Fascículo 4 - Dendê contra aquecimento global

Fascículo 4 - Dendê contra aquecimento global

(Parte 1 de 2)

1 | REVISTA ÉPOCA | FASCÍCULO I

Ocrescimento de um país está associado a uma maior demanda por energia. Petróleo, gás natural e carvão ainda são as principais fontes de energia. Mas a ameaça de mudanças climáticas, como o aquecimento global, força a busca por alternativas com menor impacto ambiental. O xisto da questão não é apenas um trocadilho – pode ser também uma solução. Como o dendê. Ou a energia dos ventos e do sol. É fundamental o uso de fontes que emitam menos gases de efeito estufa. Nesta edição, abordamos a onda dos biocombustíveis e a retomada do projeto nuclear brasileiro.

O Brasil na liderança dos biocombustíveis PÁGs. 2 a 4

O hesitante projeto nuclear PÁG.3

Uma questão inédita sobre o xisto PÁG. 5

Dendê contra o aquecimento global

Clima e território dão vantagem comparativa ao Brasil na corrida por fontes energéticas renováveis e menos poluentes, como o fruto baiano

> Biologia > Química

2 I revista época I 1 de junho de 2007

A demanda por energia teve expansão súbita a partir da Revolução

Industrial iniciada no século XVIII. Primeiramente, utilizou-se o carvão mineral para aquecer a água que movimentava as máquinas a vapor. No fim do século XIX, teve início a produção de motores de combustão interna. Em vez de aquecer água numa caldeira e canalizar o vapor para dentro do motor, um combustível líquido é vaporizado e lançado dentro do motor, onde então explode, liberando energia. Esse combustível é um derivado do petróleo. Tanto o carvão quanto o petróleo originam-se da decomposição de material orgânico que se processa por milhões de anos, em ambientes aquáticos anaeróbicos. São os chamados combustíveis fósseis.

Os dois principais tipos de motores, hoje, são os que utilizam a gasolina − semelhantes aos motores a álcool − e os movidos a diesel. Tanto a gasolina quanto o diesel têm como principais componentes compostos orgânicos que possuem apenas carbono e hidrogênio − os hidrocarbonetos. Ambos possuem compostos com nitrogênio e enxofre que,

Os biocombustíveis e a liderança brasileira

O biocombustível tem origem em material orgânico recente; é a chamada biomassa REPRODUÇÃO

2 | REVISTA ÉPOCA | FASCÍCULO IV REPRODUÇÃO REPRODUÇÃO

> Rudolf Diesel (1858-1913), engenheiro mecânico alemão, inventou um motor a partir da explosão de óleos, inclusive vegetal, quando misturados com o oxigênio purificado. Em 23 de fevereiro de 1897 registrou patente de seu invento, batizado posteriormente de motor diesel.

Maior produtor mundial de etanol e prestes a assumir a liderança no biodiesel,

POR EMÍLIO GALHARDO FILHO

o Brasil pode se tornar protagonista entre os fornecedores de energia

Técnicos trabalham em plataforma na

Bacia de Campos, no Rio; o petróleo ainda é uma das principais fontes de energia

na combustão, produzem substâncias ácidas. Lançadas na atmosfera, elas se precipitam como chuva ácida, uma forma de poluição que causa grande preocupação. A combustão dentro dos motores nunca é completa, isto é, sempre falta um pouco de oxigênio, o que produz o monóxido de carbono (CO), substância tóxica que impede que nosso sangue transporte oxigênio. Finalmente, toda combustão de material orgânico produz gás carbônico − o principal responsável pelo aquecimento global.

Já os biocombustíveis têm origem em material orgânico produzido recentemente: a denominada biomassa. Para entender a diferença entre um biocombustível e outro de origem fóssil, devemos lembrar do processo denominado fotossíntese.

Todo alimento de nosso planeta é formado pelo processo (desencadeado nas plantas, algas e certas bactérias) que transforma gás carbônico e água em glicose e oxigênio. Como a fotossíntese retira gás carbônico do ar, cada molécula de gás carbônico que introduzimos na atmosfera queimando biodiesel já foi retirada no processo fotossintético, o que o torna interessante do ponto de vista ecológico. Além disso, as fontes dos biocombustíveis são os vegetais, que podem ser replantados indefinidamente, ao contrário dos combustíveis fósseis. Como não se acumulam no ambiente, pois são degradados por bactérias, dizemos que são biodegradáveis.

O desenvolvimento da indústria automobilística mundial − grande consumidora de petróleo − tem início no século X a partir dos Estados Unidos. Por isso, são estadunidenses cinco das sete empresas que controlaram a produção, o refino e a distribuição do petróleo mundial nesse século. Agindo juntas para defender seus interesses, foram apelidadas de “As Sete Irmãs”. Não causa espanto, portanto, que combustíveis alternativos tenham sido esquecidos.

O panorama muda drasticamente a partir de 1973, após o desfecho da guerra do Yom Kippur, quando a Opep decide aumentar o preço do barril de petróleo substancialmente. Inicia-se então um período de grandes elevações de preço, o que levou à busca de alternativas. Um dos desdobramentos disso é que, em 1975, lança-se no Brasil o Programa Nacional do Álcool

3 | REVISTA ÉPOCA | FASCÍCULO IV

A geração de energia elétrica mundial a partir de plantas nucleares cresceu muito, aproximando-se da obtida por hidrelétricas. Por terem tamanho reduzido e não emitirem gases de efeito estufa, elas têm ganho destaque como alternativa energética aos combustíveis fósseis, apesar da questão do lixo radioativo.

Três países sozinhos – França,

Japão e Estados Unidos – respondem por 60% da energia obtida dessa forma. A França obtém quase 80% de sua energia elétrica de 56 plantas nucleares espalhadas pelo país.

No Brasil, país com alto potencial hídrico, a implantação de usinas nucleares constitui alternativa energética questionável. Nosso programa nuclear remonta à década de 50, quando os primeiros maquinários para enriquecer urânio começaram a ser importados da Alemanha. Sem projeto definido, não podíamos ficar fora do seleto clube atômico que se formava. No início da década de 70, em pleno governo militar, o programa ganhou impulso. Um submarino nuclear, armas atômicas e usinas eram o sonho de consumo do topo da cadeia de comando, frustrado posteriormente. As usinas de Angra começaram a sair do papel (e ainda não saíram totalmente).

Com participação de 1,6% na matriz energética, custo astronômico, tecnologia ultrapassada e sem plano de evacuação adequado para a usina e a população, usinas nucleares no Brasil para quê? Venerando S. de Oliveira é físico, educador e autor de material didático

O Proálcool foi lançado em 1975 visando reduzir a dependência do petróleo importado

Ilustração: AKE ASTBURY

O PROJETO NUCLEAR. QUE PROJETO?! por Venerando S. de Oliveira

As moléculas que formam a gasolina e o diesel possuem algo em comum: ambas são formadas por átomos de carbono e hidrogênio

4 I revista época I 1 de junho de 2007

(Proálcool), visando diminuir a dependência de petróleo importado. O processo para obter o etanol (ou álcool etílico) a partir da cana-de-açúcar tem início com a moagem, que produz caldo e bagaço. Após filtração, o caldo é evaporado para conseguir um material viscoso − o melaço. Nesse ponto temos a colaboração das leveduras, um fungo que transforma açúcar em álcool e gás carbônico.

A mistura fermentada, chamada mosto, é então destilada, obtendo-se o álcool hidratado e um material pastoso denominado vinhoto. No início da produção de álcool combustível, o vinhoto era lançado nos rios, com graves conseqüências ambientais. Hoje é utilizado como fertilizante e agregado à ração animal, já que é rico em minerais. O bagaço também tem utilidade, como combustível e em rações para o gado.

Além de ser queimado puro, o etanol pode ser misturado à gasolina comum com dois efeitos muito benéficos. Como possui um átomo de oxigênio na molécula, a combustão é mais completa, o que reduz a produção de monóxido de carbono. Como o etanol aumenta a eficiência da gasolina, substitui aditivos que são muito poluentes.

Quanto ao biodiesel, uma nova forma de produzi-lo foi patenteada no Brasil em 1977, embora com pouca atenção governamental nas décadas seguintes. Com um projeto lançado pelo governo em janeiro de 2005, porém, a produção de biodiesel passa a ser incentivada. Já neste ano teremos a adição de 2% de biodiesel ao diesel comum, e essa proporção deverá aumentar. Pode-se utilizar nessa produção óleo de mamona, amendoim, buriti, pinhão-manso, coco, dendê ou gordura animal.

Para produzir o biodiesel, reage-se óleo ou gordura com álcool etílico ou metílico. Ao final do processo, obtêm-se biodiesel e glicerol. Esses componentes se separam em duas fases. Como o biodiesel é menos denso, flutua, e as fases são facilmente separadas.

Possuindo átomos de oxigênio em sua estrutura, o biodiesel acrescenta o mesmo efeito benéfico do álcool quando adicionado à gasolina − torna a combustão mais completa, diminuindo a emissão de monóxido de carbono.

Em 2006, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma

Rousseff, anunciou o início da produção do Hbio, o novo companheiro do álcool e do biodiesel no time dos combustíveis derivados de biomassa e, portanto, renovável. O processo de produção parte da adição de hidrogênio ao óleo vegetal dissolvido em diesel comum. O óleo transforma-se então em diesel, isto é, em moléculas com apenas átomos de carbono e hidrogênio. Também se obtém o propano, utilizado como gás de cozinha.

O enxofre que contamina normalmente o diesel é retirado e pode ser usado por diversas indústrias. Com isso, parte do diesel terá origem renovável, diminui-se a concentração de poluentes que produzem chuva ácida e obtém-se enxofre como subproduto. A patente é “brasuca” e está nas mãos da Petrobras.

O Brasil detém hoje a dianteira na produção e utilização dos biocombustíveis.

Mais uma janela de oportunidade que, aproveitada de forma competente, colocará o país em posição de destaque no cenário mundial. Seremos competentes ou deixaremos escapá-la pelas mãos, como fizemos com a borracha no início do século X?

EMÍLIO GALHARDO FILHO, formado pela USP, é professor e autor nas áreas de química, ciência ambiental e experimental

4 | REVISTA ÉPOCA | FASCÍCULO IV

> O etanol brasileiro provém da fermentação da cana-deaçúcar, enquanto o estadunidense provém do milho. O rendimento do etanol, por hectare, a partir do milho é cerca de 20% daquele obtido da cana. Usinas de açúcar e álcool já utilizam o bagaço da cana, antes dispensado, para gerar calor e eletricidade suprindo suas necessidades e gerando excedente, que é vendido.

A produção de biodiesel passou a ser incentivada pelo governo brasileiro a partir de 2005

Leia sobre a história do projeto nuclear brasileiro na revista eletrônica ComCiência http://w. comciencia.br/reportagens/ nuclear/nuclear09.htm.

Sobre o mais grave acidente com uma usina nuclear, nos anos 80, o vídeo mostra a cidade fantasma de Chernobyl, Ucrânia http://www.youtube.com/ watch?v=yisFP1z3tgA.

Lixo e xisto, energia

em dose dupla

Vantagens e desvantagens de duas fontes alternativas; a resposta e o comentário estão no fascículo V

Leia com atenção os textos a seguir:

A) na década de 1950, a Petrobras desenvolveu o processo Petrosix, que permite obter óleos combustíveis a partir do xisto betuminoso, um tipo de rocha que guarda material orgânico formado há milhões de anos. Refinado, o xisto produz derivados semelhantes ao do petróleo, como gasolina, diesel, óleo combustível e gás de botijão. O Brasil possui a segunda maior reserva do mundo dessa rocha, porém o processo ainda é mais caro que as obtenções a partir do petróleo. B) dejetos orgânicos tão variados como restos de comida, partes de vegetais desprezados nas colheitas, resíduos de indústrias processadoras de alimentos ou mesmo excremento podem ser aproveitados quando acumulados em fossas fechadas − chamadas biodigestores. Esses dejetos sofrem um processo anaeróbico

(carência de oxigênio) de fermentação que produz gás de lixo ou biogás. Esse gás pode ser utilizado como combustível e seu principal constituinte é o metano (CH4). O resíduo sólido da fossa é um excelente adubo e possui volume bem menor que o dos resíduos originais. Agora julgue cada afirmativa quanto à correção: I. o xisto betuminoso é uma fonte renovável de energia. I. o biogás é um combustível renovável. I. os biodigestores podem auxiliar no problema de armazenamento do lixo. IV. a combustão do biogás não produz poluentes. Estão corretas as afirmativas: A) I e I B) I e II C) I e I D) I e IV E) I e IV

A questão, baseada num trecho do livro de Milton Santos sobre a globalização, referia-se às redes que viabilizam a interligação no mundo globalizado. Essas redes são, sobretudo, sistemas de telecomunicações e sistemas de transportes modernos. Os principais terminais (ou nós des- sas redes) encontram-se nas cidades globais, que concentram os objetos e sistemas técnicos necessários para a integração. Sabemos que as cidades globais se localizam em maior quantidade nos países desenvolvidos (Estados Unidos, Inglaterra, França, Japão) e em menor densidade nas regiões menos desenvolvidas, com poucos casos na América Latina e na África.

Gabarito: alternativa D. (Possuem densidade desigual, sendo que as cidades globais representam os principais nós dessas redes, devido à concentração de objetos e sistemas técnicos implantados em seus territórios.)

RESPOSTA DA QUESTÃO INÉDITA DO FASCÍCULO I As redes do mundo globalizado

5 | REVISTA ÉPOCA | FASCÍCULO IV

Cilindro de gás automotivo

Cilindro de gás automotivo

6 I revista época I 1 de junho de 2007

2ª questão

Mais de duas décadas se passaram após a construção da Usina Termonuclear de Angra dos Reis, porém ainda pairam no ar preocupações, sobretudo para as principais capitais brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro. Dentre as razões listadas, indique aquela(s) que corretamente justifica(m) tais preocupações: 01) o risco de acidente, que provocaria a contaminação radioativa de extensas áreas circunvizinhas. 02) o obscuro destino dado ao lixo radioativo produzido por Angra. 04) o elevado consumo de carvão mineral utilizado como co-processador na geração de energia elétrica. 08) o risco de extravio de plutônio, que poderia ser usado para fins não-pacíficos. 16) o uso de grande quantidade de lenha, para beneficiamento de plutônio, e a conseqüente devastação da mata atlântica. UFMS, 2005 (prova de Geografia)

Este tipo de questão pode se mostrar mais complicado por dois fatores: 1) não tem introdução, de onde poderiam ser inferidas algumas respostas; e 2) a soma da pontuação, embora simples, pode levar ao erro. Quanto ao conteúdo, é importante ter em vista que uma usina termonuclear, como indica o nome, produz energia térmica a partir de reações nucleares, e não da queima de combustíveis como o carvão ou a lenha. Por localizar-se perto das duas maiores cidades do Brasil, as conseqüências de um vazamento de material radioativo seriam catastróficas. A Usina de Angra dos Reis utiliza urânio enriquecido, e não plutônio, como fonte de energia nuclear. Os produtos da reação do urânio (o lixo) são também radioativos e costumam ser armazenados em depósitos subterrâneos, onde levam até centenas de milhares de anos para desaparecer.

1ª questão

O biodiesel é um combustível derivado de fontes renováveis, que pode ser obtido por diferentes processos, tais como o craqueamento, a esterificação ou pela transesterificação. Ele sofre a ação de bactérias decompositoras. Há dezenas de espécies vegetais no Brasil das quais se pode produzir o biodiesel, tais como mamona, dendê (palma), girassol, babaçu, amendoim, soja, dentre outras. Esse combustível renovável permite a economia de divisas com importação de petróleo e óleo diesel e também reduz a poluição ambiental, além de gerar alternativas para outras atividades econômicas e, assim, promover a inclusão social.

(Parte 1 de 2)

Comentários