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O assunto é bastante complexo, mas o seu princípio é simples e de fácil compreensão. O controle das pragas e doenças pode ser feito pela própria capacidade da planta em defender-se. Isto parece óbvio, mas necessita da nossa atenção. Existe um princípio utilizado por quem pratica a agricultura de base ecológica que se chama Trofobiose. Apesar deste nome complexo, o conceito por trás dele é simples e importante para avançarmos.

Trofobiose quer dizer: todo e qualquer ser vivo só sobrevive se houver alimento adequado disponível para ele.

Em outras palavras: a planta será atacada somente quando tiver na sua seiva o alimento que a praga precisa. O melhor alimento para a praga é aquele que lhe custa menos esforços para incorporá-lo. Ou seja, substâncias simples, como os aminoácidos, se estão livres na seiva da planta, são rapidamente identificados pelas pragas.

Os aminoácidos, formados a partir do nitrogênio do solo, são os componentes formadores das proteínas. As proteínas formam os tecidos e outras partes da planta. Se a planta está com seu ritmo de crescimento normal, ela estará formando as proteínas para o seu crescimento num ritmo também normal, não deixando aminoácidos livres circulantes na seiva da planta.

Por outro lado, quando uma planta sofre algum desequilíbrio, ela passa a diminuir sua taxa de crescimento e a quebrar suas proteínas num ritmo mais acelerado do que a formação das proteínas, sobrando aminoácidos livres na seiva. Assim, as pragas e doenças, de alguma forma, “sabem” disso e se alimentam dessa planta desequilibrada.

32A Cartilha Agroecológica

Outros fatores interferem negativamente no funcionamento interno das plantas e podem diminuir ou aumentar sua resistência.

Espécie ou variedade de planta não adaptada à região “Velhice” ou imaturidade da planta (ou parte dela) Solo degradado, compactado e sem matéria orgânica Estresse por poda, muito calor ou muito frio

Para que a planta tenha uma quantidade maior de aminoácidos disponíveis na seiva, basta tratá-la de maneira errada. Causas comuns de desequilíbrio nas plantas são: o uso de agrotóxicos e o uso de adubos químicos. Os agrotóxicos debilitam as plantas e diminuem o seu ritmo de crescimento no período pós-aplicação. Já os adubos químicos possuem grande quantidade de nitrogênio que acabam circulando em excesso na seiva da planta, o que as torna vulneráveis ao ataque das pragas.

O que determina que uma planta tenha maior ou menor quantidade de substâncias simples circulando na seiva?

Quanto mais rápida a formação da planta induzida pela química dos adubos mais substâncias simples na seiva estarão disponíveis, fazendo com que a planta torne-se um alimento adequado para insetos, ácaros, nematóides, fungos, bactérias e vírus.

Oba! Alimento fácil...

Muito aminoácido disponível na seiva destas plantas!

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Entendendo os princípios básicos

A espécie e variedade da planta

Se a variedade não for bem adaptada à região e ao clima, o funcionamento da planta fica prejudicado. É o que acontece quando se cultivam espécies de clima temperado em regiões de clima tropical. Ou espécies da baixada, cultivadas em cima da serra.

A idade da planta ou de parte da planta

Plantas na fase de brotação e floração têm naturalmente reservas para os períodos de necessidade. Nessas fases as reservas são decompostas para que possam se deslocar e formar as brotações e flores novas. É um período em que, naturalmente, a planta estará mais sensível e frágil.

Folhas velhas são mais atacadas que as maduras. Folhas bem jovens também são mais sensíveis que as maduras, pois a carga de nutrientes que elas recebem é muito grande, acumulando substâncias solúveis que servem de alimento a pragas e doenças.

O clima, luminosidade e água

A falta de sol e água diminui a atividade de fotossíntese, prejudicando a formação de proteínas (proteossíntese/síntese da proteína). Portanto, quando há vários dias nublados, secos ou muito quentes, podemos esperar problemas nas plantas.

Os agrotóxicos e adubos químicos

Os agrotóxicos diminuem a respiração, a transpiração e a fotossíntese da planta, conseqüentemente diminuindo a formação de proteínas e disponibilizando substâncias livres na seiva. Aumentam, assim, a quebra de proteínas no interior da planta (proteólise/quebra da proteína). Já os adubos químicos aceleram, desequilibradamente, o crescimento da planta, afetando seu desenvolvimento e disponibilizando, dentro das plantas, substâncias simples que servem de alimento para as pragas e doenças.

Os agrotóxicos e adubos químicos destroem a vida do solo, matando minhocas, besouros e outros pequenos organismos altamente benéficos para a fertilidade do solo. Matam, assim, os inimigos naturais das pragas e doenças que tentamos controlar.

O solo

A boa fertilidade de um solo é dada por condições físicas adequadas (solo bem estruturado), boa diversidade de nutrientes e muita atividade dos microorganismos. Isso aumenta o poder da planta em absorver e escolher os alimentos, de forma a favorecê-la. O contrário ocorre com solos mal trabalhados, compactados e pobres em matéria orgânica e nutrientes.

Vamos ver em mais detalhes os fatores que influenciam no funcionamento interno das plantas?

34A Cartilha Agroecológica

a r c o e ç a r, b o p l n e j

Aqui você vai conhecer os melhores caminhos para planejar a produção, utilizando técnicas participativas. Vamos aprender como fazer diagnóstico, trabalhar em grupo, planejar inovações. Vamos saber como devemos redesenhar o sistema de forma a torná-lo sustentável e finalmente entender como realizar a transição ecológica.

Antes de iniciar a

Transição Agroecológica, ou seja, a longa passagem da agricultura química (convencional) para a agricultura de base ecológica, é importante que o(a) técnico(a), juntamente com os(as) agricultores(as), inicie uma análise profunda do agroecossistema do qual as famílias fazem parte. Esta análise inicial é fundamental para que a Transição Agroecológica seja coerente às possibilidades reais dos(as) agricultores(as).

É fundamental, como veremos, que tal análise profunda se desdobre em planejamento de inovações agroecológicas e que essas inovações possam ser monitoradas e acompanhadas, contribuindo, na prática, para a transição. Mas, para tanto, é necessário que o(a) técnico(a), que auxiliará neste processo, aprenda algumas noções gerais sobre Metodologia Participativas de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER), voltada para apoiar processos de Transição Agroecológica.

Para começar, é bom planejar!4 a Conhecendo a Metodologia de ATER

De forma resumida, Metodologia de ATER é a forma de fazer assistência técnica e extensão rural, que se utiliza de princípios e técnicas que orientam as atividades produtivas, de comércialização e de organização comunitária na zona rural. Para a Agroecologia a Metodologia de ATER está baseada nas Metodologias Participativas e nas agriculturas de base ecológica.

Essas Metodologias possibilitam a geração de soluções sustentáveis, sejam elas tecnológicas ou organizacionais e permitem que os(as) técnicos(as) estabeleçam uma relação horizontal com os(as) agricultores(as), reconhecendo o conhecimento e a capacidade da família agricultora de decidir o seu próprio desenvolvimento, fortalecendo assim sua capacidade de autogestão. Promovem ainda elos e compromissos sociais indispensáveis para o êxito da Transição Agroecológica.

Trabalhar com essas Metodologias no planejamento da agricultura de base ecológica desenvolve na família agricultora um posicionamento crítico diante da realidade, identificando e priorizando os problemas e formulando estratégias concretas para seu enfrentamento. Podemos dizer que sem as Metodologias Participativas fica inviável para o(a) técnico(a) trabalhar com Agroecologia nas comunidades rurais.

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As Metodologias Participativas estão fundamentadas no diálogo entre os membros de um determinado grupo [agricultores(as) e técnicos(as)] e devem respeitar alguns princípios fundamentais:

b O bom facilitador de grupos

Para ser um bom facilitador de processos grupais é necessário experiência e dedicação. O extensionista agroecológico deve buscar com afinco melhorar suas capacidades de trabalhar com grupos, já que, como vimos, a Agroecologia se apóia nas Metodologias Participativas, e elas se desenvolvem em grupos.

Dedicar-se a aprender novas técnicas, planejar com antecedência as atividades que serão realizadas, escolher materiais didáticos que auxiliarão o grupo a compreender melhor os temas trabalhados. Tudo isso é importante.

Para contribuir neste aprendizado, listamos a seguir uma série de dicas que o(a) técnico(a) deve ler com atenção e colocar em prática sempre que estiver trabalhando com grupos.

•todos os participantes devem ser considerados como sujeitos ativos na construção do conhecimento, a partir das informações que trazem, bem como sujeitos na análise de seus problemas, na decisão das soluções e na livre expressão de suas opiniões;

•a metodologia deve eleger cuidadosamente as técnicas; estas, se utilizadas corretamente, permitem um aprendizado rápido, progressivo e interativo, pois todos são motivados a se envolver no processo, contribuindo com seus conhecimentos, práticas e experiências;

•as técnicas utilizadas devem ser vistas como um apoio para a concretização deste enfoque inclusivo e participativo no processo de desenvolvimento.

A Cartilha Agroecológica

Antes de iniciar o trabalho em grupo:

•prepare antecipadamente as dinâmicas, o material, o ambiente e a pauta da reunião; •ponha o grupo à vontade, faça comentários sobre cotidianidades;

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