SERVIx OS DE HOSPEDAGEM

SERVIx OS DE HOSPEDAGEM

(Parte 7 de 8)

Para os hotéis independentes a tarefa de divulgar a qualidade de seus serviços é mais complexa, dependendo muito de como a informação chegará ao turista através de agências e operadoras. Considerando o turista que dispensa agências, parcela crescente dos turistas estrangeiros, a divulgação é mais complicada, e a utilização de meios eletrônicos ganha importância. Neste quesito muitos hotéis independentes deixam a desejar e perdem em competitividade.

De acordo com Rocha (2003), que pesquisou a funcionalidade de web-sites de 50 hotéis da cidade do Rio de Janeiro, principal destino turístico do país, informações fundamentais de interesse dos turistas não são apresentadas na Internet. Dentre as falhas encontradas, apenas 31,7% dos sites apresenta o preço da diária em moeda estrangeira e apenas 60% apresentam localização. Adicionalmente, houve sites que não apresentavam nenhuma informação sobre a cidade do Rio de Janeiro, sendo que até a data da pesquisa nenhum hotel trazia informações sobre os Jogos Panamericanos de 2007, evento de grande porte a ser realizado na cidade.

No período recente, em decorrência da ampliação da oferta de meios de hospedagem, destacadamente em centros urbanos de médio e grande porte, há

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp ocorrido aumento da competição via preços, fenômeno prejudicial à manutenção da qualidade em empreendimentos tipicamente voltados ao público de renda média, conforme destaca o FOHB. Se as grandes redes não são afetadas pela competição com flats e hotéis econômicos, os hotéis independentes são as maiores vítimas, uma vez que o público de renda mais baixa é mais sensível ao preço das acomodações. Neste sentido a regulamentação adequada da expansão da oferta é fundamental, cabendo ao governo e às entidades setoriais estabelecerem diretrizes para esta expansão e garantirem o cumprimento das resoluções definidas.

2.6) Principais players e estratégias

Argumentou-se que, no Brasil, o desenvolvimento do setor de hospedagem data dos anos 1970, momento em que se consolidam os investimentos em infra-estrutura e a atividade econômica encontrava-se acelerada. Neste período, além da expansão de redes nacionais amparadas por incentivos e financiamentos concedidos pela Embratur e BNDES, ingressaram no país algumas das mais tradicionais redes de hotelaria internacionais. Durante os anos 1980, as sucessivas crises econômicas e a instabilidade decorrente dificultaram a expansão do setor. Com a retomada dos investimentos e o ingresso de redes internacionais no Brasil a partir de meados dos anos 1990, houve um processo de reorganização e diversificação do setor, bem como a criação de novas formas de financiamento de empreendimentos e organização da operação dos hotéis.

Conforme os trabalhos de Saab e Daemon (2001), Gorini e Mendes (2005),

Lima (2002), e informações da ABIH, apesar do grande número de empresas e o relativamente baixo grau de concentração do número de acomodações disponíveis, os principais players do setor são de fato grandes redes hoteleiras, tanto nacionais como estrangeiras, que concentram as operações dos grandes empreendimentos turísticos e dos hotéis destinados aos segmentos de renda mais elevados da sociedade, apesar de existirem dentro destas redes bandeiras voltadas ao turismo econômico.

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp

A tabela 18 nos mostra o numero de acomodações oferecido pelas dez maiores redes hoteleiras em operação no Brasil em 2004, de acordo com Amazonas e Goldner (2004). Verifica-se a forte presença das grandes cadeias internacionais, com destaque para a francesa Accor e a espanhola Sol Meliá, destacando-se também as redes nacionais Bue Tree e Othon.

Tabela 18 – Maiores redes hoteleiras em operação no Brasil, de acordo com o número de acomodações (2004).

Posição Empresa Nacionalidade Apartamentos Empreendimentos 1 Accor França 17.725 122 2 Sol Meliá Espanha 6.353 27 3 Atlântica Brasil* 6.102 43 4 Blue Tree Brasil 5.235 2 5 Othon Brasil 3.141 26 6 InterContinental Inglaterra 3.009 10 7 Nacional Inn Brasil 2.286 18 8 Transamerica Brasil 2.105 17 9 Golden Tulip Holanda 1.963 15

10 Tropical Brasil 1.935 9

* Os hotéis representados pela Atlântica Hotels International, uma empresa brasileira, correspondem a franquias de bandeiras de diversas cadeias, destacadamente as redes americanas Choice e Starwood. Fonte: Amazonas e Goldner (2004).

Dentre as principais redes internacionais, a francesa Accor iniciou suas operações no Brasil nos anos 1970 através do vale-alimentação, introduzindo, posteriormente, seu braço hoteleiro. Atualmente opera com as bandeiras Sofitel (hotéis de categoria luxo), Novotel (superior), Mercure (intermediária), Ibis (econômico) e, mais recentemente, os hotéis Formule 1, super-econômicos e destinados ao turista de negócios em grandes centros urbanos. A marca operava os flats Parthenon, recentemente incorporados à bandeira Mercure. A parcela de hotéis próprios, no início dos anos 2000, chegava a 3% do total de hotéis operados pela rede francesa. Atualmente a maior empresa hoteleira do Brasil, a Accor planeja expandir sua atuação no Nordeste, através da operação de novos hotéis das marcas Ibis e Novotel.

De maneira geral, as redes estrangeiras intensificaram a presença em território nacional a partir dos anos 1990, com destaque para a operação de empreendimentos já existentes – o grupo Sol Meliá iniciou suas operações no

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp

Brasil apenas administrando hotéis -, muitos dos quais hotéis tradicionais administrados por famílias ou então novos empreendimentos erguidos no boom imobiliário vivenciado nas grandes cidades. Conforme Lima (2002), o movimento de aumento da participação de empresas estrangeiras no setor de hospedagem brasileiro apresentou uma tendência à seletividade espacial dos empreendimentos, com destaque para as regiões Sudeste, Nordeste e Sul. Em meados de 2002, o estado de São Paulo concentrava cerca de 50% do empreendimentos das redes estrangeiras no Brasil.

A entrada dos grupos estrangeiros, por um lado, estimulou o processo de reorganização das redes domésticas. Como destaca Lima (2002), programas de reestruturação organizacional, investimentos em modernização e ampliação de instalações, treinamento de mão-de-obra, investimentos em marketing e segmentação de mercado e, principalmente, a incorporação de novas tecnologias, passaram a fazer parte das prioridades das grandes redes nacionais em um contexto de maior competição.

Por outro lado, a ampliação da participação estrangeira causa, também, efeitos negativos sobre o setor de hospedagem. Dentre estes efeitos destaca-se a ampliação desequilibrada da oferta em determinadas regiões e segmentos, principalmente nas faixas médias e nos flats. Outro ponto negativo, citado pelos empresários do setor, diz respeito à falta de condições de empresas nacionais para competir com os grandes grupos multinacionais, no que se refere, por exemplo, à questão do acesso a tecnologia, financiamento e às redes mundiais de reservas e promoção de destinos.

Não obstante as queixas dos representantes dos hotéis independentes, a tendência à internacionalização parece irreversível e tende a se ampliar. O grupo Accor pretende expandir suas ações no Brasil através dos hotéis econômicos e vem estabelecendo convênios com instituições de ensino superior com o intuito de formar ovos profissionais. A inglesa InterContinental anuncia investimento de R$ 160 milhões até 2008, com destaque para hotéis de negócios no interior de São Paulo e a região Nordeste.

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp

A Atlantica Hotels International é outra empresa que anuncia expansão de seus investimentos. A Atlantica é uma empresa sediada no Brasil, nascida da associação com o grupo norte americano Choice Hotels International, atualmente o quinto maior do mundo, e opera no sistema “multimarcas”, privilegiando bandeiras de redes norte americanas de médio conforto e luxo, destacando-se, além das bandeiras do grupo Choice, marcas de outras gigantes, as redes Carlson Hospitality Worldwide e Starwood Hotels & Resorts. Para os próximos anos está prevista a inauguração de 25 novos empreendimentos, com destaque para as marcas próprias Comfort e Go Inn, voltadas para o segmento econômico, um caminho semelhante àquele adotado pelo grupo francês Accor.

Porém, em termos de empreendimentos de grande porte destinados ao turismo de lazer estrangeiro, destacam-se os investimentos já realizados, ou atualmente em fase de planejamento, de grupos ibéricos, com destaque para o grupo espanhol Iberostar. A empresa inaugurou recentemente um resort no estado da Bahia, com investimentos iniciais em torno de US$ 80 milhões. Até 2008 anuncia planos de ampliar este empreendimento e construir novos hotéis na região e na floresta amazônica, com vistas ao turismo ecológico, totalizando um montante aproximado de US$ 250 milhões.

O grupo Iberostar possui uma empresa aérea, a Iberojet, e também uma rede de agências de viagem e operadoras. Desde junho deste ano a empresa opera semanalmente vôos chater ligando a Espanha diretamente à Bahia. Além de facilitar o acesso de turistas estrangeiros, o grupo entrou no mercado oferecendo preços muito competitivos para o segmento de resorts: o Iberostar Bahia opera com preços na faixa de R$ 20,0, enquanto a média dos resorts da Costa do Sauípe cobra pelo menos o dobro deste valor. Conforme a ABIH, o empreendimento da Iberostar tem operado com cerca de 90% de ocupação, ao passo que os hotéis independentes sofrem com o dólar em baixa e amargam taxas de ocupação inferiores a 50%. Seguindo tendência do principal concorrente, o grupo espanhol Riu Hotels Group pretende, em breve, instalar-se na Bahia.

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp

Dentre as redes nacionais, destacam-se os grupos Blue Tree e Othon. A

Blue Tree, maior rede nacional, controlada pela Chieko Aoki Management Company, constitui-se em 1998 após a aquisição dos Hotéis Caesar Park pelo grupo mexicano Posadas. A Funcef, parceira inicial e detentora de 20% das ações da rede, iniciou um processo da saída da sociedade, em virtude do mau desempenho de alguns empreendimentos. O movimento de expansão do grupo ocorreu a partir de 2000, e atualmente os hotéis se concentram nos níveis luxo e superior (bandeiras Blue Tree Park e Blue Tree Towers). Com o intutito de internacionalizar as operações, nos últimos meses o grupo tem negociado a operação de hotéis no Peru e na Costa Rica.

A rede Othon de hotéis, grupo sob controle familiar, opera no segmento hoteleiro no Brasil desde 1943. Atualmente a rede possui bandeiras em diversos segmentos, com destaque para os empreendimentos de médio conforto e luxo. A rede Othon possui hotéis em outros países, com destaque para a América do Sul e Europa.

Em resposta ao avanço das redes estrangeiras, os grandes grupos nacionais reforçaram sua estratégia de expansão, por meio de acordos com incorporadoras e fundos de investimento, com destaque para os segmentos de turismo de renda mais elevada e negócios em cidades de médio e grande porte. Apesar do esforços, porém, nos últimos anos as demonstrações de resultado das duas maiores empresas hoteleiras do Brasil apresentam prejuízo, conforme a tabela 19.

Tabela 19 – Lucro das maiores empresas hoteleiras do Brasil (R$ mil).

Empresa 01/01/2003 a 31/12/2003 01/01/2004 a 31/12/2004 01/01/2005 a 31/12/2005

Blue Tree 759 -806 -991

Othon -42.223 -34.718 -41.071 Fonte: Exame.

3) Tendências e players internacionais

O último quarto do século X foi marcado pela introdução de grandes inovações na área das tecnologias de comunicação e informação. No campo econômico, a implementação crescente de políticas de cunho liberal levou a um

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp processo de maior abertura comercial e financeira, possibilitando às grandes empresas expandirem os espaços de competição por meio do processo de internacionalização das atividades e a constituição de redes integradas mundialmente. Os novos marcos da concorrência conduziram, adicionalmente, a um processo de consolidação de grupos, fenômeno verificado pelo aumento do número de fusões e aquisições no período recente.

As grandes empresas do setor de hotelaria seguiram estas tendências, como destacam LIMA (2002) e WTO (2002). Este período também marca a expansão do turismo mundial, e como forma de manter a competitividade em um contexto de crescente exigência por parte dos consumidores, as grandes cadeias passaram a adotar uma série de medidas: investimentos em tecnologia da informação, consolidação de atividades, melhorias nos recursos humanos, investimento em consolidação de marcas mundiais de acordo com mercadosalvo específicos, internacionalização (com destaque para destinos exóticos ou ainda pouco explorados), novas alternativas de financiamento e operacionalização das atividades, entre outros.

A tabela 20 apresenta as 20 maiores redes hoteleiras em operação em 2005, bem como situa as maiores empresas brasileiras neste ranking. Deve-se destacar a presença marcante das redes americanas. Conforme destaca a Organização Mundial do Turismo (WTO, 2002), o setor de hotelaria passou por um intenso processo de fusões e aquisições no período recente, originando gigantescas redes com atuação global. A maioria destas redes opera com sistemas de contrato de gestão e franquias. Os hotéis próprios, quando existem, não representam mais que um terço dos empreendimentos dos grupos.

Outra tendência verificada no setor é um processo de integração vertical, considerado inesperado pela Organização Mundial do Turismo (WTO, 2002)). A aquisição do sistema de distribuição global (GDS, no inglês) Galileo, pela cadeia hoteleira Cendant Corporation, recém renomeada Wyndham Worldwide, provocou relativo choque no setor. A empresa tornou-se o primeiro fornecedor da indústria de turismo a possuir um GDS além das companhias

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp aéreas. O grupo, que já detém a empresa de locação de veículos Avis e recentemente adquiriu direitos sobre redes hoteleiras em seu país, passou a ter acesso ao setor de aviação, podendo se posicionar de forma a obter maiores ganhos a partir das oportunidades oferecidas pela indústria do turismo como um todo. A empresa atualmente é bastante competitiva em preços: pesquisa realizada em eu site encontrou pacotes para hotéis do grupo na República Dominicana, na América Central, a partir de US$ 350,0 por pessoa, incluindo passagem, saindo de Boston.12

Tabela 20 – Maiores redes hoteleiras em operação em 2005.

Posição Empresa País Hotéis Unidades Habitacionais

1 InterContinental Inglaterra 3.606 537.533

2 Wyndham Worldwide* EUA 6.344 532.284 3 Marriott EUA 2.741 499.165 4 Hilton EUA 2.817 485.356 5 Choice Hotels EUA 5.897 481.131 6 Accor França 4.065 475.433 7 Best Western EUA 4.195 315.875 8 Starwood EUA 845 257.899 9 Carlson EUA 922 147.129 10 Global Hyatt EUA 731 134.296 1 TUI Hotels & Resorts Alemanha 279 82.455 12 Sol Meliá Espanha 328 81.282 13 Extended Stay EUA 672 74.936 14 Interstate Hotels EUA 286 65.293 15 Société du Luvre França 819 5.538 16 Westmont EUA 360 5.0 17 MGM Mirage EUA 2 47.921 18 Golden Tulip Holanda 498 47.661 19 La Quinta EUA 413 46.739 20 Rezidor Bélgica 263 45.0 72 Atlantica Hotels Brasil** 57 10.300 146 Blue Tree Brasil 27 5.464

156 Othon Brasil 46 5.187

* Anteriormente conhecida como Cendant Corporation. ** Conforme destacado, a Atlantica Hotels Itenational opera marcas de redes internacionais. Fonte: Hotel’s Corporate 300 ranking (http://w.hotelsmag.com). Acessado em 23/07/2006.

Em termos de atuação, o mercado norte-americano, em recuperação após os abalos de 2001, é dominado pelas empresas locais e, segundo especialistas, há pouco espaço para ampliações da oferta ou mesmo novos movimentos de fusões e aquisições

12 Pesquisa realizada em w.wyndham.com. Acessado em 15/08/2006.

O Turismo no Brasil: Panorama Geral, Avaliação da Competitividade e Propostas de Políticas Públicas para o Setor – Neit-IE-Unicamp de grande impacto. As redes estrangeiras que procuraram entrar neste mercado o fizeram através da aquisição de marcas já existentes, como o caso da Accor, que adquiriu a bandeira Red Roof Inns. Na Europa, o mercado tem se mantido mais estável e apresentado taxas de crescimento constantes. Apesar do peso dos hotéis independentes no continente, o movimento de consolidação verificado nos últimos anos tem se espalhado e a tendência é o aumento da participação das grandes redes no total da oferta de meios de hospedagem.

(Parte 7 de 8)

Comentários