Qualidade de reuso de agua na agropecuaria

Qualidade de reuso de agua na agropecuaria

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4. IMPUREZAS PRESENTES NAS ÁGUAS

No seu caminho para o mar, a água vai ficando carregada de partículas e matéria dissolvida, provenientes de detritos naturais e dos despejos da sociedade humana.

Qualidade e reúso de água na agropecuária

Quando a densidade populacional ao redor de uma reserva hídrica é baixa, os resíduos na água podem ser degradados por microorganismos, em um processo natural de autodepuração. Quando a capacidade de autodepuração é excedida, grandes quantidades de resíduos se acumulam podendo causar danos à vida aquática.

Existem dois tipos de despejos que contaminam a água: o orgânico o qual é proveniente de excrementos humanos e de animais e do descarte das partes fibrosas de vegetais colhidos e não consumidos e o lixo industrial, gerado pelos processos industriais e pelo descarte que, cedo ou tarde, se faz dos produtos fabricados pelas indústrias.

As impurezas da água podem estar nas formas dissolvida ou em suspensão. A água possui cinco tipos básicos de contaminantes naturais, conforme apresentado na Tabela 5.

Tabela 5 – Contaminantes naturais da água Descrição Contaminantes Sólidos em suspensão Silte, ferro precipitado, colóides, etc..

Sais dissolvidos Contaminantes iônicos tais como o sódio, cálcio, sulfato, etc..

Materiais orgânicos Trihalometanos, ácidos húmicos e outros contaminantes não orgânicos.

Microrganismos Bactérias, vírus, fungos, cisto de protozoários, algas, etc.. Gases dissolvidos Sulfeto de hidrogênio, metano, etc..

É importante o monitoramento da água não só para mantê-la dentro dos padrões legais de qualidade como também para atender as necessidades de aplicação controlando as alterações efetuadas em sua qualidade. A presença da impureza é avaliada de acordo com sua característica, sendo ela dividida em três tipos de análises: a) Características físicas - relativas aos sólidos presentes nas águas. Comumente são tidas de menor importância, uma vez que envolvem aspectos de ordem estética e subjetiva, como sabor, cor, turbidez, odor e temperatura. Por causar repugnância, levam à preferência pela água de melhor aparência, que pode inclusive ser de pior qualidade. b) Características biológicas - referem-se à parte viva da água analisada por meio da microbiologia, que revela a presença dos reinos vegetal, animal e protista compreendendo organismos como algas, bactérias, vírus, fungos, protozoários e helmintos. c) Características químicas – referem-se às substancias dissolvidas que podem causar alterações nos valores do pH, alcalinidade, acidez, dureza, ferro e manganês, cloretos, nitrogênio, fósforo, oxigênio dissolvido, matéria orgânica e inorgânica.

5. TRATAMENTO DE EFLUENTES

Um sistema de tratamento de efluentes se resume na busca eficiente da remoção dos poluentes nele contidos. Baseia-se em parâmetros normativos e varia de acordo com o

Qualidade e reúso de água na agropecuária volume a ser tratado, finalidade, nível de processamento, qualidades originais e pretendidas e local de lançamento ou reaproveitamento.

O sistema de tratamento de efluentes compreende quatro fases definidas de acordo com sua função: a) Tratamento preliminar (ou mecânico) - remoção de grandes sólidos e areia para proteger as demais unidades de tratamento, os dispositivos de transporte (bombas e tubulações) e os corpos receptores. A remoção da areia previne, ainda, a ocorrência de abrasão nos equipamentos e tubulações e facilita o transporte dos líquidos. É feita com o uso de grades que impedem a passagem de trapos, papéis, pedaços de madeira, etc.; caixas de areia, para retenção deste material; e tanques de flutuação para retirada de óleos e graxas em casos de esgoto industrial com alto teor destas substâncias. b) Tratamento Primário (ou físico-químico) – o efluente ainda contém sólidos em suspensão não grosseiros cuja remoção pode ser feita em unidades de sedimentação, reduzindo a matéria orgânica contida no efluente. Os sólidos sedimentáveis e flutuantes são retirados por meio de mecanismos físicos, via decantadores. O efluente flui vagarosamente pelos decantadores, permitindo que os sólidos em suspensão de maior densidade sedimentem gradualmente no fundo, formando o lodo primário bruto5. Os materiais flutuantes como graxas e óleos, de menor densidade, são removidos na superfície. c) Tratamento secundário (ou biológico) - processa, principalmente, a remoção de sólidos e de matéria orgânica não sedimentável e, eventualmente, nutrientes como nitrogênio e fósforo. Após as fases primária e secundária a eliminação da carga orgânica deve alcançar 90%. É a etapa de remoção biológica dos poluentes e sua eficiência permite produzir um efluente em conformidade com o padrão de lançamento previsto na legislação ambiental. Basicamente, são reproduzidos os fenômenos naturais de estabilização da matéria orgânica que ocorrem no corpo receptor, sendo que a diferença está na maior velocidade do processo, na necessidade de utilização de uma área menor e na evolução do tratamento em condições controladas. d) Tratamento terciário (ou de polimento) - remoção de poluentes tóxicos ou não biodegradáveis ou eliminação adicional de poluentes não degradados na fase secundária. e) Desinfecção - grande parte dos microorganismos patogênicos foi eliminada nas etapas anteriores, mas não a sua totalidade. A desinfecção total pode ser feita pelo processo natural - lagoa de maturação, por exemplo - ou artificial - via cloração, ozonização ou radiação ultravioleta. A lagoa de maturação demanda grandes áreas, pois necessita pouca profundidade para permitir a penetração da radiação solar ultravioleta. Entre os processos artificiais, a cloração é o de menor custo, mas pode gerar subprodutos tóxicos, como organoclorados. A ozonição é muito dispendiosa e a radiação ultravioleta não se aplica a qualquer situação.

6. REUSO DA ÁGUA

A reciclagem ou reúso de água não é um conceito novo na história do nosso planeta. A natureza, por meio do ciclo hidrológico, vem reciclando e reutilizando a água há milhões de anos, e com muita eficiência. Cidades, lavouras e indústrias já se utilizam, há muitos anos, de uma forma indireta, ou pelo menos não planejada de reúso, que resulta da

Qualidade e reúso de água na agropecuária utilização de águas, por usuários de jusante que captam águas que já foram utilizadas e devolvidas aos rios pelos usuários de montante. Milhões de pessoas no mundo todo são abastecidas por esta forma indireta de água de reúso.

Durante muitos anos este sistema funcionou de forma amplamente satisfatória, o que contudo não acontece mais em muitas regiões, face ao agravamento das condições de poluição, basicamente pela falta de tratamento adequado de efluentes urbanos, quando não pela sua total inexistência. Evoluiu-se, então, para uma forma denominada direta de reúso, que é aquela em que se trata um efluente para sua reutilização em uma determinada finalidade, que pode ser interna ao próprio empreendimento, ou outra externa, para uma finalidade distinta da primeira, como por exemplo, a prática de reúso de efluentes urbanos tratados para fins agrícolas.

A forma direta ou planejada utiliza tecnologias e práticas de renovação e reúso de água, que atravessaram uma série de fases nos últimos duzentos anos. A primeira fase foi motivada por uma vertente baseada no conceito conservacionista em que os dejetos da sociedade deveriam ser conservados e utilizados para preservar a fertilidade dos solos, enquanto a outra, numa abordagem mais pragmática, era direcionada para a eliminação da poluição dos rios.

Na segunda fase, que se pode considerar até o final dos anos noventa, o principal enfoque foi basicamente a necessidade de se conservar e reusar água em zonas áridas. Verificou-se grandes esforços de reúso de água para o desenvolvimento agrícola em zonas áridas dos Estados Unidos, como Califórnia e Texas, e em países como a África do Sul, Israel e Índia. Em Israel, por exemplo, o reúso de águas residuárias tornou-se uma política nacional em 1955. O plano nacional de águas incluía reúso dos principais sistemas de tratamento de efluentes das cidades no programa de desenvolvimento dos limitados recursos hídricos do país.

A terceira fase, na qual nos encontramos atualmente, acabou se sobrepondo à segunda, e é baseada na urgente necessidade de se reduzir a poluição dos rios e lagos. Como as exigências ambientais foram se tornando cada vez mais restritivas, os planejadores concluíram que dados os altos investimentos requeridos para o tratamento dos efluentes, se torna mais vantajoso reutilizar estes efluentes ao invés de lançá-los de volta aos rios.

Os benefícios ambientais decorrentes da adoção da prática do reuso de água são:

• Redução do lançamento de efluentes industriais em cursos d’água, possibilitando melhorar a qualidade das águas interiores das regiões mais industrializadas; • Redução da captação de águas superficiais e subterrâneas, possibilitando uma situação ecológica mais equilibrada; • Aumento da disponibilidade de água para usos mais exigentes, como abastecimento público, hospitalar, etc.

Os benefícios econômicos do reúso são:

• Conformidade ambiental em relação a padrões e normas ambientais estabelecidos, possibilitando melhor inserção dos produtos brasileiros nos mercados internacionais; • Mudanças nos padrões de produção e consumo;

• Redução dos custos de produção;

• Aumento da competitividade do setor;

• Habilitação para receber incentivos e coeficientes redutores dos fatores da cobrança pelo uso da água. Os benefícios sociais do reuso são:

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• Ampliação da oportunidade de negócios para as empresas fornecedoras de serviços e equipamentos, e em toda a cadeia produtiva; • Ampliação na geração de empregos diretos e indiretos;

• Melhoria da imagem do setor produtivo junto à sociedade, com reconhecimento de empresas socialmente responsáveis.

7. OBJETIVOS E TIPOS DE REÚSO DE ÁGUAS

O reúso de água pode ser definido como a adoção de práticas, técnicas e tecnologias que propiciam a melhoria da eficiência do seu uso. Conservar água significa atuar de maneira sistêmica na demanda e na oferta de água. Ampliar a eficiência do uso da água representa, de forma direta, aumento da disponibilidade para os demais usuários, flexibilizando os suprimentos existentes para outros fins, bem como atendendo ao crescimento populacional, à implantação de novas indústrias e à preservação e conservação do meio ambiente. Assim sendo, as iniciativas de racionalização do uso e de reúso de água se constituem em elementos fundamentais em qualquer iniciativa de conservação.

O desenvolvimento efetivo de um Programa de Conservação e Reúso de Água exige que sejam considerados os aspectos legais, institucionais, técnicos e econômicos, relativos ao consumo de água e lançamento de efluentes, às técnicas de tratamento disponíveis e ao potencial de reúso dos efluentes, além do aproveitamento de fontes alternativas de abastecimento de água.

O principal objetivo é apresentar as etapas envolvidas na implantação de um Programa de Conservação e Reúso de Água. Cada solução, entretanto, é específica e exclusiva em função das diversas atividades consumidoras, processos e procedimentos envolvidos, sistema hidráulico instalado, arranjo arquitetônico, localização do empreendimento e outros fatores intervenientes. Em cada caso deverão ser avaliados os equipamentos e tecnologias mais apropriados, dentre as diversas opções existentes, ressaltando-se que uma determinada configuração tecnológica pode ser excelente para uma implantação específica e totalmente inadequada para outra.

Os tipos de reúso de águas podem ser: a) Reúso agrícola - O uso consuntivo do setor agrícola é, no Brasil, de aproximadamente 70% do total. Essa demanda significativa, associada à escassez de recursos hídricos leva a ponderar que as atividades agrícolas devem ser consideradas como prioritária em termos de reúso de efluentes tratados. Efluentes adequadamente tratados podem ser utilizados para aplicação em: culturas de alimentos não processados comercialmente; irrigação superficial de qualquer cultura alimentícia, incluindo aquelas consumidas cruas; culturas de alimentos processados comercialmente; irrigação superficial de pomares e vinhas; culturas não alimentícias; pastos, forragens, fibras e grãos; dessedentação de animais, etc. b) Reúso Urbano para fins não potáveis - Na área urbana os usos potenciais são os seguintes: irrigação de campos de golfe e quadras esportivas, faixas verdes decorativas ao longo de ruas e estradas, torres de resfriamento, parques e cemitérios, descarga em toaletes, lavagem de veículos, reserva de incêndio, recreação, construção civil (compactação do solo, controle de poeira, lavagem de agregados, produção de concreto), limpeza de tubulações, sistemas decorativos tais como espelhos d’água, chafarizes, fontes luminosas, etc.

Qualidade e reúso de água na agropecuária c) Reúso industrial - As atividades industriais no Brasil respondem por aproximadamente 20% do consumo de água, sendo que, pelo menos 10% é extraída diretamente de corpos d’água e mais da metade é tratada de forma inadequado ou não recebe nenhuma forma de tratamento. Face à sistemática de outorga e cobrança pelo uso da água, que vem sendo implementada pela Agência Nacional das Águas - ANA, a indústria será duplamente penalizada, tanto em termos de captação de água como em relação ao lançamento de efluentes. O reúso e reciclagem na indústria passam a se constituir, portanto, ferramentas de gestão fundamentais para a sustentabilidade da produção industrial. A prática de reúso industrial pode ser entendida na produção de água para caldeiras, em sistemas de resfriamento como água de reposição, em lavadores de gases e como água de processos. d) Reúso no meio ambiente - Wetlands, habitats naturais, aumento do fluxo de água, estabelecimentos recreacionais, contato acidental (pesca e canoagem), e contato integral com a água permitido, represas e lagos, lagoas estéticas em que o contato com o público não é permitido. e) Recarga de aqüíferos - A recarga artificial de aqüíferos com efluentes tratados pode ser empregada para finalidades diversas, incluindo o aumento de disponibilidade e armazenamento de água, controle de salinização em aqüíferos costeiros, controle de subsidência de solos. Esta prática pode ser relevante em alguns municípios, abastecidos por água subterrânea, onde a recarga natural de aqüíferos vem sendo reduzida pelo aumento de áreas impermeabilizadas.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O conjunto das atividades humanas, cada vez mais diversificado, associado ao crescimento demográfico, vem exigindo atenção maior às necessidades de uso de água para as mais diversas finalidades.

Essas necessidades cobram seus tributos tanto em termos quantitativos quanto qualitativos, e se evidenciam principalmente, em regiões com características de maior desenvolvimento humano, industrial e agrícola. No entanto, há de destacar a existência de regiões onde a escassez e a má distribuição de água tornam-se limitantes ao seu próprio processo de desenvolvimento.

Em todas essas situações, uma questão chave aparece: Como enfrentar a relação demanda/oferta de água? E a resposta passa invariavelmente pela necessidade de serem estabelecidas políticas adequadas e implementados sistemas de gestão efetivos.

Diversos são os instrumentos, os mecanismos e as tecnologias a serem empregados no tratamento dessa questão, porém vários deles carecem de estudos e investigações que auxiliem o seu melhor emprego e produzam sanitários, ambientais e econômicos satisfatórios.

Uma alternativa que se tem apontado para enfrentamento do problema é o REUSO DE

ÁGUA, importante instrumento de gestão ambiental do recurso água e detentor de tecnologias já consagradas para sua adequada utilização.

Parte integrante de um sistema de gestão, a adoção de tecnologias de reúso de água depende do tipo de reúso. Pela importância do reúso de água na agricultura, envolvendo a aplicação de águas residuárias agroindustriais e salinas no solo, aumento da disponibilidade hídrica e de nutrientes e mesmo recuperação de solos em processos de degradação.

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Dessa forma o conjunto de informações e conhecimentos atuais discute-se a relevância da aceitação da água de reúso como prática habitual e necessária, tanto pelos agentes econômicos quanto pelos sociais e políticos, baseados em processos de decisão com a devida participação comunitária. Naturalmente, a adequada abordagem junto a esses agentes pode contar com técnicas de marketing que venha acelerar o entendimento e facilitar a adoção do reúso de água como importante instrumento de gestão ambiental.

9. REFERENCIAS

HESPANHOL, I. Esgotos Domésticos como Recursos Hídricos – Parte I – Dimensões Políticas, Institucionais, Legais, Econômico-financeiras e Sócio-culturais. Revista Engenharia, São Paulo, n. 523, p. 45-58, 1997.

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