Obesidade e Emagrecimento 05

Obesidade e Emagrecimento 05

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Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento, São Paulo v.2, n.1, p.498-507, Set/Out. 2008. ISSN 1981-9919.

Revista Brasileira de Obesidade, Nutrição e Emagrecimento. ISSN 1981-9919 versão eletrônica

Periódico do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Fisiologia do Exercício w w w . i b p e f e x . c o m . b r - w w w . r b o n e . c o m . b r

Adilson Domingos dos Reis Filho1,2,3,4 , Maira Luciana Serafim Silva1

Carlos Alexandre Fett3,5 , Waldecir Paula Lima6

Objetivo: Comparar a influência do treinamento em circuito e caminhada sobre a composição corporal e a aptidão física de obesas sedentárias. Materiais e Métodos: Participaram do treinamento em circuito e caminhada, 21 mulheres sedentárias, com idade entre 30-40 anos, índice de massa corporal (IMC) entre 30-40 kg/m2 , durante 08 semanas; com sessões de uma hora; três vezes na semana; com intensidade de 3 e 5 na escala de Borg e freqüência cardíaca (FC) entre 60% e 70% da FCmáx. Resultados: Ambos os grupos obtiveram reduções no peso corporal, no percentual de gordura e na massa gorda, porém, somente o grupo circuito apresentou maior aumento da massa magra. Discussão: Observamos a existência de vários estudos na literatura que comprovam o efeito positivo do exercício físico sobre a redução do tecido adiposo. Entretanto, estes consideraram apenas a duração do trabalho realizado, sendo que poucos demonstram a interferência do tipo de exercício, quanto à predominância do metabolismo energético empregado. Conclusão: A combinação entre dieta hipocalórica e exercício físico, tal como circuito e a caminhada parecem surtir efeito no tratamento da obesidade.

Palavras chave: Treinamento em Circuito, Caminhada, Composição Corporal e Obesidade.

1 - Programa de Pós-Graduação Lato-Sensu da Universidade Gama Filho – Exercício Físico aplicado à Reabilitação Cardíaca e a Grupos Especiais. 2 - Programa de Pós-Graduação Stricto-Sensu (Mestrado) em Biociências da Faculdade de Nutrição/UFMT. 3 - Laboratório de Aptidão Física e Metabolismo (LAFIME) – FEF/UFMT. 4 - Grupo de Estudos e Pesquisa em Exercício Físico e Metabolismo (GEPEMET) – FEF/UNEMAT.

Effects of circuit training or walk after eight weeks of intervention in body composition and physical fitness of sedentary obese women

Objective: To compare the influence of circuit training and walking on body composition and physical fitness of obese sedentary. Materials and Methods: Participants of the training circuit and walk, 21 sedentary women, aged 30-40 years, body mass index (BMI) between 30-40 kg/m2 , for 08 weeks, with sessions of one hour, three times per week with intensity of 3 and 5 on the scale of Borg and heart rate (HR) between 60% and 70% of HRmax. Results: Both groups had reductions in body weight, the percentage of fat and fat mass, however, only the circuit group showed greater increase in lean body mass. Discussion: We observed the existence of several studies in the literature that show the positive effect of exercise on reducing the fat. However, they considered only the duration of work, with little to show interference of the type of exercise, as the predominance of energy metabolism employee. Conclusion: The combination of reduced calorie diet and exercise, like walking circuit and seem to have effect in the treatment of obesity.

Key words: Circuit Training, Walking, Body Composition and Obesity.

E-mail: reisfilho.adilson@gmail.com Rua República da Argentina, nº559 – aptº104, bloco 05, Res. San Martin Jardim Tropical – Cuiabá – Mato Grosso. 78065-198 E-mail: mluciserafim@yahoo.com.br Rua 03, nº 686. Bairro Boa Esperança – Cuiabá – Mato Grosso 78068-720

5 - Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) 6- Professor do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia – IF/SP

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O excesso de gordura corporal é um dos maiores problemas de saúde em muitos países, especialmente entre os mais industrializados (Nahas, 1999), este aumento de sobrepeso e obesidade nos últimos anos tem alcançado proporções epidemiológicas, podendo ser observado tanto em estudos com crianças como em adolescentes e adultos. Estudos mais recentes não diferem do prognóstico epidemiológico, inclusive é observado um aumento da prevalência de obesidade também entre os países em desenvolvimento, dados esses apontados por Negrão e Barreto (2006), em virtude do maior consumo de calorias derivadas da gordura, associado ao estilo de vida cada vez mais sedentário, além da possibilidade da predisposição genética, sendo esta considerada em menor grau.

De acordo com Costa e Fisberg (2005), numerosos estudos prospectivos têm apontado a obesidade como causa de diversas complicações em vários sistemas orgânicos, sendo que adultos obesos apresentam maior risco de morbidade e mortalidade para doença arterial coronariana, dislipidemias, hipertensão arterial, diabetes tipo I, apnéia do sono, infertilidade, doença renal e alguns tipos de câncer. Além das complicações descritas anteriormente, Foss e Keteyian (2000) relacionam a instalação da obesidade a distúrbios psicológicos, acidente vascular cerebral, apoplexia, males hepáticos e dificuldades biomecânicas.

Dâmaso (2001) relata que a partir de 1985 a obesidade foi considerada pelo National Institutes of Health como doença multifatorial. A gênese da obesidade está relacionada a vários fatores, tais como: genéticos, fisiológicos, metabólicos e ambientais. Embora esta epidemia possa resultar de alterações das condições ambientais, mesmo dentro de qualquer ambiente determinado, a ampla variabilidade observada de tamanho corporal e de composição corporal é provavelmente resultante de características metabólicas herdadas (Bouchard, 2003).

Entretanto, Costa e Fisberg (2005) relatam que o rápido aumento das taxas mundiais de obesidade ocorreram dentro de um espaço de tempo muito curto para poder ser associado a mudanças genéticas significativas nas populações, desta forma os fatores que melhor poderiam explicar tal crescimento seriam aqueles relacionados ao estilo de vida sedentário e aos hábitos alimentares.

Em linhas gerais, podemos definir a obesidade como acúmulo de energia sob a forma de gordura, e influenciada por fatores genéticos, ambientais e comportamentais (Aronne, 2002).

Para a avaliação e classificação do grau e riscos relacionados ao sobrepeso e obesidade, são utilizados alguns indicadores, tais como: os métodos antropométricos (dobras cutâneas, razão entre as circunferências da cintura e do quadril, índice de obesidade, razões entre peso/idade, estatura/idade e Score Z); e os métodos laboratoriais (raios infravermelhos – Futrex, impedância bioelétrica, hidrometria, espectometria, densitometria, dual photon absorptiometry – DPA e dual energy X-ray absorptiometry – DEXA. Porém, o tipo de mensuração mais utilizado para determinar o grau de obesidade e riscos de saúde, principalmente em estudos populacionais, é o Índice de Massa Corporal (IMC), sendo este, um método indireto de avaliação e que não distingue e/ou define a composição corporal e a distribuição da massa gorda (Dâmaso, 2001), sendo necessário, portanto, a realização de medidas complementares anteriormente descritas.

Em vários momentos da história humana, considerou-se que a obesidade era causada por desequilíbrios hormonais resultantes da falha de uma ou mais glândulas endócrinas em regular adequadamente o peso corporal (Wilmore e Costill, 2001), em outros momentos o excesso de alimento foi taxado como o principal vilão do excesso de peso corporal, fato este descartado por McArdle, Katch e Katch (1998), que afirmam não haver necessariamente a relação da obesidade com o excesso de comida. Pesquisas recentes mostram que a obesidade pode ser resultante de um ou da combinação de vários fatores.

Vincent e Colaboradores (2003) demonstraram que um estilo de vida sedentário é predominante entre pessoas obesas, podendo ser esta a principal causa da doença.

O aumento crescente da prevalência da obesidade nas últimas décadas vem alcançando proporções epidêmicas. Parte do

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Periódico do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Ensino em Fisiologia do Exercício w w w . i b p e f e x . c o m . b r - w w w . r b o n e . c o m . b r mais recente levantamento do Nutrition Examination Survey (NHANES) mostrou aumento significativo na prevalência da obesidade de 2,9% (NHANES I – 1988 a 1994) para 30,5% (1999 a 2000), e do sobrepeso de 5,9% para 64,5%, em uma amostra representativa da população norteamericana (Negrão e Barretto, 2006).

No Brasil foram feitos três grandes levantamentos populacionais avaliando a presença da obesidade em diferentes níveis socioeconômicos nas duas mais populosas regiões brasileiras, Nordeste e Sudeste, em 1975, 1989 e 1997. Os dados encontrados nestes três levantamentos no Brasil, tem-se assemelhado à da maioria dos países desenvolvidos (Negrão e Barretto, 2006).

Dados relativos a segunda etapa da

Pesquisa de Orçamentos Familiares, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Ministério da Saúde no período de 2002/2003, apontam que o excesso de peso atinge 38,8 milhões de brasileiros, dados estes correspondentes a 40,6% da população adulta (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – SBEM).

De acordo com Dâmaso (2001), a obesidade pode ser classificada quanto à origem, à distribuição de gordura, quanto ao crescimento do tecido adiposo e quanto à morbidade. É considerado obeso o indivíduo que apresenta IMC maior ou igual a 30 kg/m2 (Cabrera e Jacob Filho, 2001) e percentual de gordura corporal acima de 25% para os homens e de 35% ou mais para as mulheres (Wilmore e Costill, 2001).

A manutenção estável do peso e composição corporal durante os anos resulta de um balanço preciso entre a ingestão e o gasto energético, um desequilíbrio nesta relação desencadeia o processo da obesidade (Bouchard, 2003). A quantidade total de energia dispendida diariamente pode ser expressa através da soma de três componentes: a Taxa Metabólica de Repouso (TMR), o Efeito Térmico de uma Refeição (ETR) e o Efeito Térmico da Atividade (ETA) (Wilmore e Costill, 2001). Na maior parte dos adultos sedentários, o metabolismo basal constitui, aproximadamente, 60% a 70% dos gastos energéticos diários (Goran, 1998), podendo ser influenciado pelo tamanho e pela composição corporal.

O efeito térmico dos alimentos constitui a menor fração do gasto energético total, não ultrapassando 10% do gasto total em uma dieta equilibrada, podendo variar de acordo com a composição e com a quantidade alimentar (Bouchard, 2003). O gasto energético decorrente da atividade física apresenta grande variedade entre indivíduos, representando de 15% a 50% do gasto diário de energia, sendo influenciado pela duração, intensidade e especificidade da tarefa, além do nível de condicionamento e da alimentação do indivíduo (Power e Howley, 2000).

Enquanto há consenso na literatura sobre os fatores de risco associados ao sobrepeso e à obesidade, ainda se discute muito sobre o melhor tratamento, já que a maioria deles falha na manutenção da perda de peso em longo prazo. Um dos fatores que contribuem para o insucesso de seu tratamento está na necessidade de manutenção de uma dieta hipocalórica por longos períodos, o que causa a desmotivação do indivíduo (Bronstein, 1996). Para aumentar essa adesão ao tratamento da obesidade, tem-se observado a associação de exercício físico aos programas de emagrecimento, fato este que vem se mostrando bastante eficaz, já que vários estudos demonstram que o maior benefício da atividade física está em favorecer a manutenção do peso corporal em médio e longo prazo, além da possibilidade de manterse o gasto calórico elevado por minutos ou horas após a prática do exercício.

Combinar dieta hipocalórica e treinamento físico é uma excelente intervenção não farmacológica para o tratamento da obesidade. No entanto a intensidade, duração e até mesmo a modalidade ideal de exercício físico é controverso no meio científico, havendo certa predominância de estudos que apontam para os exercícios aeróbios de baixa a moderada intensidade.

Alguns estudos têm demonstrado o efeito da dieta e do treinamento físico isoladamente ou combinados sobre a perda do peso corporal. Há consenso na literatura sobre o efeito da dieta na redução do peso corporal, entretanto a inclusão de exercícios nem sempre resulta em perda adicional de peso (Negrão e Barreto, 2006), fato este provavelmente em decorrência da prescrição equivocada do exercício físico.

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Fisiopatologia da Obesidade

O tecido adiposo trata-se de uma forma de tecido conjuntivo composto por células (adipócitos) separadas umas das outras por uma matriz de fibras colágenas e de fibras elásticas amarelas. A gordura se acumula pelo preenchimento dos adipócitos existentes (hipertrofia) e por meio da formação de novas células adiposas (hiperplasia). Até bem pouco tempo o tecido adiposo era considerado um tecido inerte, que servia apenas como depósito, atualmente já se sabe que o tecido adiposo é um órgão dinâmico que secreta inúmeras substâncias denominadas adipocinas.

As adipocinas estão relacionadas direta ou indiretamente, a processos que contribuem para a aterosclerose, hipertensão arterial, resistência insulínica, diabetes tipo 2 e dislipidemias, ou seja, representam o elo entre adiposidade, síndrome metabólica e doenças cardiovasculares (Hermsdoff e Monteiro, 2004). Destacam-se entre as adipocinas, o fator de necrose tumoral-alfa (TNF-α), a interleucina-6 (IL-6), o inibidor de plasminogênio ativado-1 (PAI-1), a proteína-C reativa (PCR), a resistina, a proteína estimulante de acilação (ASP) e os fatores envolvidos no sistema renina-angiotensina.

Com o desenvolvimento da obesidade, os depósitos de gordura corporal (adipócitos) estão aumentados, desta forma apresentam também um número elevado de adipocinas circulantes. O maior risco em relação ao acúmulo de gordura está relacionado ao tecido adiposo visceral, pois o mesmo é considerado mais ativo metabolicamente, segundo (Hermsdoff e Monteiro, 2004), esse risco seria em decorrência da maior resposta às catecolaminas e menor sensibilidade a supressão de lipólise mediada pela insulina, além de liberar ácidos graxos livres (AGL) diretamente para o fígado via sistema porta. Desta forma, nosso estudo teve a preocupação de identificar qual o melhor exercício para a redução da composição corporal, especialmente em relação à circunferência abdominal, visto que esta parece estar mais intimamente relacionada com as complicações cardiometabólicas.

Proposta Terapêutica

Segundo Mundim (1996), toda propos- ta terapêutica para a obesidade deve ser realista, maleável, com duração indeterminada e ter como meta principal uma melhor qualidade de vida, com ou sem redução de peso. Pollock e Wilmore (1993), afirmam que a motivação e a responsabilidade do sujeito para com o programa são fatores importantes no tratamento da obesidade.

O aumento da obesidade parece ocorrer paralelamente à redução na prática de atividade física e com o aumento do sedentarismo (Martinez, 2000). Sendo assim é necessário um mínimo de atividade física para regular a ingestão de alimentos, sem a qual há uma tendência ao consumo excessivo de calorias, fato este reforçado por Marcon e Gus (2007), que indicam uma relação entre exercício físico e uma melhor adesão à dieta hipocalórica.

Segundo Bronstein (1996), a atividade física para obesos não pode ser esporádica, mas mantida e fazendo parte do cotidiano. Porém, para que a atividade física seja mantida, é fundamental que o paciente obeso tenha prazer na realização da mesma. A atividade física funciona como sincronizadora de estímulos metabólicos envolvendo a termogênese e ingestão de alimentos. O exercício físico aumenta a termogênese tornando o organismo mais eficiente para a oxidação de gorduras (Westerterp e Goran, 1997).

Estudos clássicos como os de Pollock (1993), já apontavam para o que é encontrado hoje na literatura, onde, tanto o exercício de força quanto o aeróbio promovem benefícios substanciais em fatores relacionados à saúde e ao condicionamento físico, incluindo a maioria dos fatores de risco da obesidade. O exercício de força é um potente estímulo para aumentar a massa, força e potência muscular, podendo ajudar a preservar a musculatura, que tende a diminuir devido a dietas, maximizando assim a redução de gordura corporal (Baalor e Colaboradores (1988), Kraemer e Colaboradores (1997) e Kraemer e Colaboradores (1999). Além disso, tem o potencial de melhorar a força e resistência muscular que pode ser benéfico para as tarefas diárias, facilitando a adoção de um estilo de vida mais ativo.

O treinamento em circuito e exercícios aeróbicos de baixa intensidade como caminhada, são dois tipos de treinamento entre as inúmeras opções de exercícios que

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