(Parte 2 de 3)

Que vem da Bahia Panela de doce Pra Dona Maria!

Meio-dia Panela no fogo Barriga vazia Macaco torrado

No dia seguinte, Beto contou que em todas as regiões do Brasil existem festas tradicionais, muito antigas, que acontecem nas ruas, sempre na mesma época do ano. Uma delas é o Bumba- Meu-Boi. Essa festa é um tipo de teatro. As pessoas dançam e cantam fantasiadas, contando a história do Boi.

— E que história é essa? — quiseram saber as crianças.

Beto contou:

— É assim: tem um fazendeiro muito rico, que é dono de um boi todo bonitão, que sabe até dançar…

— Parece a mula do meu sonho, só que ela era feia… — disse Flavinha.

Ninguém entendeu, e Beto continuou:

— Catirina, a mulher de Pai Chico, que é trabalhador da fazenda, está esperando nenê e sente desejo de comer a língua do boi…

— Eca! — interrompeu Pingo.

— Deixa de ser bobo, Pingo — disse Renata. — Língua de boi se come!

— Então — continuou Beto — Pai Chico rouba o boi. Aí, o fazendeiro manda os vaqueiros e os índios saírem para procurar e, quando encontram o boi, ele está doente. O Pajé é chamado, porque é meio feiticeiro, meio curandeiro e, depois de muitas tentativas, o boi fica curado. Quando o fazendeiro fica sabendo o motivo do roubo, perdoa Pai Chico e Catirina, e a representação termina com muita alegria!

— Mas é um boi de verdade? — quis saber Diego.

— Não — respondeu Beto — o boi dessas apresentações é feito de uma armação de madeira, coberta por um pano bordado ou pintado. Nessa armação, é presa uma saia, para esconder a pessoa que fica dentro. Os personagens usam roupas muito coloridas.

— Deve ser uma beleza! — Renata exclamou.

Todos disseram que devia ser, mesmo.

— Por falar em festa, eu adoro as Festas Juninas! — exclamou Aninha.

— A quadrilha, o casamento na roça, a fogueira, as brincadeiras…

— Os doces! — lembrou Pingo. — Paçoca, canjica, pé-de-moleque… E também os balões!

— Balão pode ser bonito, mas pode causar acidentes muito tristes, incendiando casas e florestas — lembrou Renata.

Todos concordaram que é melhor não soltar balões.

O livro do Diego contava que as Festas Juninas homenageiam os três santos comemorados em junho: Santo Antônio, São João e São Pedro e explicava a origem da fogueira.

“Numa noite bonita, de céu estrelado, São João nasceu. Sua mãe, que era Santa Isabel, mandou erguer um mastro na porta da casa e acendeu uma fogueira, que iluminava o mastro. Era o aviso combinado, entre ela e a Virgem Maria, para o dia em que o menino nascesse”.

Na tarde seguinte, quando Beto e Flavinha chegaram ao Lar das Crianças, parecia que todo mundo estava engasgado com alguma coisa…

— Que é isso? — estranhou Beto. — É alguma epidemia?

Pingo parou de tentar dizer depressa: “Um prato de trigo para três tigres tristes” e respondeu:

— É a epidemia dos trava-línguas!

Beto entendeu. Ele já tinha aprendido que trava-línguas são aquelas frases inventadas de tal jeito que, se a gente falar depressa, acaba falando tudo errado! Flavinha tratou de tentar aprender alguns:

A pipa pinga, o pinto pia; o pinto pia, a pipa pinga.

No jarro tem uma aranha e uma rã. A rã arranha a aranha, A aranha arranha a rã.

Iara amarra a arara rara; a rara arara de Araraquara.

Olha o sapo dentro do saco, o saco com o sapo dentro, o sapo batendo papo e o papo soltando vento.

A espingarda destravíncula-pinculá Quem destravincular ela Bom destravíncula-pinculador será.

Porco crespo, toco preto; toco preto, porco crespo. Um tigre, dois tigres, três tigres.

A falação parou quando a criançada sentiu o cheirinho que vinha da cozinha. Tia Nieta, que era mineira, com certeza tinha preparado uma de suas delícias! Logo, ela apareceu com uma bandeja cheirosa e anunciou:

— Olha o pão-de-queijo quentinho!

As crianças avançaram. Até a diretora do Lar das Crianças, Tia Valéria, apareceu para pegar um e disse:

— Vocês sabiam que comida também é folclore? Algumas receitas são típicas de uma determinada região do Brasil, como o vatapá, na Bahia, o feijão tropeiro, em Minas Gerais e o churrasco, no Rio Grande do Sul.

Tia Nieta lembrou:

— Essas receitas são passadas de mãe para filha durante anos. Às vezes, não estão em livro algum, são transmitidas boca a boca…

— Uma amiga da minha mãe contava que a feijoada surgiu no tempo dos escravos, nas senzalas — disse Tia Valéria. — Os senhores ficavam com a parte melhor do porco e deixavam a orelha, o pé e o rabo para os escravos, que acabaram inventando esse prato tão gostoso!

Renata, que adorava feijoada, ficou com água na boca.

Dois dias depois, quando Beto e Flavinha chegaram, escutaram Tia Nieta cantando uma cantiga de roda:

“Vamos maninha, vamos À praia passear Vamos ver a lancha nova Que do céu caiu no mar…” Beto brincou: — Está contente, Tia Nieta?

— “Quem canta seus males espanta!” — respondeu a cozinheira.

Aninha, que ia passando, ouviu e correu para anotar a frase em seu caderno de provérbios. Ela adorava colecionar esses ditos populares. Depois, trouxe o caderno para mostrar aos amigos.

Cada um resolveu escolher o provérbio que achava mais bacana. Beto ficou com: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. Pingo escolheu: “A mentira tem pernas curtas”. Diego preferiu: “De grão em grão a galinha enche o papo”. Renata, que fala pouco, gostou de: “Em boca fechada não entra mosca”. Aninha fez sua escolha: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco”. Flavinha ficou em dúvida entre: “Quando um não quer, dois não brigam” e “Quem conta um conto aumenta um ponto”.

Depois do lanche, Tia Valéria reuniu as crianças para contar uma história.

— O folclore dos nossos índios tem histórias muito poéticas — disse ela. Vou contar a vocês a lenda da vitória-régia, que explica como surgiu essa planta maravilhosa que existe nos rios da Amazônia.

“Naiá era uma índia jovem, filha do chefe da tribo. Ela acreditava que a Lua era um belo guerreiro chamado Jaci, e queria se casar com ele. O Pajé havia contado a Naiá que quando a Lua gostava de uma jovem, a transformava em estrela do céu. Desde então, nas noites de luar, enquanto os outros dormiam, Naiá subia nas colinas, tentando chegar perto da Lua, para que ela a visse e a transformasse em estrela.

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