Desig Inclusivo Vol2

Desig Inclusivo Vol2

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Ficha Técnica

Edição • Centro Português de Design

Coordenação Editorial • Jorge Falcato; Renato Bispo Produção • Isabel Cotrim

Textos/conteúdos • Alison Burrows; Ana Barros; Ana Lopes; André Almeida; Andreia Tefile; Carlos Barbosa; Cristina Duarte; Eduardo Gonçalves; Fernando Moreira da Silva; Heitor Domingues; Jorge Falcato; Jorge Pacheco; Jorge Silva; Leonor Moniz Pereira; Luís Filipe Ferreira; Manuel Ribas; Manuela Rosa; Observatório da Faculdade de Arquitectura da UTL; Paula Trigueiros da Cunha; Pedro Cardoso; Pedro Sousa; Renato Bispo; Salomé Baptista; Susana Rato; Valter Coelho; Vera Rocheta; Vitor Rodrigues

Design Gráfico • João Pedro Rato Colaboração • Paula Gris Grais

Pré-Impressão e Impressão • CTP – Produção ISBN • 972-9445-32-X ISBN (13 dígitos) • 978-972-9445-32-3 Depósito Legal • A fornecer pela Tipografia Tiragem • 2500 exemplares

Centro Português de Design, Maio 2006

05Nota introdutória

07Prefácio Henrique Cayatte

09Homem médio ou diversidade humana Jorge Falcato

23A formação como estratégia fundamental Renato Bispo

35O ensino do design inclusivo Faculdade de Arquitectura da UTL, Observatório de Design Inclusivo

Experiências de ensino em design Inclusivo

Carlos Barbosa – ESD-IADE • Jorge Pacheco – FAUTL Fernando Moreira da Silva – FAUTL • Leonor Moniz Pereira – FMH Manuela Rosa – UALG-EST • Paula Trigueiros da Cunha – EUAC Renato Bispo – ESAD

O livro Experiências de ensino do Design Inclusivo em Portugal, é editado pelo Centro Português de Design, e financiado pelo Projecto Equal, de igual para igual. Programa de apoio à capacidade de adaptação das empresas e trabalhadores às transformações económicas e estruturais, no âmbito do Fundo Social Europeu.

O projecto Equal Design Inclusivo assenta numa parceria iniciada em 2002, coordenada pelo Centro Português de Design (CPD), em que participaram a Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa (FAUTL), a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), estando agora no fim da acção 3 – Disseminação e Divulgação – em que se mantém como parceira a FAUTL. Esta parceria, ao longo das suas acções, tem desenvolvido diversas actividades referentes ao tema do Design Inclusivo, da acessibilidade e mobilidade que poderão ser consultadas em w.designinclusivo.org.

Nota Introdutória 05

Esta edição reúne uma série de informações e preocupações no âmbito da temática da acessibilidade e desenho para todos, que devem ser ponderadas e incorporadas nas práticas e atitudes dos projectistas, professores, estudantes e público em geral, divulgando-se, ainda, por outro lado, experiências de ensino e de formação que traçam o estado da arte do design inclusivo em Portugal.

Este livro está estruturado em 4 partes. A primeira faz uma introdução ao conceito e às suas implicações económicas, sociais e culturais.

A segunda parte aborda a importância da formação como estratégia fundamental de transformação e sensibilização para a importância do design inclusivo, e o desenvolvimento de competências básicas para a sua aplicação prática.

A terceira parte refere-se ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pelo Observatório da FAUTL sobre a disseminação do design inclusivo, nas áreas de arquitectura, engenharias, design, planeamento, gestão urbana, etc.

Na quarta e última parte relatam-se experiências de introdução da prática do design inclusivo no ensino, através da resposta a um inquérito por professores do Ensino Superior, à qual se juntaram alguns exemplos de trabalhos desenvolvidos pelos respectivos alunos.

A realidade deixa muito espaço à imaginação

O conjunto de reflexões aqui reunidas são exemplares.

Exemplares do esforço que se está a fazer no nosso país e que a maior parte da comunidade não conhece.

O design inclusivo, como se poderá ver pela qualidade do pensamento que agora se edita neste livro, teve eco em especialistas da área, professores e designers que já tinham preocupações de cidadania e que tinham ideias sobre qual o papel do design nesse impulso.

Têm sido de uma grande persistência e, graças a eles, Portugal pode contar hoje com um conjunto mais alargado de pessoas e ideias e com um impacto cada vez maior destes tópicos nas agendas educacionais, profissionais e mediáticas.

Mas não nos devemos iludir. Apesar deste esforço, muito está por fazer. As mentalidades preferem o sossego das ideias feitas porque é mais cómodo e porque em muito casos servem interesses económicos apostados num lucro potenciado ao máximo.

Ora preparar os espaços públicos e produzir objectos para minorias não é um negócio rentável. Logo descartável. É por isso que a lei não é respeitada. Os novos espaços e objectos de uso quotidiano são projectados sem preocupações mínimas quanto a uma acessibilidade total. Os espaços antigos não são requalificados. E quanto aos objectos o mesmo se passa.

Prefácio 07

Tem sido pela consciência social de muitos especialistas em reabilitação, deficientes, designers, decisores e empresários que alguns passos têm sido dados. Mas não nos iludamos. Os cidadãos terão de ter a persistência de forçar os Estados e os seus representantes para que uma nova consciência social seja criada. Estudar casos de sucesso noutras latitudes é indispensável.

É que a incapacidade não é apenas uma questão de percepção como alguns defendem. A incapacidade de alguns exige de todos um esforço de superação em que os designers têm muito a dizer. Tanto na identificação dos problemas como na urgente propedêutica, como nos bons projectos que serão, depois, reflexo disso mesmo.

O Centro Português de Design agradece a todos e às instituições que tornaram esta iniciativa possível e orgulha-se de desenvolver cada vez mais acções em que estas preocupações estão presentes.

Tenha o Centro os meios de que necessita e o seu esforço continuará e será melhorado, porque a realidade neste caso deixa, infelizmente, muito espaço à imaginação.

Henrique Cayatte Presidente do Centro Português de Design

Homem médio ou diversidade humana

Jorge Falcato

10Jorge Falcato, Arquitecto

Homem médio ou diversidade humana?

Quantas vezes deu consigo a viver situações estranhas como ter de recorrer à caixa de ferramentas para abrir um frasco de compota, abrir uma embalagem com os dentes, perder-se na complexidade de um formulário das finanças ou não conseguir abrir um pacote de leite pelo picotado da chamada “abertura fácil”? Este é o resultado de um mau design que não tem em consideração as reais aptidões da generalidade das pessoas.

Estamos a partir do princípio de que você pertence ao grupo de pessoas a que é comum designar, como pessoas “normais”. Porque, se você for idoso, tiver uma deficiência ou for obeso por exemplo, viverá com muito mais frequência este tipo de situações no seu dia a dia. Sentirá com muito mais intensidade a hostilidade do espaço público ou mesmo a impossibilidade de uso de muitos espaços e edifícios públicos.

Se pararmos um pouco e olhar-mos à nossa volta, verificamos que passamos a maior parte da nossa vida em ambientes artificiais, construídos por nós, e que os produtos e equipamentos que utilizamos também fomos nós que imaginámos e construímos. Não se percebe, portanto, porque é que tantos ambientes, produtos e serviços são de tal forma inadequados às reais aptidões daqueles que os utilizam.

Esta situação resultou da convicção, que se generalizou entre os projectistas, de que ao projectar para o utilizador médio se projectava para todos, ou, pelo menos, para a maioria dos utilizadores.

enganamas que na verdade não existe.1

É um facto que os designers e arquitectos estão habituados a projectar para um mítico homem médio que é jovem, saudável, de estatura média, que consegue sempre entender como funcionam os novos produtos, que não se cansa, que não se

Projectar para o homem médio será portanto projectar para a exclusão daqueles que não correspondem aos parâmetros médios.

Uma primeira conclusão que podemos tirar é de que o design não é socialmente neutro. Que através da actividade de projecto podemos excluir pessoas da utilização de produtos, serviços e ambientes, praticando, consciente ou inconscientemente, formas de discriminação através do desconforto que provocamos a todos os utilizadores ou mesmo a criação de uma impossibilidade de uso por parte de grupos sociais importantes que pelas suas características não correspondem ao conceito de homem médio já referido.

1. Simões, J. e Bispo, R. - DESIGN INCLUSIVO Acessibilidade e Usabilidade em Produtos, Serviços e Ambientes. Manual de apoio às acções de formação do projecto Design Inclusivo – Iniciativa EQUAL. 1ª edição da Divisão de Formação da Câmara Municipal de Lisboa – 2003

11Homem médio ou diversidade humana? foto: João Pedr o Rato

foto: João Pedr o Rato

Quais são estes grupos sociais? É sempre perigoso atribuir características de uniformidade a grupos sociais mas também é verdade que podemos identificar dois grupos em que existe uma maior prevalência nas dificuldades de interacção com o meio.

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