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Com a crise na Europa entre os anos de 1800 a 1900, muitos europeus imigrantes vieram para o Brasil na esperança de produzir livremente, para conquistar uma terra nova e construir uma vida digna.

O latifúndio usava o trabalho assalariado dos negros, caboclos e imigrantes, produzindo monoculturas apenas para exportação. Nessa época surgiram as primeiras cidades e com elas a necessidade de alimentos variados.

Cansados do trabalho em terras que não lhes pertenciam, algumas famílias agricultoras iam mata adentro se apossando de territórios e fazendo seus roçados.

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A agricultura familiar que abastecia as cidades tinha muita variedade de cultivos, usava o trabalho braçal, tração animal, rotação de culturas e pousio (descanso da terra).

Porém, muitas vezes quando os camponeses já haviam preparado a terra, eram expulsos por grandes proprietários que queriam essas terras para a monocultura ou a pecuária.

Com o crescimento das cidades, a produção de alimentos precisava crescer. Com isso, o governo assentou colonos europeus em terras impróprias para a agricultura, principalmente no sul do país, onde as colônias de imigrantes aumentavam ainda mais o peso econômico da agricultura familiar. Para os latifundiários, o governo deu ótimas terras para suas monoculturas de exportação.

Assim começa, ao redor das grandes fazendas, a produção camponesa, ou seja, a agricultura feita com a mão-de-obra da própria família e voltada para a subsistência e o abastecimento dos mercados locais, enquanto a produção dos latifundiários ia para a exportação.

A Cartilha Agroecológica

Ao longo da história do Brasil a expansão da agricultura familiar foi inibida. Enquanto a agricultura latifundiária foi estimulada. Assim mesmo a agricultura familiar resistiu e cresceu, integrada à população pobre do país, produzindo os alimentos básicos que vão para a nossa mesa.

Os bancos e os órgãos oficiais de extensão rural e assistência influenciaram diversos países e famílias agricultoras a adotarem pacotes tecnológicos. Assim, o conhecimento tradicional do agricultor foi sendo substituído pelas máquinas e agroquímicos.

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Após a Segunda Guerra Mundial aconteceu o que se chamou de “Revolução Verde”. Muitas das máquinas e produtos químicos usados durante a guerra passaram a ser usados na agricultura, iniciando um processo de “modernização” na agricultura brasileira. Ela ficou conhecida como “modernização conservadora”, pois conservou as terras nas mãos dos latifundiários e garantiu os recursos para o seu desenvolvimento, mas conservou as desigualdades sociais.

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Com o passar dos anos, a agricultura familiar, embora grande produtora de alimentos, estrangulou-se, pois os grandes proprietários sempre tiveram mais força na política agrícola brasileira. Apesar da total falta de apoio e da negação da Reforma Agrária, foi a agricultura familiar que alimentou de fato o povo brasileiro durante toda a sua história.

Breve história da Agricultura

dias atuais

Os pequenos agricultores foram os grandes perdedores, e o latifúndio, agora “moderno”, se firmou em todo o Brasil como produtor de vastas monoculturas. As indústrias vinculadas à agricultura estão quase todas na mão do capital estrangeiro. A Natureza sofreu grande devastação e uma chaga ambiental está aberta. Em resumo: a Revolução Verde concentrou renda, patrimônio e poder para a classe dominante e deixou problemas, sofrimento e miséria para a maioria da população. Atualmente, os avanços técnicos na agricultura tomaram um rumo que coloca em risco a sobrevivência das próximas gerações. O ar está ficando mais poluído, as águas mais contaminadas, o solo mais degradado e o alimento que consumimos, muitas vezes, chega às nossas mesas envenenado. Será este o preço do progresso, onde o mais importante é o crescimento econômico e o aumento do consumo? Sabemos que modernização nem sempre se traduz em desenvolvimento para todos. Nesta economia desigual, os benefícios gerados são para poucos. A agricultura convencional tem deixado muitos agricultores individados e a terra cada vez mais cansada. É esta a realidade que queremos?

Vamos mudar o rumo dessa história?

Até hoje sentimos as conseqüências da Revolução Verde, como o êxodo rural, produção para exportação, aumento da fome, dependência de importação e do sitema bancário, exigência de maiores especializações e escalas de produção, contaminação por agrotóxicos, aumento do custo de produção, aumento de pragas e doenças, controle das grandes empresas sobre os agricultures etc.

A Cartilha Agroecológica g r e c o l o g i

Neste capítulo você vai encontrar os conceitos que estão na base da Agroecologia e que dão sustentação para as técnicas que apresentamos no final deste material. São conhecimentos valiosos para transformar nossa ação no campo por meio de aspectos da vida rural, do saber popular, da economia solidária e de uma nova forma de produzir conhecimento.

Instituto Giramundo Mutuando15

A Agroecologia2 a Nova Ciência e novos valores

A é uma nova forma de abordar a agricultura, onde a natureza, o homem e todas as suas relações, são entendidos de forma integrada, convidando técnicos(as) e agricultores(as) a tomarem novas posturas e adquirirem novos valores.

A Agroecologia é vista por muitos como uma nova ciência, ou seja, conhecimentos e métodos que orientam uma agricultura de base ecológica, capaz de se sustentar ao longo do tempo.

Surgiu em 1930 e se fortaleceu a partir da década de 70. No seu caminho ela vem incorporando elementos de diversas ciências, como a ecologia, a sociologia, a antropologia, a geografia e a pedagogia. Por outro lado, ela tem suas raízes na prática tradicional de muitos agricultores e comunidades rurais ao redor do mundo. É a combinação entre os conhecimentos dessas comunidades e aqueles acumulados por esta ciência mais aberta, que vem garantindo o sucesso crescente das Agroecologia agriculturas de base ecológica.

b Tudo está interligado

Para a Agroecologia a natureza não é um apanhado de recursos que se possa utilizar indiscriminadamente e nem uma máquina a serviço do homem. Ao contrário, na abordagem agroecológica a realidade é vista de forma integrada, buscando-se a interação entre os vários elementos que existem no ambiente. O solo, as plantas, os animais, a água e tudo mais que está à nossa volta, devem ser manejados respeitando-se os limites da natureza e as características da cultura dos(as) agricultores(as). Neste sentido o ser humano é parte da natureza e depende dela.

Ao entender a natureza e essas ligações, a família agricultora tem condições de pensar sistemas de produção mais fortes, estáveis e equilibrados.

Esta visão integral é chamada de “enfoque sistêmico”, ou seja, nela a natureza é vista como um todo interdependente e complexo. Esta nova postura, como dissemos anteriormente, exige novos valores. Para se produzir ecologicamente é preciso identificar a relação entre os elementos presentes na produção, observando como o solo, as plantas, os animais, o clima e os demais elementos, interagem.

Agroecologia é um enfoque científico e estratégico, que corresponde “à aplicação de conceitos e princípios da Ecologia, da Agronomia, da Sociologia, da Antropologia, da ciência da Comunicação, da Economia Ecológica e de tantas outras áreas do conhecimento, no redesenho e no manejo de agroecossistemas que queremos que sejam mais sustentáveis através do tempo. Se trata de uma orientação cujas pretensões e contribuições vão mais além de aspectos meramente tecnológicos ou agronômicos da produção agropecuária, incorporando dimensões mais amplas e complexas que incluem tanto variáveis econômicas, sociais e ecológicas, como variáveis culturais, políticas e éticas. Assim entendida, a Agroecologia corresponde ao campo de conhecimentos que proporciona as bases científicas para apoiar o processo de transição do modelo de agricultura convencional para estilos de agriculturas de base ecológica ou sustentáveis, assim como do modelo convencional de desenvolvimento a processos de desenvolvimento rural sustentável”( CAPORAL E COSTABEBER, 2002).

As agriculturas de base ecológica são os diferentes estilos de agricultura ecológica que se desenvolveram ao redor do mundo, a exemplo das agriculturas regenerativa, orgânica, biodinâmica, biológica, natural e ecológica, cada um contendo particularidades conceituais, culturais e metodológicas provenientes dos grupos sociais que foram responsáveis pelo desenvolvimento de cada estilo (CANUTO,1998).

Na visão sistêmica e para a produção de base ecológica é preciso, antes de mais nada, entender a relação entre todos os elementos que estão em nossa produção, incluindo as pragas e seus . Devemos observar o solo, as plantas espontâneas, o clima, os insetos e como tudo isso interage.

Na natureza e nos sistemas produtivos todos os elementos estão interligados e interagindo. Em uma floresta, por exemplo, existem muitas espécies de plantas, animais, insetos, fungos, bactérias, entre outros, que dependem uns dos outros para se desenvolverem. Algumas plantas necessitam de uma bactéria ou fungo que está no solo para obterem parte de seu alimento, ao mesmo tempo que suas folhas caem e voltam ao solo, alimentando outros seres. Folhas, flores e frutos servem de alimento para lagartas, abelhas, insetos, pássaros, macacos. Esses, por sua vez, são alimentos para outros animais. Por exemplo, a lagarta se alimenta de uma folha, uma aranha se alimenta da lagarta, uma galinha se alimenta da aranha, e assim por diante.

Então, para podermos planejar nossa produção, devemos entender essas relações, ou seja, ter uma visão sistêmica da nossa realidade. Se isolarmos apenas a lagarta, não entenderemos essas relações e não saberemos como equilibrar novamente esse sistema, para que ela deixe de ser um problema.

inimigos naturais

Vis o lin ar ã e

Vis o is m ã stêica

Inimigos Naturais são os possíveis predadores e parasitas de um outro organismo que se tornou praga em um dado sistema de produção.

A Cartilha Agroecológica

Instituto Giramundo Mutuando17 c A força está na participação popular e na vida rural

A Agroecologia é muito mais que um sistema de produção orgânico, pois também considera os aspectos ambientais, sociais, culturais, éticos e políticos da agricultura. É importante compreender que a produção ecológica se adequa mais à pequena produção da agricultura familiar e camponesa. Esta tende a ser mais diversificada e atrelada ao comércio local de alimentos básicos para a população.

sociais do campo

A Agroecologia ajuda a fortalecer a vida rural das comunidades de agricultores familiares pois reforça a importância da cooperação, do trabalho associativo na produção e comercialização dos produtos e dos movimentos

Ela nos ajuda a entender a importância de políticas públicas de desenvolvimento rural sustentável, que criem condições mínimas de viabilidade da agricultura familiar em nosso atual sistema econômico. São exemplos as políticas de reforma agrária, crédito, assistência técnica e extensão rural agroecológica.

Uma das bases da Agroecologia é a participação popular, pois ela nasceu das mãos dos agricultores familiares e camponeses de todo o mundo e se fortalece, cada vez mais, a partir dela. Esta participação é que permite a união entre os saberes populares e os científicos, fundamental para o alcance de uma agricultura mais ecológica e sustentável. E para tanto, o avanço das metodologias participativas de assistência técnica e extensão rural é parte importante da estratégia agroecológica. Essas metodologias serão abordadas no capítulo 4 desta cartilha.

A Agroecologia d A importância dos saberes populares

Cada pessoa carrega consigo conhecimentos fundamentais sobre a realidade. Seus diferentes pontos de vista, idéias, perguntas e respostas, nos ajudam a compreender melhor a complexidade da vida. Quanto mais informações temos sobre os sistemas naturais e produtivos, através do relato de agricultores(as), mais capazes seremos de junto com eles(as), resolver problemas e desenhar sistemas mais ecológicos. É por esse motivo que o saber popular e tradicional é bastante valorizado e fortalecido na Agroecologia.

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