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a internet

projeções do pew internet project
série de colunas publicadas no

cenários, tendências e previsões sobre a internet no futuro próximo, a partir de TERRA MAGAZINE em janeiro de 2009.

silvio meira

nas próximas páginas, você vai encontrar um conjunto de textos curtos comentando e estendendo as previsões do PEW INTERNET PROJECT [PIP] para a internet em 2020 e situando, em alguns casos, os achados do PIP no contexto brasileiro. fazer previsões não é tarefa fácil ou pouco arriscada. segundo niels bohr, Prediction is very difficult, especially if it's about the future.

as previsões de que o PIP fala são mais razoáveis do que os simples chutes que vemos, quase sempre, aqui e ali. trata-se de um conjunto de cenários, construídos com algum cuidado, apresentados para mais de mil especialistas, que votaram na possibilidade de um cenário qualquer ocorrer da maneira apresentada pela pesquisa, ao mesmo tempo em que expressaram, muitos deles, suas opiniões sobre a viabilidade do que estava sendo proposto como futuro possível e as alternativas que cada um imaginava no caso.

seria muito interessante ver um estudo destes feito e apresentado publicamente no brasil, usando gente daqui e de fora para explicar onde estamos e para onde vamos, partindo de, por exemplo, os dados da brasscom sobre penetração de internet e inclusão digital no país. a construção de políticas, especialmente as de longo prazo para infraestruturas fundamentais como a internet, é coisa séria demais para ser deixada a cargo apenas do governo de plantão. quanto mais gente, de toda parte da sociedade, se envolver em exercícios de imaginação, previsão, proposição e posterior observação, acompanhamento e auditoria das coisas públicas, mais perto elas se tornarão do que queremos ou gostaríamos que fossem.

linkhttp://smeira.blog.terra.com.br/tag/2020.

esta série foi publicada no blog dia a dia, bit a bit, no terra magazine, entre 07 e 2 de janeiro de 2009. o copyright deste material pertence ao TERRA e, como descrito no rodapé da página do blog, “é proibida sua reprodução total ou parcial”. o autor, ao publicar os textos em conjunto, o faz no intuito de tornar o material mais fácil de ser obtido e utilizado para fins nãolucrativos, ao mesmo tempo em que soliticita que eventuais citações sejam direcionadas ao na última página deste texto pode ser encontrada uma biografia muito resumida do autor e seus contatos. boa leitura.

silvio m.

internet em 2020, [1]: mobilidade

Tags: 2020, celular, futuro, internet, mobilidade, rede, tendências - 07.01.2009 relatório do pew internet project [PIP] sobre o futuro da rede, publicado neste fim de ano, chegou a seis conclusões básicas, depois de consultar muitas centenas de especialistas, desde gente que estava nos times que desenharam a internet até a galera que faz a rede funcionar [e ganha dinheiro com ela] hoje. nós vamos comentar os achados do PIP nos próximos textos, tentando imaginar o cenário equivalente no brasil.

pra começar, o PIP acha que… The mobile device will be the primary connection tool to the internet for most people in the world in 2020… ou que dispositivos móveis serão a principal ferramenta de conexão à internet, para a maioria das pessoas, em 2020.

não há como não concordar. quem já está na rede, num celular, sabe o que é, num ponto qualquer da cidade, estar num chat [no nimbuzz, por exemplo], num taxi ou no busão, combinando o ponto com a turma e vendo as alternativas direto no google maps de um telemóvel com GPS. não tem preço.

mas é mais que isso: celular é informática com cada um de nós, computação e computação comigo e com você. até haver algum tipo de implante que conecte o cérebro diretamente à rede, celulares serão a segunda melhor alternativa para estarmos conectados às pessoas, sistemas, instituições e coisas.

celulares com tela de alta definição, interface direta de toque múltiplo, interfaces abertas pra conectar com quase qualquer coisa, mais captura de áudio e vídeo em alta definição, aliados a uma capacidade de processamento, memória e conexão muito maior do que hoje serão padrão de mercado. os celulares de amanhã terão mais capacidade que os netbooks de hoje e deverão ser a nova forma de interagir com o ambiente e pessoas ao redor, de forma mediada pela internet. tudo isso fará com que uma destas maquininhas esteja nas mãos de quase qualquer um daqui a dez anos, mesmo aqui no brasil.

beleza, diriam vocês, mas no brasil? já estamos perto de 150 milhões de celulares, bem mais do que computadores pessoais e bem melhor distribuídos na população, algo que é sempre um grande problema no país. até aí, tudo bem… o problema é botar tudo isso na rede até 2020. por outro lado, temos mais doze anos até lá.

o grande problema a resolver será conectividade, ou como fazer com que uma população quase só de pré-pagos [algo entre 80 a 90% do mercado agora e em 2020] esteja na rede. de forma continuada e não esporádica: estar na rede significa que [por exemplo] seu cliente de mensagem [IM, gtalk, fring...] está quase sempre no ar, criando, para você e sua rede de contatos, um verdadeiro efeito "rede".

talvez se deva excluir, de cara, alguma eventual política pública que poderia interferir nisso, pois tal não tem sido nossa tradição. por outro lado, não se vai comprar dados por volume, que ninguém é maluco o suficiente. nem mesmo em lugares com renda maior e mais distribuida do que por aqui. nos estados unidos e na inglaterra, descobriu-se que 42 [eua] a 56% [uk] da presença do iPhone, na rede, se dá através de wiFi. não chega a ser nenhuma surpresa… mesmo nestes países, a cobertura 3G não é lá estas coisas e os planos de dados, apesar de bem menos predatórios do que no brasil, tendem a esvaziar a carteira de qualquer um muito rapidamente. ainda mais em tempos de pouco dinheiro livre, como este.

resumo? os celulares vão estar aí [o PIP está certo]; mas a maior parte da população de usuários em potencial não estará na rede com eles [hoje, para o brasil, o PIP está errado...], a menos que aconteça alguma coisa muito parecida com política pública. ou, se tivermos sorte e formos solidários, talvez wiFi grátis comece a ser oferecido -em muito larga escala- em bares, restaurantes, supermercados, postos de gasolina, escolas, universidades, shoppings, academias, hospitais, igrejas e em espaços públicos de todos os tipos, como já é o caso em algumas poucas cidades.

conectividade, agora e no futuro, é tão essencial quanto água, luz, esgoto, educação, saúde e segurança. e ainda faltam doze anos até 2020: não é possível que não se consiga acertar o passo, aqui, até lá… internet em 2020, [2]: transparência e privacidade

Tags: 2020, futuro, internet, privacidade, tendências, tolerância, transparência - 09.01.2009 relatório do pew internet project [PIP] sobre o futuro da rede, publicado neste fim de ano, chegou a seis conclusões básicas, depois de consultar muitas centenas de especialistas, desde gente que desenhou a internet até a galera que faz a rede funcionar hoje. este blog está comentando os achados do projeto e tentando imaginar o cenário equivalente no brasil. o primeiro da nossa série foi sobre MOBILIDADE e você pode encontrá-lo neste link.

hoje, vamos falar sobre transparência e privacidade. para 2020, o PIP prevê queThe

transparency of people and organizations will increase, but that will not necessarily yield more personal integrity, social tolerance, or forgiveness… a transparência de pessoas e organizações vai aumentar, mas que isso não necessariamente vai produzir mais integridade, tolerância e capacidade de esquecer e perdoar.

a razão fundamental para tal conclusão parece ser muito simples: tecnologia, ou novas formas de conectar pessoas e instituições através dela, não muda as pessoas [e instituições] em prazos curtos [como 12 anos]. o tempo da mudança social é muito mais longo. falando de tolerância, dá pra imaginar, pela mera existência da rede e suas tecnologias, israelenses e palestinos conversando e resolvendo o maior e milenar conflito do oriente médio em uma década? acho que não. uma disputa medida em mortes, invasões, foguetes, guerras, que os lados imaginam escrito nas tábuas das leis de cada parte, talvez não possa ser reescrito simplesmente porque uma nova tecnologia de conectar pessoas está por perto.

mas tolerância não é a única preocupação de quem está na rede. a internet é uma fantástica máquina de publicar, conectar e interagir. pouca gente, especialmente entre os mais jovens, imagina as consequências de botar sua vida inteira numa página, hoje. dia destes achei um emeio que enviei para uma lista em 1983, armazenado e indexado em um site qualquer. nada de que eu me arrependesse, então não me faz a menor diferença. mas quantos, entre os 13 e os 19 anos [ou mais], estão escrevendo e publicando coisas, hoje, das quais não se orgulharão muito em uns poucos anos? isso sem falar na informação que, mesmo eu e você não querendo, acaba à disposição dos sistemas de informação pelos quais passamos no dia a dia.

viktor mayer-schönberger [sobre quem eu escrevi neste link, em 2007]… "defende a tese de que os sistemas de informação devem, necessariamente, esquecer. acontece que as tecnologias para captura, publicação, armazenamento, replicação, busca e disseminação de informação, combinadas na rede nos últimos anos, criaram uma nova capacidade: a incapacidade de esquecer. nunca, em nenhuma época, ninguém teve tanta informação sobre tantas pessoas e seus hábitos como certas empresas estão começando a ter, na rede".

segundo mayer-schönberger, temos que começar a implementar uma ecologia de informação, onde o sistema legal deveria obrigar quem coleta dados a criar software que esquece com o passar do tempo.ou seja, a menos que determinemos o contrário, uma vez expirado o prazo de validade, por nós definido, dos dados que confiamos à loja, máquina de busca ou site de notícias, nosso rastro por lá deveria ser evaporado. mas este não é o caso hoje: em dezembro passado, google saiu da lista das 20 companhias mais confiáveis no tratamento da privacidade de seus usuários. google -se conseguir identificar você- guarda tudo o que você faz nos sites da empresa por nove meses… e pode entregar tudo à justiça, se for requisitado, ou usar os dados para qualquer tipo de transação que ache "razoável", como melhorar a resposta a uma pergunta que você faz, oferecer anúncios, o que for.

pouquíssima gente, na rede, sabe navegar de forma anônima. se você quiser tentar, veja como neste link. não lhe fará mal e pode lhe levar a descobrir coisas, na rede, que você não consegue saber hoje, exatamente porque muitos sites sabem muita coisa sobre você. muitos sabem, olhando para seu endereço IP, onde é que você está agora e respondem a sua pergunta [ou oferecem serviços] praquele lugar. e você, naquela hora, pode não estar interessado nisso…

mas há mais. um dos argumentos mais falaciosos, usado por muita gente, segue a linha do… "não tenho nada a esconder", para acusar quem defende a privacidade, na rede, de estar fazendo alguma coisa imoral ou ilegal. não tem nada a esconder? então porque não deixa o vizinho tirar fotos suas tomando banho ou na cama, com a mulher, numa daquelas noites quentes, e publicar na internet? imagine o milhar de outras situações que não queremos ver disseminadas, na rede ou em qualquer outro meio. de repente, temos tudo a esconder. simples assim.

todo mundo tem muito a esconder. a privacidade é um dos princípios essenciais da vida e um dos direitos humanos fundamentais. daniel solove, da george washington university law school, escreveu um paper precioso sobre o assunto ['I've Got Nothing to Hide' and Other Misunderstandings of Privacy], onde o argumento "nada a esconder" é desmontado passo a passo. o artigo está em primeiro lugar na lista de downloads da SSRN [rede de pesquisa em ciências sociais] há um ano. vale a pena ler. para quem quiser ir mais fundo, o mesmo autor liberou na rede todo o texto de seu livro The Future of Reputation: gossip, rumor and privacy on the internet. o capítulo dois [How the Free Flow of Information Liberates and Constrains Us] é uma excelente leitura em nosso contexto.

finalmente, transparência. é certo que a rede vem aumentando a transparência de pessoas, instituições e, principalmente, governos em países democráticos. transparência é a base para a boa governança; sem saber o que realmente está acontecendo nos intestinos de uma organização, como garantir que ela está cumprindo sua missão dentro dos preceitos morais, éticos e legais de uma sociedade? a falta de transparência é um dos principais insumos para a corrupção, e corrupção não se dá apenas nos meios governamentais. as empresas que têm baixos níveis de transparência e governança costumam sofrer do problema com intensidade muito grande. no seu índice de pagadores de propina de 2008, a organização transparência internacional analisou 2 países quanto à participação de suas empresas privadas em atos de corrupção no comércio internacional. os piores da lista não são nenhuma surpresa: em 17o. lugar, estão brasil e itália, empatados; depois, aparecem índia, méxico, china e rússia. os 2 países da pesquisa correspondem a 3/4 do total de exportações e investimentos do planeta em 2009.

e isso com a estando aí, e nela coisas como o portal da transparência da controladoria geral da união, que permite a qualquer um saber, em bom detalhe, para onde está indo o dinheiro público. vá lá e procure o que está sendo enviado pra sua cidade. é um bom começo; mas é preciso fazer muito mais. além de maior e melhor estruturação dos processos de contratação e acompanhamento dos gastos públicos, é preciso trazer a comunidade -as redes sociais de cada lugar- pra dentro da decisão de gastar o dinheiro e, em tempo real, para o acompanhamento do gasto.

conversei dia destes com um analista de tribunal de contas que tem certeza de que, na maior parte das cidades, gente do povo sabe exatamente quem está roubando os recursos públicos, como, pra que e com quem. quando o tribunal chega, normalmente anos depois, inês é morta. segundo o mesmo analista, trazer as redes sociais naturais do lugar para a internet, para acompanhar a execução dos recursos públicos, faria com que as controladorias e tribunais agissem de forma muito mais célere e precisa, e antes do dinheiro desaparecer.

enfim, se um tipo de agente, na sociedade, não parece ter direito ao anonimato e privacidade na internet, é aquele que decide, executa e controla bens públicos, e isso enquanto servidor público. sua vida privada é -e deve continuar sendo- privada, desde que não se misture à sua responsabilidade pública. como nosso representante no governo, pago pelos nossos impostos, queremos saber de tudo o que faz, com quem faz, pra que faz… e a internet, para tal, pode ser um agente libertador, se soubermos usá-la para tal.

internet em 2020, [3]: as interfaces

Tags:2020, experiência de usuário, futuro, interfaces, internet, tendências, UX - 12.01.2009 relatório do pew internet project [PIP] sobre o futuro da rede, publicado neste fim de ano, chegou a seis conclusões, depois de consultar mais de mil especialistas, teóricos e práticos das tecnologias e vida na rede. este blog está comentando os achados do projeto e tentando imaginar o cenário equivalente no brasil. o primeiro da nossa série foi sobre MOBILIDADE e o segundo sobre PRIVACIDADE e TRANSPARÊNCIA.

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