Fisica - mod 2 - volume 4 - psicologia da educação - und 1

Fisica - mod 2 - volume 4 - psicologia da educação - und 1

(Parte 1 de 4)

Profª. Dr“. Karina Pereira Pinto

Doutora em Educação pela PUC/SP, mestre em Psicologia Social pela UERJ, graduada em Psicologia pela UERJ. Professora da área de Psicologia do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da UESC. É professora e pesquisadora na área de Formação de Professores e atua nos seguintes temas: Psicologia e Educação, Psicologia Social, Processos de Exclusão Social, Saúde Mental, História da Psicologia. Coordena, juntamente com Hildeberto Vieira Martins (UFF), o Grupo de Pesquisa Interinstitucional “Saberes Psicológicos e Produção de Subjetividades: História, Educação, Diversidade Sociocultural e suas interfaces”, cadastrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq.

Abordagem histórica da Psicologia com vistas à identificação de paradigmas disponíveis para o trabalho de Psicologia em Educação. Análise crítica da Psicologia como ciência aplicada à educação em seu estágio atual de desenvolvimento. Principais escolas psicológicas e suas relações com a Educação. Reflexão, análise e crítica das práticas contemporâneas em educação.

Carga Horária: 60 horas-aula.

Ao final da unidade o(a) aluno(a) deverá:

• compreender o campo de conhecimento da Psicologia como ciência, diferenciando-o do senso comum; • compreender a relação histórica entre a Psicologia e a

Educação; • analisar, de maneira crítica, o papel da Psicologia na sociedade.

1unidade

Objeti v os

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PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Construção do conhecimento psicológico

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1 Unidade

1 PRIMEIRAS PALAVRAS

A Psicologia está presente em nossa sociedade como uma área de conhecimento muito importante em vários setores: escolas, hospitais, empresas, dentre outros. Hoje em dia, é muito difícil pensar numa sociedade que não usufrua dos conhecimentos da Psicologia em sua organização. Mas a Psicologia é uma ciência datada, isto é, em algum momento da história da humanidade, estudos que tratavam de temas próximos foram organizados no que chamamos hoje “disciplina Psicologia”. Desde então, muitas teorias foram elaboradas e disseminadas nos vários espaços sociais, alcançando uma grande difusão.

Iniciaremos esta unidade com uma reflexão sobre o campo de conhecimento da Psicologia, buscando compreender como a Psicologia se caracteriza como uma ciência e, ao mesmo tempo, como uma profissão. Na sequência, vamos diferenciar ciência de senso comum, para obtermos uma melhor compreensão sobre os aspectos da Psicologia que são científicos e que, portanto, podem servir de base para práticas profissionais variadas. Faremos uma breve análise sobre a história da constituição do campo de conhecimento da Psicologia e também sobre a história da Psicologia no Brasil, com ênfase na história da relação entre a Psicologia e a educação, buscando compreender de que modo a Psicologia se inseriu na sociedade brasileira e que práticas ela difundiu, especialmente as ligadas ao binômio normadesvio. E, por fim, analisaremos as preocupações atuais da Psicologia e de que modo os estudos recentes da Psicologia estão voltados para uma reflexão sobre compromisso social.

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Construção do conhecimento psicológico 2 PROBLEMATIZANDO O TEMA

A Psicologia exerce certo fascínio sobre as pessoas, pois carrega consigo uma representação de que é capaz de desvendar os mistérios do ser humano. É como se pudéssemos enxergar além das aparências e dizer a verdade que está oculta sobre algo. Mas esta é uma ideia que precisa ser mudada.

Durante muitas décadas, a Psicologia foi utilizada na sociedade como uma ferramenta para classificar pessoas, dizendo quem estava certo, por estar dentro da norma, e quem era caracterizado como desvio ou anormalidade, por estar fora dos padrões pré-estabelecidos.

Infelizmente, este uso dado à Psicologia ainda é frequente. Para realizar tal tarefa, a Psicologia traz consigo algo muito poderoso que dificilmente é contrariado: o discurso científico. Em nome da ciência, pessoas são excluídas do convívio social como, por exemplo, crianças e adolescentes que têm suas vidas escolares prejudicadas, quando não interrompidas, por receberem de professores, orientadores educacionais e especialistas em Psicologia rótulos como “problemático”, “desestruturado”, “delinquente”, “pervertido”, “drogado”, “carente” etc. Muitas vezes a própria pessoa que recebe o rótulo passa a acreditar que é incapaz do convívio social, se autossegregando, afinal, quem rotulou “sabe” o que está falando, pois está baseado em estudos científicos.

É aí que encontramos um grande impasse da Psicologia: como pode uma ciência como a Psicologia excluir pessoas? Será que a Psicologia realmente tem o poder de revelar a verdade sobre os seres humanos? Será que a ciência realmente revela verdades ou apenas apresenta pontos de vista sobre determinadas questões? O que é Psicologia, quando surgiu, como e por que ganhou tanta importância em nossa sociedade? Que relação queremos que exista entre a Psicologia e a Educação? Estas são algumas questões que veremos ao longo desta unidade.

3 PSICOLOGIA COMO CAMPO DE CONHECIMENTO CIENTÍFICO

A Psicologia só se constituiu como um campo de conhecimento científico muito recentemente, no final do século XIX, e não possui

Figura 1 – Extraída de: http://ryotiras.com/wp-content/uploads/2009/07/esteriotipos2.jpg

Figura 2 – Fonte: http://1.bp.blogspot. com/_PvAV129JXDU/SPe-amaNJnI/ AAAAAAAADak/S8BgwQ4fkLs/s320/ orelhas_burro.jpg

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1Unidade um único objeto de estudo. A definição mais comum sobre o objeto da Psicologia é dizer que estuda o comportamento. Esta definição, no entanto, não é adequada, pois limita bastante as potencialidades do campo de conhecimento da Psicologia, uma vez que o estudo do comportamento é apenas um dos muitos de seus estudos.

Ana Bock, Odair Furtado e Maria de Lourdes Teixeira (2007) apontam que um dos motivos que produzem a dificuldade na definição do objeto da Psicologia está diretamente relacionado ao

[...] fato de o cientista – o pesquisador – confundirse com o objeto a ser pesquisado. No sentido mais amplo, o objeto de estudo da Psicologia é o Homem, e, neste caso, o pesquisador está inserido na categoria a ser estudada. Assim, a concepção de homem que traz consigo ‘contamina’ inevitavelmente a sua pesquisa em Psicologia. Isso ocorre porque há diferentes concepções de homem entre os cientistas (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2007, p. 21).

Dentre as várias formas de conceber o homem, os autores apontam: uma visão de homem natural, “formulada pelo filósofo francês Rousseau, que imagina que o homem era puro e foi corrompido pela sociedade” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2007, p. 21-2); a noção de homem abstrato, isto é, “com características definidas e que não mudam, a despeito das condições sociais a que esteja submetido” (id. idem, p. 21-2); e a visão de homem como um ser sócio-histórico, que é datado e constituído a partir das transformações históricas, culturais, sociais etc.

O fato de a Psicologia não possuir um único objeto “leva-nos a questionar a caracterização da Psicologia como ciência e a postular que no momento não existe uma Psicologia, mas Ciências Psicológicas embrionárias e em desenvolvimento” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2007, p. 2). Pela impossibilidade de definição de um único objeto da Psicologia, os autores citados optam por definir a identidade da Psicologia, uma vez que tal identidade a diferencia dos demais ramos das ciências humanas, demarcando-a como uma ciência que colabora com o estudo da subjetividade. Mas, o que é subjetividade? Não há uma única definição sobre o que seja subjetividade, pois

ATENÇÃO Atenção:Objeto(s) de estudo da Psicologia

“Conforme a definição de homem adotada, teremos uma concepção de objeto que combine com ela. Como neste momento há uma riqueza de valores sociais que permitem várias concepções de homem, diríamos simplificadamente que, no caso da Psicologia, esta ciência estuda os ‘diversos homens’ concebidos pelo conjunto social. Assim, a Psicologia hoje se caracteriza por uma diversidade de objetos de estudo. Por outro lado, essa diversidade de objetos justifica-se porque os fenômenos psicológicos são tão diversos, que não podem ser acessíveis ao mesmo nível de observação e, portanto, não podem ser sujeitos aos mesmos padrões de descrição, medida, controle e interpretação” (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2007, p. 2).

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Construção do conhecimento psicológico a Psicologia não se caracteriza por uma única linha de pensamento. A forma de conceber subjetividade está diretamente relacionada à concepção de homem adotada por cada uma das diversas linhas teóricas da Psicologia.

políticas, econômicas, tecnológicasenfim, por toda uma gama de

Segundo Luciana Miranda (2005), grande parte dos estudos de Psicologia apresentam uma noção de subjetividade reduzida a uma dimensão psicológica interior, isolando-a de um contexto mais amplo. A Psicologia que concebe o homem como um ser sóciohistórico, por exemplo, parte do princípio de que a subjetividade humana se constitui a partir das “transformações históricas, sociais, atravessamentos com que na verdade, em nosso cotidiano, estamos o tempo todo nos deparando” (p. 32).

De acordo com Cecília Coimbra (2004), podemos definir subjetividade

[...] não como coisa em si, essência imutável, mas como [...] formas de pensar, sentir, perceber e agir no mundo, forjadas por diferentes dispositivos sociais, culturais, políticos, etc.. [...]. É necessário pensar como, pela produção e circulação de signos, imagens, pelo recalcamento de certas realidades, pela sugestão e, portanto, pela criação de um real, esses dispositivos sociais simulam padrões consensuais de conduta; forjam esquemas dominantes de percepção e de significação do mundo; criam existências, vidas, mortes, mocinhos, bandidos, heróis e vilões; enfim, poderosos e eficientes processos de subjetivação (COIMBRA, 2004, p. 45).

Uma outra definição de subjetividade, ainda dentro da perspectiva da Psicologia sócio-histórica, é apontada por Bock, Furtado e Teixeira (2007):

A subjetividade é a síntese singular e individual que cada um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da vida social e cultural; é uma síntese que nos identifica, de um lado, por ser única, e nos iguala, de outro lado, na medida em que os elementos que a constituem são experienciados no campo comum da objetividade social. [...] Entretanto, a síntese que a subjetividade representa não é inata ao indivíduo. Ele a constrói aos poucos, apropriando-se do material do mundo social e cultural, e faz isso ao mesmo tempo em que atua sobre este mundo, ou seja, é ativo na sua construção. Criando e transformando o mundo (externo), o homem constrói e transforma a si próprio (BOCK; FURTADO; OZELLA, 2007, p. 23).

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1Unidade

É importante ressaltar que, dentro do campo de conhecimento da Psicologia existem várias abordagens e linhas teóricas com propostas diferenciadas para a compreensão da subjetividade humana. Conforme a linha teórica escolhida haverá uma compreensão sobre a subjetividade, trazendo, consequentemente, implicações para a prática pedagógica.

Para tornar a ideia mais clara, pensemos o seguinte: se você opta por uma abordagem que afirma que o ser humano é passivo em relação aos processos de aprendizagem e desenvolvimento, você construirá uma prática pedagógica diretiva e conteudista, sem demandar participação dos alunos; mas, se você optar por uma abordagem que compreende que o ser humano é ativo neste processo, a prática pedagógica deverá ser construída de uma forma dialógica, sempre com a participação dos alunos. Ficou claro agora?

Refletir sobre um campo científico e profissional é uma tarefa delicada, pois abrange muitas questões. A Psicologia como ciência, além de fornecer subsídios para a prática do psicólogo, o faz para outras profissões, como a docência, por exemplo. Atualmente, na formação de professores, a Psicologia é uma disciplina considerada fundamental para a prática pedagógica. Espera-se, com a utilização dos conhecimentos da Psicologia, obter uma melhor compreensão sobre os alunos, sobre as relações ensino-aprendizagem, sobre a realidade escolar e sobre o mundo em que vivemos.

Segundo Mitsuko Antunes (2001), a Psicologia constituiu-se como ciência que ganhou uma grande relevância social por contribuir com seus estudos para ampliar a compreensão sobre os problemas humanos, assim como por sua atuação profissional através das intervenções realizadas pelos psicólogos. Um dos principais aspectos que vem envolvendo os estudos sobre Psicologia como ciência e profissão, atualmente, diz respeito às implicações da Psicologia na sociedade. Desta forma, além das questões epistemológicas relacionadas aos saberes psicológicos, é necessário pensar as questões políticas e sociais que envolvem a constituição da Psicologia como ciência e profissão.

Psicologia é uma das letras do alfabeto grego, correspondente ao fonema “psi”.

Fonte: http://4.bp.blogspot.com/_

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20Módulo 2I Volume 4EAD

Construção do conhecimento psicológico

Desde a regulamentação da Psicologia como profissão no

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