Livro - a forma do engenheiro inovador

Livro - a forma do engenheiro inovador

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Um segundo campo é o da profundidade e tipo de conhecimento necessário: de simples treinamento técnico a um conhecimento científico aprofundado ou uma formação social ou gerencial aprimorada127, lembrando que a formação tecnológica (não a formação técnica especializada) é uma característica essencial do engenheiro. Uma ponta do campo é a formação de um técnico conhecendo apenas o estado da prática em sua área (um mestre de obras, por exemplo). Uma posição intermediária é a de um engenheiro com conhecimento do estado da técnica (às vezes desvinculado de um bom conhecimento do estado da prática). Outra ponta do campo corresponde a engenheiros com conhecimento do estado da arte, ou mesmo da ciência subjacente (como apresentado no Apêndice a este

Convém relembrar: o papel social de um engenheiro é a função esperada e/ou exercida pelo engenheiro no seu contexto social, e que o identifica socialmente como tal. Fora desta função se dirá, naquela sociedade e naquele momento histórico, que "o profissional não trabalha como engenheiro". Ver Sandra R. da Rocha Pinto, A educação profissional de nível técnico à luz do modelo de competências: uma análise comparativa da implantação de três propostas institucionais. Tese de Doutorado, Departamento de Educação, PUC-Rio, 2000. Neste texto é mostrada a insatisfação dos técnicos formados pelo SENAI-RJ, que nem se sentem como técnicos especializados (ficam insatisfeitos nesta posição), nem como engenheiros (sentem-se pouco capacitados), isto é, gerentes técnicos. Institut Universitaire Technique, que fornecem, na França, cursos tecnológicos curtos, mas de nível superior. As Fahohschüles fazem o mesmo na Alemanha. Este segundo campo é uma particularização dos eixos de formação apresentados por G. Lespinard no ICEE99, em Óstrava e Praga.

técnico especializado técnico generalista gerente técnico gerente de produto gerente de processo gerente corporativo

Capítulo I Um quadro conceitual para a formação do engenheiro capítulo). As demais pontas consideram a formação social & gerencial aprofundada, e a formação humanística & ética aprofundada. De fato, qualquer posição intermediária é possível - ver a Figura I.3.

De um engenheiro estadunidense formado em um college (ou do incorporated engineer inglês, ou do ingenieur formado em uma Fahohschule) não se espera mais que um conhecimento técnico (limitado ao estado da técnica em sua especialidade). Fala-se de instrução ou de treinamento128. Já do ingénieur francês formado em uma Grande École, ou do engenheiro saído de uma "research university" estadunidense ou de Cambridge (na Inglaterra), espera-se uma formação científica mais profunda e uma formação social e gerencial aprimorada (estado da arte e formação científica), embora um conhecimento do estado da prática e da técnica reduzido essencialmente aos trabalhos executados em algum estágio técnico.

Claro, estas questões estão associadas ao seu papel social. A observar que há uma expectativa de que a formação social129 ou gerencial e a formação científica – em engenharia – tenham níveis de profundidade correlacionados. Esta expectativa é confirmada pelas pesquisas sociológicas, fato mais determinado pela origem social dos profissionais e pelo processo de seleção das escolas de maior prestígio – associados aos papéis sociais esperados de seus alunos – do que por uma lógica implícita às duas formações130.

Figura I.3: Campo das formações (considerando sua profundidade).

Um terceiro campo corresponde às disciplinas da engenharia, divisão dos saberes relativa às classes de problemas que são tratados, ou ao tipo de produto ou serviço. Por exemplo: • arquitetura e urbanismo131,

• biotecnologia e ambiente,

• engenharia civil,

• engenharia dos materiais (incluindo metalurgia),

• engenharia mecânica,

• engenharia química,

• serviços e sistemas sócio-econômicos,

• sistemas de transporte e logística,

• sistemas elétricos e eletrônicos,

• telecomunicações,

M. Dodridge, Convergence on engineering higher education – Bologna and beyond, Proceedings of the Ibero-American Summit on Enginnering Education; São José dos Campos, SP: UNIP, 2003. Aqui entram a "formação humanística" e a "formação ética", por exemplo. Bourdieu, op. cit. Na França fala-se de "aménagement", incluindo a organização dos equipamentos em áreas rurais.

treinamento técnico especializado formação social e/ou gerencial aprofundada formação científica aprofundada formação tecnológica formação cultural e ética

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