrárias, insustentáveis num sistema democrático, como é o nosso” Sebastião Feyo de Azevedo, membro da Comissão de Acompanhamento do Processo de Bolonha em Portugal

Ciências Empresariais 6868

Formação de Prof. / formadores e Ciências da Edu

Engenharias e técnicas afins 3108

Saúde 2492

Artes 2125

Humanidades 2075

Arquitectura e Construção 1908

Serviços Sociais 1749

Serviços Pessoais 1260

* FONTE: Relatório “A procura de emprego dos diplomados com habilitação superior”, divulgado em Fevereiro de 2009 pelo GPEARI, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

concepção de “educação para todos”, o que significa uma política de massificação da educação. Nessa política, as directrizes de Bolonha são absolutamente essenciais e se Bolonha não existisse, a Europa não teria alternativa que não fosse inventar algo com outro nome, mas muito parecido”, refere o membro da Comissão de Acompanhamento do Processo de Bolonha em Portugal.

AINDA COMPENSA “Frequentar o ensino superior é altamente rentável do ponto de vista individual“, pode ler-se num estudo realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O relatório aponta Portugal, a par do Reino Unido, Irlanda e Finlândia, como um dos países onde é mais rentável ter um curso superior. O estudo, denominado “O Ensino Superior na Sociedade do Conhecimento“, foi realizado em 24 países durante um período de três anos e concluiu, em 2008, que para as mulheres as vantagens são, na globalidade, superiores às dos homens e que além das vantagens financeiras existem benefícios sociais associados a um elevado nível de escolaridade.

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Numa altura em que o número de desempregados não pára de subir em Portugal, o número de inscritos nos centros de emprego com habilitação superior registou uma queda em 2008. Entre Dezembro de 2007 e Dezembro de 2008, o número de desempregados diplomados inscritos – a maioria entre 25 e 34 anos – baixou 4 por cento. Os números de 2009 não se prevêem tão animadores mas, mesmo assim, ter um curso superior continua a ser uma vantagem.

DESEMPREGO Texto: Cátia Felício

Há menos diplomados inscritos nos centros de emprego em Portugal. A maioria está inscrita no Norte (40 por cento), sendo no entanto em Lisboa onde se concentra a maior parcela da população com habilitação superior. Mas quem são estes desempregados e o que têm em vista com um canudo nas mãos? A maior parte dos diplomados sem emprego terminou o curso recentemente (58 por cento), em especial no ano de 2008 (35 por cento). Dos cerca de 32 mil e 250 inscritos diplomados, mais de metade (16 mil e 500 desempregados) estão à procura de novo emprego há menos de um ano. Esta é uma das conclusões do relatório “A Procura de Emprego dos Diplomados com Habilitação Superior” divulgado em Fevereiro de 2009 pelo Gabinete de Planeamento, Estratégia Avaliação e Relações Internacionais - GPEARI, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. Os dados incidem sobre o número de inscritos nos centros de emprego com habilitação superior, entre Dezembro de 2007 e Dezembro de 2008. Entretanto, os indicadores mostraram que, em Dezembro de 2008, 9 por cento do total dos inscritos nos Centros de Emprego têm habilitação superior. De acordo com o relatório, a diminuição de registos de desempregados com licenciatura ou bacharelato explica-se pelo aumento de 7 por cento de mestres inscritos, o que decorre também da entrada em vigor do Processo de Bolonha.

Menos diplomados desempregados que em 2007 Maria João Rosa, sub-directora do GPEARI, faz um balanço positivo do número de diplomados desempregados face ao ano de 2007. Além de realçar o facto de baixar o número de inscritos nos centros de emprego, “diminuição essa que foi particularmente evidente nas categorias onde a procura de emprego por parte dos diplomados é mais significativa, como é o caso das mulheres (-7%), da região Norte (- 8%) ou do grupo etário 25-34 anos (-1%)”, adianta ainda que “entre as áreas de estudo mais representadas, é também de notar a acentuada diminuição de inscritos diplomados da área “Formação de Professores/Formadores e Ciências de Educação” (-36%, no período em causa)“.

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