SERVIx OS DE HOSPEDAGEM

SERVIx OS DE HOSPEDAGEM

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Pousadas: estabelecimento de hospedagem com aspectos construtivos peculiares, dotados geralmente de instalações mais simples. As pousadas geralmente se localizam fora dos grandes centos urbanos, e servem de apoio ao turismo ecológico de lazer e aventura.

Resorts: Os resorts são hotéis de lazer localizados fora dos grandes centros urbanos, em que geralmente o próprio hotel se torna o destino final do turista. Ou seja, um resort oferece diversos serviços e atrações de forma a manter

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp o turista no hotel a maior parte do tempo, à exceção dos chamados resorts de apoio, localizados próximos a locais exóticos e pouco habitados. Dentre as atrações, normalmente estão esportes aquáticos, golfe, cassinos (em países em que o jogo de azar é permitido), restaurantes diferenciados, festas especiais, shows e afins. Por apresentar este caráter auto-suficiente, o público alvo dos resorts é composto pelos turistas de renda mais elevada, geralmente famílias e grupos específicos, como idosos. No Brasil, prevaleceu o chamado modelo caribenho, voltado ao turismo internacional litorâneo. Este modelo se disseminou por vários países, como o caso do Leste Asiático. Ao longo do trabalho serão apontadas os impactos da expansão dos resorts no período recente.

Feitas estas considerações, podemos verificar que um fator diferenciador dos diversos meios de hospedagem diz respeito à diversificação e qualidade dos serviços oferecidos aos hóspedes. Por um lado há albergues, pensões, pequenos hotéis e pousadas, oferecendo acomodações modestas e pouca variedade de serviços, em que pese existirem pousadas localizadas em destinos exóticos com infra-estrutura comparável apenas àquela encontrada nos melhores hotéis. De outro lado há os resorts e hotéis de luxo, destinados a atender um público de maior poder e aquisitivo e o turista estrangeiro. Os flats, por sua vez, deveriam atender à necessidade de acomodação de caráter mais prolongado, mas acabaram por se tornar concorrentes dos hotéis de categoria intermediária e superior, principalmente no que se refere ao turismo de negócios.

Afora a questão do padrão do empreendimento e de seu serviços, os meios de hospedagem podem ser segmentados de acordo com o perfil de demanda que visam a atender. Apesar dos inúmeros fatores que motivam o turista a viajar, podemos considerar, para fins do setor analisado e sem perda de qualidade analítica, dois motivos principais: demanda por turismo de lazer e demanda por turismo de negócios, eventos e afins. Conforme mostra a tabela 9, estes são os principais motivos das viagens realizadas por turistas estrangeiros

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp que vieram ao Brasil nos últimos anos. Do ponto de vista doméstico, a tabela 10 mostra que a preponderância do turismo de lazer é ainda maior, em que pese a metodologia da pesquisa incluir o motivo “visita a amigos e parentes” nesta categoria, o que por si só infla o resultado dada a importância deste tipo de movimentação turística dentro de nosso país.

Tabela 9 – Motivação da viagem dos turistas internacionais que visitaram o Brasil (%).

Lazer 57,0 5,5 51,2 53,9 Negócios/Congressos/Convenções 27,9 34,9 28,3 26,0 Visitar Familiares/Amigos 10,9 10,6 15,6 17,1 Estudo/Ensino/Pesquisa 1,5 1,1 1,6 1,1 Religião/Peregrinação 0,2 0,1 0,5 0,5 Tratamento de Saúde 1,5 0,1 0,3 0,5

Outros 1,0 2,2 2,5 0,9 Fonte: Ministério do Turismo. Estudo da Demanda Turística Internacional (vários números).

Cumpre destacar que tanto os turistas de lazer como os turistas de negócios tendem a se utilizar mais intensamente de meios de hospedagem em comparação com turistas que vêm ao país para visitar familiares e amigos ou por outros motivos que requeiram uma permanência mais longa. Nesse sentido, dependendo do tipo de turismo principal, os investimentos em meios de hospedagem de determinada região tendem a se concentrar em empreendimentos específicos.

Tabela 10 – Motivação da viagem dos turistas domésticos (%).

MOTIVO DA PRINCIPAL VIAGEM DOMÉSTICA 2001 2006

Lazer 76,1 87,5

Não Lazer (inclui negócios e eventos) 23,9 12,5 Fonte: FIPE/Embratur. Caracterização e dimensionamento do turismo doméstico no Brasil.

Os empreendimentos destinados ao turismo de negócios seguem um padrão de qualidade que permita receber os turistas que se dirigem a determinada localidade com o intuito de participar de eventos diversos, como convenções, congressos, feiras, programas de treinamento, cursos e afins. Em geral, o turismo de negócios envolve clientes corporativos, sendo os turistas de negócios funcionários de grandes empresas transnacionais. Por conseguinte, o

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp poder aquisitivo do turista de negócios tende a ser superior ao dos demais turistas. Além disso, conforme mostra a tabela 1, o gasto médio diário de um turista que vem ao Brasil por este motivo é superior ao gasto efetuado pelos demais turistas,

Tabela 1 – Gasto médio per capita por motivação da viagem dos turistas internacionais que visitaram o Brasil (US$).

ANO MOTIVO DA VIAGEM 2000 2001 2002 2003

Lazer 68,31 7,09 84,36 84,63 Negócios/Congressos/Convenções 267,78 260,5 112,84 106,46 Visitar Familiares/Amigos 53,95 62,41 50,90 61,10

Média Global 84,38 81,21 86,17 87,9 Fonte: Ministério do Turismo. Estudo da Demanda Turística Internacional (vários números).

Em decorrência do perfil do turista de negócios, os empreendimentos voltados ao seu atendimento devem oferecer acomodações superiores e serviços diversificados, além de possuírem mão-de-obra com maior nível de qualificação. Do ponto de vista das instalações físicas, alguns serviços adicionais são necessários, principalmente se o hotel for destinado à recepção dos eventos em si e não apenas dos turistas que participam de eventos realizados em locais distintos. Além da disponibilidade de espaços apropriados à realização de convenções e afins, como salas e anfiteatros, é necessário manter uma estrutura específica, composta de funcionários especializados, equipamentos de apoio diversos, acesso à Internet (inclusive banda larga e wifi), condições de acessibilidade, restaurantes de nível entre outras facilidades.

O turismo de lazer, por seu turno, está associado a regiões com algum fator atrativo que estimule o interesse do turista, dentre os quais belezas naturais, paisagens exóticas, diversidade cultural, e esportes e aventura. O turista de lazer geralmente viaja no período de férias e em família, tendendo a permanecer, em média, mais tempo no destino escolhido em comparação com os turistas de negócios. Adicionalmente, nesta modalidade os turistas que viajam através de pacotes organizados por operadoras tende a ser maior.

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Os hotéis destinados a atender este público geralmente são construídos em local próximo a atração turística em questão, e não raramente se localizam fora dos grandes centros urbanos, envolvendo importantes questões de cunho ambiental. Diferentemente dos hotéis voltados ao público de negócios, nos hotéis de lazer a existência de equipamentos de recreação adicionais e a programação de atividades de lazer de qualidade são fatores diferenciadores. Outro item importante diz respeito a existência de restaurantes especializados na culinária típica de cada região, bem como a possibilidade de acesso a atrações culturais. Por conseguinte, é essencial a manutenção de quadros de funcionários especializados nas referidas atividades, de maneira a propiciar aos hóspedes uma estadia agradável.

Tabela 12 – Composição da demanda por origem dos hóspedes - Brasil.

Categoria de Hotel 1994 1999 2000 2001 2002 Luxo/Primeira Classe 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Brasileiros 61,8 29,0 46,4 52,9 45,3 Estrangeiros 38,2 71,0 53,6 47,1 54,7 Superior 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Brasileiros 72,1 64,2 70,8 70,4 79,6 Estrangeiros 27,9 35,8 29,2 29,6 20,4 Econômica 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Brasileiros 78,3 75,4 76,4 82,9 83,6 Estrangeiros 21,7 24,6 23,6 17,1 16,4 Resorts - - - - 100,0 Brasileiros - - - - 87,4 Estrangeiros - - - - 12,6

Flats - 100,0 100,0 100,0 100,0 Brasileiros - 74,3 76,5 7,2 74,2

Estrangeiros - 25,7 23,5 2,8 25,8 Fonte: Embratur – Hotel Investment Advisors – Dados da hotelaria.

Neste segmento cumpre destacar os resorts, empreendimentos planejados, via de regra, para serem a própria atração, conforme mencionado anteriormente. Em todo o planeta os resorts se tornaram um dos ramos mais importantes na área do turismo de lazer, com destaque para o Caribe e o Sudeste Asiático. O sistema all inclusive5 em que operam a maioria dos resorts e a série de atrações adicionais estimulam o hóspede a permanecer bastante tempo no hotel.

5 No sistema all inclusive o hóspede paga, antecipadamente, a maior parte, ou no limite a totalidade, das despesas que serão efetuadas durante sua estadia.

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No Brasil os resorts apresentaram uma evolução marcante a partir do final dos anos 1990, com a criação do Complexo Turístico da Costa do Sauípe, na Bahia. Adicionalmente, alguns grupos estrangeiros vêm planejando investir neste tipo de empreendimento no Nordeste brasileiro, até recentemente pouco explorado pelas grandes redes internacionais. Porém, conforme analisado adiante, o resultado de alguns empreendimentos de lazer de grande porte não vem correspondendo às expectativas iniciais.

Conforme os dados da tabela 12, os resorts no Brasil são freqüentados, principalmente, por turistas domésticos. Ou seja, apesar de seguir o padrão caribenho, voltado para o turismo litorâneo de estrangeiros de elevada renda, os empreendimentos no Brasil não têm conseguido atrair este público, em decorrência, dentre outros fatores, das dificuldades de acesso e da maior competitividade de destinos concorrentes, como México, Caribe e Sudeste Asiático. A tabela 12 também confirma a preferência dos turistas estrangeiros por hotéis de categoria superior.

2.3) Padrão de investimentos e forma de operação dos empreendimentos: propriedade direta, franquias, contratos para administração

O setor de hospedagem é particularmente intensivo em mão-de-obra, justamente por concentrar em cada empreendimento os serviços pessoais de que uma pessoa em trânsito necessita. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em 2004 o setor de hospedagem empregava 294.083 pessoas. A pesquisa “Meios de Hospedagem: estrutura de consumo e impactos na economia” (Fipe- Embratur, 2006), destaca que este setor, além de intensivo em mão de obra, apresenta custo de geração de emprego, em termos do valor da produção, relativamente baixo, comparando-se, por exemplo, com a construção civil.

A importância dos investimentos em qualificação da mão de obra foi destacada e será explorada detalhadamente adiante. Neste ponto será discutido outro aspecto importante do setor de meios de hospedagem, qual seja, o padrão dos investimentos em capital. Em decorrência da natureza dos

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp empreendimentos hoteleiros, destacadamente os de grande porte, a intensidade de capital é bastante elevada, e conseqüentemente a implementação de um novo projeto requer estudos detalhados sobre a viabilidade econômica a longo prazo, considernado o período de maturação bastante dilatado.

Os investimentos em novos hotéis seguem uma dinâmica semelhante ao investimento imobiliário. Para Rocha Lima Jr. (1994), as rendas do investimento imobiliário dependerão do resultado da operação do imóvel, seja pela simples locação ou pela exploração comercial dos mesmos, como no caso de shoppingcenters e hotéis. Este autor sugere uma tipologia para tais investimentos, que envolve ciclos, a saber: formatação, implantação e operação (que envolve a constituição de um fundo para a reposição de ativos).

No primeiro ciclo são realizados projetos físicos, análises de viabilidade econômica e tratadas questões jurídicas. No segundo ciclo é realizado o investimento na construção do imóvel, com recursos próprios ou de terceiros. No ciclo operacional, o empreendimento mantém-se em operação, recebendo atualizações funcionais para garantir o perfeito atendimento das necessidades do público alvo, de acordo com os resultados almejados.

Rocha Lima Jr (1996) destaca a necessidade de constituição de um fundo para reposição de ativos, com o intuito de manter as características operacionais essenciais do empreendimento imobiliário, independentemente de interferências do empreendedor. Tomando mais precisamente a questão dos hotéis, a necessidade de atrair o turista requer investimentos contínuos na atualização e modernização do empreendimento, com destaque para o acabamento e a decoração. De acordo com o Fórum dos Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), após alguns anos em operação os hotéis – pelo menos aqueles de maior porte - devem passar por grandes reformas, de maneira a atualizar completamente a estrutura do empreendimento, o chamado retrofit. Todos estes investimentos requerem fundos, geralmente constituídos com recursos provenientes de uma parcela do faturamento.

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O caráter cíclico do investimento imobiliário e o prazo de realização relativamente longo, entre a concepção e a operação efetiva dos empreendimentos, passando pelas questões de financiamento, pode conduzir à formação do booms de investimentos no setor e conseqüente crise de excesso de oferta em um segundo momento, seguindo-se um processo de reavaliação de expectativas e, no limite, crise financeira, dependendo do grau de alavancagem e da natureza das operações de financiamento envolvidas6.

Não obstante a importância da discussão mais geral das conseqüências de investimentos imobiliários de natureza especulativa, o detalhamento das questões envolvidas fugiria do escopo deste trabalho. Por conseguinte, as análises concentrar-se-ão nas modalidades de investimentos imobiliários associadas ao setor de meios de hospedagem e seus impactos sobre as condições de oferta neste setor especificamente.

Antes de discutir a questão das modalidades de investimento no setor hoteleiro, adiante, e a evolução recente no Brasil, no próximo item, cumpre destacar um ponto importante relacionado à operação dos meios de hospedagem de maneira geral. De acordo com a Organização Mundial do Turismo (WTO (1997)), a questão da operação dos hotéis é um aspecto crucial do setor em análise, e envolve, geralmente nos grandes empreendimentos, a separação de atores. De um lado estão os proprietários dos imóveis, que geralmente financiam sua construção, e, de outro, as empresas que operam comercialmente os empreendimentos, através de diversas formas de associação.

Dentre as diversas maneiras de operação, de acordo com WTO (1997) destacam-se:

Hotéis de propriedade e operação independente;

Hotéis de propriedade independente e operação realizada por redes de hotéis;

Hotéis de propriedade independente e afiliados a redes de hotéis;

6 Veja-se, por exemplo, a crise econômica em que o Japão mergulhou no início dos anos 1990.

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