(Parte 3 de 3)

Durante muitas noites a índia ficou acordada, chamando a Lua, mas nada conseguiu.

Numa dessas vezes, Naiá viu a Lua refletida nas águas de um rio. A pobre moça, imaginando que a Lua tinha vindo buscá-la, atirou-se nas águas profundas do rio e nunca mais foi vista.

A Lua quis recompensar o sacrifício da jovem e transformou-a, então, na vitória-régia, uma planta cujas flores perfumadas e brancas só se abrem à noite e, quando nasce o Sol, ficam rosadas”.

Aninha suspirou: — Que história mais linda!

A cada dia que passava, a criançada queria saber mais coisas do folclore. Certa tarde, Beto propôs:

— Vamos brincar de adivinha?

Todos concordaram e cada um foi dizendo aquelas que conhecia. Diego foi o primeiro:

“O que é, o que é? Nasci na água Na água me criei Se na água me botarem Na água morrerei!”

As crianças acharam difícil. Beto pensou por alguns minutos e logo fez cara de sabido:

— É o sal! — gritou — Fácil, fácil!

Era isso mesmo. Todos ficaram admirados com a esperteza do menino.

Estavam tão entretidos que nem perceberam a presença de um senhor usando chapéu de vaqueiro. Ele estava visitando o Lar e tinha parado para observar de longe a brincadeira.

Aninha, na sua vez, perguntou: — O que é, o que é, que anda com os pés na cabeça?

— Essa é mais fácil ainda! — disse Beto. Piolho! Os pés são dele e a cabeça é nossa…

— Nossa? — exclamou Flavinha — só se for a sua… Pingo falou a dele:

— O que é, o que é? Anda deitado e dorme em pé?

De novo, Beto não deu chance pra ninguém: — Eu sei! É o pé! Ra-rá, quero ver quem ganha de mim!

— Ah, assim não tem graça! — reclamou Diego — A gente não tem tempo nem de pensar! Prefiro brincar de outra coisa.

Beto era mesmo bom em adivinhações, mas viu que tinha exagerado, não dando chance aos outros. Pediu desculpas e concordou em se divertir com os brinquedos folclóricos que a Tia Nieta tinha trazido: pião, corda de pular, bolinhas de gude, peteca.

Nisso, Tia Valéria veio chamar o Beto: — Você pode vir um minutinho à minha sala?

Tia Valéria pediu que Beto se sentasse, e falou:

— Beto, não sei se você viu um senhor que esteve aqui, agora há pouco…

— Não prestei muita atenção… — confessou Beto.

— Ele se chama seu Jorge. É um homem muito bom, mas tem algumas esquisitices. Ele veio aqui se oferecer para doar um terreno para o Lar…

Beto ficou contente:

— Que bom! Papai disse mesmo que vocês estavam precisando de mais espaço!…

— Pois é — continuou Tia Valéria. Só que ele impôs uma condição. O homem é fanático por adivinhações e, depois que viu vocês brincando, disse que só doará o terreno se você conseguir responder três adivinhas…

Beto ficou meio tonto: — Eu???

— Ele disse que hoje tinha visto um menino que adivinhava todas. Era você! Achei loucura, mas acabei concordando, porque vi que não ia ter outro jeito…

Beto aceitou o desafio, mas ficou bastante arrependido de ter sido tão “aparecido”. Agora, o Lar das Crianças dependia dele para conseguir o terreno!

No dia marcado, Beto estava lá. Todas as crianças do Lar e muitos adultos colaboradores tinham vindo assistir e torcer por ele.

Seu Jorge chegou, com seu chapéu, sentou-se, e falou a primeira adivinha: — O que é, o que é? Enquanto come, vive, mas se bebe água, morre. Que sorte! Essa Beto sabia! Ele respondeu depressa:

— O fogo! Seu Jorge ficou desapontado e, sem esperar, apresentou logo a segunda: — O que é, o que é? É muito bonita, mas não tem cor, é saborosa, mas não tem sabor.

Beto ficou nervoso. Todos ficaram em silêncio, esperando sua resposta. Ele fechou os olhos… pensou… e sorriu:

— A água! Tinha acertado de novo! Seu Jorge ficou mais desapontado ainda! Faltava uma. Ele perguntou, bem depressa: — Qual é a parte do corpo humano que, tirando uma letra, fica vazia?

Beto ficou pálido. Não tinha a menor idéia da resposta! O silêncio das pessoas foi tão grande, que se podia ouvir o zumbido de uma mosca.

Beto pensou: “E agora? Não vou conseguir! Por que fui inventar essa brincadeira de adivinhação?” E, aborrecido, falou baixinho:

— Eu e minha grande BOCA!

Sem perceber, Beto tinha falado a última palavra — “boca” — mais alto, e todo o mundo ouviu.

Seu Jorge ficou em pé e jogou o chapéu no chão.

A resposta era “boca”, que sem o “b”, fica “oca”! Beto, sem querer, tinha acertado! Todos correram para abraçar o menino, que ficou tentando entender o que tinha acontecido…

De repente, ele disparou a correr atrás de seu Jorge. E todos foram atrás dele! Seu Jorge não entendeu toda aquela correria, e entendeu muito menos quando Beto, quase sem fôlego, parou na sua frente:

— Seu Jorge, eu não acertei de verdade! Falei sem querer!

As crianças e os adultos também pararam, e a alegria morreu quando ouviram o que Beto tinha dito. Mas seu Jorge sorriu e falou:

— Acertou sim, Beto. Se não foi antes, foi agora, vindo contar a verdade! Você é motivo de orgulho para o Lar das Crianças, e fico muito feliz de doar o terreno. Isso vale muito mais que essa bobagem de adivinhação!

Naquele momento, a gritaria foi geral. Todo mundo pulou, riu, se abraçou, dançou. Foi tanta alegria, que adultos e crianças passaram a tarde brincando de pique, de pipa, de ovo choco, de roda, de amarelinha…

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