Paisagens do Cerrado

Paisagens do Cerrado

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BIOMA CERRADO UM ESTUDO DAS PAISAGENS DO CERRADO1

Dr. Idelvone Mendes FERREIRA2 Professor do Curso de Geografia – Campus de Catalão/UFG

Catalão (GO) - iemendes@ibest.com.br

Campo Cerrado - Desenho de Percy Lau. Tipos e Aspectos do Brasil (1956, p. 411)

De longe vez, capins mortos; e uns tufos de seca planta – feito cabeleira sem cabeça.

1 Tema de Estudo da Tese de Doutorado junto ao Programa de Pós-Graduação em Geografia, área de concentração em Organização do Espaço – UNESP – Campus de Rio Claro (SP).

Ao analisarmos uma paisagem, temos que considerar uma série de fatores que estão condicionando a percepção da mesma. Neste trabalho sobre as paisagens de Cerrado, sob a ótica da inserção/visão/percepção, esses fatores são inerentes a cada um dos componentes locais, onde o espaço geográfico exercerá suas influências regionais e locais. Este estudo versa sobre o processo de degradação do Bioma Cerrado, buscando a compreensão dos fatos inerentes e decorrentes da intervenção do homem nos subsistemas existentes no Cerrado na região do

Brasil Central, mais especificamente, através de uma análise comparativa espacial e temporal. A área de ocorrência do Cerrado apresenta-se subordinada às características ambientais que possibilitaram sua evolução. Essa pertence à região do Planalto Central Brasileiro e alguma áreas endêmicas, com suas particularidades e subsistemas específicos, tais como as Superfícies Aplainadas de Cimeira e a presença de solos concrecionários. As paisagens do Cerrado se constituem num importante ecossistema, possuindo, além do significado ecológico, um papel sócio-econômico e estético paisagístico que lhe confere importância regional, principalmente quanto ao aspecto de constituírem refúgios fauno-florísticos e por serem ambiente de nascedouro das fontes hídricas do

Planalto Central Brasileiro, aspecto vital para a preservação das águas da região e sistema hídrico brasileiro. Nesse contexto, o texto procura apresentar as transformações ocorridas, a partir da interferência antrópica, através de práticas agropastoris decorrentes da expansão da agricultura na região, que vêm interferindo de forma impiedosa na paisagem e na percepção dos moradores, uma vez que promove as alterações no ambiente, refletindo na vida cotidiana dos mesmos e na paisagem local.

Palavras-chave: Cerrado, subsistemas de Cerrado; degradação antrópica.

2 I INTRODUÇÃO

Ao analisarmos uma paisagem, temos que considerar uma série de fatores que estão condicionando a percepção da mesma. Neste trabalho sobre as paisagens de Cerrado, sob a ótica da inserção/visão/percepção, esses fatores são inerentes a cada um dos componentes locais, onde o espaço geográfico exercerá suas influências regionais e locais.

Nesse contexto, procuramos desenvolver essa temática sobre os aspectos do Cerrado utilizando as paisagens como referência, considerando sua importância e sua inserção na dinâmica da paisagem do Brasil. A grande região ocupada pelo Cerrado no passado, cerca de dois milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro, tem se consolidado, neste início do século XXI, como uma fronteira de desenvolvimento capaz de sustentar um crescente aumento da produção agropastoril, fato que vem refletindo, de forma marcante, nas paisagens e populações locais. A modernização das técnicas produtivas no campo, em especial na área do

Cerrado, aliada a um acréscimo constante de investimentos financeiros subsidiados por programas e políticas oficiais, vem propiciando um avanço indiscriminado sobre a paisagem do Cerrado, o qual, tem se transformado em uma região “viável” na utilização pela agropecuária, decorrente de uma extensa área agricultável, facilidade de mecanização, de “fartos”3 recursos hídricos, por estar próximos de centros consumidores, entre outros, além da desvalorização do Cerrado em seus aspectos naturais, culturais e científicos. A incorporação crescente de novas áreas agricultáveis, a cada safra, dá-se a partir do desmatamento indiscriminado da vegetação natural, com conseqüente dizimação das espécies animal, vegetal e demais componentes das biocenoses. Desta forma, ao mesmo tempo em que se está promovendo o aproveitamento agropecuário da terra, a lenha (massa vegetal), resultante do desmatamento, torna-se uma importante matéria-prima para as siderúrgicas do Sudeste Brasileiro.

Estudos recentes indicam uma área aberta, superior a 85 milhões de hectares até o início do presente século, representando cerca de 48% da superfície coberta pelo Cerrado no Brasil. Esse avanço indiscriminado, sem um plano de manejo sustentado, tem ameaçado, substancialmente, a biodiversidade do Cerrado. Apesar de sua aparente uniformidade, o Cerrado guarda uma grande variedade de espécies de seres vivos, bem como variados e importantes subsistemas, dentre os quais, as Veredas. Estima-se que 1/3 da biota

Apesar de todo um aparato de Leis, Decretos e Resoluções, a Legislação não está sendo cumprida a contento quanto à preservação ambiental no Brasil, principalmente no que se refere ao Cerrado e seus subsistemas. Assim, vemos que não se cumpre o determinado no Código Florestal Brasileiro, Resoluções e Decretos complementares, emitidos pelos órgãos “competentes”. Os órgãos institucionais auferidos da competência de gerir e fiscalizar o cumprimento da legislação ambiental tem feito “vistas grossa” no que se refere às paisagens do Cerrado. Especificamente no Estado de Goiás, a Lei 12.596, que instituiu a Política

Florestal, primeiramente torna o Bioma Cerrado “Patrimônio Natural do Estado”, estabelecendo em seus artigos uma série de restrições ao uso de seus subsistemas, porém, conflituosamente apresenta a questão da “função social da propriedade”, ponto passível de discussão segundo interesses vários, principalmente o político. Também não estabelece e nem delimita, com clareza, os seus vários subsistemas, especialmente o de Vereda, fazendo apenas uma alusão ao mesmo, continuando o processo de devastação do Cerrado. Deve-se trabalhar uma política de esclarecimento e observância da legislação, exigindo que os órgãos competentes atuem junto à população e comunidades que estão inseridas nas áreas de Cerrado. Sem esse trabalho, a legislação continuará sendo mero “enfeite” burocrático e o Bioma Cerrado continuará sendo destruído.

O fato é que o usuário dos recursos do Cerrado ainda não conseguiu perceber a importância do mesmo, conseqüentemente, ainda não atribuiu valoração quanto à importância de sua preservação, corroborado pela ineficácia da fiscalização institucional brasileira, especialmente do Estado de Goiás. Assim, falta a implantação de uma política educacional mais eficaz, com referência a preservação ambiental e do patrimônio genético desse bioma, bem como a estruturação de instituições de pesquisa visando o estudo e preservação do Cerrado.

Como se pode perceber, a grande maioria das descrições ou conceituações auferidas ao Cerrado e subsistemas são desprovidas de significância perceptiva, uma vez que estas definições são, na maioria, feitas de fora, sem que o observador participe da paisagem.

Geralmente estas definições são feitas considerando uma documentação pré-existente, não sendo extraídas de observação e experiência de campo, onde o observador possa se sentir como parte integrante da mesma. Muito mais, talvez, pela necessidade de ocupar esses ambientes para deles usar seus recursos, especialmente a água e o solo.

O estudo das paisagens de forma isolada e independente é impossível. Necessário se faz entender o conjunto das paisagens que formam o Bioma Cerrado, tanto em nível evolutivo como no sentido sucessional, portanto, levantar alguns dados sobre os subsistemas do Cerrado é da maior importância para compreender alguns fatores ligados à dinâmica desse bioma, seus sistemas biogeográficos e processos de ocupação.

A nível global, Martins (1992) afirma que as savanas (Cerrado) constituem um tipo intermediário entre a vegetação arbórea (floresta) e a vegetação herbácea das estepes e da tundra, sendo formações vegetais encontradas nas regiões intertropicais com vegetação de três metros de altura, recebendo nomes diverso como: Savana (Estados Unidos e África),

Cerrados ou Sertões (Brasil), Lhanos (Venezuela), Parque (África Oriental), Chaparral

(México), Bosques (Sudão Africano), Jungle (Índia). Troppmair (2002, p. 78) chama essa formação vegetacional de “tropofitica” de savanas, caracterizando-se por uma faixa intertropical em direção norte e sul com diminuição da precipitação e aumento da estação seca alternada por uma úmida. O autor afirma ainda que os Cerrados que ocupam a região do Brasil Central são classificados como savanas úmidas, representando uma vegetação sui generis com características de estrutura e composição própria, cortadas pelas Matas de Galerias junto aos cursos d’água, como mostra a Figura 1.

Figura 1 – Vegetação Tropofítica de Savanas e Cerrados Fonte: Troppmair (2002, p. 78).

As primeiras citações e descrições sobre as características do Cerrado foram feitas pelos Bandeirantes que adentravam os “sertões” do Brasil à procura de minerais e pedras preciosas e índios para escravizarem. Nessas viagens, geralmente, eram acompanhados por algum estudioso e/ou escriba responsável pela descrição e relato da viagem.

Posteriormente, os viajantes estrangeiros passaram a incursionar pelas paisagens brasileiras, coletando espécies e fazendo descrições detalhadas dos aspectos paisagísticos que compunham o espaço brasileiro. Exemplo disso são as viagens de Martius e Spix (1817 a

1820), Reise in Brasilien, que andaram pelo Brasil a serviço da Coroa Alemã. Suas viagens renderam várias obras referentes ao Brasil, como Flora brasiliensis, Genera et species palmarum e, Reise in Brasilien. Dessa expedição, resultou na primeira divisão fitogeográfica do Brasil feita por Martius (1838), onde classifica a região dos Cerrados como Oreas ou oréades – região montano-campestre ou de campos e cerrados - Planalto Central - (RIZZINI,

1997, p. 619), que perdurou até há pouco tempo. Em sua obra Reise in Brasilien (Viagem pelo Brasil), Martius (1838, p. 109) faz a seguinte descrição do Cerrado:

As regiões situadas mais altas, mais sêcas, eram revestidas de matagal cerrado, em parte sem fôlhas, e as vargens ostentavam um tapête de finas gramíneas, tôdas em flôr, por entre as quais surgiam grupos espalhados de palmeiras e moitas viçosas. Os sertanejos chamam varedas a esses campos cobertos. Encotramos aqui uma palmeira flabeliforme, espinhosa, a carimá, (Mauritia armata, M.), o maior encanto do solo; e, além daquela aqui mais rara, o nobre buriti (Mauritia vinifera, M.).

Várias outras expedições de viajantes fizeram descrições sobre os aspectos das paisagens do Brasil que, na sua maioria, eram financiadas por governos estrangeiros, ficando os resultados das mesmas restritas a essas nações, infelizmente não chegando ao

Brasil. Outro aspecto importante dessas descrições é o aspecto xeromórfico descrito, uma vez que a maioria das expedições ocorriam no período de estiagem, momento quando a vegetação entra em estado de “dormência” perdendo as folhas e aparentando um aspecto encrespado, resultando na descaracterização real dos aspectos paisagísticos do Cerrado, fazendo com que ocorresse um desprestígio para com esse bioma.

Mais especificamente, com o objetivo de delimitar e estudar a área onde deveria se estabelecer a nova capital do Brasil, o governo brasileiro nomeia em 1891 uma comissão formada por 2 membros, chefiada pelo astrônomo Luiz Cruls. Além da demarcação da área da futura capital, hoje Brasília, em sete meses de trabalho, de meados de 1892 a princípios de 1893, foram percorridos mais de quatro mil quilômetros e realizado um levantamento minucioso sobre topografia, clima, hidrologia, geologia, fauna, flora, pedologia, recursos minerais e materiais de construção existentes na região do Brasil Central. O produto desses trabalhos resultou no Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central do

Brasil, apresentado por Cruls, (1894). Nesse relatório pode-se perceber uma minuciosa descrição dos aspectos do Cerrado, considerando as várias nuanças e aspectos de seus subsistemas.

Quanto à origem da formação dos Cerrados, Waibel (1948, p. 354) afirma que constitui “[...] o mais difundido, o mais interessante e o mais característico tipo de região aberta do Planalto Central”. Muitas teorias têm sido discutidas quanto a possível origem dos

Cerrados. Alvim (1954) classificou em três grupos as possíveis origens do Cerrado, com base na divisão proposta por Beard (1944) para as áreas de Cerrado da América Tropical, dispostos a seguir: a) Teoria climática, baseada na deficiência de água; b) Teoria biótica, baseada nos efeitos da ação humana, principalmente através de queimadas constantes; c) Teorias pedológicas, onde o solo exerce predominante influência, especialmente sob dois pontos de vista, o geológico e o químico, por suas diferenças minerais e, físico, pelas más condições de drenagem.

Referente a tais teorias, Alvim (1954, p. 496-497, grifo do autor), em seus estudos sobre o assunto, comenta que:

A teoria climática teve o seu primeiro defensor em WARMING, que considerava a existência de uma prolongada estação sêca como fator mais importante para a existência dos cerrados. O fato, porém, de coexistirem sob o mesmo clima diferentes formas de cerrado fêz com que o próprio WARMING admitisse que essa formação, aparentemente, resultava de uma escassez de água aliada a condições especiais de solo. A teoria biótica, que atribui a existência do cerrado em grande parte ao resultado das atividades humanas, é a defendida especialmente por RAWITSCHER (1940) e seus colaboradores do Departamento de Botânica da Universidade de São Paulo. Da mesma forma que a anterior, a presente teoria não esclarece tôdas as dúvidas a respeito dos cerrados, permanecendo sem solução vários problemas a êles ligados. Embora em determinadas regiões o fogo tenha exercido influência decisiva no aparecimento de cerrados, quer-nos parecer (com apoio, alias, na abalizadas opiniões de WARMING e WAIBEL, expostas em seus trabalhos já tantas vêzes referidos) que a ação do fogo, em certas áreas, apenas foi de importância secundária, não tendo conseguido introduzir modificações sufucientemente uniformes e de caráter geral a áreas de cerrado que, como Goiás e Mato Grosso, por exemplo, recobrem imensas regiões, que se estendem por muitos milhares de quilômetros quadrados. As teorias pedológicas procuram ressaltar a influência dos solos, atribuindo a êstes a maior responsabilidade no aparecimento dessa formação ‘sui generis’. Da mesma forma que as anteriores, pecam estas por serem unilaterais. Na realidade, se em certos pontos as teorias são contraditórias, em tôdas elas, entretanto, são encarados vários fatos que não podem sofrer contestação. Acreditamos, de certo modo, na coincidência das grandes áreas de cerrado do Planalto Central do Brasil com aquelas em que o clima apresenta duas estações bem marcadas, o que emprestaria a essas formações o caráter de vegetação climax. Não sendo, porém, idênticas em tôdas essas áreas as condições topográficas, essa diferenciação acaba também por refletirse, direta ou indiretamente, através dos solos, na vegetação. No primeiro caso, veremos que os cerrados ocupam a parte mais plana, que forma o tôpo dos planaltos e onde o solo é de contextura e profundidade mais propícias ao desenvolvimento das longas raízes das árvores do cerrado; pelo contrário, nas encostas, a camada de solo sendo menos expêssa e não podendo a água se acumular fàcilmente em virtude da declividade, encontramos de preferência os campos constituídos pelas gramíneas, que, com raízes superficiais, aí podem manter-se. Dessa forma, as condições de solo e relevo acabam por modificar a primitiva influência atribuída ao clima. De acôrdo com diferentes pesquisas, os cerrados acham-se igualmente ligados a tipos de solos mais pobres e mais ácidos em relação aos de mata. Em outros pontos, finalmente, quase sempre nos limites da área principal de ocorrência dos cerrados, a ação continuada do fogo acarreta, com certos tipos de cobertura florestal, alterações irreversíveis que teriam redundado no aparecimento de cerrados.

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