O turismo cultural no brasil

O turismo cultural no brasil

(Parte 2 de 6)

A definição ali encontrada de patrimônio histórico e cultural3 e de eventos culturais é a seguinte:

“ Considera-se patrimônio histórico e cultural os bens de natureza material e imaterial que expressam ou revelam a memória e a identidade das populações e comunidades. São bens culturais, de valor histórico, artístico, científico, simbólico, passíveis de atração turística: arquivos, edificações, conjuntos urbanísticos, sítios arqueológicos, ruínas; museus e outros espaços destinados à apresentação ou contemplação de bens materiais e imateriais; manifestações, como música, gastronomia, artes visuais e cênicas, festas e outras. Os eventos culturais englobam as manifestações temporárias, enquadradas ou não na definição de patrimônio. Incluem-se nesta categoria os eventos religiosos, musicais, de dança, de teatro, de cinema, gastronômicos, exposições de arte, de artesanato e outros.”(idem, ibidem).

3 É evidente que essa definição está em consonância com aquela encontrada na Constituição Federal do Brasil: “Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem: I - as formas de expressão; I - os modos de criar, fazer e viver; I - as criações científicas, artísticas e tecnológicas; IV - as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais; V - os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.”

Cabe destacar que a cartilha da segmentação constrói subcategorias, no interior do segmento de turismo cultural. São elas:

x Turismo cívico: “Ocorre em função de deslocamentos motivados pelo conhecimento de monumentos, fatos, observação ou participação em eventos cívicos, que representem a situação presente ou a memória política e histórica de determinados locais”.

x Turismo religioso: “Configura-se pelas atividades turísticas decorrentes da busca espiritual e da prática religiosa em espaços e eventos relacionados às religiões institucionalizadas.” x Turismo místico e esotérico: “Caracterizam-se pelas atividades turísticas decorrentes da busca da espiritualidade e do auto-conhecimento em práticas, crenças e rituais considerados alternativos.” x Turismo étnico: Constitui-se das atividades decorrentes da vivência das experiências autênticas em contatos diretos com os modos de vida e a identidade de grupos étnicos.” (Cartilha da Segmentação, pgs 15 a 17)

Para nossos propósitos, faremos apenas uma grande distinção: entre o turismo cultural dirigido a locais culturalmente significativos (patrimônio histórico/museus) e aquele dirigido a manifestações artísticas vivas locais (enquadradas ou não na definição de patrimônio).

Seção 2. Cultura como fonte de demanda de turismo: diversidade cultural em mundo globalizado.

A relação entre turismo e cultura tem duas dimensões que não podem ser divorciadas, mas que merecem ser examinadas separadamente: a primeira diz respeito à influência que a cultura, em suas diversas acepções, pode ter nos fluxos de turismo. A segunda, e não menos importante, relaciona-se aos impactos que estes fluxos de turismo podem ter na cultura das populações receptoras dos fluxos de turismo.

Esta segunda seção da nota técnica tratará da primeira dessas dimensões – ou seja, das razões do aumento da participação do “turismo cultural” no fluxo total de turismo. Não há dúvidas de que o “turismo cultural” tem crescido de forma sustentada, principalmente a partir da segunda metade da década de oitenta, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. Dados da WTO (2001) apontam para um crescimento deste segmento, no mundo, a uma taxa de por volta de 10% ao ano. Em 2001, a estimativa era de que este segmento representava, em 2001, cerca de um quinto do mercado total de turismo.

As razões para o aumento da demanda deste tipo de turismo são várias, como aponta Waitt (2000). Um argumento que se sobressai4 é o de que isto se deve à necessidade de ir ao encontro de “identidades culturais” específicas que, no imaginário desses potenciais turistas, estariam fadadas ao desaparecimento com a alardeada “globalização”. O “produto cultural” que o turista cultural busca é aquele que se relaciona a essas identidades culturais específicas.

É nesse contexto que se inseriria um aumento do fluxo de viagens dos turistas de países desenvolvidos para países do terceiro mundo ou “em desenvolvimento”. Essa tendência também é apontada em Mowfoth & Munt (1998):

“Essas outras culturas e ambientes são tudo o que as nossas culturas e ambientes não são. Enquanto os nossos estilos de vida são denegridos como

vazios, materialistas, sem sentido, as culturas do terceiro mundo são vistas como ricas em significados, simplicidade e, é claro, autenticidade” (Mowfort &Munt, 1998:59).

No caso brasileiro, pode-se adicionar a esse fluxo aquele intra-nacional, que provém de regiões mais abastadas economicamente - centros industriais, urbanizados e cosmopolitas– para outras, onde o turista cultural pode encontrar em contato com uma cultura preservada da propalada “globalização”.

Do ponto de vista dos ofertantes dos serviços de turismo, vários estudos apontam que vem ocorrendo uma mudança na direção das suas estratégias de mercado. Estas mudanças relacionam-se a uma crise no padrão de turismo vigente entre os sessenta e o início dos anos oitenta – o chamado “turismo de massa”. Vários autores referem-se ao novo padrão de turismo surgido a partir de então como “novo turismo”.

Poon (1993) mostra que várias forças contribuíram para a crise do velho padrão de turismo – no qual não havia espaço para o “turismo cultural”. O velho padrão tinha cinco principais características:

x As férias eram padronizadas, com pacotes rígidos e inflexíveis.

x As férias eram produzidas pela replicação em massa de unidades idênticas, sendo as economias de escala o principal fator de competitividade.

x A clientela alvo dos ofertantes era indiferenciada, tratada como homogênea.

x As férias eram consumidas em massa, sem consideração pelas normas, cultura e meio ambiente das comunidades receptoras.

Os fatores que deram origem ao florescimento deste padrão de turismo – a paz e prosperidade do pós-guerra, a estrutura do welfare state (as férias pagas, em particular), a política de atração de redes hoteleiras multinacionais por parte dos governos dos países/regiões receptores, o avanço das tecnologias de transporte (transporte aéreo, especialmente) – já se esgotaram como fontes propulsoras. Além disso, os efeitos deletérios desse padrão de turismo já se fazem sentir e têm sido amplamente discutidos tanto no ambiente acadêmico quanto nas instituições ligadas ao turismo. Assim, tem havido uma pressão, por parte dos governos, ONGs e membros da sociedade civil das comunidades receptoras para limitar o fluxo deste tipo de turismo.

Mas importa ressaltar outro fator de fundamental importância para o aumento da participação do turismo cultural no fluxo total de turismo. Como se sabe, ocorreu, no início dos anos oitenta, uma mudança de ambiente ligada à dinâmica da indústria: uma mudança de paradigma sócio-tecnológico - de um paradigma “fordista” ou de “produção em massa”, passa-se a um paradigma “pós-fordista” ou de “produção enxuta, ou flexível”. Para Poon (1993), a indústria do turismo tem acompanhado essa modificação do que sejam as “best practices” do mercado.

A base tecnológica para tal mudança de ambiente é a microeletrônica e a tecnologia da informação. Mas, para além desta, ocorre uma profunda mudança organizacional e na própria definição do produto a ser oferecido. Ao invés de produto homogêneo e consumidores indiferenciados, produção voltada para atender os exigentes e diferenciados consumidores. A falta de consideração pelos costumes e ambiente é crescentemente substituída por atração (do ponto de vista dos consumidores) e por exploração (do ponto de vista dos ofertantes dos serviços de turismo) justamente do “particular” e do “autêntico” na definição do produto da indústria do turismo.

É nesse quadro que vem surgindo o “novo turismo”. Poon (1993) assim define as suas características principais:

x As férias são flexíveis e podem ser adquiridas a um preço competitivo com as férias oferecidas pelo antigo padrão.

x A produção dos serviços de turismo não tem mais apenas nas economias de escala suas vantagens competitivas.

x A produção é crescentemente guiada pelas demandas dos consumidores.

x As férias são consumidas por turistas que são viajantes mais experientes, mais educados, mais independentes e mais flexíveis.

x O marketing da indústria de turismo dirige-se a indivíduos com diferentes necessidades, rendas, restrições orçamentárias e interesses. O marketing de massa não é mais o paradigma dominante.

x Os consumidores consideram o ambiente e a cultura de seus locais de destino como partes fundamentais de suas experiências.

Deste modo, é possível dizer que o que definimos na seção 1 desta nota técnica como turismo cultural é uma das manifestações deste novo turismo5 – que atende a um novo consumidor e responde a nova exigências de competitividade.

5 Ao lado, como aponta Mac Donald (2004), do turismo “ecológico”, do “esportivo” e do “de aventura”.

Seção 3. Impactos positivos e negativos dos fluxos de turismo sobre a dimensão cultural: preservação ou deterioração da diversidade cultural, fonte de financiamento ou desvio de recursos em detrimento das comunidades locais, preservação/restauração ou destruição do patrimônio histórico.

Há um consenso sobre os impactos negativos do “turismo de massa” mencionado na seção anterior sobre o meio ambiente e o ambiente cultural. Vários estudos sugerem que estes fluxos de turismo sobre as regiões receptores foram altamente deletérios. O novo turismo – e o “turismo cultural”, em particular – em contraste, teria a virtude de ser não apenas menos nocivo às comunidades receptoras, como lhes trazer vários benefícios.

Leia-se, por exemplo, a seguinte afirmação extraída de recente relatório da UNESCO:

“O turismo cultural tem um impacto social e econômico positivo, estabelecendo e reforçando identidades, ajudando a construir imagens ajudando a preservar a herança cultural e histórica (...) Facilita a compreensão e harmonia entre povos, dá suporte à cultura e renova o próprio turismo”.(UNESCO 2003, apud Mac Donald, 2004:5)

Em outros termos, haveria uma “sinergia positiva” entre o turismo e a cultura, sendo o turismo benéfico para a preservação do patrimônio artístico, histórico e cultural das comunidades receptoras.

Nessa linha, Resinger e Turner (2003) argumentam que o turismo cultural pode reduzir preconceitos, aumentar o grau de tolerância entre diferentes culturas, eliminar estereótipos que são prejudiciais à convivência pacífica entre povos e até ajudar a promover a paz mundial! Argumento semelhante encontra-se no próprio documento da UNESCO (2003) citado acima. Embora este tipo de argumento mereça certas qualificações – como apontam Mac Donald (2004) e Var and Erp (1998) – essa é uma dimensão que deve ser explorada em estudos de caso. Como as comunidades receptoras enxergam o impacto do fluxo de turismo sobre sua própria cultura?

É bem verdade que, possivelmente, os recursos e o público trazidos pelo turismo ajudam a preservar ou mesmo renovar tradições culturais – e até a criar novas. A própria preservação do patrimônio histórico requer recursos que, em grande parte dos casos, devem advir dos aportes oriundos das atividades ligadas ao turismo. No entanto, não se pode desprezar a possibilidade de os fluxos de turismo terem efeitos deletérios tanto sobre patrimônio histórico quanto sobre manifestações de “identidade cultural” que, paradoxalmente, são muitas vezes o próprio foco de atração dos turistas. É nessa linha que vários autores vêm apontando uma tendência de “comodificação” das culturas locais com o aumento do fluxo de turismo cultural.

Assim, encontrar um “fluxo ótimo” de turistas, bem como desenhar formas de regulamentar a atividade de “turismo cultural” é um grande desafio e tem sido objeto de conferências internacionais em diferentes partes do mundo. Uma particularmente rica foi levada a cabo no Cambodja em Dezembro de 2000 sob coordenação da WTO6. Vale a pena trazer um trecho particularmente interessante, pois resume a posição desta instituição sobre os impactos do turismo cultural:

“A cultura e o turismo guardam uma relação simbiótica. Artes de vários tipos, rituais e lendas que correm o perigo de serem esquecidas pelas novas gerações podem ser revitalizadas quando os turistas mostram interesses nelas. Monumentos e relíquias culturais podem ser preservadas utilizando fundos advindos do turismo. De fato, os monumentos e relíquias que foram abandonados sofrem uma decadência em decorrência da falta de visitação. Por outro lado, a cultura tem sido amiúde comercializada e torna-se uma commodity para agradar turistas. Neste processo, é degradada e espoliada. A cultura e o turismo têm que se apoiar mutuamente para tornar essa relação sustentável.”(WTO:2001)

Isso é particularmente importante quando se tem como pano de fundo uma questão fulcral: seria o turismo cultural uma fonte de desenvolvimento

6 Os resultados dessa conferência foram publicados em WORLD TOURISM ORGANIZATION (2001) para países/regiões em desenvolvimento? Esses países recebem fluxos de turistas de países desenvolvidos em busca do “exótico” e do “autêntico”, mas como garantir o respeito à cultura local? E esta reflexão é válida também para fluxos de turistas intra-países, de uma região à outra.

Além disso, quando se considera a questão dos empregos criados pela atividade de turismo, é preciso considerar que se, de um lado, há inegavelmente criação de oportunidades de trabalho pela atividade de turismo, de outro, pode haver a destruição de formas tradicionais de ocupação, com efeitos sociais deletérios. No Brasil, faltam estudos de caso acerca dos impactos do turismo cultural sobre o emprego. Um elucidativo estudo em um país em desenvolvimento foi levado a cabo em Ladakh, Índia, em 1998. Nesse caso, houve a substituição de formas de cultivo tradicionais (principal ocupação antes de o local tornar-se um pólo de atração de turismo) por atividades ligadas aos serviços de turismo. A alimentação, anteriormente provida por cultivos locais, passou a ser importada. O autor7 aponta que houve um efeito social perverso, na medida em que os postos de melhor qualidade são ocupados por pessoas de fora da comunidade, enquanto os locais ocupam posições sem nenhum poder de decisão. Configura-se, assim, um mercado de trabalho marcado por desigualdades crescentes.

Por isso, a idéia de que a qualidade da inserção da qualidade da comunidade local nas novas atividades é um elemento fulcral na definiação do que seja um padrão sustentável de desenvolvimento do turismo cultural ganha força, e se expressa no conceito de “turismo cultural sustentável” bem como nos indicadores de sustentabilidade expostos a seguir, na próxima seção desta nota técnica.

Seção 4. O conceito de turismo cultural sustentável e indicadores de desempenho: Carrying Capacity e Limits of Acceptable Change (LAC).

1) O conceito de “sustentabilidade do turismo cultural” O conceito de sustentabilidade teve origem nas discussões dos ambientalistas, preocupados com o que seria um “padrão de desenvolvimento sustentável”.

Este conceito pode ser aplicado a várias indústrias e o tem sido também a diversas dimensões da indústria do turismo: dimensão ambiental, a social, a financeira e, evidentemente, à cultural. A definição dada pelo WTO é bastante clara:

“O desenvolvimento do turimo sustentável satisfaz as necessidades dos visitantes e das regiões hóspedes no momento atual, enquanto preserva e incrementa as suas possibilidades para o futuro. Assim, a gestão de recursos deve ser feita de tal forma que satisfaça as suas necessidades econômicas, sociais e estéticas, enquanto a integridade cultural, os processos ambientais essenciais, a diversidade biológica e os sistemas de sustentação da população local são preservados”.(citado em WTTC, 1995: 30 apud MacDonald, 2004: 78)

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