Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trópicos

Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trópicos

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aqüífero rocha brisa/vento ar ascendente °C soleira de arado chuva lençol freático mata ciliar ventos brisas quebravento mulch

ISSN 1518-4757 Outubro, 2003 3

Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trópicos: Educação ambiental e produtividade com qualidade ambiental

Odo Primavesi Ana Cândida Primavesi

Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trópicos: Educação ambiental e produtividade com qualidade ambiental

São Carlos, SP 2003

ISSN 1518-4757

Outubro, 2003

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Centro de Pesquisa de Pecuária do Sudeste Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

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Comitê de Publicações da Unidade

Presidente: Edison Beno Pott Secretário-Executivo: Armando de Andrade Rodrigues Membros: Ana Cândida Primavesi, Armando de Andrade Rodrigues, Carlos Roberto de Souza Paino, Sônia Borges de Alencar

Revisor de texto: Edison Beno Pott Normalização bibliográfica: Sônia Borges de Alencar Tratamento de ilustrações: Maria Cristina Campanelli Brito Foto(s) da capa: Lavoura sob manejo convencional e desejável. Editoração eletrônica: Maria Cristina Campanelli Brito

1 edição 1 impressão (2003): 2000 exemplares

Todos os direitos reservados. A reprodução não-autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação dos direitos autorais (Lei no 9.610).

Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente rural
84p.; 21 cm. (Embrapa Pecuária Sudeste. Documentos, 3).
ISSN 1518-4757
1. Meio Ambiente Rural - Educação ambiental. 2. Solo -

Primavesi, Odo. nos trópicos: Educação ambiental produtividade com qualidade / Odo Primavesi, Ana Cândida Primavesi. -- São Carlos: Embrapa Pecuária Sudeste, 2003. Conservação - Água. I. Primavesi, Ana Cândida. I Título. II. Série.

CDD 21 577.27

© Embrapa 2003

Odo Primavesi Engenheiro Agrônomo, PhD, Pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste, Rod. Washington Luiz, km 234, Caixa Postal 339, São Carlos, SP. Endereço Eletrônico: odo@cppse.embrapa.br

Ana Cândida Primavesi Engenheira Agrônoma, PhD, Pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste, Rod. Washington Luiz, km 234, Caixa Postal 339, São Carlos, SP. Endereço Eletrônico: anacan@cppse.embrapa.br

Autores

Introdução7
Fundamentos ecológicos10
Conceitos ambientais básicos18
Considerações Finais7

Sumário Consultas .........................................................................78

Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trópicos: Educação ambiental e produtividade com qualidade ambiental

Odo Primavesi Ana Cândida Primavesi

Introdução

Representantes ativistas da humanidade tentam evidenciar a existência de relação indissociável homem-ambiente. Este fato torna-se mais dramático em sociedades em que a maior parte de sua população encontra-se urbanizada, vivendo em cidades, em selvas de pedra, nas quais as pessoas praticamente perderam a consciência de suas raízes, de sua dependência de um ambiente íntegro. Essas populações já não conseguem perceber que a maior parte dos chamados “desastres ambientais” de que são vítimas é fruto de atividades humanas inconseqüentes, seja de pessoas físicas pobres ou jurídicas ricas, que se esmeram em tomar tudo “emprestado do futuro”.

Dessa forma, muitos eventos e suas conseqüências têm participação humana direta ou indireta, e que podem ser considerados “autofágicos”, sendo exemplos: 1) Extrativismo mineral mutilador de paisagens, extrativismo predatório de coleta e caça de flora e fauna, desmatamentos acelerados em larga escala, eliminação de áreas verdes permanentes (condicionadores naturais do ar); redução intensa da biodiversidade; ruptura ou destruição de corredores biológicos terrestres, aquáticos e aéreos; grandes represamentos de água, megalópoles; impermeabilização e compactação ou revolvimento de solos.

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Isso resulta em temperaturas mais elevadas, ilhas de calor, amplitudes térmicas maiores, ventos e tufões mais fortes, maior amplitude na umidade relativa do ar, umidade relativa do ar mais baixa, maior perigo de combustão dos materiais e dispersão de incêndios; ciclo hidrológico alterado (reduzido, curto), chuvas mais concentradas e torrenciais (erosivas), maior intensidade de raios e granizo; bem como em erosão, vossorocas, assoreamento de corpos de água, represas e barragens, enchentes seguidas de períodos de falta de água, esgotamento de reservas subterrâneas de água; e redução de área de solos agricultáveis, salinização, aridização, desertificação; redução do potencial produtivo dos ambientes naturais e agrícolas e dos corpos de água. 2) Eventos de poluição sólida, líquida, gasosa, radiativa, térmica, luminosa, sonora e visual de ambiente, ar, água (superficial e subterrânea), solo e alimentos; destruição dos mares, fonte maior do oxigênio que respiramos, em conseqüência de derramamentos de óleo, de emissão de nutrientes (eutroficação) levados pelas erosões e os esgotos, e de aquecimento global; efeito estufa, buraco na camada de ozônio, chuvas ácidas; concentração de lixos e dejetos, focos de pragas e enfermidades e sua disseminação mais intensa, epidemias diversas, surgimento de novas doenças, ressurgimento de doenças consideradas controladas; aumento de pragas e patógenos agrícolas; guerras e campos minados ou radiativos. 3) Eventos de introdução no ambiente de substâncias em quantidades tóxicas, para o combate a pragas ou patógenos e que leva a intoxicações, mortes de pessoas e da fauna útil, como a de polinizadores e de inimigos naturais de pragas e outros.

O resultado de tudo isso é aumento de estresse, alergias, fome, miséria, violência, demência, drogas, tráfico de pessoas, escravagismo, mortalidade. Em resumo, é um “holocausto generalizado e globalizado da vida sobre a Terra!”.

Para complicar esse cenário, são pouco difundidos os conhecimentos ecológicos fundamentais e integrados, que ressaltam o lado positivo da legislação ambiental, bem como os valores éticos, caminho para a reconstrução consciente da qualidade de vida real e sustentável.

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É importante destacar que diversas civilizações humanas, representadas por confinamentos humanos, as cidades, foram destruídas no passado em função (Liebmann, 1976):

1.da dificuldade de produzir e suprir a população com alimentos, em conseqüência da degradação dos solos agrícolas; 2.da dificuldade de suprir a população com água potável, em conseqüência da destruição do ciclo hidrológico longo, decorrente da degradação de matas e solos da região; e 3.do acúmulo de dejetos e rejeitos, e problemas de saúde associados à falta de saneamento básico.

Atualmente, acrescentam-se ainda outros fatores de degradação ambiental, antropocidas, que influenciam a saúde e a sobrevivência humana: 1.aumento acelerado da produção de dejetos e rejeitos sólidos, líquidos, gasosos e radiativos, com expansão acelerada de lixões e aterros sanitários e tóxicos, além de poluição térmica, luminosa, sonora e visual; 2.introdução irracional de substâncias nocivas, físicas, químicas ou biológicas, e aumento na concentração de substâncias potencialmente tóxicas, em solo, água, ar, alimentos e organismos humanos; 3.introdução de espécies exóticas, naturais ou engenheiradas, que podem tornar-se predadoras intensas de espécies nativas; poluição genética; 4.redução da biodiversidade; aumento de pragas e patógenos; 5.mudanças climáticas regionais e global, resultado do aumento da emissão de gases de efeito estufa (queima de combustíveis fósseis, queimadas, aração de solos tropicais e outros), do desmatamento irracional globalizado e da urbanização; 6.dependência crescente de energia fóssil, não renovável; 7.consumismo, baseado em extrativismo predatório dos recursos naturais. 8.ruptura no conhecimento da sociedade urbana sobre suas raízes, sobre sua dependência do meio natural; 9.e intensificação da pobreza, da miséria e da fome, ou polarização do acúmulo de capital.

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Fundamentos ecológicos

A ecologia (estudo da relação dos indivíduos com o ambiente) propõe que consideremos como referenciais os ambientes naturais quanto à sua estrutura ou “bens” (espécies, ecossistemas) e sua função e processos ou “serviços” (Odum, 1959; Charbonneau et al., 1979). São quatro as funções primárias do ambiente nos ecossistemas: a) regulação (da gênese e estrutura do solo, da ciclagem de minerais e da água - hidrológica, de reciclagem de materiais, como os orgânicos, da temperatura, de populações, do contrôle de patógenos e parasitas, da predação, da polinização, do fluxo de genes, e outros), b) suporte (multifuncionalidade), c) produção (biodiversidade), e d) educacional (cultural, social, ética, moral, religiosa, estética, ecológica, econômica, política, de comunicação e outros).

Recuperação: é o ato de recobrar o perdido, de adquirí-lo novamente. Nos trabalhos de recuperação de áreas degradadas dispõem-se, portanto, de diversas combinações de recuperação da estrutura e das funções, em especial de regulação:

a) restauração (de estrutura e função), b) reabilitação (de função), c) realocação (com mudança de função), d) conservação (alteração sustentável da estrutura, sem alterar função): é a utilização racional e prudente da biosfera ou seus recursos naturais para atingir o maior benefício sustentável possível, de modo a se obter um rendimento considerado bom, garantindo-se sua renovação, para manter o potencial de uso para a satisfação das necessidades das futuras gerações com qualidade de vida. É manejar, usar com cuidado, manter; e e) preservação (sem alterar estrutura e função): é não usar ou não permitir qualquer intervenção humana significativa.

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Sabe-se que a estrutura básica do ambiente, para as atividades rurais, envolve: a água residente, o solo permeável, a flora e a fauna diversificados e o meso-clima associado. Considerando a suficiência de energia solar disponível nos trópicos, a vida sobre terra firme depende primordialmente da água disponível. Veja-se o que ocorre na evolução dos ecossistemas naturais a partir da rocha bruta. Os ambientes naturais evoluem a partir da ROCHA (ambiente natural primário), que sofre intemperismo (ação de calor e frio, água, organismos, como líquens), que a fragmentam, formando o SOLO PERMEÁVEL, solo tipo “esponja”, que permite conservar água fora do período chuvoso (ÁGUA RESIDENTE), e com isso permite o crescimento e o desenvolvimento de PLANTAS, o componente “produtor” da teia alimentar que sustenta a espécie humana.

As plantas protegem o solo permeável com suas copas e folhas caídas (SERAPILHEIRA), permitindo maior desenvolvimento de solo sob ação de suas RAÍZES rompedoras e agregadoras, e mantenedoras de sua permeabilidade. Assim, o armazenamento de mais água residente vai aumentar a umidade relativa do ar, por transpiração e vaporização, motivo porque a sombra de plantas é mais fresca, bem como permitirá vazão mais estável das nascentes e dos cursos d’agua.

A vegetação vai se desenvolvendo e se diversificando, podendo chegar de 100 a quase 400 espécies por hectare, em diversos níveis, até chegar ao máximo da capacidade de suporte biológica do ambiente: o ambiente natural clímax, a FLORESTA, com sua diversidade de espécies de árvores, cipós, plantas epífitas e saprófitas, e que servem de alimento para muitas espécies de ANIMAIS SILVESTRES terrestres, aquáticos e aéreos, e o ser humano. Verifica-se o desenvolvimento do ciclo hidrológico curto para o longo, em que ocorre maior ciclagem de água pelas florestas, e maior umidade relativa do ar. Verifica-se o desenvolvimento da cadeia alimentar, iniciada pela associação de alga + fungo (líquen) e terminando em complexa teia alimentar. Verifica-se a formação do lençol freático, à medida que o complexo solo permeável - planta vai evoluindo. Verifica-se arrefecimento das amplitudes térmicas e das temperaturas máximas, permitindo a participação de espécies vegetais e animais

12Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trópicos: Educação ambiental e produtividade com qualidade ambiental mais sensíveis na teia alimentar, além de possibilitar maior distribuição das chuvas, com maior freqüência e menor intensidade. Ocorre aumento na capacidade de suporte biológico do ambiente. Na Figura 1, apresenta-se de forma resumida o processo de “desenvolvimento” de um ecossistema natural, de primário - inóspito - para clímax - hospitaleiro, e no qual as atividades humanas vêm interferindo, provocando sua regressão ecológica, seu desmonte, a volta ao solo “pedra”, à pedra (Figura 2).

O que diferencia os ambientes naturais clímax dos ambientes naturais primários? É a cobertura viva, constituída pela biodiversidade vegetal e animal complexa e em diferentes níveis (da macroescala à microescala), gerando características coletivas (aditivas) e emergentes (interação de fatores), constituindo abundante oferta de alimentos para o topo da teia alimentar, a espécie humana; é o solo permeável, em razão do entrelaçamento das raízes, da ciclagem de minerais, da camada de serapilheira, constituindo um tipo de cobertura morta, e da reciclagem de todos os rejeitos e dejetos pelos organismos decompositores ou recicladores; é a água residente (superficial e subterrânea), umidade relativa do ar mais elevada, ciclo hidrológico longo, chuvas fracas ou chuviscos mais freqüentes, temperatura estabilizada, baixa pressão de massas de ar ascendentes, ausência de ventos locais fortes, ambiente agradável e fresco; é o contrôle homeostático das populações animais (contrôle biológico por meio de inimigos naturais constituintes da teia alimentar), entre outros. Além disso, encontram-se nascentes perenes e cursos de água limpos e navegáveis o ano todo: “produção de água”.

Esses parâmetros devem servir de referência para o desenvolvimento e o estabelecimento de técnicas agrícolas ecológicas e ambientalmente adequadas, pois são eles que a natureza desenvolve na recuperação de áreas degradadas, ou áreas agrícolas em pousio.

Fundamentos ecológicos para o manejo efetivo do ambiente rural nos trópicos:Educação ambiental e produtividade com qualidade ambiental Fig. 1. Processo de evolução, diversificação e desenvolvimento dos ecossistemas naturais primíparos.

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Fig. 2. Degradação dos ambientes natural, agrícola e urbano e suas relações com o mesoclima.

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