Fisiologia do Exercício 03

Fisiologia do Exercício 03

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Revista Brasileira de Prescrição e Fisiologia do Exercício, São Paulo, v.4, n.19, p.6-73. Jan/Fev. 2010. ISSN 1981-90.

Revista Brasileira de Prescrição e Fisiologia do Exercício ISSN 1981-90 versão eletrônica

Periódico do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Fisiologia do Exercício w.ibpefex.com.br / w.rbpfex.com.br

Cristian Ortiz de Camargo1 , Iris Mascarin2

, Newton Nunes3 .

Introdução: O esporte tem um papel fundamental na reabilitação física de pacientes com lesão medular por ampliar as alternativas terapêuticas e favorecer a independência funcional. Objetivo: O estudo teve por objetivo conhecer os efeitos do Treinamento de Força e natação sobre capacidades funcionais de pacientes com lesão medular. Métodos: Tratase de um estudo de caso, onde foi analisado um individuo com 32 anos de idade com tetraparesia com lesão de C5, submetidos a um programa de exercícios na água e em academia. O paciente foi avaliado por meio da Medida de Independência Funcional (Escala MIF) antes e após o procedimento que consistiu em sessões de natação realizadas duas vezes por semana durante três meses e na academia num período de dois meses três vezes por semana, sendo realizados apenas três exercícios, sendo eles: Cadeira extensora, mesa flexora e leg press. Resultados: O paciente apresentou mudanças significativas em todos os segmentos avaliados, sendo que no controle esfíncter se deu a maior significância de melhora. Conclusão: A atividade de treinamento de força e natação (a maior melhora se deu após o inicio do treinamento de força) foram efetivas na melhora da condição física, trazendo benefícios motores sobre as habilidades funcionais do paciente.

Palavras-chave: Lesão medular, natação, Treinamento de força, Independência funcional, reabilitação.

1- Programa de Pós Graduação Lato Sensu da Universidade Gama Filho em Fisiologia do Exercício – Prescrição do Exercício. 2- 3- Instituto do Coração – Incor/SP, HC-FMUSP

Benefits of the training of force and swimming on the functional independence of patient with injury medullar tetraparesia (a case study)

Introduction: The sport has a basic paper in the physical rehabilitation of patients with medullar injury because of enlarging the therapeutic alternatives and favoring the functional independence. Objective: The study had since objective knew the effects of the strength training and swimming on functional skills of patients with medullar injury. Methods: It the question is a case study, where an individual was analyzed with 32 years of age with tetraparesia with injury of C5, subjected to a program of exercises in the water and in academy. The patient was valued through the Measure of Functional Independence (Scale MIF) before and after the proceeding that consisted of fulfilled sessions of swimming twice weekly during three months and of the academy of a period of two months three times weekly, being carried out only three exercises, being they: leg extension, bench leg curl and leg press. Results: The patient presented significant changes in all the evaluated segments, being that in the control sphincter the biggest signification of improvement happened. Conclusion: The activity of swimming and strength training and swimming (the biggest improvement happened after the beginning of the strength training) was effective in the improvement of the physical condition, bringing driving benefits on the functional skills of the patient.

Key words: Medullar injury, swimming, Training of strength, functional Independence, rehabilitation.

Endereço para correspondência: nnunesusp@hotmail.com

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A lesão medular é uma das formas mais graves entre as síndromes incapacitantes, constituindo-se de um verdadeiro desafio para a reabilitação. Tal dificuldade decorre da importância da medula espinhal, que não é apenas uma via de impulsos aferentes e eferentes entre as diversas partes do corpo e o cérebro, como também um centro regulador que controla importantes funções como a respiração, a circulação, a bexiga, o intestino, o controle térmico e a atividade sexual.

Tal enfermidade vem se agravando a cada dia, devido ao grande numero de lesões traumáticas (80%) provocadas por ferimentos automobilísticos, arma de fogo, lesões no esporte e quedas. Para as demais causas não traumáticas (20%) destacam-se as doenças infecciosas, tumorais, vasculares e degenerativas (Lianza, 2007).

Os avanços ocorridos nas últimas décadas na medicina e o conseqüente aumento de sobrevida de pessoas vítimas de lesão medular (LM) foram acompanhados de uma evolução em seu tratamento que passou a objetivar a minimização das incapacidades e complicações e o retorno do indivíduo à sociedade. Os esportes e o lazer começam a fazer parte do tratamento médico por serem fundamentais no processo de enfrentamento da “desvantagem” pelos deficientes físicos. O esporte tem um papel fundamental na reabilitação: complementa e amplia as alternativas; estimula e desenvolve os aspectos físicos, psicológicos e sociais e favorece a independência (Silva, Oliveira e Conceição, 2005).

Refere-se à diminuição ou perda da função sensitiva e/ou motora nos segmentos cervicais da medula devido a danos dos elementos neurais dentro do canal medular, geralmente acometido por trauma em acidentes. A tetraplegia resulta em diminuição funcional dos braços assim como do tronco, pernas e órgãos pélvicos (Lianza, 2007). Definições: 1- fraqueza dos quatro membros, 2- sinônimo de quadriplegia.

A prática do exercício físico regular previne doenças, promove a saúde e mantém a independência funcional do indivíduo, na qual poderá ser complementado pelo trabalho médico e fisioterapêutico (Silva, Oliveira e Conceição, 2005).

Para Bampi, Guilhem e Lima (2008), a prática esportiva como exercício reduz o tempo de hospitalização, aumenta a independência e a capacidade de iniciativa, contribui para a educação, amplia as alternativas e estimula e desenvolve os aspectos físicos, psicológicos e sociais.

Segundo Venturini, Decésaro e

Marcon (2007), indivíduos com lesão raquimedular revelaram ter conseguido uma melhor educação intestinal e urinária por meio da prática de esporte, melhorando desta forma sua qualidade de vida.

Em um estudo realizado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, 28 homens, com lesão medular, divididos em dois grupos, sendo um grupo sedentário e outro grupo praticante de exercício físico (basquete em cadeiras de rodas e natação), foram avaliados com o objetivo de comparar alguns parâmetros bioquímicos e de avaliação

Fraturas-luxações: Acidentes de Trânsitos

Esporte Quedas Acidentes de Trabalho

Ferimentos: Armas de Fogo Armas brancas

Tumorais – Extradurais: tumor ósseo primário ou metástase - Intradurais:

- Extramedulares: meningioma, neurofibroma

- Intramedulares: gliomas, ependimomas, angiomas Infecciosas– Inespecíficas: abscessos, mielites

- Específicas: TBC, Lues etc.

Vasculares – Trombose, embolia Degenerativas – Espondilose Malformações – Mielomeningocele Outros – Hérnias de disco, estenose de canal, siringomielia

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Periódico do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Fisiologia do Exercício w.ibpefex.com.br / w.rbpfex.com.br nutricional e indicativos de risco de doenças crônicas. Os resultados demonstraram que indivíduos lesados medulares sedentários apresentam uma tendência a sobrepeso, aumento em algumas frações das lipoproteínas e da glicose plasmática. A conseqüência deste fato é o aumento do risco de doenças quando comparados com o grupo praticante de exercício físico (Silva, Oliveira e Conceição 2005).

As lesões medulares, devido à sua gravidade e irreversibilidade, exigem, para melhoria da qualidade de vida dos indivíduos que sofreram deste trauma, um programa de reabilitação longo e que, na maioria das vezes, não leva à cura, mas auxilia na adaptação a uma nova vida. As seqüelas e as dificuldades que essas pessoas enfrentam para retornar à sua vida familiar e social interferem na sua qualidade de vida e é um desafio aos profissionais de um programa de reabilitação (Bampi, Guilhem e Lima, 2008).

Segundo a Organização Mundial de

Saúde (OMS), qualidade de vida é a percepção do indivíduo em relação a sua posição na vida, no contexto da cultura e do sistema de valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações. Essa definição inclui seis domínios principais: saúde física, estado psicológico, níveis de independência, relacionamento social, características ambientais e padrão espiritual (Vall, Braga e Almeida, 2006).

Muitos fatores podem influenciar a qualidade de vida após o trauma medular, como a qualidade do atendimento oferecido pelo sistema de saúde, tipo e gravidade das lesões, número de intervenções cirúrgicas, grau de seqüelas, dor, acesso à reabilitação e condição socioeconômica, entre outros.

Além da dependência, o lesado medular desencadeia uma série de problemas físicos e fisiológicos tais como: presença de úlceras de pressão, infecção urinária, espasticidade e deformidades em graus variados conforme o comprometimento, desencadeando inúmeras dificuldades e/ou limitações, como por exemplo: a dificuldade de inserção da pessoa com deficiência no mercado de trabalho e o sentimento de desorientação experimentado perante as expectativas sociais, interferindo em sua imagem corporal e auto-imagem (Venturini, Decésaro e Marcon (2007).

Giannattasio citado por Pereira e

Araujo (2005), por exemplo, alerta que a lesão medular provoca quebra na unidade psicofísica do indivíduo que anteriormente funcionava de maneira adequada e que as mudanças corporais e limitações da ação provocam reações psicológicas diversas como depressão, isolamento, impulsividade reacional, agressividade e apatia. Sentimento de desamparo e falta de controle sobre a própria vida são também experiências descritas por portadores de lesão medular.

Outro foco de insatisfação com a vida são as dificuldades de mobilidade Tate e colaboradores (1994) encontraram forte associação entre a depressão e dependência física, além de dependência financeira, idade mais jovem, estado civil de solteiro, gênero masculino e sentimentos de inabilidade para participar de relações sociais.

Num estudo desenvolvido com 32 famílias de indivíduos com Lesão Raquimedular no município de Maringá – PR (Venturini, Decésaro e Marcon, 2007), foi investigado junto aos indivíduos o que seria necessário para melhorar suas condições de vida e constatou-se a identificação de quatro grandes grupos de necessidades: a) relacionadas às condições fisiológicas: voltar a andar, voltar a ser como antes saudável sem limitações, trabalhar, recuperar-se; b) relacionadas aos serviços de saúde disponíveis: disponibilização gratuita de remédios e materiais e facilidade de acesso a atendimentos especializados como fisioterapeutas, odontólogos, médicos; c) relacionadas ao aparelho social: possibilidade de ocupação do tempo, computação, lazer, transporte, infra-estrutura, condições financeiras; d) relacionadas aos recursos tecnológicos e humanos: cuidador mais presente e cadeira motorizada.

As atividades aquáticas podem proporcionar a abertura de um mundo totalmente novo para todas as pessoas. Mas para as pessoas com deficiências ele se apresenta com muito mais vantagens, pois a

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Periódico do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Fisiologia do Exercício w.ibpefex.com.br / w.rbpfex.com.br realidade de um ambiente aquático é antes de mais nada a de liberdade e de possibilidades (Mauerberg, 2005).

A água proporciona aos indivíduos com deficiências inúmeros benefícios como reeducação e estimulação de músculos paralisados; fortalece a musculatura que auxilia a postura; alívio de dores; exercícios que exigem força muscular sem preocupação com atrito; intervenção perceptivo-motor; independência na modalidade; entre outras (Mauerberg, 2005).

Skinner e Thomson citado por Silva,

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