Revista Brasileira de Educação Ambiental-n°-Zero

Revista Brasileira de Educação Ambiental-n°-Zero

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educação ambiental educação ambiental revista brasileira deeducação ambiental Brasília - 2004 • Número Zero educação ambiental

educação ambiental matriz do nosso corpo anfitriã do nosso espírito parceira da nossa alma casa que nos sustenta e nos devora na corrente dos visíveis e invisíveis mães e pais berço do nosso aconchego poço das nossas dores luz da nossa alegria fonte do nosso saber és tudo que podemos tocar, sentir, penetrar, recusar, moldar, pressentir , pensar... com nossas palavras sementes amorosa presença espelho brilho do ter no ser separados e ligados bicho-pedra-vegetal somos as águas que nos navegam o fogo da compaixão os ventos que nos viajam e o chão ancestral no ciclo deste garimpo um dia tudo te devolveremos com o ouro da gratidão sabendo mais uma vez o sabor da dissolução por dentro, por fora no apego e na aversão re-corre re-cicla re-genera nossos medos em potentes desejos egoísmo solidário de ser mais e menos que o todo que assim se refaz.

gaia natureza

Lais Mourão julho de 2004

educação ambiental

Publicação da Rede Brasileira de Educação Ambiental w.rebea.org .br

Coordenação editorial: Heitor Medeiros (REMTEA - REBEA - DEA/MMA)

Michèle Sato (REMTEA - REBEA - UFMT)

Conselho Editorial: Aloísio Ruscheinsky (FURG-RS) • Áttico Chassot (UNISINOS-RS) • Frederico Loureiro (UFRJ-RJ)

Haydée de Oliveira (UFSCar-SP) • Hedy Vasconcelos (PUC-RJ) • Isabel Carvalho (ULBRA-RS) Laís Mourão (UnB-DF) • Luiz Marcelo de Carvalho (UNESP-SP) • Maria do Carmo Galiazzi (FURG-RS) Maria Inês Iguchi (Inpa-AM) • Maria Inês C. Levy (FURG-RS) • Maria Inêz de Oliveira (UFSE-SE) Martha Tristão (UFES-ES) • Mauro Guimarães (UNIGRANRIO-RJ) • Pedro Jacobi (USP-SP) Philippe Layargues (MMA-DF) • Ramiro Camacho (UERN-RN • Sônia Zakrzevski (URI-RS) Suíse M. Bordest (UFMT-MT) • Valdo Barcelos (UFSM-RS)

Fotos:Mário Friedlander (Parque Nacional da Chapada dos Guimarães - capa, contracapa e páginas 3, 6 e 9) Bené Fonteles (Projeto de arte e educação ambiental “Caminho das Águas” - Rio São Francisco - 1999/2000)

Projeto gráfico: Bené Fonteles/Licurgo S. Botelho Editoração eletrônica: Sapiens Comunicação

Os artigos aqui publicados refletem a posição de seus autores e são de sua inteira responsabilidade.

Revista brasileira de educação ambiental / Rede Brasileira de Educação Ambiental. – n. 0 (nov.2004). – Brasília: Rede Brasileira de Educação Ambiental, 2004. 140 p. v.:il. ; 28 cm.

Trimestral. Coordenação editorial: Heitor Medeiros e Michèle Sato

1. Educação ambiental – Brasil. I. Rede Brasileira de Educação Ambiental. CDU 37:504

Agradecemos as instituições, empresas e ONGs que também contribuíram para a realização do V Fórum Brasileiro de Educação Ambiental

Companhia Siderúrgica de Tubarão Conservação Internacional (CI) Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo (FINDES) Grupo de Defesa Ecológica (GRUDE) Instituto do Crisotila Serviço Nacional do Comércio (SENAC) e a todas as Redes de Educação Ambiental articuladas no âmbito da REBEA educação ambiental

PREFÁCIO – Música, maestros!7

Michèle Sato e Heitor Medeiros

Educar, participar e transformar em educação ambiental13

CONCEITOS EM EDUCAÇÃO AMBIENTAL Carlos Frederico B. Loureiro

Biografia e formação na educação ambiental: um ambiente de sentidos para viver21

Isabel Cristina Moura Carvalho

Educação e meio ambiente – transformando as práticas28

Pedro Jacobi

memórias do processo de elaboração do projeto-piloto de um curso de especialização37

A formação de educadores ambientais para sociedades sustentáveis: Maria de Lourdes Spazziani

Saberes e fazeres da educação ambiental no cotidiano escolar47

Martha Tristão

associação necessária para um mundo melhor?56

Crianças e educação ambiental na escola: Aline Viégas e Mauro Guimarães

Educação como processo na construção da cidadania ambiental63

Maria Inês Gasparetto Higuchi e Genoveva Chagas de Azevedo

A universidade e a formação de professores para a educação ambiental71

Maria Inês de Oliveira Araújo

Por uma educação ambiental crítica e emancipatória no meio rural79

Sônia Balvedi Zakrzevski

Educação ambiental e antropofagia – uma contribuição à formação de professores87

Valdo Barcelos

Tecendo a rede de educadores ambientais da Região Sul – REASul9

REDES DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL Antonio Fernando S. Guerra

Dialogando sobre a trajetória e os desafios da Rede CEAs108

Fábio Deboni da Silva e Alexandre Falcão de Araújo

Matutando na rede da radicalidade: sem medo de ser infeliz114

João Carlos Gomes (João Guató)

Um olhar sobre a Rupea – uma rede também deve ser um guarda-chuva?117

Luiz Antonio Ferraro Júnior

Uma reflexão sobre a trajetória da rede de educação ambiental do Rio de Janeiro...126 Patrícia Mousinho

Rebea – apontamentos pessoais para uma história de ação coletiva133

Vivianne Lucas do Amaral

Água e Paz140

Vera Lessa Catalão sumário

educação ambiental

A Rede Brasileira de Educação Ambiental – Rebea, quer criar (poiesis), através da poética (poietike). São duas dimensões de mesma origem, separadas e segregadas por um império do “eu-colonial” padronizador, mas que deve mudar para acolher as diferenças, convidando a transcendência à formação da “alteridade-cívica”.

educação ambiental prefácio

Música, maestros!

Michèle Sato Heitor Medeiros

As redes de Educação Ambiental – EA encerram um movimento de ambivalência, ora a linguagem da EA torna-se melodiosa ao ciclo da vida e da morte, ora os ruídos se fazem presentes impedindo a dinâmica dos movimentos. A comunicação, nesta simultaneidade polissêmica de sentidos, não pode ser tomada como meta exclusiva, pois informar alguma coisa não prescinde a compreensão dos diálogos entre os múltiplos matizes presentes no ambientalismo. A formação dos sujeitos, entre luzes e sombras que descortinam a EA, é, portanto, um dos desejos da Rede Brasileira de Educação Ambiental – Rebea.

Necessitando da participação de dramaturgos, produtores, espectadores, atrizes ou atores, o elenco da Rebea deseja ir além de seu próprio palco e lança a Revista Brasileira de Educação Ambiental (Revbea), número zero, como forma de comunicar nossas vivências, dar visibilidade, mostrar a face, mas também de formar, dialogar e trocar aprendizagens. Esta edição inaugural quer brindar a configuração das redes de EA por meio de CON-FETOS, um espaço híbrido capaz de promover a construção da formação dos sujeitos, de CONceitos coloridos e variados sem a vontade de estabelecer um único caminho hegemônico, bem como os aFETOS e a gratuidade da luta nos atos de generosidade. Os organizadores são gratos aos gestos dos colaboradores da Revbea, ofertados e gestados nos intentos rebeldes das energias transgressoras do movimento ecológico. Reconhecemos que a tessitura aqui presente, em jogos de luzes e sombras, alcança as estrelas nas vidas íntimas de cada sujeito, que mesmo com barros e lamas da face borrada pela eventual queda, ergue-se à liberdade do vôo construtivo da EA.

Hegemonicamente, a ciência moderna, e até a poesia dos iluministas, são abalroadas pelo pragmatismo da razão gestada pelas mudanças econômico-políticas que se processaram, culminando na ascensão da burguesia. A dislexia entre o capital e o trabalho, a sofisticada divisão técnica da produção e a supremacia da máquina substituindo o trabalhador encarnam-se, de uma só vez, no vitorioso mecanicismo newtoniano, o qual reduziu o vasto universo num conjunto de especializações, cada qual com sua partitura, instrumento e regente, ignorando a música orquestral, na perspectiva do trabalho coletivo.

É aqui que a Rebea permite a simultaneidade da queima do fogo e da quietude da alma. Trata-se de articular o singular com o particular, este com o universal e suas ingerências com a totalidade do universo. A Rebea quer criar (poiesis), através da poética (poietike). São educação ambiental duas dimensões de mesma origem, separadas e segregadas por um império do “eu-colonial” padronizador, mas que deve mudar para acolher as diferenças, convidando a transcendência à formação da “alteridade-cívica”. E na escuridão que se faz presente em determinados momentos, somos capazes de olhar o brilho das estrelas, amanhecendo na doçura dos saberes com sabores, e também desafiando o horizonte, como um exuberante pôr-do-sol para a subversão e queda do império meramente racional. O pensamento ecológico, neste cenário, com especial ênfase à EA, surge como a necessidade de um conhecimento que satisfaça os vínculos, busque as interações e implicações mútuas, os fenômenos multidimensionais, as realidades solidárias e conflituosas; respeite a diversidade do todo, reconhecendo as partes e suas injunções. Emerge a vontade de dialogar nas diferenças sem tentar pasteurizar a dinâmica ambiental. Assume a crise e sem reivindicar o caos, insere-se no ciclo da vida e da morte sem desprezar as dificuldades.

Utilizando-se da metáfora musical que rege este título, uma rede de EA pode simbolizar uma orquestra. Se os sujeitos sociais e ecológicos atuarem com a mesma compreensão e ação, estaremos reduzidos a um único instrumento musical, como a monotonia do Bolero de Ravel, insistindo nas mesmas notas musicais. Ainda que este compasso seja necessário, por vezes o ritmo do movimento circular da epistemologia, praxiologia e axiologia da EA reivindica por uma orquestra, onde tocar juntos requer uma partitura mais elaborada e uma competência mais considerável. Ainda que numa orquestra os músicos não possam escolher as partituras ou eleger o regente, o som da improvisação orquestral pode representar uma revolução, onde a dissonância pode ser compreendida como parte da transição da modernidade e onde os conhecimentos se complementam para a interpretação conjunta de uma realidade.

Merleau-Ponty1 diria que, se por um lado nosso desejo de abrir as asas em vôos livres caracteriza nossas esperanças, por outro também somos incompletos. A “incompletude” admitida nos lembra que dependemos dos outros, e de muitas outras, para alcançarmos uma dinâmica auto-eco-organizativa da Terra. A incompletude humana necessita, assim, buscar a realização de nossos desejos em projetos coletivos, formando os múltiplos matizes e fios de uma rede que se balança, titubeia, move, pára e dança ao som da música mais sensível que pode nos trazer memórias jamais esquecidas, ou de esperanças que nos movam para a transformação desejada. E exatamente por sermos incompletos, isso nos possibilita uma perspectiva de transcendência, mediante a qual construímos tempos e espaços simbólicos, representações e experiências vivenciais que nos permitem superar nossas próprias fragilidades.

Ainda que presas sob certas singularidades, as redes de EA desejam promover a participação dos sujeitos na proteção ambiental pela eqüidade social. A democracia, para a Rebea, representa uma iconografia incondicional dos diálogos, das multirreferências dos sujeitos e das interferências, que muitas vezes nos cortam como espinhos de uma flor do Cerrado, mas que buscam retornar na primavera da Caatinga. Os caminhos da aprendizagem não são postos e a Rebea quer ser como um andarilho, caminhando sem pressa e sem violência, buscando suas estratégias nas essências amazônicas, matas atlânticas e águas pantaneiras.

1MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1971.

2Contribuição da autora à edição de lançamento, gentilmente enviada para o número zero. Lais Mourão é docente da UnB, pesquisadora em EA.

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