Interlandi 05 - fundamentos histológicos

Interlandi 05 - fundamentos histológicos

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Flávio Fava de Moraes o periodonto, originado do mesênquima que forma O saco dentário, é constituído pelo cimento, ligamento periodontal e pela porção fasciculada (lâmina dura) do osso alveolar.

Cimento: Tecido mineralizado, de natureza conjuntiva, que reveste toda a superfície da dentina radicular.

Composição: Constituído basicamente por uma matriz orgânica e uma mineral. A matriz orgânica é formada por fibras colágenas e mucopolissacarídeos ácidos, representando 25% do cimento. O elemento mineral está sob forma de cristais de hidroxi-apatita e representa 50% da composição, sendo o restante de responsabilidade do conteúdo aquoso.

Estrutura: Embora a matriz orgânica e a parte mineral sejam as mesmas em todo o cimento, é possível identificar estruturalmente 2 tipos de cimento. O primeiro, localizado predominantemente no terço coronário da raiz, é denominado de cimento ace/ular. O se- gundo, de localização do terço apical da raiz, é denominado cimento celular. No terço médio há unia transição do tipo acelular para o celu-

. Cumpre salientar que a primeira camada e cimento depositada sobre a dentina tem características diferentes em relação a estes "-tipos e tem sido denominada de cimento =- rermediário.

Fig. 5.1 - Molar permanente humano preparado por desgaste. Zona cervical da raiz. Observar a dentina canalicular à esquerda, a zona granulosa de Tomes junto ao limite dentina-cimento e a espessa faixa de cimento acelular à direita.

46 ORTODONTIA - BASES PARA A INICIAÇÃO o cimento celular é caracterizado pela presença de lacunas com células ramificadas (cimentócitos) no interior, à semelhança do que ocorre no tecido ósseo.

Além destas características, outras estruturas são passíveis de observação microscópica nos dois tipos de cimento. As denominadas fibras de Sharpey (fibras colágenas do ligamento periodontal inseridas no cimento) são facilmente reconhecidas no sentido perpendicular ao longo eixo do cimento, bem como as chamadas linhas incrementárias que identificam o crescimento aposicional do cimento por camadas.

Outro detalhe interessante sobre a estrutura do cimento é a ausência de vascularização.

Na superfície do cimento sempre são encontradas as células formadoras do tecido, que se denominam cimentoblastos. Em condições normais, embora seja conhecido que há renovação no cimento, é pouco freqüente a observação de células de reabsorção cementária ("cimentoclastos").

Histofisiologia: O cimento está continuamente sendo formado, o que explica seu au-

Fig. 5.2- Molar permanente humano preparado por desgaste. Zona apical da raiz. Notar a dentina canalicular à esquerda, a zona gra ulosa de Tomes junto ao limite dentina-cimento, e parte do cimento celular à direita. Observar as lacunas e respectivos canalículos que abrigam os cimentócitos.

Fig. 5.3 - Molar preparado por descalcificação e corado pelo tricrômico de Mallory. Zona apical da raiz. Observar as fibras de Sharpey inseridas perpendicularmente ao longo do eixo do cimento celular. As células localizadas no ligamento periodontal e na superfície do cimento são os cimentoblastos.

mento de espessura proporcional à idade do indivíduo.

Apresenta permeabilidade, principalmente ao lado do ligamento periodontal, tanto no tipo celular como acelular. É graças a esta permeabilidade que se processa a difusão de substâncias necessárias à manutenção de metabolismo dos cimentócitos do cimento celu- lar. Porém, esta permeabilidade diminui com o avançar da idade.

O metabolismo do cimento é muito alto no terço apical (celular), decaindo no terço médio e tornando-se pequeno no terço coronário. Baseado nestes achados é que se torna compreensível porque as alterações do cimento (por exemplo: reabsorção) são mais freqüentes no terço apical.

O cimento desempenha importantes funções no fenômeno da articulação dento-alveolar. Sua contínua formação no terço apical é responsável pela erupção passiva que o dente apresenta para compensar o desgaste oclusal.

Por outro lado, apresenta plasticidade na inserção de novas fibras de Sharpey que sejam necessárias para a boa funcionalidade do ligamento periodontal durante fenômenos, tais como: erupção, mesialização fisiológica, movimentos ortodônticos etc.

Quando submetido a estímulos anormais, pode haver uma superprodução de cimento (hipercimentose) que, muitas vezes, leva o cimento a um contato direto com o osso alveolar formando uma anquilose. O cimento pode também vir posteriormente a ser um tecido de reparação em áreas de reabsorção no próprio cimento, dentina e outras vezes se constituir no tecido responsável pela consolidação de linhas de fratura radicular.

Ligamento periodontak É constituído por um tecido conjuntivo denso e fibroso, diferenciado da parte média do mesênquima do saco dentário e localizado entre o cimento e o osso alveolar.

Estrutura: Como tecido conjuntivo, apre- senta células, substâncias intercelulares amorfa e fibrosa e líquido tecidual. As fibras colá- genas desempenham papel preponderante na articulação entre o dente e o osso através de vários feixes orientados em diferentes sentidos, possibilitando o reconhecimento mi- croscópico de 6 grupos principais, a saber: I. Grupo gengival: tem apenas uma das extre-

Fig. 5.4 ~ Metabolismo do cimento celular apical. Radioautografia da incorporação de prolina-H, Os pontos pretos representam a intensidade de incorporação do isótopo que é diretamente proporcional ao metabolismo do tecido. Observar a forte marcação na região superficial do cimento, bem como ao longo do - rame apical e no ligamento periodontal.

Fig. 5.5 - Ligamento periodontal. Região da crista alveolar e da região média da articulação dentoveolar, Coloração pelo tricrômico de Mallory.

se no osso alveolar do lado oposto. Muitos admitem que as fibras colágenas inseridas no cimento ou no osso têm sua continuidade interrompida no espaço periodontal, onde outras fibras de menor calibre formam o "plexo intermediário", que seria o responsável pela "ligação" entre as fibras de Sharpey do cimento com as do osso. Admitindo-se sua existência, seria mais fácil interpretar determinados comportamentos histofuncionais do peri- odonto tais como na erupção, movimentos ortodônticos, mesializações fisiológicas etc.

Células: Na intimidade do ligamento periodontal, vários tipos celulares podem ser re- conhecidos. Obviamente, dada a estrutura de natureza fibrosa, são os fibroblastos as células mais numerosas, responsáveis pela síntese do colágeno e das substâncias intercelulares amorfas do ligamento.

Porém, na face do ligamento, voltada para o cimento, encontramos os cimentoblastos e, na volta para o osso alveolar, os osteoblastos e os osteoclastos.

Células epiteliais formando os restos epiteliais de Mallassez (evidenciando provavel-

mente uma degeneração incompleta da bainha de Hertwig durante a formação da raiz) são também freqüentes no ligamento periodontal, notadamente junto à superfície radicular. Em condições normais, apresentam um comportamento "latente" no ligamento, mas sob certas influências podem ser estimuladas advindo intensa proliferação e conseqüente formação de quadros patológicos.

Vascularização e inervação: Os vasos que irrigam o ligamento periodontal provêm de três fontes diferentes. Podem originar-se da mucos a gengival, da superfície lateral do osso alveolar e da região apical. Os vasos que se originam na região apical são, em geral, advindos de ramificações de vasos maiores que também se dirigem para a polpa dentária. Há evidências da presença de anastomose arteriovenosa, bem como na região junto à crista alveolar, de estruturas especiais da circulação arterial denominadas "glomérulos". A vasculariza- ção é maior nos dentes posteriores que nos anteriores, mas sempre próxima à superfície óssea que na radicular. A circulação linfática do ligamento periodontal se processa da lâmina própria da gengiva, em direção à região apical.

midades inseridas no cimento cervical (acelular) e espraia-se na lâmina própria da gengiva marginal, favorecendo o contato da gengiva com a coroa dentária. 1. Grupo transeptal: também denominado dento-dentário, interdentário etc. Parte do cimento acelular de um dente e insere-se no cimento acelular do dente seguinte. É facilmente visualizado nos cortes mésiodistais e, segundo certas opiniões, favorece a manutenção dos pontos de contato entre dentes vizinhos.

I. Grupo da crista: a partir deste grupo, encontramos os feixes de fibras colágenas envolvidas propriamente na articulação do dente ao respectivo alvéolo. São fibras que partem do cimento acelular e vão ter à crista óssea alveolar. Estão relacionadas com os movimentos de lateralidade que o dente apresenta no alvéolo. IV. Grupo horizontal: parte do cimento acelular e, em trajeto horizontal, atinge a superfície óssea do alvéolo. É um grupo não muito desenvolvido na espécie humana e também relacionado a movimentos de báscula. V. Grupo oblíquo: é o mais desenvolvido na espécie humana e tem trajeto oblíquo, do osso para o cimento. Está principalmente relacionado com a função de sustentação do dente no alvéolo, evitando principalmente movimentos de intrusão dentária.

VI. Grupo apical: localizado entre o ápice radicular e o fundo do alvéolo. Além de desempenhar funções relevantes nos movimentos de báscula, funciona também como um verdadeiro amortecedor na região apical, protegendo os feixes vásculo- nervosos que se dirigem à polpa dentária e ao ligamento periodontal.

Basicamente, todas as fibras (grupos I a V) estão desempenhando a importante função de converterem forças de pressão aplicadas aos . dentes, em forças de tensão que estimulam a produção de osso ou cimento, com um equilí- brio no fenômeno de reabsorção e, desta forma, mantendo o periodonto em condições normais.

Plexo intermediário: É muito controvertida a conceituação sobre as fibras do ligamento periodontal quanto à interpretação de uma fibra colágena, inserida no cimento, percorrer todo o trajeto do espaço periodontal e inserir-

~ig. 5.6 - Restos epiteliais de Mallassez. Observar, próximo ao cimento evidente, uma massa epitelial. Area do ligamento periodontal junto à crista alveolar interradicular. Coloração pela hematoxilina-eosina.

A invervação do periodonto é representada por fibras nervosas mielínicas que seguem o mesmo trajeto dos vasos sangüíneos, sendo predominante no terço apical e mais pobre no terço cervical da raiz.

Estas terminações nervosas estão basicamente relacionadas à sensação dolorosa e de pressão, embora sensibilidade térmica e tátil tenha sido descrita em certas espécies. Além das fibras mielínicas, são encontradas ainda fi- bras amielínicas do sistema nervoso autônomo e que estão relacionadas com os vasos sangüíneos para o controle da fisilogia circulatória.

Histofisiologia: O ligamento periodontal a resenta alto metabolismo, notadamente no e se refere à renovação das fibras coláge- , o que ocorre em menor escala com as tentes em outros setores do organismo. o um tecido conjuntivo, o ligamento peontal Cnotadamente na região dento-alvetambém é suscetível de certas alterações

~uo:::::u.u·cas.Neste sentido, têm sido descritas uências de irradiação, horrnônios, fár-

_ e deficiências vitamínicas, protéicas e s nutrientes.

Da mesma forma, como em outros setores orgânicos, a influência da idade é marcante na sua estrutura, ocorrendo aumento do conteúdo fibroso em detrimento do número de células e da concentração da substância intercelular amorfa.

A histofisiologia é também dependente de fatores locais que promovem alterações mais ou menos evidentes. Entre estes fatores estão o excesso de força aplicada ao dente, os movimentos ortódônticos, as lesões pulpa- res, as inflamações gengivais etc. Contudo, em condições normais, é relevante sua função formadora na cementogênese e na osteogênese, bem como a função de nutrir o cimento radicular.

Constituindo-se, portanto, num tecido conjuntivo de alto metabolismo e sensível a alterações locais e sistêmicas, o ligamento periodontal é, dos constituintes do periodonto, o elemento que mais tem sido explorado na atualidade, no sentido de conhecer-se adequadamente sua histofisiologia.

Osso alveolar: É composto por duas partes facilmente distinguíveis ao microscópio

Fig.5.7 - Inervação(fibrasescuras)junto ao ápiceradicular.Métodode impregnaçãopor sais de prata.

óptico, a saber: osso alveolar propriamente dito e osso de sustentação. O primeiro reveste a superfície interna do alvéolo, é originado da parte externa do mesênquima do saco dentário e, portanto, é integrante do periodonto.

Osso alveolar propriamente dito: É um tecido mineralizado, de natureza conjuntiva à semelhança da dentina e do cimento. Também denominado de porção fasciculada, lâmina dura ou lâmina cribiforme, é o que apresenta maior interesse odontológico e será alvo de maiores comentários.

Composição: Formado por uma matriz orgânica e pela parte mineral. A matriz orgânica é constituída por fibras colágenas e mucopolissacarídeos ácidos. A parte mineral é repre- sentada por cristais de hidroxi-apatita.

Esta porção óssea do ligamento tem como característica, quando comparada ao tecido ósseo em geral, a menor quantidade em matriz orgânica e maior deposição mineral. Tal fato é o responsável pela maior radiopacidade em relação ao osso lamelar subjacente. Estrutura: A porção fasciculada do osso al- veolar apresenta, como característica na sua estrutura, um grande número de perfurações por onde transitam nervos, vasos sangüíneos e linfáticos que, oriundos do osso subjacente, atingem o ligamento periodontal. Também peculiar é a riqueza em fibras do ligamento periodontal (fibras de Sharpey) que aí estão inseridas e que apresentam orientação perpendicular às que compõem a matriz orgânica do próprio osso.

Na superfície (junto ao ligamento periodontal) está sempre revestido por células formadoras (osteoblastos)e,em menor número por células reabsorvedoras (osteoclastos), estando sob contínua remodelação de acordo com os estímulos de tensão ou pressão, respectivamente. No seu interior, o número de osteocitos presentes parece ser inferior para uma mesma área, ao existente no osso de outras regiões.

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