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As comunidades tradicionais sempre viveram se relacionando com a natureza e acumularam um saber valioso sobre os ciclos naturais, o desenvolvimento das plantas e dos animais e a relação entre os elementos que compõem a nossa paisagem. É baseado nesse conhecimento que a Agroecologia tem o seu fundamento, trazendo a ciência como aliada e validando informações por meio da pesquisa participativa.

Esses conhecimentos tradicionais são importantes, ainda, para agricultores familiares assentados pela Reforma Agrária. Estes, apesar de não haverem acumulado tanta experiência na área onde são assentados, devem se engajar em processos participativos que incentivam trocas de conhecimentos e experiências com outros agricultores do local. Naqueles locais onde muito do conhecimento tradicional já se perdeu, é tarefa da abordagem agroecológica recuperá-los e até recriá-los.

Com isso não estamos sugerindo que é necessário voltar ao tempo de nossos avós. Pelo contrário, trata-se de juntar o conhecimento da ciência moderna com o saber dos agricultores, para fundar novos saberes mais úteis e mais apropriáveis pela agricultura familiar.

eO modo de vida camponês

Outro aspecto que merece destaque é o fato de que a Agroecologia e a agricultura familiar e camponesa estão baseadas em uma filosofia profundamente diferente da agricultura de monocultivos em grande escala. A agricultura convencional (que utiliza produtos químicos e maquinário pesado), infelizmente, preocupa-se principalmente com a produtividade por área e por cultivo, não importando os impactos sobre a natureza. A agricultura familiar, ao contrário, valoriza o futuro das próximas gerações e tende, como já dissemos, a produzir de forma mais harmoniosa com a natureza. Os(as) agricultores(as) familiares são mais receptivos à idéia de se respeitar o tempo e os ciclos naturais, a capacidade da terra em dar frutos e sua necessidade de descanso.

A Cartilha Agroecológica

De uma forma geral, a agricultura familiar é acompanhada de algumas características que fazem dela um agente ideal para o desenvolvimento de agriculturas de base ecológica, tais como:

Instituto Giramundo Mutuando19

A Agroecologia

• pequenas propriedades;

• produção para consumo familiar e para o mercado local e regional;

• produção diversificada, incluindo criação de animais;

• mão-de-obra familiar;

• tecnologias e equipamentos adaptados à sua realidade;

• conhecimento elevado sobre os ciclos agrícolas e especificidades da natureza;

• produção da própria semente e outros insumos;

• autonomia de gestão da família sobre a produção e a comercialização.

f
2) A cooperaçãopor outro lado, a solidariedade inspira a organização de
acessar apoio técnico de qualidade e mercados mais compensadores

A solidariedade está relacionada a outros dois aspectos importantes para a Agroecologia: 1) A troca de excedentes de produção além de trocar trabalho e conhecimentos, na agricultura familiar são trocados excedentes de produção numa economia às vezes informal, mas valiosa; pequenos grupos associativos e cooperativos. Estes grupos são fundamentais para o fortalecimento da participação popular. Tal participação, quando é efetiva, aumenta as chances desses grupos em

A economia popular, solidária e ecológica

Na Agroecologia, valorizamos a solidariedade e a união entre as famílias do campo na busca de melhorias. Historicamente, as pessoas sempre utilizaram variadas formas de cooperação no trabalho, na produção e na comercialização. Muitos já ouviram falar ou participaram de mutirões para o preparo da terra, plantio e colheita. Esta prática de ajuda mútua, aliada ao trabalho familiar, fortalece a agricultura de base ecológica.

Para criar um mercado local forte de produtos de uma agricultura de base ecológica, precisamos, novamente, fazer a conexão entre o tradicional e o novo. Devemos resgatar formas tradicionais de comercialização, bem como criar novas formas de trazer o consumidor para comprar o mais diretamente possível do(a) agricultor(a). São formas tradicionais a venda em feiras semanais, quitandas e sacolões, entre outras. São formas novas as cestas de produtos ecológicos entregues em domicílios, a venda para as merendas escolares e outros tipos de compra pública de alimentos. De modo geral, trazer a venda para mais perto de quem produz melhora o preço para os agricultores(as) e para os consumidores(as). Além disso, quanto mais tempo e manuseio o alimento sofre para chegar ao consumidor(a), pior sua qualidade e maior o gasto de energia e dinheiro. Neste sentido, aproximar o consumo da produção, por meio de mercados locais, melhora a qualidade biológica e a aparência dos produtos, economizando energia e recursos.

Os(as) consumidores(as) também têm um importante papel na economia solidária e podem ser estimulados a participar ativamente neste processo. Conjuntamente, por meio de organizações cooperativas ou associativas, podem criar formas de adquirir produtos e insumos que necessitam, barateando preços e melhorando ofertas. Isto cria apoio para os produtores(as), que dessa forma se tornam mais independentes dos preços praticados na economia de mercado.

g Uma agricultura de base ecológica

A Agroecologia oferece princípios, conceitos e metodologias para o planejamento de uma produção de alimentos de alta qualidade, que seja capaz de manter a produtividade da terra, de respeitar a natureza, de ampliar a diversidade de produtos para o consumo da família e para o mercado e de gerar mais renda para as famílias agricultoras. E para que a produção seja realmente de base ecológica, devemos utilizar técnicas de manejo ecológico dos recursos naturais, tais como: adubação orgânica, defensivos alternativos, rotação de culturas, policultivos (cultivos consorciados), quebra-ventos, adubação verde, protetores e fertilizantes ecológicos, entre outras (consultar capítulo 5 das Práticas Agroecológicas). Essas técnicas variam de região para região e devem ser adaptadas às de cada local.características especiais

As características especiais de cada local, também chamadas especificidades locais ou potencial endógeno, são aquelas características particulares do ambiente, da cultura e do modo de vida de agricultores(as) de uma dada localidade. São essas especificidades locais que orientam a escolha das técnicas que serão utilizadas no planejamento da produção de base ecológica.

A Cartilha Agroecológica

n t d e d o o s p r i n c í p i o s á s i o s

Agora vamos falar de princípios que auxiliam no entendimento de como fazer agricultura de base ecológica. Devemos conhecê-los na essência para poder justificar as escolhas das técnicas. Conhecendo melhor o solo, sua fertilidade, as pragas e o funcionamento das plantas, compreenderemos os processos da natureza, e com a ajuda dela o nosso trabalho será mais bemsucedido.

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Entendendo os princípios básicos 3 a Equilíbrio ecológico e agroecossistema

O fato de a agricultura convencional causar desequilíbrios sérios no ambiente nos leva a buscar condições mais equilibradas para a produção. Para isso, o primeiro conceito que precisamos entender é o de Equilíbrio Ecológico, que depende diretamente da diversidade de plantas e animais. Sem essa diversidade, uma floresta, por exemplo, se desorganiza e se degrada. O mesmo acontece com a agricultura.

Para entender o que significa Equilíbrio Ecológico é importante entender o que é Ecossistema. Ecossistema é o nome dado ao nosso ambiente natural e a relação de tudo o que há nele. Os ecossistemas são sistemas biológicos vivos que são capazes de se auto-regular, se auto-manter e se auto-renovar. Ou seja, eles possuem mecanismos naturais de se sustentar por si só, mantendo as condições de vida no ambiente.

Com essa agricultura agressiva, rompemos o equilíbrio ecológico e degradamos a natureza.

é relativo à produção agrícola

é o nosso ambiente natural é o conjunto de elementos/componentes que atuam relacionados entre si, e que são interdependentes

No Agroecossistema com mais diversidade há menor investimento de trabalho e insumos. As plantas e animais do Agroecossistema diverso interagem auxiliando o equilíbrio ecológico necessário para manter condições favoráveis de vida no ambiente. Então, quanto maior for a diversidade no Agroecossistema, maior será o seu equilíbrio ecológico. Quanto maior for o equilíbrio ecológico, maior será a capacidade do Agroecossistema de resistir a pragas e doenças e de sustentar níveis adequados de produtividade ao longo do tempo. E, por fim, quanto maior o Equilíbrio Ecológico do Agroecossistema, menor será a necessidade de se investir energia (trabalho e insumos) de fora do sistema.

b O solo é vivo!

A planta necessita de três elementos básicos para o seu desenvolvimento: luz, água e nutrientes. De maneira resumida e simplificada podemos dizer que a forma mais eficiente de aproveitar esses elementos é tendo um solo vivo.

O que é solo vivo e por que ele é importante?

No solo existem milhares de seres vivos de inúmeras espécies, que interagem e se complementam no processo de decomposição das matérias orgânica e mineral. Este conjunto de vida e matérias decompostas dá qualidade ao solo. Esta qualidade significa mais fertilidade, estrutura, umidade, entre outros fatores. Quanto mais vida, mais fertilidade há no solo. Quanto mais fertilidade, maior garantia de saúde para as plantas e animais. E quanto mais saúde, maior a produtividade do sistema de produção.

Quando fazemos agricultura, estamos modificando o nosso ambiente natural (Ecossistema) e criando um Agroecossistema. Esse agroecossistema tende a ser menos diverso e complexo que um ecossistema, pois o homem, ao praticar a agricultura, favorece o crescimento de algumas plantas e animais em detrimento de outras, e criando alguns subsistemas. Essa modificação altera o equilíbrio ecológico do agroecossistema como um todo, o que exige constantemente a utilização do trabalho e o uso de insumos. Este trabalho contínuo é realizado no sentido de ajudar o sistema a se auto-regular, se auto-manter e se auto-renovar.

Se separamos a palavra agroecossistema em pedaços, vemos que:

simplificando oecossistema A simplificação máxima do agroecossistema é o monocultivo. O monocultivo, como o próprio nome diz, é um sistema produtivo composto por apenas um cultivo, geralmente destinado ao mercado. Os monocultivos, porém, tendem a ser extremamente frágeis e vulneráveis ao ataque de pragas e doenças. Sem diversidade, os monocultivos exigem muito mais trabalho e insumos para garantir boa produtividade, o que eleva os custos de produção. A longo prazo, os monocultivos tendem a exaurir a terra e a diminuir a capacidade produtiva do solo.

A Cartilha Agroecológica

Instituto Giramundo MutuandoEntendendo os princípios básicos 25 c As plantas, pragas e doenças são indicadores

Se aprendermos a ler os sinais da natureza, seremos capazes de analisar a qualidade do solo e de todo o agroecossistema de forma direta, barata e acessível a agricultores(as). Por exemplo:

•algumas plantas nos indicam a qualidade do solo, sua estrutura, nutrientes, acidez, entre outras coisas;

•e algumas pragas e doenças nos mostram quais deficiências minerais o solo apresenta.

Que tipos de seres vivos estão no solo e como eles contribuem para aumentar a qualidade do solo?

A decomposição da matéria orgânica e mineral (rocha) é feita por diferentes grupos de seres vivos, entre eles

Esses seres auxiliam na quebra inicial da matéria orgânica e mineral e, em seguida, realizam a decomposição deste material. Com a decomposição, os nutrientes (micro e macronutrientes) são disponibilizados para os cultivos e para o aumento da vida no solo.

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