Saúde na escola

Saúde na escola

(Parte 7 de 8)

Alterações auditivas podem dificultar o processo de escolarização e aprendizagem, podendo se manifestar como problemas de fala, ou de leitura e/ou da escrita, ou mesmo problemas comportamentais, como baixa autoestima e baixo rendimento escolar.

As consequências de perda auditiva no desenvolvimento da criança dependem do grau da diminuição da audição e também de suas características pessoais. Podemos ter crianças com o mesmo grau de perda auditiva (leve, moderada, severa ou profunda) que se comportam de maneiras distintas.

Quanto mais precocemente for detectada a deficiência auditiva, acoplada à introdução imediata de medidas de reabilitação, aumentam-se as chances de maturação adequada do sistema auditivo central, possibilita-se o acolhimento de conflitos dos pais e orientações adequadas que podem minimizar as consequências da deficiência auditiva no desenvolvimento da criança.

A criança deficiente auditiva pode ter o desenvolvimento da linguagem e a escolarização semelhante ao do ouvinte, desde que seja submetida a uma intervenção adequada; se insuficiente ou tardia, pode acarretar incapacidades irreversíveis.

A deficiência auditiva permanente, de acordo com o Consenso Europeu em Triagem

Auditiva Neonatal (1998), é definida quando a média dos limiares auditivos obtidos nas frequências 500, 1.0 e 2.0 Hz for maior que 40 dB bilateralmente.

A surdez na infância é uma das mais sérias limitações que pode ocorrer a uma criança pequena, porque ela não permite que se atinja um desenvolvimento ótimo e afeta a relação com o mundo em que vive. A equipe de saúde tem uma responsabilidade primordial em relação à criança surda: ela tem que estar consciente do problema e de suas implicações, bem como dos meios para assegurar o manejo ideal da criança. Com paciência, compreensão e dedicação, a equipe pode ser o agente mais importante na adaptação da criança surda a nossa complexa sociedade. (COMITEE ON CHILDREN WITH HANDICAPS, 1973).

O desconhecimento dos fatores de risco presente em 46% das crianças surdas e as orientações inadequadas fornecidas pelos profissionais de saúde em 13% destas indicam que se suspeita pouco de surdez. O diagnóstico precoce de surdez na infância depende da identificação da população de risco e da testagem periódica com metodologia adequada. O Comitê Brasileiro sobre Perdas Auditivas na Infância (CBPAI) recomenda a implantação da Triagem Auditiva Neonatal Universal (TANU) para todas as crianças do nascimento até os três meses de idade. A Academia Americana de Pediatria recomenda a utilização de métodos eletrofisiológicos nos programas de triagem auditiva neonatal como o Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico – PEATE e as Emissões Otoacústicas Evocadas – EOAE (Teste da Orelhinha) (AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, 2000). Nos casos de deficiência auditiva confirmada, deve haver intervenção educacional até os seis meses de idade, pois a deficiência auditiva pode levar a um comprometimento importante do desenvolvimento linguístico, educacional e psicossocial da criança. Esses problemas podem ser minimizados quando detectados precocemente e tratados antes da idade de escolarização. Como muitas crianças não têm acesso a nenhum tipo de avaliação auditiva antes do início da vida escolar,

MINISTÉRIO DA SAÚDE / Secretaria de Atenção à Saúde / Departamento de Atenção Básica a avaliação auditiva nas escolas e creches é um importante instrumento para a identificação e correção precoce dos problemas de audição.

No caso de escolares, entre os diversos fatores que podem prejudicar o desempenho de uma criança, podemos destacar os sensoriais, psíquicos, neurológicos, linguísticos, intelectuais, sociais, entre tantos. Dentro dos fatores sensoriais, a audição assume importante função no processo da aprendizagem, uma vez que o escolar recebe a maioria das informações pedagógicas por meio de exposições orais.

Como exposto, qualquer tipo de perda auditiva (condutiva, mista ou sensorioneural) pode afetar o desenvolvimento de uma criança, com maior ou menor intensidade, dependendo do grau da perda (leve, moderada, severa ou profunda), frequência e período de tempo em que a criança permanece sob essa condição.

As perdas auditivas severas e profundas geralmente são percebidas nos primeiros anos de vida pelos familiares, pois as consequências atingem gravemente o desenvolvimento da fala. Por outro lado, distúrbios auditivos transitórios, discretos, leves ou até mesmo unilaterais costumam passar despercebidos durante anos, com efeitos adversos na compreensão da fala e, consequentemente, no aprendizado.

A Política Nacional de Atenção à Saúde Auditiva (Portaria MS/GM nº 2.073/04),

(BRASIL, 2004b) e normas complementares (Portaria MS/SAS nº 587/04 e 589/04), (BRASIL, 2004d) estabelecem que cabem à Atenção Básica: “Realizar ações de caráter individual ou coletivo, voltadas para a promoção da saúde auditiva, da prevenção e da identificação precoce dos problemas auditivos, bem como ações informativas, educativas e de orientação familiar”.

Complementa também a referida Política que, em relação à saúde da criança e do adolescente, é papel da atenção primária:

• Imunização e controle de doenças infantis como caxumba, sarampo, meningite;

• Orientação para evitar acidentes com a introdução de objetos e hastes de limpeza na orelha, que podem ferir e prejudicar a lubrificação natural do conduto (cerume);

• Orientação acerca dos riscos da exposição a ruído não ocupacional (aparelhos eletrônicos, brinquedos, ambientes de lazer com níveis sonoros elevados e outros);

• Atenção aos transtornos das vias aéreas superiores (otites de repetição e outros);

• Acompanhamento do desenvolvimento sensório-motor, psicológico, cognitivo, visual, auditivo e de linguagem por meio da observação do comportamento da criança/bebês;

• Orientação à família com relação ao desenvolvimento de linguagem e da audição, valorizando a preocupação e/ou suspeita dos pais quanto à capacidade auditiva de seus filhos;

• Identificação precoce dos neonatos que devem ser referenciados para avaliação especializada, a partir da história clínica, da presença de agravos que comprometem a saúde auditiva, e dos fatores de risco para deficiência auditiva, conforme quadro abaixo.

Sinais de alerta para surdez (VIEIRA, 2007):

• QUATRO MESES: criança não acorda ou não se mexe em resposta à fala ou barulho, logo que começa a dormir em um quarto tranquilo;

• QUATRO A CINCO MESES: criança não vira a cabeça ou os olhos para a fonte sonora (não pode ser dada nenhuma pista visual);

• SEIS MESES: criança não se vira propositadamente em direção à fonte sonora (sem pista visual);

• OITO MESES: criança não tenta imitar os sons feitos pelos pais;

• OITO A DOZE MESES: perda da variedade na melodia e sons durante a silabação;

• DOZE MESES: sem entendimento aparente de frases simples (não pode envolver pistas visuais/gestuais ou experiências anteriores do que foi solicitado);

• TRÊS ANOS: fala na maior parte ininteligível, muitas omissões de consoantes iniciais, não usa frases com duas a três palavras e fala principalmente vogais;

• CINCO ANOS: o final das palavras está sempre faltando;

• IDADE ESCOLAR: pedidos frequentes para que se repitam frases, vira a cabeça em direção ao orador, fala com intensidade elevada ou reduzida, demonstra esforço ao tentar ouvir, olhar e concentrar-se nos lábios da professora, é desatento quando há debates na sala de aula, prefere o isolamento social, ser passivo ou tenso, cansa-se com facilidade, não se esforça para demonstrar capacidade, tem dificuldade no aprendizado.

Alguns outros sinais e sintomas podem estar associados à perda auditiva e merecem atenção, como a respiração oral, tontura, otalgia e zumbido. Também devem ter avaliação auditiva as crianças com dificuldades escolares de linguagem oral (confusões fonéticas, inversões, dissimulações e trocas na articulação), de linguagem escrita (trocas, dificuldades na expressão escrita e na leitura) e de outra natureza (dislexia, disfasia e alterações comportamentais) (VIEIRA, 2007).

A técnica de avaliação audiológica varia em função da idade, do nível de desenvolvimento da criança, da etiologia do problema auditivo, das condições otológicas e dos antecedentes da criança. Para crianças acima de cinco/seis anos, testes audiométricos tradicionais podem ser utilizados (DUNCAN, 2008). A audiometria tonal e a vocal buscam quantificar os limiares auditivos. A audiometria tonal afere a menor intensidade sonora capaz de gerar sensação auditiva na criança para tons puros, enquanto a audiometria vocal o faz para estímulos de fala. Recomenda-se a realização de otoscopia e impedanciometria como exames complementares à audiometria para se excluir os problemas do ouvido externo e médio que possam interferir nos resultados. Os casos positivos para deficiência

MINISTÉRIO DA SAÚDE / Secretaria de Atenção à Saúde / Departamento de Atenção Básica auditiva devem ser encaminhados para avaliação cuidadosa por profissional médico e para tratamento adequado (AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS, 2000). Da mesma forma, acompanhamento com profissionais fonoaudiólogos ou outros profissionais pode ser necessário diante de problemas de acuidade auditiva. Quando for necessário, em caso de suspeita de perda auditiva, o aluno deve ser encaminhado, pelas Unidades Básicas de Saúde, às unidades especializadas em saúde auditiva, organizadas em Redes Estaduais de Reabilitação.

Na Caderneta de Saúde da Criança (BRASIL, 2008c), encontram-se campos para anotações relativas à realização da triagem auditiva em neonatos e em pré-escolares e escolares e também existem orientações aos pais para que acompanhem o desenvolvimento da audição e linguagem com sinais e alertas para problemas auditivos.

5.6 AVALIAÇÃO NUTRICIONAL

5.6.1 Por que fazer avaliação nutricional nas escolas?

Desde as etapas mais iniciais da vida, alimentar-se significa muito mais do que comer. O alimento não só satisfaz uma das necessidades primárias, como a fome, mas também constitui um importante estímulo sensorial, visto que tem propriedades de “impressionar” e provocar prazer aos órgãos dos sentidos humanos: visão, audição, olfato, paladar e tato (ACOSTA, 2001).

Além disso, o ato de alimentar-se atua como um integrador social, já que traz a possibilidade de encontrar-se, compartilhar e comunicar-se. Os alimentos não são somente alimentos. Alimentar-se é um ato nutricional, que envolve a adequação de nutrientes e calorias; comer é um ato social, pois constitui atitudes ligadas aos usos, costumes, condutas, crenças e situações. Com isso, nenhum alimento que entra em nossas bocas é neutro e o que se come é tão importante quanto quando se come, onde se come, como se come e com quem se come (SANTOS, 2005).

A escolha dos alimentos é um dos momentos mais fortemente influenciados pelos fatores econômicos e sociais que rodeiam o indivíduo e sua família. Todo grupo humano tem um padrão alimentar que é próprio, resultado de uma complexa trama de usos, costumes e tradições que se transmitem e se modificam ao longo da sua história (ACOSTA, 2001). Os amigos, a família, a escola, o preço, a moda, o prazer, o status e a mídia, a cultura e, eventualmente, as crenças religiosas são alguns dos fatores que influenciam as escolhas alimentares.

Nas últimas décadas, mudanças econômicas, sociais e demográficas decorrentes da modernização e urbanização provocaram alterações no estilo de vida da população e, em particular, dos hábitos alimentares (MONTEIRO et al., 2000). O padrão alimentar da população foi alterado gradativamente, com incremento de alimentos altamente calóricos, ricos em açúcar, gordura saturada e gordura trans e com quantidades reduzidas de carboidratos complexos e fibras (BRASIL, 2006c).

Diante desse cenário, as doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como diabetes, obesidade, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e câncer, apresentaram importante aumento, além da permanência de outras doenças relacionadas à alimentação, tais como a desnutrição e deficiências por micronutrientes, como anemia ferropriva, hipovitaminose A e distúrbios por carência de iodo. Com isso, o Brasil apresenta importantes desafios de saúde pública que afetam não apenas a população adulta, mas também os escolares. Assim, a equipe de Saúde da Família deve ter presente esses elementos na hora de avaliar o estado nutricional e de realizar ações para promover mudanças nos hábitos e costumes alimentares das pessoas, famílias e comunidades que estão sob seu cuidado.

Acompanhar a evolução do estado nutricional dos indivíduos da comunidade escolar, inclusive de escolares, é uma das ações previstas pelo Programa Saúde na Escola. A realização da vigilância alimentar e nutricional representa um olhar atento sobre o estado nutricional e o consumo alimentar da população. O conhecimento dessas informações permite que os gestores locais e as equipes de Saúde da Família possam implementar estratégias visando à melhoria das condições de saúde relacionadas com a alimentação e nutrição.

Avaliação nutricional é o processo de determinar o estado nutricional da pessoa. Este se refere ao resultado do equilíbrio entre o consumo de nutrientes e gasto energético do organismo para suprir as necessidades nutricionais (BRASIL, 2007a). Em cada fase do curso da vida, o estado nutricional expressa a relação entre (a) os alimentos ingeridos, (b) a capacidade do organismo em aproveitá-los e (c) o gasto de energia frente às necessidades nutricionais. Assim, o estado nutricional das pessoas é um “sinal vital” tão importante, por exemplo, quanto à pressão arterial. O papel da nutrição na promoção da saúde inclui não somente abordar a dieta e a prevenção de doenças, mas também avaliar as necessidades de mudanças nutricionais relacionadas às diferentes fases do crescimento e desenvolvimento humanos (SPEER, 2002).

A avaliação nutricional é requisito para determinar ou não a necessidade de uma intervenção alimentar. A nutrição é reconhecidamente um fator crítico na promoção da saúde e prevenção das doenças. Mesmo a má nutrição moderada pode trazer consequências tardias no desenvolvimento cognitivo das crianças e no seu rendimento escolar.

Quando a criança está faminta ou mal nutrida (podendo, neste caso, estar abaixo ou acima do peso ideal para sua faixa etária), tem mais chance de adoecer, de faltar à escola e ficar atrasada em relação à sua turma. Fica mais irritável, tem dificuldade de concentração e mais baixos níveis de energia. Padrões alimentares não saudáveis podem resultar em subnutrição, deficiência de ferro, sobrepeso e obesidade.

Paradoxalmente, ao lado da desnutrição, em especial a infantil, que ainda permanece um grave problema de saúde, há também o aparecimento da obesidade associado à infância. O risco de uma criança obesa desenvolver obesidade na vida adulta é muito maior do que em crianças com gordura corporal normal. O peso corpóreo durante a adolescência é considerado forte fator de previsão do peso no adulto (McARDLE, 2003). O sobrepeso, a obesidade e o desenvolvimento da síndrome metabólica em crianças e adolescentes representam na atualidade uma das condições mais desafiadoras para os sistemas de saúde (TEIXEIRA, 2008).

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