O RIO E A CIDADE

Construindo Uma relação Saudável

VISITANDO PIRACICABA

Carlos Elson Lucas da Cunha

III Semestre

Faculdade de Arquitetura & Urbanismo

Universidade Presbiteriana Mackenzie

São Paulo, 18 de dezembro de 2.010

Apresentação

Como as cidades lidam com seus rios?

Os urbanistas prontamente classificam um rio como barreira: um empecilho à circulação e um divisor do território.

Sem embargo, um rio afeta de vários modos a cidade que o recebe. As cheias, as vazantes, a largueza demandando pontes, estes são alguns aspectos que o município talvez encare como encargo. Por outro lado, aspectos positivos também surgem: beleza paisagística, o potencial da pesca e turismo.

O caso paulistano é notório: aqui os rios Tietê e Pinheiros são problemas a serem contornados.

Como se dá a relação em outras cidades? Como Piracicaba lida com seu famoso rio? De que forma a cidade traçou sua planta e como se configurou a malha viária tendo que lidar com essa grande calha natural?

Em busca destas respostas eu e Marco Aurélio de Paula, colega do mesmo curso, fomos até Piracicaba. Um domingo de tempo aberto foi a duração desta visita que muito nos ensinou.

Apresento aqui o registro de nossa viagem que envolveu outros aspectos interessantes, como a visita ao salão de humor e uma caminhada pelo centro da cidade. Neste relato foco mais de perto o maior personagem da cidade: o rio de Piracicaba.

Prédios longe da margem. Este é o princípio do zoneamento inteligente da cidade. O resultado, convenhamos, é belo.

Introdução

Saimos cedo da capital, partindo do terminal rodoviário do Tietê. Viagem agradável, dia de sol, sem contratempos. Ao chegarmos na rodoviária de Piracicaba decidimos seguir a pé até encontrar o rio. A decisão foi boa pois fotografamos e observamos várias construções locais, em especial um centro comercial popular (camelódromo), a igreja principal e a praça em frente. Entretanto este relatório envolve apenas o rio, por considerarmos que o desafio mais instigante seja exatamente a relação cidade-rio.

A rodoviária fica no platô – não chega a ser uma montanha, antes uma suave elevação que desce em direção à várzea.

Piracicaba é uma cidade agradável – pelo menos foi a impressão obtida na visita num domingo. Limpa, com grandes artérias de circulação e aquela dupla aparência de cidade simples, do interior, com construções um tanto antigas, convivendo com novos prédios e um evidente desejo de se modernizar – o que é um pena, uma vez que a arquitetura comercial contemporânea acaba por tornar todas as cidades iguais.

Não é fácil para uma cidade do interior definir, afinal, qual é a imagem urbana que deseja apresentar: um visual antigo e peculiar ou moderno que transmita pujança.

Certamente na questão do rio, a cidade fez a escolha certa: fez a opção preferencial pela natureza. E disto vem seu claro sucesso turístico.

Na Casa do Povoador um bonito exemplo de carinho

com a natureza, o rio e a cidade.

Sumário

Apresentação

Introdução

Margem esquerda: apta ao convívio urbano

Margem direita: protegida pelo parque

Casa do Povoador: Humor e Proteção

O Barquinho vai...

Projeto de Turismo Explícito

Conclusão

Margem esquerda

- Apta ao convívio urbano

Nota-se claramente que a cidade reservou a área próxima ao rio, sem lhe impor excessivo uso do solo nem muitas ligações viárias. Um dos motivos disso é que a cidade cresce do lado esquerdo do rio. (Lado esquerdo, neste texto, considera o ponto de vista da descida do rio).

O lado urbanizado, a margem esquerda (no sentido do curso do rio). Muito agradável: bastante árvores, rua larga, calçada generosa. Alguns vendedores ambulantes estão liberados para trabalhar longe dos bares (casinhas à direita) e ficam mais à esquerda, sob o arvoredo, próximo da Casa do Povoador e da ponte que leva ao Salão Internacional de Humor.

As casas da margem esquerda são preservadas. Não deve ter sido fácil para o município impor restrição aos empreendedores, mas conseguiu. Resultado: sempre um lugar bucólico, colorido e com imagem de cidade antiga. Boa parte de tais casas são bares. Será que se repete aqui aquele fenômeno de se construir um cenário ilusório, ou seja, algo só para ser visto, porém sem moradores e sem vida nos dias de semana? Isto foi algo que não conseguimos detectar nesta breve visita dominical.

Os bares cedem muitas cadeiras e mesas, livremente. O visitante que simplesmente queira sentar e descansar, não será importunado. Se desejar consumir algo será atendido prontamente pelos funcionários que atravessam a rua, entre as mesas e o bar, a todo momento, já que não há quiosques com bebidas à margem do rio. Preços justos, ambiente simples e calmo. Nada da industria super-profissional do turismo.

Vê-se aqui o píer de onde parte o barco com turistas. Note a fila de pessoas aguardando nosso retorno.

Placas diferentes sempre são algo interessante. Nunca tinha visto um alerta tão forte contra carrapatos. Saimos ilesos do passeio, mas é claro que evitamos a área. Considerei um gesto cortês esse aviso, ainda que soe alarmista para alguns. Todavia, como beira de rio é um lugar que pessoas gostam de fazer pic-nics, o evidencia uma boa intenção e cuidado com o visitante.

O ideal, claro é a exterminação da praga. Confiamos que Piracicaba conseguirá, mas não é fácil. Mesmo cidades grandes lutam fortemente contra elas. Haja visto Brasília, que sofre duramente na mão de ratazanas até hoje.

Outra placa curiosa. Será o Torneio Regional de Truco mais uma estratégia turística do município? Pelo cuidado com a confecção do cartaz, creio que sim.

Um dos sintomas de sucesso em urbanismo é ver pessoas usufruindo um lugar preparado para elas. O casal parece ter ali um bom momento para discutir a relação. É muito justo: as pessoas precisam de espaço. Todavia os visitantes deixam o lugar muito sujo. Como lidar com isso?

Mobiliário simples, resistente. Neste caso um pouco de manutenção iria bem. Fica evidente aqui que o grande objetivo é permitir a cheia. O tratamento da margem permite o rio respirar.

Mobiliário barato e durável. Vê-se, pelo casal enamorado, que cumpre bem o seu papel.

A margem direita

- Protegida pelo parque

No lado direito do rio encontra-se um parque de grande dimensão, cujo final não conseguimos encontrar. Em parte isto se deu por circularmos numa área um tanto restrita, entre 3 e 4 quilômetros. Assim não conseguimos ver o contorno deste parque, que, como se verá pelas imagens, é grande.

Na data da visita, 5 de setembro, o rio estava na baixa. De tal sorte que o barco que nos levou para um breve passeio nas águas teve seu intinerário reduzido: as pedras expostas impediam a navegação livre e irrestrita.

Infelizmente o rio está muito sujo. A cidade já o recebe assim.

Mas aves e capivaras se fazem presente na água de tom escuro e viscoso.

Esta implantação do parque serve de guarida natural ao rio. Vimos os efeitos das últimas cheias na mata contendo raízes expostas, árvores derrubadas e erosão em partes da ribanceira. Coisas absolutamente normais em qualquer margem de rio.

Na foto a direita, a cascata do Véu de Noiva. Esta é sua parte final, sendo que a queda propriamente dita fica oculta da vista de quem está no rio. Para vê-la plenamente teríamos que enfrentar uma subida na montanha, e declinamos disto.

Casa do Povoador

- História, Proteção e Humor

O animado agente que trabalha na Casa do Povoador. Contou-nos muitas histórias interessantes, uma delas: o Salão de Humor foi realizado pela primeira vez no Mackenzie. Após a primeira edição a reitoria da universidade preferiu não repetir o evento, temendo provocar o governo militar. Foi a chance para Piracicaba receber o Salão Internacional. Poucos acreditavam que uma cidade do interior conseguisse repercussão e a ditadura ignorou as ironias e críticas dos artistas. Hoje o projeto tem respeito internacional.

Aqui um mackenzista,Marco Aurélio, na Casa do Povoador. Nota-se que está, visivelmente, de bom humor. O que pesa a favor do esforço de Piracicaba em fomentar o humor no país.

Saber disso talvez nos ajude a entender porque nosso campus é tão chatinho.

O grande clamor dos que lutam pela preservação do rio é que a capital consiga reduzir a poluição do Tietê, pois ela acaba afetando Piracicaba via outros ramais da bacia hidrográfica.

A Casa do Povoador, um símbolo, um monumento histórico. E, como todo monumento, sujeito à lendas e mitologia além da história. A primeira informação é de que a casa seria do século 17. Depois, lendo com mais cuidado os prospectos, compreende-se que ela é muito mais do que os agentes de turismo gostariam. Uma curiosidade: ficando às margens do rio, ela está acima da linha da cheia, nunca tendo sido invadida – até onde formos informados.

O Barquinho vai...

Por R$ 5,00 é possível navegar durantes uns 15 a 20 minutos no rio Piracicaba. Todos visitantes receberam colete salva-vidas e o passeio correu em paz. Não pudemos ir muito longe, avisou-nos o piloto, ou timoneiro, já que as águas muito baixas impediam o passeio em boa parte do leito.

O timoneiro colocou uma música para tocar, assim que partimos. Não poderia ser outra, senão a famosa canção sertaneja que avisa: “O rio de Piracicaba, botou suas águas prá fora...”

A letra desta música está gravada numa placa de ferro, na entrada do Salão de Humor, sobre a ponte que lhe dá acesso. Compreendi que a cidade é refém desta música. O símbolo, o mito e tudo que a semiótica gosta de estudar estão presentes nesta relação inseparável da cidade com a música e o rio.

Há algo de psicanálise urbana a ser analisado com mais vagar, em virtude da força deste mito e símbolo. As cidades costumam ser vítimias de suas imagens. Lembro-me de um comentário quando um estudioso disse, sobre Jerusalém, que ela não tem futuro: está condenada sempre a viver de seu passado. Por impressionante que seja, isto é verdadeiro. As cidades são domadas por forças além de sua geografia e de sua implantação.

Projeto de Turismo

- Modesto e Inteligente

Tornou-se claro, após esta visita, que Piracicaba investe claramente no turismo.

Os dois pontos de atuação ocorrem na venda do rio ou melhor, do cenário do rio, aos visitantes e no salão de humor. Coincidentemente estivemos ali enquanto o salão ocorria. Porém o interesse da cidade neste tema não se dá apenas no salão propriamente dito, que usa galpões antigos e tombados.

Antes do salão clássico, passa-se por outra exposição de humor infanto-juvenil. Crianças de diversas idades enviam seus trabalhos e muito interessante observar o modo delas verem o mundo. Uma das coisas que chama a atenção é o forte uso do texto. O Salão Internacional de Humor é um sucesso de público: os cartazes, vindo de vários países, permitem uma leitura rápida e compõem um rico mosaico artístico.

Todavia, Piracicaba aparentemente deseja que salas de humor se espalhem pela cidade, pois a Casa do Povoador além de ser um prédio histórico e abrigar uma instituição que visa a preservação do rio, tem seus expositores de humor também. Compreendemos que o município almeja ser mais do que apenas a sede do famoso salão: quer ser a capital do humor. Excelente opção, ao nosso ver, pois inova entre as cidades do interior que são dependentes de feiras agrícolas e rodeios, usualmente.

Notamos a ausência de fortes patrocinadores no turismo e na manutenção do rio. Ainda que a ausência de tais signifique menos verba, o resultado é de uma cidade limpa, visualmente, sem aqueles cartazes berrantes das empresas associadas. Também senti que parece haver todo um envolvimento da cidade, já que o inteiro traçado urbano se submete à primazia do leito do rio.

Galpões de uma velha industria sediam o Salão Internacional do Humor com bastante conforto. O conjunto arquitetônico está em recuperação e possuem vitrôs muito bonitos e grandes.

Conclusão

A primeira grande impressão é a dimensão do rio Piracicaba. Esta amplitude, somada ao parque na lateral proporciona um cenário majestoso. O céu soma-se ao grande horizonte verde e ao movimento perpétuo das águas. Este é o cenário e este é o grande fator estrutural da cidade, seu diferencial turístico.

A ausência de urbanização em um dos lados (o direito) já revela uma feliz opção de respeitar o rio. Evidentemente tal escolha foi feita há vários anos e talvez tenha sido a melhor escolha das antigas administrações pois à medida que a cidade cresce (e já vemos valorização imobiliária em vários setores, pois novos prédios de grande altura tem sido construídos) as margens do rio ficam intocadas.

Até quando a cidade conseguirá evitar o uso do solo no vale do rio? Como a legislação municipal cristalizou essa proteção? Haverá outras forças agindo em sentido contrário? Não sabemos. Apenas presumimos que a medida que a cidade prospera deve ser tentador projetar condomínios e prédios com o apelo de “vista para o rio”.

Por não conhecer Piracicaba surpreendi-me com o espaço cedido ao rio. Sem grandes patrocínios o município parece contar apenas consigo mesmo na proteção do rio. E nisto se sai muito bem. Senti que a cidade abraçou o rio, evitando abusos, e luta por ele.

Simples, de baixo custo, sem calçamento desnecessário. Esta imagem apresenta uma síntese do cuidado no uso de mobiliário urbano em Piracicaba. Excelente!

Todas as fotos e a arte da capa foram realizadas pelo estúdio criar&fazer, do próprio aluno.

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